Nomes bizarros suecos

Já que estou nos finalmente e todo mundo sempre pergunta nessa etapa da jornada se a pessoa/casal já escolheu como vai batizar a crianca pensei em dividir algumas opcões bizarras que existem por aqui. Quê? Achou que essa era uma exclusividade brasileira? Sinto informar mas o gene responsável para que um indivíduo seja sem nocão está presente na espécie humana em geral. :P

Peguei do site do Expressen (um jornal sueco que às vezes, bom… dispensa comentários) uma lista dos 23 nomes mais estranhos com que bebês foram batizados no ano de 2015 (que segundo o Expressen, saiu da central de estatísticas da Suécia – SCB):

– sete meninnas foram batizadas com [o nome de] Tequila (sendo que uma delas tem Tequila como primeiro nome!).
– uma guria com o nome de Svamp (que significa fungo/cogumelo).
– um guri como Skåne (região da Suécia…).
– duas meninas como Ragata (eu penso sinceramente que eles não se referem a palavra italiana).
– dois piás como Pucko (significa idiota).
– um piá como Potatis (me faz pensar naquela piadinha: o colono chega no cartório e diz “quero batizar meu filho de E-batata”; ao que o escrivão responde “não pode, porque E-batata não existe”. E o colono “Mas meu vizinho batizou o filho de E-milho!” Ha ha ha).
– Hitler. Para um menino, coitado.
– Oito meninas foram batizadas como Pung (saco escrotal, em sueco).
– Um menino, Fido.
– Duas gurias de Penna (no caso, caneta/lápis em sueco).
– Está em busca de algo unissex? Cinco gurias e quatro guris receberam o nome de Porsche em 2015.
– Outra opcão unissex: Munk, com a qual 61 guris e 39 gurias foram “contemplados” (que significa monge… mas também pode ser um docinho que lembra nosso sonho de padaria).
– E as opcões unissex não param por aí: Mcdonald para três meninas e dois meninos (um deles chama Mcdonald no primeiro nome).
– Kossa (vaca), para um piá. (seria boi, no caso? nãããão).
– Matta – unissex – para 31 homens e dez mulheres (significa tapete).
– Anus – aquele mesmo – para duas pobres gurias, como primeiro nome.
– Katt – nomes unissex estão com tudo – para dez meninas e três meninos (gato/gata).
– E mais um unissex: Majs [que se pronuncia mais] para quatro gurias e um piá (lembra a piadinha ali de cima da batata? Então).
– Gud (Deus) para uma menina sortuda.
– Balle, para meninos (1) e meninas (4) – eu não vou traduzir.
– Bärs, só para gurias – e são três (eu não tenho certeza aqui se se referem ao verbo carregar ou à gíria para cerveja…)
– Norrman, só para guris – foram quatro (homem do norte – mas isso é meio óbvio quando se nasce na Suécia).
– As, que deve ser a irmã da Anus, ou prima. Coitada. O significado é o mesmo, em todo o caso.

Em alguns casos a coisa é tão feia por aqui que os nomes são proibidos. Por lei. Alguns exemplos são Metallica, Ikea, General, Hallå, Q e HV 71. Mas personagens de ficcão e contos parecem ser permitidos, já que a Suécia tem:
– quatro Spiderman,
– nove Batman,
– sete Phantomen (Fantasma) e sete Guran;
– dois Superman,
– sete Zorros,
– quinze Frankstein,
– oito Yodas,
– dois Darth Vader,
– três Chewbacca,
– um Drakula,
– quinze Tarzans,
– três Skalman (a tarturaga da turma do Bamse),
– um Super Mario,
– um Megaman,
– uma Törnrosa (Bela Adormecida) e
– seis Snövit (Branca de Neve – faz sentido não?).

E pra fechar o post, quero avisar que nomes de filmes também funcionam como nomes na Suécia, tanto que tem um cara que se chama Hajen (Tubarão). Vai ver que a mãe dele é bióloga ou sei lá, o pai era fanático por esse clássico dos anos 80.

Não. A gente vai de algo normal mesmo. Tipo José.

