Retrospectiva 2015 #2

O dia que andei de ambulância

E eu ainda não sei porquê. Mas eu tinha voltado do trabalho e decidido levar o Ben na brinquedoteca. De lá fui direto para casa e o como o guri dormiu no caminho eu resolvi deitar e dormir também (quem é mãe sabe… bebê dormiu vai deitar criatura e não fique esfregando as panelas).

Quando acordei o Joel estava em casa. A gente tinha algumas (muitas) coisas pra arrumar porque íamos para Chicago, e eu fiquei meio que com dor na consciência… até me olhar no espelho e perceber que metade do meu rosto havia paralisado. Pensei em derrame cerebral na hora e falei com o Joel. Ficamos naquela parada de negação do não! Será? Você está brincando né!? e coisas do tipo até ligarmos para o serviço de saúde telefônico (sim, na Suécia é sempre melhor ligar para o serviço de saúde telefônico antes de se dirigir ao hospital porque a chance de você ser mandado para casa é enorme… economiza a viagem). Quando começamos a falar com a enfermeira ela nos mandou desligar imediatamente e chamar a ambulância.

Eu comecei a rir e o Joel quase chora. Aí ligamos a ambulância e em questão de cinco minutos lá estavam dois rapazes na minha sala mandando eu responder perguntas toscas tipo “que dia é hoje?” ou “qual o nome desse instrumento” (meu violão); ergue o braço abaixa o braço, você tem dor de cabeça? Bla bla bla. No fim eles não chegaram a nenhuma conclusão e ligaram para um neurologista. Aí o neurologista diz o óbvio, que não dá para opinar via telefone e que é melhor que eu seja internada para exames.

Afff… até parecia um filme. O problema era eu ser o personagem “doente”. Chegamos no hospital as 8h da noite e lá eu fiquei esperando o médico até as 6h da manhã seguinte.

Exatamente: eu, paciente com suspeita de derrame cerebral fui internada as 20h, fiquei numa maca no corredor do hospital até às 3h e só vi o médico às 6h da matina, dez horas depois. Isso porque as 5h da manhã eu chamei o enfermeiro e disse: “rapaz eu quero ir embora. Eu tenho um bebê de 10 meses em casa, e se eu tivesse sofrido um derrame mesmo estaria paralisada ou morta agora né? Afinal não vem médico me examinar”. O  enfermeiro ficou branco, foi lá buscar o prontuário médico e zip zap, começa a dar um movimento no meu quartinho e dali a pouco chega uma médica me pedindo mil desculpas.

Às 10h fiz uma tomografia cerebral e  às  11h veio o resultado de que meus neurônios ainda eram os mesmos, graças a Deus, Amém. Depois ainda fiquei no hospital até as 19h porque eles queriam fazer testes para ver se eu não tinha borélia, uma doença transmitida pelo carrapato. Mas tudo deu negativo e por fim me mandaram para casa dizendo que eu provavelmente tinha uma inflamação facial, o nosso popularmente conhecido choque térmico.

Eu fiquei pensando em muita coisa nas minhas horinhas na sala de espera. Medo de não estar aqui para ver o Ben crescer, mas estava tranquila e agradecida por ter o Joel ao meu lado. Literalmente, porque ele podia me acompanhar.

Estava no chat com algumas pessoas que me disseram: finge um desmaio menina e aí eles te atendem. Cinco minutos depois chega uma mulher desmaida que é deitada do meu lado e lá ficou até eu ser transferida para meu quartinho. Eu só vi uma médica na emergência. É o mesmo problema em todo o mundo… hospitais lotados, falta de pessoal e gente deitada nos corredores. Aqui na emergência tem uma salinha onde você pega uma senha, aí vem uma enfermeira fazer a pré consulta (medir pressão arterial e se há febre) e  você recebe um lugarzinho no corredor. De tempos em tempos passa um enfermeiro perguntar se está tudo bem e informa quanto tempo vai demorar para o médico atender. Gente esfaqueada, baleada ou acidentada vai direto para a cirurgia, um setor do hospital onde há médicos especialistas em traumatologia. Gente que chega com a ambulância – como eu aquele dia, sem fraturas expostas ou risco de morte – vai direto para o corredor da esperança. Só vê o médico depois de ir para um quarto. Eu vi muita gente idosa chegando de ambulância e ficando na caminha do corredor… por sorte foram atendidos primeiro.

