Diário Caipira

Estou cansada dessa coisa de corona. A cada vez que fico resfriada bate aquela angústia. Se for olhar pelo copo meio cheio, posso ficar em casa sem remorso sempre que estiver com coriza.

O tempo mudou na semana passada, esfriou. Na sexta feira acho que fui trabalhar com roupa de menos. Assim que um resfriado não é lá muito estranho… ainda assim aff, a incerteza me come por dentro.

Diário Caipira-86

Estávamos falando dessas coisas que o dinheiro não compra (que são muitas) quando pensei em manga e como é maravilhoso comer uma manga suculenta que quando a gente morde chega a melecar até o cotovelo.

Talvez você não goste de manga mas dificilmente não guarde na memória a lembrança de se lambuzar com fruta… meus filhos vão com certeza lembrar de quando ficavam com as mãos roxas e até mesmo a língua ficava azul de tanto comerem mirtilos.

Na falta de manga, eu entrei na brincadeira pra pintar a língua de azul. Mas tenho que treinar mais.

Diário Caipira-85

Fomos até Gräfnäs, a beira do lago Anten, no município vizinho. Não foi a primeira vez que estive lá visitando as ruínas do Castelo de Gräfnäs mas foi a primeira vez que vi essa árvore.

É um ek. Acho que é uma das árvores mais bonitas aqui da Suécia, junto com o carvalho chorão e o “ask”. E podem ficar enormes. A madeira do ek é ótima para fazer barcos. Por causa disso o ek era a árvore do rei e ninguém podia derrubar sem o consentimento real. Mas depois do advento do barco a vapor essa proibição ficou na história apenas.

A árvore desse parque foi usada num filme infanto-juvenil baseado numa série de livros de aventura “LasseMajas detektivbyrån” (Série Agência dos detetives Marcos e Maia em português). Eu coube lá dentro dela sem problemas e comigo poderiam facilmente mais dois adultos se esconderem… virei criança e achei um barato. Já meus pequenos acharam assustador demais.

Estava um pouco frio demais para ficar fora hoje. Espero não ficar resfriada.

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Agradeço imensamente todos que fizeram preces pelo pai da minha amiga. Ele continua internado e não há previsão de alta… mas me alegra e fortalece ouvir tantas pessoas empenhadas em fazer o bem. Obrigada, de coração.

Diário Caipira-84

Hoje estávamos batendo papo no trabalho sobre “saudades de casa”. É claro que me perguntaram se eu sentia falta do Brasil e se eu gostaria de voltar a viver lá.

Ah, o Brasil. Esse país exótico, de praias infindáveis, natureza exuberante e… um governo lastimável. É uma pena que a situação do meu país natal esteja da maneira que está. Há tempos atrás eu imaginava o Brasil um país com potencial pra crescer. Hoje não sinto mais a mesma esperança. Hoje não me dá nenhuma vontade de voltar.

Ainda sofro de saudades da família e dos amigos. Mas minha casa é aqui agora. Ainda que meu coração siga dividido, o meu lugar está ao lado da minha pequena família.

Diário Caipira-83

Hoje no trabalho a minha chefe me perguntou se estava tudo bem, disse que eu parecia cansada e que se algo relacionado ao trabalho estivesse me deixando aflita eu poderia falar com ela. Me deu um calorzinho no coração, me senti feliz.

Quando cheguei em casa minha sogra me diz: “nossa, você parece cansada. Temos morangos e sorvete”. Minha sogra sabe como animar alguém.

Falei com a minha mãe. Ela me disse… que eu parecia cansada. Que eu deveria tomar sol e comer bastante frutas silvestres, ricas em vitamina C. Eu sorri com meus botões… mãe tem um radar que mesmo a 12 mil km de distância nada passa despercebido.