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Proibida a entrada de crianças (mas na Suécia não)

Em meados de outubro uma guria de um programa de culinária no Brasil fez uma postagem no facebook elogiando a atitude de um restaurante brasileiro que proíbe a entrada de menores de 14 anos. Uma longa discussão se deu início, e um dos principais argumentos utilizados pela galera que acha essa proposta cabível é de que isso funciona na França, além de pontuar que as crianças francesas são infinitamente mais educadas do que as brasileiras e tem modos a mesa.
Eu nunca estive na França por mais de três dias e não tenho a mínima ideia de se essa história de que restaurantes fecham as portas para uma parcela da população seja realista – o que me parece bem burro, diga-se de passagem. Infelizmente já vi muitos textos de gente que acha aquele livro (crianças francesas não jogam comida no chão) sobre adestramento de crianças a última bolacha do pacote – normalmente gente que não tem crianças – e que acredita que na França tudo é como a autora do livro aponta: crianças francesas são extremamente educadas e não gritam a mesa.
Bom, tenho uma má notícia para quem é fã da Suécia e que adora o modelo francês: crianças suecas são u ó, como se diz lá de onde eu vim. Elas não vão apenas gritar a mesa e jogar comida ao chão, elas vão subir na mesa se quiserem e cagar na cabeça dos pais. Eu não sei se todo mundo compartilha da mesma perspectiva que eu, mas desde que mudei para cá tenho visto como essas criaturinhas são indomáveis nessas terras, e penso que talvez o último traço da barbárie viking se expresse justa na infância desse povo (que a partir da idade adulta não dá um pio, a exemplo das crianças francesas). Aliás, ao contrário do que se pensa a respeito da modo francês de educar os pequenos, a forma sueca de tratar a infância comunente é tratada como um experimento que deu errado porque veja bem, aqui as crianças tem direitos. Mas isso é um assunto para outro post.
Mas é importante salientar: a Suécia está infestada de pequenas pestinhas que tem poder, muito poder diga-se de passagem, sobre os pais. E o pior de tudo: aqui os restaurantes não proíbem a entrada de crianças. É claro que existem ambientes mais sofisticados aonde sutilmente se dá sugestão de que esse é um espaço reservado para adultos. Mas não há placas proibindo a entrada de crianças e adolescentes – não a menos que se trate de um pub ou uma espécie de taverna em que bebidas alcoolicas sejam servidas e aonde a questão comida fique em segundo plano. Aí sim há um aviso relacionado ao fato de que menores não são permitidos sem a presença dos pais.
De modo geral os estabelecimentos comerciais suecos querem ter o reconhecimento de serem espaços amigos da criança e contam com estrutura para receber desde bebês até… bom, principalmente bebês. Mas o cardápio, por exemplo, sempre traz uma sugestão para que a galerinha que ainda não aguenta um verdadeiro prato de comida e que normalmente não gosta dessas combinações que um adulto procura quando sai para jantar possa ser servido. O menu infantil pode nem ter nada a ver com a cara do restaurante – tipo um restaurante de peixes e frutos do mar que tem no menu infantil hamburguer – mas a ideia é que a crianca no caso possa ter uma opção para que os pais não deixem de frequentar aquele espaço justo porque a criança não vai ter o que comer.
Os cafés então são espaços maternos – e todo mundo sabe como essa história de “fikar” é importante na Suécia. Desde que me tornei mãe sempre que saio para a cidade encontrar uma amiga que também tenha filhos nós escolhemos cafés que tem a fama de serem “amigos da criança”. Isso porque sabemos que teremos espaço para o carrinho de bebê (ou um estacionamento seguro para deixar do lado de fora), cadeirões, um banheiro com trocador (essencial nos primeiros meses de vida) e todas essas coisas que crianças de colo precisam. Além disso sabemos que aquele ambiente vai ser mais acolhedor, que com certeza encontraremos outras mães naquele mesmo espaço com suas criaturinhas indomáveis aos berros e portanto, estaremos livres dessa gente chata que acha que criança tem que estar trancada em casa.