Não estou reclamando do sistema sueco, que é um sistema bom, mas não é gratuito. O boleto veio depois, e foi all inclusive, desde o passeio de ambulância aos exames. É importante explicar também que é um co-finaciamento. Eu não sei se o hospital é do governo, mas a maioria dos serviços pertencem a empresas privadas, aí quando um cidadão precisa de internação, etc; o governo paga a maior parcela da conta.

Depois de uns 10 dias meu rosto estava funcionando normalmente. Tomei una remedinhos meio esquisitos e o Benjamin por tabela por causa da amamentação, mas era isso ou arriscar fisioterapia depois.

Foi um susto. A gente esquece que é mortal, principalmente depois de se tornar mãe. Mas agora eu não esqueço mais.

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Retrospectiva 2015

Carteira de habilitação

Comecei e terminei o ano enrolada na carteita de habilitação sueca. Primeiro foram as provas, teórica e prática, as quais não passei. Eu nem lembro se foram 4 provas teóricas e 3 práticas ou apenas três e duas respectivamente… mas janeiro e fevereiro fiquei estudando e estudando o livro sobre as leis de trânsito suecas e fazendo provinhas na Internet. Tentei duas vezes em fevereiro e março e reprovei.

Perdi a fé, o tesão e voltei a trabalhar. Menos tempo, mais gente me cobrando que eu tirasse a carteira… me matriculei numa auto escola e fiz duas aulas em abril. Tinha prova marcada e fui parar no hospital… desmarquei as provas, viajamos para os EUA, voltamos, a polícia me pegou dirigindo sem carteira…

Aí começou a fase B: trabalhei extra no verão, não tive tempo de estudar, paguei a multa que recebi em julho, marquei novas provas que perdi por causa de um atraso nos trens, remarquei as provas; tirei mais aulas práticas e refiz as provas, reprovei, meus colegas de trabalho começaram a perder a paciência e eu perdi meu direito de tirar a carteira (na Suécia você precisa tirar uma licença para tirar a habilitação).

Recorri da decisão, perdi, cansei, pedi as contas.

Ou seja: comecei e terminei o ano sem carteira de habilitação, mas com alguma experiência.

Ou seja dois: aprendi que ser pega pela polícia dirigindo sem habilitação é muito mais sério do que eu pensava. Além de pagar multa, você fica fichada na polícia por um ano e não tem direito de pedir cidadania sueca. Se eu tivesse só o visto temporário teria o visto permanente negado.

Ou seja três: a Suécia também tem uns furos nas suas leis bem esquisitos. Com relação à carteira: como imigrante (de outro país que não pertença a União Européia) você tem direito de usar sua habilitação por um ano na Suécia. Não importa de que modo você dirige durante esse um ano, está ok não ter habilitação sueca. Dizem os bons que há um jeitinho  (sueco claro) para prolongar esse período. Mas depois disso repentinamente dirigir sem habilitação sueca significa algo gravíssimo.

Ou seja (o último): quanto mais tempo você passa na Suécia pior vai ser a forma como você dirige.

Feliz Ano Novo!

Um dia na Suécia

Eu recebo comentários em ondas, provavelmente devido ao fato de escrever bem menos. Mas volta e meia aparece gente que manda comentários em posts antigos do blog com perguntas que não tem nada a ver com o conteúdo do referido post (deixando bem na cara que não leu nada do que estava aí) e a maioria dessas pessoas repete a mesma pergunta (seria um eco?): como é a vida na Suécia?

Recebi o mesmo questionamento esses dias na página do face. Eu ia responder o de sempre: pessoa, esse é o link do meu blog, essas abobrinhas aqui descrevem mais ou menos a vida na Suécia. Mas aí tive a ideia genial de desvendar os segredos da vida na Suécia contando como é um dia comum da minha vida – já que eu não ando com tempo de fazer algo mais informativo e concreto.

Algumas singularidades para situar os desavisados e os futuros leitores desse post: estou trabalhando “meio período”; o que significa que passo bastante tempo em casa. Mas vamos lá!

Um dia de trabalho na Suécia…

Acordo as 5h. Tomo um café, normalmente com pausa para amamentar a cria. Pego as minhas bolsas (passo 24h no trampo) e saio para o ponto às 5h55. Pego um bonde para a estação central. Se o café foi para o saco porque eu amamentei a cria compro um café. Pego um trem para Falköping. Caminho para o trabalho cerca de 20 minutos (não é longe, é só a preguiça mesmo). Começo a trabalhar às 9h. Saio as 9h30 do dia seguinte, normalmente ganho uma carona até a estação porque a galera tem dó de me deixar caminhar com as minhas bolsas  (uma delas cheia de leite). Pego o trem para Göteborg. Chego na estação e tomo o primeiro bonde que passar para casa. Chego a tempo do almoço.
Eventualmente passo pegar o Ben na casa dos padrinhos ou de algum amigo – caso o Joel tenha uma reunião de trabalho importante. Depois do almoço a rotina segue como num dia em que eu não fui trabalhar.