Eu falei com uma amiga pela telefone. Ela estava muito triste e chorou. O pai dela está do outro lado do mundo, internado e hoje foi colocado no respirador por causa do corona. Eu queria dar a ela um verdadeiro abraço, mas ela não mora aqui… espero que eu tenha conseguido consolar a ela da mesma forma que fui acolhida hoje pela minha chefe, minha sogra e minha mãe.

Se você se sentir a vontade, pode fazer uma prece pelo pai da minha amiga?

Diário Caipira-82

A cidade de Gotemburgo estava pondo em prática um plano de ação para se tornar uma cidade onde não se usa papel nas repartições públicas do município. Mas, como não temos um sistema que envia decisões importantes eletronicamente de forma segura, ainda imprimimos várias cartas por dia. Hoje mesmo enviei ao menos cinco.

Enfim, já que não podiam economizar nas folhas A4, decidiram economizar no papel toalha. Nenhum banheiro do nosso escritório (que foi recentemente reformado) contava com cestos de lixo pra papel. Então, o corona aconteceu e agora os planos de Gotemburgo de se tornar um cidade livre do papel foram por água abaixo: temos papel toalha nos banheiros novamente. O que é muito melhor do que aquele jato de vento que somente espirra a água das mãos para a parede – que fica nojenta.

Assim que, na minha humilde opinião, o corona é uma bosta. Mas até que trouxe de volta certas coisas boas.

Diário Caipira-81

Trabalhei de casa. Duas vezes.

Pontos positivos: chove cântaros. Não preciso escolher entre ficar super molhada indo trabalhar de magrela ou tomar o transporte coletivo. Faço a pausa para o cafezinho e posso dar um beijo nas crianças, até mesmo ler uma história curta. Às 16h basta fechar o computador e recolher minhas coisas, enfiar na bag do trampo e… já estou em casa.

Pontos negativos: é péssimo atender gente chata a partir de casa. Meio que contamina o ambiente. E eu não posso desligar o telefone. E tenho de lidar com uma porrada de gente chata. É uma lástima que parece já ver grudada na gente sempre que trabalhamos em repartições públicas. É deveras sensível o que posso ou não posso falar também, já que trabalho com questões delicadas e com dados sigilosos.

Disse isso para as crias: mamãe trabalha com coisas que são segredo. Ninguém pode saber. Então a porta tem que ficar fechada e vocês não podem ficar ouvindo quando a mamãe está ao telefone. O papai não pode entrar aqui porque ele sabe ler e ele não deve ler nada do que a mamãe escreve. É um segredo secretissimo.

Os dois saem correndo do “escritório”. O mais novo grita:

– Papai, a mamãe tem um segredo que é uma surpresa pra você!!

Diário Caipira-79

Nos últimos dias vi uma série de pessoas declarando nas redes sociais que se sentiam idiotas por continuarem cumprindo a quarentena quando “todo mundo” não está nem aí.

Fiquei pensando em alguns comentários deixados aqui nos posts que escrevi… comentários cheios de acusações e julgamentos baseados nas poucas linhas desse diário sem pé nem cabeça. Não só julgando as minhas atitudes como a atitude do povo sueco em geral e a frieza com que nós aqui estávamos jogando com a vida dos outros (aqueles que fazem parte dos grupos de risco). Eu apaguei todos esses comentários, tanto na página do Facebook quanto aqui no próprio blog. Simplesmente porque eu quero guardar aqui tudo o que foi positivo que permeiou esse tempo já tão difícil e cheio de incertezas.

Não tenho a mínima dúvida de que a manobra do governo sueco foi e é arriscada. Também não tenho a mínima dúvida de que essa manobra trouxe muito sofrimento para quem, como eu, esperava um lockdown a qualquer momento. Eu não faço parte do grupo de risco e vi muita gente que faz parte tendo de arcar sozinha com a própria proteção. Ao mesmo tempo, não se deu ao povo brasileiro, que estava fazendo lockdown, a possibilidade de ficar em casa; milhares de famílias no Brasil não contam com a mínima estrutura para fazer isolamento.