Porque é isso mesmo: sair com criança é uma loteria. Há dias em que eles estão tranquilos e felizes, vão sentar no cadeirão, deixar papai e mamãe conversar com os amigos enquanto comem o que estiver sendo servido ou simplesmente vão curtir a vista, olhando curiosos ao redor. Mas há dias… há dias em que um copo de água transforma sua criança em um verdadeiro gremlim, que vai gritar, jogar comida no chão, se contorcer no cadeirão, te bater se você segurar no colo e sair correndo a primeira oportunidade.
O que não é normal na Suécia é crianças serem bem vindas a casamentos, por exemplo, ou alguns tipos de festinhas mais íntimas. De todos os casamentos aos quais fui convidada acredito que apenas um deles não deixava claro no convite que apenas crianças de colo eram bem vindas. Eu reagi a isso de forma forte no começo, mas quando me casei fiz o mesmo. Um casamento a moda sueca tradicional é uma coisa um tanto chata e comprida até mesmo para adultos, um monte de gente fica fazendo discursos e homenagens aos noivos enquanto os demais convidados sentam e comem. Por horas. Tipo, meu próprio casamento teve um “jantar” de aproximadamente cinco horas. Nessas cinco horas foi servido o buffet, então nos prestaram homenagens, e mais homenagens, e mais homenagens, nesse ínterim os convidados poderiam repetir e beber; houveram mais homenagens, uma pequena pausa e então servimos o bolo, com café e mais bebida e mais homenagens e discursos. Todos esperam que enquanto os discursos e homenagens aos noivos acontecem os demais convidados estejam em silêncio. Aí se dão pequenos intervalos entre meio, quando você tem tempo de dar uma mijadinha ou dizer para a pessoa ao seu lado que a noiva está realmente bonita, para aí um novo discurso se iniciar e todo mundo fazer boca de siri. Chato. Bem chato. Extremamente chato quanto você não sabe a língua, se você não é íntimo dos noivos e não entende as piadinhas internas, ou se você tem menos de 20 anos. Dessa forma os noivos normalmente colocam no convite que crianças não são bem vindas porque as pessoas entendem que crianças precisam correr e brincar e que não vão ficar sentadas ouvindo o avô da noivo contar que ele gostava de pescar quando era pequeno. Sei lá se eu acho isso uma justificativa plausível, porque depois que virei mãe tive que escolher entre ir ou não a alguns casamentos. Escolhi ficar em casa quando senti que não queria arrumar alguém para ficar com o Benjamin para ficar sentada ouvindo homenagens para pessoas as quais eu não sou tão íntima, deixei Benjamin com alguém da família quando realmente quis participar de um momento especial na vida de amigos queridos.
Melhor seria ter deixado ele em casa sempre, e em qualquer circunstância?
Não, definitivamente. Acho que você não ensina nada a seu filho deixando ele à margem. Eu posso estar redondamente enganada, mas acredito que na Suécia a perspectiva de encontrar pequenos vikings demostrando toda a sua selvageria e barbarie em locais públicos seja encarada de forma natural porque as pessoas entendem que crianças são seres em desenvolvimento. Há espaços para crianças em restaurantes, em cafés, em museus, na biblioteca (a biblioteca da cidade de Gotemburgo tem uma área tão grande para crianças que é inacreditável) e assim as pessoas que não querem se “incomodar” com gritaria e birra de criança utilizam as outras áreas do mesmo serviço. Além disso eu tenho uma impressão que as pessoas são mais de boas com as escolhas alheias (dentro da perspectiva do lagom de ser) e que normalmente o pessoal anda em tribos. Tipo, a galera festeira vai se juntar para fazer festa até começarem a casar ou ajuntar, aí mais ou menos todo mundo casa, aí mais ou menos todo mundo tem filhos, e você vai seguindo a onda dominante dentro do seu próprio círculo de amizades. E isso é visto como natural, coisas da vida.
É claro que também existe a galera que quer uma placa em restaurantes proibindo a entrada de crianças – ou de forma mais radical ainda, dos pais que não são capazes de domar os filhos. Mas quem disse que a Suécia é um país perfeito?