Um dia em casa na Suécia

Acordo assim que o Benjamin acordar (entre 6h e 7h30, depende da “sorte”). Tomamos café e aí vamos fazer as tarefas de casa ou um passeio. Pode ser uma caminhada, gosto muito de sair caminhar com o Ben… deixo ele escolher o caminho e parar o quanto quiser para juntar todo tipo se coisa e tentar por na boca, ou ir para um balanço, essas coisas. Nesse caso voltamos e comemos uma fruta. Depois brincamos ou fazemos limpeza e aí almoço. Almoço pede uma siesta e com sorte depois da comida tem a soneca do Benjamin, quando ele acordar o Joel vai estar chegando. A gente empacota um lanche e sai para trabalhar com a reforma da casa. Volta quando anoitece, faz uma janta, bota a cria para dormir e assiste as notícias/uma série/ou um filme dependendo da hora, do cansaço ou do tesão. Normalmente vou dormir às 22h30.

A rotina em um final de semana ou dia de semana para mim não varia muito. Como eu trabalho em forma de plantão então procuro aproveitar “as folgas” já que trabalho finais de semana também. A principal diferença é que se estou em casa em um sábado normalmente passamos o dia na reforma da casa. Domingos é dia de ver a família então normalmente rola um passeio para os sogros, ou alguma das cunhadas.

Como estamos vivendo um tempo especial com a reforma da casa temos encontrado os amigos apenas de vez em quando, numa rapidinha no anoitecer ou quando eu saio sozinha com o Ben e passo o dia fora. Normalmente fazemos isso quando o Joel tem reuniões depois do trabalho. Eventuais escapadinhas para um jantar ou cinema estão descartadas no momento por conta do cansaço mesmo.

Eu não sei como funciona no Brasil depois que você tem filhos, mas aqui ter uma criança te dá automaticamente um upgrade para o time dos pais. Dificilmente você vai se encontrar com os amigos que não tem crianças. Primeiro porque essa galera ainda sai para beber e fazer festa em uma sexta feira – o que sinceramente não está na minha lista de prioridades – ou se promove um jantar deixa claro que o evento é para adultos. Isso me dá muita preguiça. Fiquei antisocial com a maternidade e o Joel, se deixasse, passaria o dia e a noite na reforma.

É isso aí. Essa é a minha vida na Suécia.

Tá sentindo falta do glamour? Pois eu não.

Um ano como mãe

Semana que vem vamos comemorar um ano: um ano do Benjamin, um ano como família, um ano desde que o Joel se tornou pai e eu mãe.

Eu fico tentando me lembrar das minhas expectativas naqueles últimos dias antes do parto, mas eu estava realmente focada no parto em si. A bem da verdade eu não me preparei para o primeiro ano do bebê, eu não me preparei para o puerpério e este último me quebrou as pernas. Eu não sei se adianta muita coisa “se preparar” ou, melhor, que tipo de planejamento eu deveria ter feito, programas, rotinas etc; e até que ponto isso ajuda ou atrapalha. Eu li muito, mas não fiz muita coisa.

Eu fico imaginando quais as diferenças entre ter filhos aqui e no Brasil. Pelo que tenho lido, parece que ter filhos aqui (agora estou falando no sentido literal do ter filho – parir mesmo) é melhor do que no Brasil por causa da  violência obstétrica. Apesar da confusão nos hospitais e da falta de recursos humanos, a Suécia parte do princípio de que toda a mulher tem direito à um parto humanizado. Há inúmeras falhas no sistema, mas nem de longe se assemelha ao caos das maternidades brasileiras.

Há boas redes de apoio para mães de primeira viagem também. Normalmente, o pessoal encontra ao menos alguém com quem dividir os perrengues da maternidade nos cursos de pais – mas eu e o Joel nunca fizemos. Felizmente, dois dos casais com quem normalmente saíamos tiveram bebês pouco antes de nós, então acabou que eu tenho mães um pouco mais experientes com quem conversar, as quais eu já tinha um pouco de contato antes. A questão da idade da criança aqui é importante não porque o Benjamin vai ter um amiguinho – a essa altura do campeonato é difícil saber se o santo dessas crianças vai bater – mas porque nós como mães podemos conversar sobre mais ou menos as mesmas coisas.

