Diário Caipira-138

Duas coisas nada a ver: a Finlândia vai fechar as fronteiras pada a Suécia de novo porque o número de casos de Covid confirmados do lado de cá começou a subir – onda, onda; olha a onda!!

Ganhei uma cerveja artesanal feita a partir de uma receita de cerveja do século 18! Estou curiosa.

Diário Caipira-137

Hoje eu tinha curso outra vez e, como era no turno da tarde, resolvi ir para casa e participar da formação online. Já bastou ficar sentada quase que de conchinha com outros funcionários da cidade de Gotemburgo na segunda.

Chequei os emails, veriifiquei o horário do curso, avisei os colegas do plano e parti. Quando chego na metade do caminho… “Västtrafik informa: devido a um problema técnico algum linhas tiveram horários cancelados.” E a minha linha de busão era uma delas.

Entro no teams pelo smartphone pra me conectar com a sala do curso mas cadê o bendito do link. Faltavam 20 minutos para o curso começar, eu estava a 20 minutos de casa e o ônibus só viria em 10 minutos. Eu estava muito atrasada.

Mando um e-mail para a palestrante perguntando aonde está o link do curso. Ela não responde. Eu chego em casa suada, morta por correr morro acima e jogo as coisas em cima da mesa pra acessar e-mail e o teams do notebook. Nada. Não tem link.

As 15.00 recebo uma resposta: infelizmente esse curso era apenas presencial.

O curso: como usar One Note para facilitar o trabalho durante a pandemia.

Diário Caipira-136

Temos uma rotina estruturada pra colocar as crianças na cama. Assim que quando chega a hora de dormir eles sempre estão tranquilos, a gente lê uma história e dá a eles um beijinho de boa noite. Apaga a luz e antes que saia do quarto já ouve o som da respiração cadenciada de anjinhos adormecidos.

Mas esse história aconteceu com a prima de segundo grau do namorado da neta de uma pessoa que eu conheço:

“As crianças estavam fazendo a maior bagunça na hora de dormir. Falando sem parar, um tentando contar uma história e o outro também. De repente um começa a cantar Macarena:

– Baila que baila alegria Macarena, êêê Macarena! Ai!

E o Benji outro menino já entra no coro. A mãe já não sabe o que inventar e antes de pensar diz:

– vaca amarela cagou na panela e quem falar primeiro vai comer a bosta dela!

Silêncio. Três segundos. Risinhos abafados. E então…

– ÊÊÊ Macarena! Ai!”

Não sei como é que a mãe, ao fim, acalmou as crias porque é claro que a algazarra continuou alguns bons minutos noite adentro.

Sorte minha que os meus não fazem dessas…

Diário Caipira-135

Tinha curso outra vez. Outra vez era gente demais numa salinha. E, pra piorar, eu fico “resfriada” instantaneamente só por andar de ônibus. Aí a palestrante pede que a gente se apresente dizendo nome e aonda trabalhamos e a minha voz sai rouca como eu estivesse de cama.

Os olhares que recebo são de puro carinho e compreensão. Só que não.

Diário Caipira-134

Numa conversa com amigos ficamos em dúvida: Quem testa positivo pra Covid deve ficar em casa por quanto tempo? Uns achavam que eram 14 dias (eu entre eles) outros que eram apenas sete. Fomos conferir na página da Folkhälsomyndigheten: são 7.

Om du har tagit ett test som visar att du har covid-19 ska du vara hemma i minst sju dygn räknat från den dag du fick symtom. Om du av någon anledning blivit provtagen trots att du inte har symtom räknas sju dygn från den dag du tog ditt test. Du behöver dessutom ha varit feberfri och mått bra i minst två dygn. Om du har kvarvarande lindriga symtom som torrhosta, lätt snuva eller lukt-och smakbortfall men i övrigt känner dig helt frisk, kan du återgå till arbete, skola, förskola och annan aktivitet om det gått minst 7 dygn sedan insjuknandet. (fonte: Folkhälsomyndigheten, skydda dou vou andra).

Trocando em miúdos, se você testou positivo deve contar sete dias a partir do dia que ficou doente antes de sair de casa SE depois desses setes dias os sintomas houverem desaparecido. No caso de você ter feito o teste sem apresentar sintomas, deve ficar em casa por sete dias a partir da data que fez o teste. Em caso de dúvidas deve-se entrar em contato com o 1177. (Exceto os casos que precisaram de cuidados intensivos).