Choque cultural – episódio 198765743

Não importa o quão rápido você se estabelecer e acredita se adequar ao seu novo país, volta e meia você leva umas na cabeça e passa pelo ET de Varginha.

Com a rotina nova chegando também chegou a hora de botar o piá na escolinha. Pelo que vi por aí a Suécia é referência internacional em educação infantil mas aqui… as matérias que você lê nos jornais a respeito dos centros de educação infantil são de fazer cair os cabelos de um careca. Pais e professores tem listas enormes de reclamações… por sorte, aqui perto de casa tem uma escola para menores de seis anos que tem uma boa fama.

Eu queria – ainda assim – botar o Benjamin numa escola particular que é uma cooperativa de pais. Já havia lido a respeito no blog da Cíntia que atualmente mora em Oslo e nossos vizinhos tem a criança deles lá então achei que seria bacana tentar uma vaga para o Ben na mesma escola mas… não há vagas.

Para conseguir vagas nos centros de educação infantil mais concorridos é sempre necessário inscrever a criança com bastante antecedência. Há rumores de que o tempo de espera na fila de vagas pode ser mais longo do que um ano na capital. Aqui a coisa gira em torno de seis meses. Em todo o caso, não sou o tipo de pessoa que ganha um oscar no quesito planejamento, então o Benjamin está na fila para a escola privada (a cooperativa de pais) mas está fazendo sua adaptação na escola pública.

Antes de continuar a história vou contar que todos os centros de educação infantil cobram uma mensalidade dos pais. Essa mensalidade é baseada na renda mensal da família (no caso de escolas municipais) ou do que a escola acha razoável  (no caso das escolas privadas). O engraçado dissi tudo é que algumas escolas privadas tem uma mensalidade mais barata do que as municipais, vide o caso dessa cooperativa de pais a qual eu estava interessada.

Pois bem, você faz a matrícula online e informa a partir de que data a criança precisa começar a frequentar o centro de educação infantil. Eles te enviam uma cartinha pelo correio e dá se início a uma troca muito louca de correspondência, porque apesar do processo começar online você precisa reenviar todas as informações  (as mesmas que você preencheu naquele formulário da web) num papel assinado (de certo para provar que você é uma pessoa real e não um vírus). Depois que o ritual de apresentação e matrícula se completa você é convidado a conhecer as dependências da escola. É normal que os centros de educação infantil promovam duas ou três vezes por ano uma confraternização que é aberta a todos os pais que tenham interesse em buscar vagas para seus filhos num futuro. Mas a gente é chamado mesmo assim para ser apresentado oficialmente à escola, receber mais papel que explique todos os paranauês referentes às responsabilidades dos pais e das crianças e dos professores, a lista de materiais etc (que no caso da educação infantil sueca se resume a fraldas e roupas a prova de água e vento para que a criança possa brincar quando chove ou neva e as temperaturas estão em 23 negativos) e o processo de adaptação.

Existe disso no Brasil, período de adaptação da criança à escola? O objetivo é preparar a criança para a nova rotina. Então os pais vão ao centro de educação infantil com a criança e ficam lá para que ela vá se acostumando com o ambiente novo, vá conhecendo os coleguinhas e professores enquanto a mãe e o pai (ou apenas um dos dois) está presente. Esse processo dura em média duas semanas, mas pode ser mais curto ou mais longo.

Eu perdi a reunião de apresentação da escola por causa do trabalho mas li toda a papelada referente a adaptação – uma vez que eu estou de férias entre um trampo eu vou fazer isso com Ben. Mas é foda. É muito estranho deixar um filho com pessoas desconhecidas. As professoras parecem gente boa – são três – nenhuma das crianças lá tem quatro olhos ou três braços – são 13 – mas dá um frio na barriga, uma coisa super ruim. E é aí que meu problema começa.

Culturalmente os suecos querem e prezam pela formação de indivíduos independentes. Isso já a partir do primeiro ano de vida. Tem mãe que jura que o filho faz a própria mamadeira quando completa 12 meses. Eu não me importo que Benjamin seja dependente porquê pra mim ele é UMA CRIANÇA E CRIANÇAS SÃO SERES EM DESENVOLVIMENTO, logo, dependente. Inclusive – e o mais importante – dos pais.

Aí o diálogo que me faz ver o mundo tipo como se eu estivesse num episódio de star wars:

– Seu filho só vai começar a confiar na gente quando você deixar ele sozinho aqui. Então hoje você saia por favor uns 10 minutos para caminhar.

– Certo. Se ele não chorar eu saio.

A professora da escola me olha como se eu tivesse antenas na cabeça.

– É  normal eles chorarem. Faz parte do processo.

– É, provável. Mas eu não quero sair se ele não se sente seguro.