Mais ou menos né, porque já me disseram que eu escolhi maternar no modo hard: fralda de pano, amamentação em livre demanda, criação com apego, sling, cama compartilhada e… a coisa mais terrível de todas: não dei chupeta para o Benjamin. Particularmente, chupeta é um acessório que serve para calar a boca da criança e estragar os dentes. Felizmente, quando Benjamin era recém nascido dormia tanto que eu nunca tive vontade (ou necessidade) de dar chupeta. Então, antes que alguém me acuse de intitular como “menos mãe” quem dá chupeta eu só digo que não estou afirmando isso. Conheço mães muito melhores do que eu que dão chupeta para os filhos. Eu tentei dar chupeta para o Benjamin quando saímos de carro e ele gritava sem parar, às vezes funcionava, às vezes não. Bati o pé veementemente que não queria comprar mas tive que aceitar e tentar, não dá pra deixar a criança se esguelando por causa de um princípio. Em todo o caso, antes que eu me perca em explicações sem sentido, nenhuma das mães com quem costumo sair com mais frequência fazem isso. Recentemente conheci um casal vindo da Inglaterra, e ela e mais uma guria com quem dividia o coletivo nos meus primeiros meses de Suécia fazem parte do time das mães modo “hard on” com quem tenho contato.

A maioria dessas coisas escolhi baseada em leituras aqui e ali, coisas com que simpatizei pela Internet a fora. O sling foi um achado maravilhoso!! Mas para variar, dá trabalho. E, pobre Benjamin que é submetido a uma série de tentativas para amarrar a criança nas costas, do lado e na frente do jeito certo. Nos últimos três meses tenho praticado carregar ele nas costas e estou quase ficando craque. Deveria ter começado mais cedo, quando ele tinha cerca de 6 meses… mas aí eu não tinha o sling certo. Agora eu tenho dois slings de algodão, mas nunca saí para a rua com o Benjamin neles… seria o ideal uma vez que eu acho carrinho de bebê um trombolho e aqui os ônibus só tem dois lugares para carrinho. É, o transporte coletivo sueco é muito melhor do que o brasileiro em termos de acessibilidade, mas aqui todas as mães e pais tem carrinho de bebê, todas as mães e pais saem pra passear usando transporte coletivo com seus carrinhos e por causa disso, dois lugares no ônibus significa que você vai ficar no ponto esperando uns 15 minutos pelo próximo ônibus, porque o motorista não deixa que um número maior de carrinhos do que o permitido seja embarcado. Então, na maioria dos casos, saio com Benjamin no canguru (ergobaby), que têm o mesmo princípio do sling, só que é mais prático.

Ainda amamento, não tenho pretensão de parar tão cedo e por causa disso já recebi olhares de sensura. Me espanta que a Suécia, mesmo sendo um país muito liberal, tenha tanta gente que se incomoda de ver mulher amamentando. E o Benjamin, por ser um bebê cabeludo e cheio de dentes, parece mais velho do que é. Das gurias suecas que conheço, a maioria parou de amamentar quando o bebê tinha cerca de oito meses. Eu não digo que elas estão erradas de fazer isso uma vez que não conheço os motivos que levaram cada uma a tomar essa decisão, mas ontem estava lendoum artigo que dizia que apenas 14% das mães suecas amamentam o bebê exclusivamente com leite materno até os seis meses.

Nesse quesito, acho que a falha está no BVC (a hora que eu puder fazer um texto com mais dados e estatísticas, escrevo explicando o que é o BVC e como funciona, por enquanto digo apenas que é o centro de saúde da criança) pois quando Benjamin tinha quatro meses a enfermeira pediatra já começou a falar de introdução alimentar e de fazer papinhas. Além disso, ela me orientou a dar mamadeira para que o Benjamin dormisse melhor a noite. Disse que ele acordava provavelmente de fome e me orientou a dar välling (um tipo de mucilon, um pouco menos ruim, sueco). De novo, se a mãe quer dar mamadeira, que dê. Mas esse não era meu caso, então fiquei a ver navios pois fora a dica maravilhosa da mamadeira ela não tinha nada a me dizer. Eu não sou muito fã do BVC. E nem de dentistas suecas. Porque elas também sugerem que a mãe deixe de amamentar quando o bebê completa um ano. Mas essa é história para outra hora…