Det är viktigt att känna till att covid-19 är en allmänfarlig och samhällsfarlig sjukdom enligt smittskyddslagen och att man därför är skyldig att följa förhållningsregler för att förhindra smittspridning. Du får information om förhållningsregler enligt regionalasmittspårningsrutiner. (Fonte: Folkhälsomyndigheten, Skydda dig och andra).

O último parágrafo frisa que é importanre lembrar que o corona é uma doença perigosa para a sociedade e todas as pessoas. Aí fiquei me perguntando: mas há algum tipo de multa ou sanção para quem ignora as recomendações da Folkhälsomyndigheten?

Não que eu saiba… e o Google não pode me ajudar.

Diário Caipira-133

Hoje foi dia de festa do lagostim, ou melhor, da nossa versão da festa do lagostim adaptada aos tempos de corona. Temos uma tradição desde 2017 de celebrar a festa do lagostim com alguns casais de amigos que tem crianças na mesma faixa etária das nossas crianças.

Sempre celebramos a festa do lagostim ao nosso modo por dois motivos: como o lagostim da festa é servido inteiro a gente tem que descascar o bicho. Imagine o trampo que é descascar lagostim e comer. Agora imagine isso ao mesmo tempo que tu tem de dar comida as crias. Também por causa das crianças fica proibido o consumo exagerado de bebida e não rolam “snaps”.

Devido ao corona não pudemos encontrar o mesmo número de amigos que normalmente faziam parte da “nossa festa”. É um pouco triste pois eu gostaria de rever todo mundo. A cada ano que se passava aumentava o número de crianças e a mesa tinha de ficar mais comprida. Dessa vez o efeito foi contrário… nem fizemos a celebração lá em casa, pois queríamos um local ao ar livre.

O tempo colaborou, lutamos para comer 20g de carne de lagostim e pão com queijo e salada. Vou esperar que no ano que vem possamos fazer a festa do lagostim como era antes.

PS.: eu nem gosto de lagostim. Mas sempre como na festa do lagostim só por causa do ritual de sentar e ficar preparando um sanduba de lagostim enquanto todo mundo conversa e fica quebrando as cascas do bicho.

PS2. Cascas de lagostim fedem violentamente. Minha dica é (se você mora em uma casa) enterrar no quintal ou congelar até o dia em que o lixeiro passa. A gente fez a besteira de jogar o trem no lixo depois da festa em 2017 e já no dia seguinte a lata de lixo fedia terrivelmente. Também tivemos a infelicidade de que alguém jogasse uma parte dos restos na lata de lixo errada… Essa lata era recolhida a cada duas semanas pelo serviço de coleta de lixo. Mas bastaram cinco dias para que o fedor fosse insuportável: tive que abrir a lata, revirar o lixo e enterrar os restos de lagostim que já estavam em decomposição.

Diário Caipira-132

Hoje estava conversando com uma amiga querida na hora do almoço sobre como a nossa sociedade é, ao mesmo tempo, fascinante e escrota.

Já imaginou daqui a três mil anos, nossos descendentes (ou mais provavelmente, a forma de vida superior que existirá na Terra) desenterrando resquícios da nossa civilização e analisando: “os povos desse período chamavam-se a si mesmos de Homo Sapiens Sapiens e imaginavam estar vivendo tempo modernos. Mas sua inteligência era limitada e eles destruíram tudo ao seu redor e não fica muito bem claro porquê”.

“Os humanos desse período acreditavam que havia espécimes mais ou menos superiores. Essa classificação se dava por meio de conceitos primitivos como cor, sexo biológico ou orientação sexual. Normalmente o homem hetero cis branco estava no topo da pirâmide.”

Não parece que descrevemos uma sociedade parcamente desenvolvida?

Diário Caipira-131

Eis que a minha bolsa vai tomando forma. Agora só me faltam dois quadrinhos e posso colocar as alças.

Estou tão dentro dessa onda de crochê que convenci meus colegas de trabalho a entrar num projeto de crochê coletivo.

Como diria uma amiga querida, estou virada em uma “Testemunha do Crochê”. Daqui a pouco vou sair batendo de porta e porta nos domingos de manhã perguntando as pessoas se elas sabem crochetar um “granny square”, se já tentaram, se tem noções da maravilha que se pode alcançar por meio de crochetar quadrinhos. Às pessoas me olharão boquiabertas e tentarão gentilmente me mandar embora e eu vou insistir com frases tipo: ninguém jamais de ensinou a segurar a agulha corretamente…

E aí, já fez crochê hoje?