Ela repetiu o mesmo e eu desisti. Pra mim é óbvio que crianças chorem. Choram porquê tem medo, sono, fome, pra mostrar que não querem que algo aconteça. Então se eu quero que meu filho se sinto seguro eu não deveria escutá-lo e parar? Ficar e dizer olha meu bem, está tranquilo! Afinal, estamos no terceiro dia do período de adaptação. Pra mim deixar ele na porta da escola chorando e dizer “tchau agora eu vou”, ver ele chorar e ignorar é tipo botar no berço, deixar sozinho e dizer que vai acostumar a dormir sozinho, vai chorar mas vai aprender. Vai aprender que a mãe abandona. Mais tarde eu conversei sobre isso com uma pessoa, sueca, e ela também me olha como se eu tivesse antenas na cabeça e fosse azul. Tipo… seu filho vai sempre ter o que quiser de você porque vai aprender a te dobrar chorando! Sério, uma criança de 19 meses que fala frases de duas palavras chora para me manipular?

Sei lá se toda mãe brasileira pensa assim, mas nessas horas me sinto tão fora dos padrões, tão longe do que essa galera aqui entende por maternidade… ou no caso, essa professora em particular. Eu acho que tem que haver respeito para com o tempo da criança – e da mãe também – porquê é um processo difícil.

Se há tempo – duas semanas para se acostumar – por que forçar a barra?

Não to entendendo.

Em tempo: eu disse tchau para o Benjamin e saí por 15 minutos e ele estava bem feliz tanto quando saí como quando voltei. Melhor assim né?

Tagarela

O Benjamin vai completar 15 meses essa semana. E está um tagarela.

Aí eu comecei a pensar em quanto me preocupei com isso antes. Tanto durante a gravidez quanto nos primeiros meses de vida do Ben eu imaginava como seria esse momento e lia e lia muito sobre o assunto. Achei dicas ótimas, e comecei a seguir um site em específico (filhos bilíngues, googla aí) aonde encontrei muita coisa boa. Mas eu tenho que confessar que a melhor coisa que me aconteceu foi conhecer uma guria que mora em Stockholm (e que é fono) que compartilhou muita coisa interessante sobre a exploração da fala por bebês e ajudou a desmitificar algumas coisas.

Por exemplo, há quem afirme que crianças bilíngues demoram mais para começar a falar. Na verdade, esse padrão não foi confirmado cientificamente. Há bebês que desenvolvem a fala cedo e outros nem tanto, e isso é uma questão do desenvolvimento individual da criança. Eu acredito que o meio no qual o bebê cresce influencia muito também, assim como a própria personalidade da criança. Mas essa coisinhas também não são comprovadas cientificamente.

Daí, pra encurtar a história, Benjamin “fala” muito. Ele balbucia o tempo inteiro e ainda que a gente não entenda o que ele diz, esse é um sinal explícito de que ele está desenvolvendo a fala. Segundo, ele tem um vocabulário de aproximadamente 20 palavras (dessas que a gente entende), o que para um bebê da idade dele é bastante (o esperado seria uma média de 8 palavras aos 18 meses). Algumas palavras ele fala tanto em português como em sueco (mãe/mamma, papai/pappa, água/vatten, olha/titta, lá/där [inclusive olha lá/titta där, que soa mais como ulalá], oi/hej, banho/bada e bola/bolen), outras palavras ele fala apenas em sueco (borta, titt ut!, nej, den, oj, tack, hej då, gunga, vad är detta? – sumiu, achou!*, não, isso [em sueco informal] ai e nossa!, obrigado, tchau, balanço/balançar e – a única frase até agora – o que é isso?); e algumas palavras ele inventou como por exemplo “nenenenene”, que significa tanto ele mesmo como não quero e algo está errado. Sem falar  outras coisinhas, tipo dindu (que seria ding dong) e bam. E quase ia me esquecendo, a única palavra que ele fala apenas em português: oba!