Já escrevi tanto e não escreci nem a metade do que gostaria. Mas vou tentar fazer um balanço simples: a Suécia é um ótimo lugar para parir. Se eu pudesse fazer tudo de novo, teria Benjamin aqui, mudaria parao Brasil (o Brasil que eu conheço) e ficaria lá os primeiros seis meses, depois voltaria para cá. Por quê? Porque senti falta de ter uma mão amiga nos primeiros meses de vida do Benjamin, principalmente no puerpério. Demorou muito tempo para mim me encontrar comigo mesma no meu papel de mãe e quando o Joel voltou para o trabalho eu me vi sozinha em casa com um bebê sem saber muito bem o que fazer. Eu não tive depressão pós parto mas estive perto, muito perto. Tenho certeza que teria sido diferente se tivesse minha família e minhas amigas comigo. Simplesmente porque lá não é tão complicado sair para dar um alô para o vizinho. Só depois de cerca de seis meses como mãe é que eu comecei a me sentir segura. Talvez esse processo tenha sido necessário, mas provavelmente teria sido mais curto.

De uma coisa tenho certeza: aqui é um lugar maravilhoso para ter família, crianças. Não tinha muita ideia do que seria meu primeiro ano como mãe, mas tenho algumas do que será daqui para frente.

E se fosse você?

Não é de hoje que ouço gente afirmar que a Europa está indo para o buraco por causa da imigração em massa de muçulmanos, africanos e “ciganos” – gente que não tem olhos azuis, é preguiçosa, quer viver a custa dos benefícios do governo e não contribui em nada para preservar o modo de vida “mais do que lindo” do velho mundo. Na Suécia, já ouvi muitos brasileiros e brasileiras afirmarem inclusive que odeiam ter que pagar impostos por para  “sustentar” essa gente.

Gente que buscou e ou busca a vida na Suécia pelos mesmos motivos que tanta gente (das quais recebo emails diariamente): qualidade de vida. É engraçado que, pela lógica do senso comum, esses estrangeiros vem mamar as tetas do governo e vão destruir o impecável sistema social sueco. Talvez eu esteja sendo ousada demais, mas qual é a diferença entre uma brasileira que muda para a Suécia e casa com um sueco e esses refugiados?

Legalmente, os refugiados recebem do sistema social sueco todo o tipo de apoio que uma pessoa em condições de miserabilidade de nacionalidade sueca receberia, com a diferença de que enquanto tem um status de refugiado sem visto permanente recebem menos bolsas do governo. Muitas brasileiras me dizem que a licença maternidade sueca é um sonho (e eu acho isso maravilhoso, que as brasileiras anseiem por esse modelo) e  que gostariam de usufruir desse direito. A maioria de nós, quando mudamos, viemos formar família e botar filho no mundo para usufruir desse sistema sueco  bom. Mas eu escuto com tristeza vindo da boca de muitas compatriotas que “essas somalianas mudam para cá só para ter filho e viver do social”.

Já repeti inúmeras vezes aqui o quanto é difícil conseguir emprego aqui. Conheço gente experta, com inglês, educação, anos de experiência, que mora aqui há tempos e não conseguiu emprego. Gente bem resolvida, que corre atrás mas ainda está trabalhando de tapa buracos. Se você não tem o domínio da língua tem que aprender, mas se você não sabe nem ler e escrever, acho que o caminho é um pouco mais longo.

Mas ninguém pensa nisso. Ninguém pensa que essas mulheres vieram muitas vezes de países onde o papel da mulher é ser mãe. Onde garotas não precisam e não devem estudar. Onde quem desafia essa lógica é punida com tiro na cabeça ou o estupro. Enquanto nós mudamos para a Suécia em busca do conforto ao lado de um companheiro sueco, aquelas mulheres fogem de realidades de intensa opressão. Apesar disso, assim que elas se sentem seguras em um lugar em que qualquer mulher do mundo gostaria de ter filhos, esse direito lhes é negado porque elas estão sobrecarrergando o sistema.

Eu também vim para cá sobrecarregar o sistema. Eu também recebo bolsa do governo para criar meu filho e provavelmente vou parir mais. Eu também pago imposto mas diferente de outras mães, não me importo que ele seja usado para apoiar o sonho de pessoas que até ontem não tinham nada. Se as somalianas, afegãs, iraquianas, “ciganas”, curdas, sírias ou qualquer mãe refugiada que vem parar aqui aproveita para ter crianças eu acho que está mais do que certo. E eu vou apóia las a continuar a ter o direito de ter quantos filhos quiserem.