A cada vez que eu vejo alguém bravo nas redes, compartilhando filmes ou fotos de locais lotados – shoppings, restaurantes, bares; com o comentário tipo “me sinto um otário, blá blá blá, mas estou em isolamento”; eu imagino a história daquelas pessoas aglomeradas: será que elas queriam estar ali, se foram pegas naquele momento que saíram pra fazer algo essencial; ou se realmente estão dando de ombros para o mundo.

A gente sempre sai com medo. Só sai de carro. Nunca leva as crianças no mercado, em nenhuma loja (comprei chinelos enormes para eles); compra praticamente tudo online; sempre conto o número de pessoas presentes em cada local que entro; estou com as mãos ressecadas de tanto lavar; mas não estou em isolamento, não posso trabalhar remotamente… Eu tô na rua todos os dias. Poderia ser eu numa dessas fotos de gente aglomerada.

E só pra você, que está cumprindo o isolamento saber: também queria poder ficar em casa. Que tal sermos mais carinhosos uns com os outros? Tá super difícil pra quem está em casa, mas também tá difícil pra quem não pode ficar no seu canto.

Diário Caipira-77

Desde o solstício de verão os dias tem ficado mais curtos, mas ainda há claridade até meia noite e às quatro da manhã é possível andar pela casa sem acender as luzes.

Normalmente não me afeta. Não sei se é a situação atual, da pandemia, as coisas loucas que andam acontecendo na América do Sul (gafanhotos e ciclone), mas muita coisa parece de cabeça para baixo… assim que essa semana foi difícil. Dormi mal, sonhei sonhos estranhos e estava muito cansada.

Assim que estava fazendo crochê as quatro da manhã. Ajuda a pensar em outras coisas… e a relaxar. Mas não ajuda a repor as horas de sono perdidas. O que eu devo fazer esse fim de semana para não acabar ficando angustiada.

Eu vi algumas pessoas compartilhando textos sobre ansiedade nas redes sociais. Fico feliz, acho que é positivo. Temos que falar mais sobre transtornos psíquicos. Eu fico muito ansiosa e angustiada de uma maneira que ultrapassa o normal. Com o tempo a gente vai aprendendo a lidar. Mas o que mais importa pra mim é saber que não estou sozinha.

Assim que se você estiver lendo e sofre de ansiedade saiba que passa. E que você não está sozinha/o.

Diário Caipira-76

Está aberta a temporada de mirtilos, os famosos frutinhos silvestres azuis. Essa gostosura dá em arbustos do altura perfeita para acabar com as costas de quem quer que seja que não fique de cócoras pra colhe-los.

Felizmente temos um bosque do outro lado da rua com mirtilos suficientes para fazer a alegria dos meus filhos. Assim que fomos colher frutos silvestres hoje. E eu nem tive que arrastar as crias porta afora apesar do vento gelado (estamos no meio do verão mas… e daí?). O problema, ou melhor, os problemas são: um que se joga no meio dos arbustos sem pensar nos carrapatos e um que não quer entrar no bosque, apesar de desejar de todo o coração colher frutinhas.

Estávamos nem cinco minutos fora quando reconheço no filho o rebolado do “Preciso fazer xixi mas tem alguma coisa rolando agora e eu não quero parar o que estou fazendo”. A casa está a apenas 70m de distância mas eu acabei agora mesmo de convencer o pequeno que não quer entrar no bosque que não há problema em pisar no musgo, nem na grama, nem nos demais arbustos, folhas secas, galhos secos, pinhas, pequenos insetos e tudo o mais que existe no bosque quando nosso intuito é colher frutos que estão dentro do bosque. Com dor na consciência eu apenas:

– Mija aí mesmo, filho. Só não faz xixi no blåbär (se diz algo como blô-béérr) pois senão ao invés de blåbär vai ter blô-blé (a gente sempre usou “blé” pra nominar coisas nojentas).

Riram tanto que teve alguém que esqueceu que estava no bosque.