Se há algum segredo por trás do nosso “sucesso” na questão da fala do Benjamin? Acho que tanto eu como o pai dele somos tagarelas natos. A gente é muito  verbal e fala o tempo todo um com o outro, em reuniões de família, com os amigos e mesmo quando estamos sozinhos com o Benjamin. Outra coisa que acho que fez muita diferença é que aprendi com a minha mãe desde cedo a conversar com o bebê, acho que essa é uma característica bem marcante em algumas famílias brasileiras e ela (minha mãe) sempre me disse em todas as conversas por skype que tivemos nos primeiros meses de vida do Benjamin pra conversar com ele todos os dias, cantar muito, etc. Não que eu queira me dar os parabéns e sair por aí gritando aos quatro ventos que eu tenho um bebê bilíngue e que “olha só como sou experta, faça como eu fiz e o sucesso é garantido” porque não é assim tão simples. Benjamin parece ser uma criança extrovertida, e isso faz toda a diferença afinal, se ele fosse tímido, provavelmente ele saberia todas essas palavras mas não falaria muito – ou não falaria nada – e eu não estaria aqui me gabando.

De modo geral eu gostaria de incentivar pais brasileiros residentes no exterior a falar português com suas crianças porquê, se por um lado o fato de o Benjamin começar a se expressar tão cedo não é mérito meu, o fato de ele falar português é. Eu falo português com o Benjamin, meu marido também fala português com ele mas quando os dois estão sozinhos é apenas sueco (vale lembrar que eu trabalho 40h por semana e que nos últimos seis meses Benjamin ficou em casa com o pai). Ultimamente percebo inclusive que mesmo quando estamos nós três cada vez que o Joel se direciona ao Benjamin em específico ele fala sueco, assim como eu sempre falo português com o Benjamin quando estamos entre outros adultos mas eu me dirijo exclusivamente a ele. O vocabulário dele em sueco é maior do que o vocabulário dele em português mas seria um tanto estranho se fosse o contrário uma vez que eu falo sueco quando todo mundo fala sueco ao redor da gente, a gente mora na Suécia e convive com suecos quase que 100% do tempo. Mas quando o Benjamin me diz algo em sueco eu repito o que ele disse em português. Inclusive eu tive que me policiar para fazer isso porque parece meio fácil só repetir o sueco.

Acho que é fácil desanimar quando se está fora do Brasil e não se convive muito com brasileiros (foi uma escolha minha para que eu aprendesse sueco mais rápido) ou quando o parceiro não fala português (tem muita gente que fala inglês em casa), mas o esforço vale a pena. Além do mais, se o Benjamin não falasse português seria um tremendo tiro no pé pois além de ele não poder falar com meus pais, o sueco é apenas a 91a língua mais falada no mundo (quando o português ocupa a 6a posição). Suecos aprendem inglês por necessidade extrema mesmo, já pensou se não fossem bilíngues?

Guardei para o final a coisa que acho mais fofa nesse mundo, que é a palavra mais longa do vocabulário do meu anjinho: Menhamin.

*o titt ut é usado naquela brincadeira do “cadê? achou!”, o pekaboo do inglês.

Amamentação no trabalho

Tô de férias e vou tentar escrever algumas coisas que comecei há muito tempo, nunca terminei e nunca publiquei. Há uma grande chance de este ser o único post em meses de novo, há tempos o blog deixou de ser uma prioridade. Pra falar a verdade, prioridade na minha vida tem sido Benjamin, depois ele de novo e em terceiro vem o Ben. Nada que a galera por aqui não tenha notado.

Sou uma mãe galinha muito apegada. Essa semana chorei muito por causa da foto do menino sírio afogado na praia… a forma como ele estava deitado, aquela inocência gritante tão explícita no rosto das crianças quando dormem. Por um lado ele é tão parecido com o Benjamin! Ele dorme com a “bunda virada para a lua” naquela mesma posição, com a enorme diferença que ele está envolto por um mar de cobertas em uma cama macia. E o Benjamin vai acordar…

Pensei muito em tanto perrengue que a gente passa como mãe e resolvi contar um pouco da minha experiência em voltar para o trabalho e continuar amamentando. Primeiro, eu queria voltar para o meu trabalho e isso é um privilégio: ter um trabalho que a gente gosta e paga bem, no qual os horários de trabalho são compatíveis com a criação de filhos não é uma realidade e sim uma exceção. E dois: tenho o privilégio de contar com o fato de que o Benjamin tem um pai que se comporta como tal e não foge das responsabilidades. Eu já disse aqui que acho que nós mulheres temos que aprender a deixar os pais serem pais, mas não quero dizer com isso que toda mulher tem que trabalhar e largar a cria com o marido. Tem ótimos exemplos aqui de mães que não trabalham mas dividem a responsabilidade da criação dos filhos com o marido, se você quiser umas dicas passe no blog da Débora por exemplo (mulher de fases), ela fala bastante sobre os meninos dela e dá pra ver nas entrelinhas como o senhor marido sempre está participando.