Simplesmente porque eu não sei porquê eu nasci no Brasil, naquela família de mãe costureira e pai pedreiro. Não sei como é que se dá essa distribuição da cegonha. E se por um acaso eu tivesse nascido na Somália? Ou Afeganistão? Esse blog não seria sobre como se apaixonei por um homem lindo, vivi uma história de amor de cinema e casei num dia fantástico de verão. Esse blog (se eu pudesse escrever) seria sobre como eu tive que fugir da minha cidade porque meu marido sumiu e meus filhos estavam em perigo. Provavelmente minha história teria passagens assim:

“Minha casa foi destruída por uma bomba. Eu consegui fugir com minha família  e me esconder dos soldados que estavam matando aqueles que sobreviveram do ataque aéreo.”

“Eu tive que caminhar vários dias e noites sobre as montanhas, para cruzar as fronteiras longe dos postos de guardas. Não havia comida, apenas pão e água. Eu quase não tinha força para continuar”

“Nós fugimos pelo deserto do Saara. Foram duas semanas sentados na caçamba de uma pick up. Os atravessadores nos disseram para segurar firme, se alguém caísse da caçamba eles não parariam e não voltariam. Éramos muitos! A pick up atolava na areia o tempo inteiro, tínhamos que descer para empurrar. Depois tínhamos que voltar a subir muito rápido, pois eles apenas continuavam a dirigir”.

“Eu estava num barco para a Itália. Havia muita gente no barco. Era noite e ninguém sabia se realmente estávamos indo para o lugar certo. Quando nós avistamos a costa ficamos tão felizes! Mas aí algo errado aconteceu, e o barco começou a afundar. Eu nadei, nadei e nadei muito… vi pessoas morrendo do meu lado. Mães que gritavam pelos filhos que sumiam. Eu usei tudo o que pude para chegar a praia. Então desmaiei. Passei vários dias sem saber quem eu era e o que havia acontecido.”

“Eles (os atravessadores) me deixaram numa floresta com um pouco de pão. Me mandaram esperar uma semana que alguém viria me buscar. Eu tinha tanto medo! Não sabia se ficava ou se partia… se realmente podia acreditar que eles iriam voltar.”

Poderia ser eu. Mas eu nasci no país do carnaval e do futebol que muitos odeiam. Sim, o Brasil também é um lugar violento e eu felizmente não provei desse fel. Ainda assim, isso não me dá o direito de esbravejar minha falta de empatia pelo próximo que está ameaçando minha zona de conforto.

Já ouvi dizer que o preconceito tem crescido muito contra os haitianos que invandiram o Brasil. É uma pena. Pena porquê eles enxergam a beleza e a oportunidade em um país onde “os filhos que não fogem a luta” decidiram gastar seu tempo na internet para xingar o governo e reclamar por ter nascido no país do carnaval. É uma pena que a entrada de estrangeiros pobres no Brasil tenha derrubado a velha lenda do quanto acolhedor o Brasil é.

Enquanto todo mundo reclama da praga que os estrangeiros representam aqui e lá, eu apenas me pergunto: e se fosse eu?

E se fosse você?

4 anos de Suécia

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E ontem comemorei meus quatro anos de Suécia.
Sei lá se comemorar é a palavra certa. Quando eu mudei para cá achei que em quatro anos estaria voltando para o Brasil. E daí que eu não vou falar sobre a minha vontade de voltar para o Brasil porquê sempre está cheio de gente lendo um post desse blog que acha que me conhece e que sou no mínimo boba por querer sair do “bom” pra voltar para a zona do Brasil. O Brasil está mesmo uma zona e a responsabilidade por isso também é minha. Ao invés de ficar criticando veementemente o governo, eu deveria estar fazendo algo pela mudança. Mas eu não estou no Brasil, aí para muitas pessoas isso já tira o meu direito de achar qualquer coisa. Então eu vou ficar na minha e não vou discutir com estranhos a falta de responsabilidade civil e política dos brasileiros que ficam vomitando merda nas redes sociais  (ou fazendo passeata pelo impeachment)  e acham que estão resolvendo alguma coisa. Fim.
Nunca quis lançar raízes muito profundas por aqui, sempre imaginei minha estadia na Suécia como uma espécie de “passagem”. Agora eu vejo que não há como controlar o tamanho do meu envolvimento com esse país, principalmente por causa das minhas escolhas e do fato de ter tido um filho aqui. Por escolhas eu me refiro ao fato de que  fiz de tudo para me inserir o mais rápido possível e acho que me saí bem nesse intento: tenho um emprego na minha área, estou estabilizada com casa, marido e filho… isso me deixa muito mais ligada a Suécia do que eu poderia imaginar.
Isso me fez perceber que fiquei adulta aqui. Me assusta um pouco. Na verdade, assusta muito. Saí do Brasil sonhadora, muito inexperiente, mas cheia daquele vigor juvenil do
eu posso… o que foi positivo e me ajudou a vencer muita coisa aqui – mas é fato que também tive muita ajuda para isso.
Eu quero falar mais sobre isso, fazer uns comparativos tipo o que eu pensava versus o que penso agora, e deixar algumas dicas para quem está decidindo mudar (para a Suécia ou qualquer parte do mundo)…
Ah, estou suequizando. Isso também é louco, e eu também gostaria de falar mais sobre…
Mas  por enquanto, por hoje é só pessoal.