Diário Caipira-130

Tivemos curso na segunda feira, no trabalho. Sempre que temos essas capacitações “perdemos” algum tempo falando das metas traçadas pelo município de Gotemburgo. Digo perder porque essas metas são bem difusas.

Um exemplo: umas das metas é que a cidade de Gotemburgo será um empregador que trata bem seus funcionários e que tem uma política de RH que faz com a possibilidade de trabalhar para a cidade seja muito atraente. É, mas não é: nossa capacitação foi num local micro e dava a impressão que sentamos no colo uns dos outros. Eu imagino porque a gente vai para o outro lado da cidade sentar numa mini sala quando todo mundo deveria estar tendo capacitação online.

E não é que eu goste de encontros online. Prefiro ter uma capacitação presencial. Mas nas condições atuais, e considerando que a cidade de Gotemburgo trata bem seus empregados… 8h numa mini sala menor do que aquelas que temos disponíveis onde trabalho…

Às vezes não dá pra entender.

Diário Caipira-129

Eu sou aquele tipo sem noção que sempre pensa assim: ah, mas eu tenho um quarto de hóspedes então fulano pode vir dormir aqui em casa. E morro de vergonha na hora que o fulano chega porque não tenho lençóis e travesseiros “de visita”.

Estava me achando porque finalmente havia providenciado roupa de cama e travesseiro “pras visitas”. Aí a visita veio e pá… A luz do quarto de hóspedes estava queimada e ahhh, esqueci do edredom.

Eu ganhei muita coisa de segunda mão quando mudamos para casa, inclusive roupas de cama, cobertores e travesseiros. Usados, mas bons – e continuam bons na minha opinião. Para os meninos compramos pois a gente não tinha extra.

Aqui na Suécia as boas maneiras dizem que a visita que deve levar lençóis, travesseiros e etc. Mas a maior parte das pessoas que vem aqui em casa tem criança… Já vem com uma bela mudança para apenas uma noite, imagina trazer os apetrechos pra dormir?

Seria o ideal em se tratando dessa anfitriã aqui. Mas agora só me faltam edredons.

Diário Caipira-128

Duas coisas que me deixaram pensativa nesse domingo:

1. Me perguntaram quando eu acho adequado que crianças tenham sua própria conta e perfil em redes sociais. Eu só respondi: boa pergunta. Será que gente grande deveria ter um perfil na redes?

2. Vi um documentário sobre os Andes que me tocou imensamente. Fiquei com lágrimas nos olhos. Definitivamente não posso morrer sem visitar os Andes. Como eu pude ignorar esse paraíso na América do Sul? Por que nós brasileiros sabemos tão pouco sobre nossos vizinhos?

Diário Caipira-127

Depois de receber o resultado do exame fui trabalhar sexta. Se já antes do corona era sensível ir ao trabalho com um pouco de tosse, agora depois do corona a gente se sente realmente fora da lei. Ainda que meus colegas de trabalho saibam que eu testei negativo, fica aquela tensão no ar pois se eu der a minha gripe para alguém, esse alguém terá de ficar em casa até fazer o teste e receber o resultado.

É muito improvável que eu transmita qualquer coisa uma semana depois de apresentar os primeiros sintomas. Ainda assim, sempre foi um coisa sensível entre suecos e valia várias caras feias ir trabalhar “meio resfriada”. Pedagogas de centro de educação infantil sempre publicaram longos textos nas mídias sociais sobre a irresponsabilidade dos pais que feixam crianças meio doentes na escola. Estar meia boca em público ou no ônibus poderia disparar uma guerra civil.

O problema é que, mesmo que o assalariado receba o equivalente a 80% do valor do seu saldo de um dia por cada vez que ele precise ficar em casa – cuidando de crianças doentes ou tossindo – dá uma bela diferença no final do mês. As pessoas preferem trabalhar recebendo 100% do seu soldo a ficar em casa recebendo 80%. Além disso há sim famílias na Suécia onde esses 20% fazem muita diferença.

Estamos numa situação estranha onde as autoridades simplesmente esperam que o “normal” volte, algum dia. As pessoas que mais sofrem são aquelas que tem menos recursos materiais, como sempre. Mesmo aqui nessa bolha chamada Suécia.

Por quê será não conseguimos aproveitar esse momento de ruptura para provocar e exigir mudanças que beneficiem as pessoas mais vulneráveis?