Ao ponto… voltei ao trabalho quando Ben tinha oito meses. Minha pretensão de mãe hippie é amamentar forever até que o Benjamin desmame sozinho mas eu tive muito medo de que ele fosse largar o peito quando eu comecei a trabalhar. Então se você está na mesma situação eu digo: calma! Canalize a preocupação para traçar um plano de como é que você vai resolver a ordenha do leite no trabalho.  No meu caso levei para o trabalho uma bomba de tirar leite, comprei uma pequena bolsa térmica e potes de vidro de 150ml. Eu li em algum lugar que deveriam ser de vidro para facilitar a limpeza e esterilização, mas as tampas não devem ser de metal. Enfim, não é necessário comprar potes especiais, eu fiz isso porque tenho condições, mas a maioria dos potes de conserva funcionam muito bem para o mesmo fim. No caso da bolsa térmica é meio importante porque eu passo quase três horas no trânsito até em casa (há, pensa que é só noBrasil que a galera leva três horas até o trampo? Prazer, meu nome é Maria e eu moro na Suécia) então não dá pra só tacar o leite numa bolsa e de boas. Eu recomendo realmente investir numa malinha dessas.

Benjamin é tipo um bezerro e ta mamando toda a hora que me vê. Eu fiquei muito encucada antes de me separar dele. Foi um sofrimento! Eu não tinha idéia de como seria minha produção de leite longe dele. Eu trabalho em regime de plantão, tenho dois plantões de 24h por semana. Então contando as 3h para ir e mais 3h para voltar seriam 30h separados. Eu não sabia quanto vezes precisaria ordenhar também. Armazenamento não seria problema porque temos uma cozinha para o pessoal no trabalho, e a ideia foi sempre ordenhar e congelar o leite.

Eu nunca cheguei a pedir permissão para minha chefe. Talvez porque ela seja mulher, talvez porque eu sempre entendi isso como um direito meu e ponto. Da mesma forma eu comuniquei minha colega de trabalho na época e perguntei a ela se ela tinha alguma observação, ao que ela respondeu com um “é claro que não! Meu Deus é óbvio que você pode e deve ordenhar leite para seu bebê. Não tem nenhum problema. A gente dá um jeito!”

E foi aí que o problema começou.

Minha colega, apesar de mulher, apesar de dizer que não era problema algum e de afirmar que a gente daria um jeito começou a me atazanar de todas as formas possíveis. Eu percebi que eu precisava ordenhar com um intervalo de 6h para não ficar com os seios explodindo de leite, e que também precisava de cerca de 30 minutos para não machucar os seios (se você usa a bomba a todo vapor os bico dos seios podem ficar bem doloridos, machucados até) mas a criatura sensível lá fazia de tudo para me atrapalhar. Precisava de mim no exato minuto que eu colocava as minhas mãos na bomba de leite, e se eu conseguia fugir e começar a ordenha ela ficava gritando, batendo na porta e perguntando quando eu estaria pronta. Cheguei a ficar horas com os seios tão cheios que empedravam, e tinha tanto stress durante a ordenha que o leite não saia todo. Aí quando voltava para casa sofria um  dia inteiro até que o Benjamin sugasse todos os “caroços de leite”. Havia dias em que eu ficava com marcas azuis nos seios.

Depois de um mês e meio sofrendo na mão da maluca fizemos um rodízio de pessoal e comecei a trabalhar com uma pessoa sensata. Depois disso nunca mais tive problemas com a ordenha por causa da insensibilidade de um colega de trabalho. Há dias mais corridos em que eu não consigo fazer a ordenha direito, mas é por causa do fluxo de trabalho mesmo e, para minha sorte, agora já não é preciso ordenhar com essa frequência de 6h de intervalo, oito ou nove horas funcionam bem.