Coisas que você não sabe antes da gravidez

Essa coisa de internet transformou todo mundo em pac mens da informação: você entra no labirinto do google e começa a consumir zilhões de bytes em qualquer assunto do seu interesse e volta e meia topa com coisas bizarras que você gostaria de evitar. Ainda assim, estamos lá loucos comendo cada frase, torcendo para que encontremos algumas espécie de super poder no meio da nosso busca que nos torne aptos a enfrentar nossa própria ignorância – e capazes de devorá-la à Djavan.

Já faz um tempo que ando pensando em dividir coisas que eu descobri com a gravidez (garimpando o Google) que definitivamente não passavam pela minha cabeça. Primeiro, é cilada Bino! como diria uma Bruna que conheço. Você passa por um monte de processos fodásticos, sente dores esquisitas, ama e odeia o mundo em escala 9.7 richter pra depois ficar com cara de boba (e não só com a cara) a partir da primeira vez que o bebê mexe dentro de você.

Eu sei que há mulheres que não sentem nenhum romantismo pelo fato de estarem grávidas. Eu respeito vocês, de boa, mas… deixem que nós, que levamos uma rasteira dos hormônios e das emoções, fiquemos babamos e exaltando os desprazeres de carregar um barrigão. Prometo que vou deixar vocês falarem que gravidez é um saco e nem vou revidar – afinal, gravidez é uma coisa bem pessoal.

Por mais que eu tenha um bebê que foi querido e planejado, quem não estava definitivamente preparada para a gravidez era eu. No dia do teste eu senti um pânico absurdo, do tipo: lascou-se guria… agora é real. É o mesmo sentimento que dá quando sentamos naquele banco do vagão do carrinho da montanha russa: você sabe que tem medo de altura, você sabe que vai quase se mijar na primeira queda, que vai gritar o trajeto inteiro (no meu caso, eu grito muiiiiiittttooooo mesmo) mas mesmo assim… você senta lá e afivela aquela merda de cinto. Porque simplesmente uma vez que você fez isso, não tem volta. Não tem pedir pinico. É sinistro, mas é legal.

Eu passei a gravidez bem, sem maiores peripécias. Tem gente que vomita os bofes todo os dias. Eu passei alguns dias enjoada, mas nada muito grave. O que mais me pegou foi a parte emocional e a questão do trabalho mesmo… trabalhar com uma criança deficiente que é doente quando se está grávida não é lá uma combinação muito esperta. Sempre ouvi dizer que grávidas ficam emotivas, choram por qualquer coisa. Ou que ficam com uma TPM constante em que dá vontade de explodir o mundo. Mas não acreditava muito… parecia aquele papo de homem que gosta de ficar fazendo piadinha do tipo “todo mulher fica louca na TPM”. No meu caso, as duas coisas foram reais. Tinha pesadelos constantes, um medo absurdo de a minha criança nascer/ficar doente (acho que a deficiência, num país como a Suécia, é uma situação com a qual a gente pode trabalhar. Já a doença…) e uma raiva infinita de tudo relacionado a Suécia. Principalmente a escuridão. Até o Natal me incomodou. E o A. Mas o A e eu temos um caso de amor e ódio antigo… então não foi muita novidade.

A solidão natural do inverno sueco resultou em uma péssima combinação para esse maremoto emocional. Se você está pensando em engravidar e mora aqui, eu sugiro que vá para o Brasil nos meses de escuridão. Sol e calor fazem milagres. Família (se você tem uma que te ama muito) também. Eu só me recuperei do meu stress no Brasil. Foi lá que eu realmente comecei a sentir felicidade e paz em relação a minha gravidez.

Por causa da sobrecarga emocional eu tive dores lombares nos primeiros meses. Sabe aquela história de que grávida tem dor nas costas? Tem mesmo, e você não precisa esperar até o sétimo mês de gestação. Além disso, eu sempre tive gengivite como sintoma de TPM. Enquanto usava anticoncepcional esse problema foi controlado. Eu lembro de encontrar uma guria (aquela mesma Bruna) que comentou que grávidas deveriam ter atendimento odontológico gratuito na Suécia por causa do sangramento da gengiva. E eu hein? Sangramento? Da gengiva? Achei a maior dodeira. E é: depois de uma semana, lá estava eu com a gengiva hiper mega ultra inflamada. Nunca tive tanta dor na minha vida. A dor irradiava até o ouvido e metade da minha cara ficava dormente e latejando (tudo ao mesmo tempo). Depois de passar duas noites sem dormir, resolvi ir ao dentista – o que é uma coisa super cara aqui. Eu estava morrendo de medo de perder os dentes, tamanha a dor que eu sentia. Depois de uma consulta de 15 minutos, saí do consultório dentário R$120 reais mais pobre (isso foi apenas pela consulta, para ela ficar cutucando a minha gengiva duzentas vezes e fazendo sangrar e para passar uma pomadinha anestésica enquanto ela limpava – pasme – apenas um dente) levando um tapinha nas costas enquanto ouvia uma parada de “gravidez é assim mesmo; você fica sensível e acaba com gengivite. É normal que você sinta dor, que inflame, e que sangre. Escove bem os dentes várias vezes por dia e use essa coisa aqui com gosto super ruim e que vai te dar uma super dor de estômago 30 min após cada escovação”. Sorriso amarelo.

Outra coisa que chega quando quiser é a sensação de gelatina nos ossos, principalmente no quadril. Eu nem tinha barriga ainda e de repente lá estava eu perdendo os passos porque tinha a impressão que meu fêmur desencaixou. Que tristreza né?

E dor no umbigo… cara, o que foi aquilo? Acordei no meio da noite com a sensação de que minha barriga estava abrindo. Bem no meio. Bem no umbigo. Pânico!!!! Eu tenho uma relação especial com meu umbigo. Não gosto que mecham. Limpo sempre com muito cuidado. Sempre tive um pavor surreal de que se eu cutucar demais o umbigo vou arranjar uma hérnia que vai crescer e crescer até explodir. E daí vou ter que juntar as minhas próprias tripas que estarão espalhadas pelo chão envoltas em muito sangue para numa tentativa desesperada, colocar tudo de volta. E essa será minha última visão antes de morrer. Que história mais linda né? Imagina o que me passou pela cabeça quando acordei com dor no umbigo? Mais do mesmo, com a difenreça de que o meu bebê também estaria no meio de toda essa confusão de sangue e de tripas… Nada disso aconteceu (até agora), mas a sensação da dor no umbigo vai e volta (junto com a queimação na pele).

A última da vez é a dor nas costelas. Não estou falando de quando o bebê resolve por o pé bem pertinho do pulmão não e sim de dor nas costelas constante. Se eu sentei por muito tempo, dói. Se eu deitar apenas de um lado, dói. Tenho que virar para o outro até que comece a dor daquele lado e aí, mudar de posição… e vice versa até o infinito.

Mãe de primeira viagem, imagina se não enchi o saco de todo mundo com essas histórias um milhão de vezes. A minha parteira só suspira e repete que “se não há sangramento ou contrações, está tudo bem porque o corpo passa por muitas transformações durante a gravidez e esse tipo de desconforto é normal”. Ou melhor, todo esse leque infinito de desconfortos. Daí eu busco respostas no google, e em fóruns de mães, e não sei ao certo se isso é bom ou ruim, porque… fiquei sabendo que a gravidez pode (em casos raros) desencadear uma hérnia no umbigo. E que as costelas podem quebrar mesmo por causa da pressão dos órgãos e do bebê (em casos mais do que raros quando as mulheres são pequenas e os bebês grandões). Que você pode perder os dentes por causa da constante inflamação na gengiva. Isso tudo sem nem tocar no mérito da diabetes gestacional e pré eclâmpsia, ambas que aparecem assim meio do nada.

O bom mesmo dessa saga doida é o lado A das informações. Você descobre que é possível realizar o parto normal de um bebê que está sentado. Que cordão umbilical enrolado no pescoço não é sinônimo de cesárea (30% dos bebês nascem com o cordão em volta do pescoço e não há risco de sufocamento, como se diz no Brasil). Que episiotomia é desnecessária. Que bebês sonham dentro do útero materno. Que eles tem soluços. Que eles podem reconhecer músicas que ouviram durante a gestação já nos primeiros dias de vida. E que estar grávida é um barato muito maior do que andar de montanha russa…

Mas que dá um medo sinistro e vontade de gritar o trajeto inteiro, ah, isso dá.