Acho que o corpo muda, a amamentação muda conforme a criança cresce e a gente se acostumou a essa rotina, tanto eu como Benjamin. Sempre que chego em casa após um dia de trabalho Benjamin gosta de tirar o atraso e mamar muito então eu também já aprendi que não posso fazer planos para assim que chegar em casa. Sempre tenho que reservar ao menos uma hora para nós, comer bem e beber muito líquido.

Gostaria de deixar algumas dicas práticas mas o que me vem a mente é que cada situação é especial. De modo geral, tente se preparar psicologicamente de forma positiva. Sempre dá um frio na barriga mas tanto a mãe como a criança tem capacidade de se adaptar à diversas situações diferentes. Segundo, tente traçar um plano, analisando o que você precisa para realizar a ordenha, se há possibilidade de armanezar o leite no local de trabalho etc. Terceiro, tente ser um pouco cara de pau com seu chefe. Infelizmente, sei que a maioria das mulheres tem condições muito precárias de trabalho, mas não peça permissão para fazer a ordenha, apresente uma proposta de como fazer da ordenha parte do seu dia mostrando que isso é importante para seu desempenho no trabalho. Não dá para trabalhar bem com peitos explodindo de leite. Tente mostrar ao seu chefe as implicações positivas disso. E na medida do possível ignore colegas insensíveis.

É difícil. Tenho consciência de que mesmo eu contando com muitas facilidades passei por momentos de desânimo e me questionei se conseguiria continuar e se valia a pena. Até agora valeu. Mas eu acredito que a amamentação é mais do que alimentar uma criança, amamentação é parte da relação mãe e filho e para funcionar os dois tem que estar bem. Se a mãe está sofrendo muito com a amamentação precisa de ajuda, de apoio, talvez de um novo plano ou porque não, talvez seja o momento de parar. Na minha balança o lado da satisfação sempre pesou mais do que o lado do sofrimento.

Desejo boa sorte a todas mães que trabalham e amamentam.

Trilha Sonora

Benjamin fez um mês ontem.

Passei por uma transformacão louca na minha vida (desculpe, esse teclado não tem cedilhas, vou assassinar um pouco o português). Descobri duas coisas: um texto maravilhoso publicado hoje (ontem?) no blog Potencial Gestante que diz muito do que aconteceu comigo nesse um mês e, bem, tenho que aprender a fazer posts de cinco minutos se ainda quiser ter um blog.

Vou emprestar aqui um trecho das belas palavras da Luiza Diener (texto completo aqui) e depois deixo para vocês uma das músicas que compõe a trilha sonora da minha vida atualmente…

você sonhou com esse bebê. planejou, aguardou e quase não se continha de ansiedade quando, ainda na barriga, ele te fazia pensar em seu rostinho, seu cheirinho, suas mãos e pés tão pequenos. você pensou no enxoval, no quarto e mínimos detalhes para a sua chegada.
talvez, porém, essa criança não tenha sido planejada, mas foi igualmente amada e querida por você.

algumas pessoas quiseram te ajudar, afinal, antes de termos nosso primeiro filho, esse mundo é totalmente desconhecido para nós e ajuda é sempre bem vinda, especialmente daqueles que nos amam. não faltam livros, pediatras e conselhos para te auxiliar especialmente nesse primeiro momento que, dizem, é tão difícil.
chega o grande dia: nasce o bebê! você se alegra, se emociona, tira foto e mostra para todo mundo. no hospital te ajudam a dar banho, trocar fralda. você está imersa em felicidade.
aí vocês vão para casa. tudo parece um sonho. aquele quartinho finalmente terá um neném para ocupá-lo e o berço – que talvez antes estivesse cheio de roupas, pacotes de fraldas e outras tralhas – agora está prontinho para receber seu pequeno rei ou rainha.
mas algumas coisas começam a acontecer diferente do esperado. aquela doce criatura que antes só dormia começou a acordar, a resmungar, a chorar. e como chora! você se questiona se está tudo bem com ele, tenta de diversas maneiras acalmá-lo. será fome, frio, calor, fralda suja? será que ele sente dor?
dá o peito“, diz uma mãe mais experiente.  “bota um agasalho“, fala sua avó“dá chá” “dá água” “dá chupeta” “dá remédio”. nada adianta. “deixa chorar. isso daí é manha”, alguém conclui.

cada um diz uma coisa, mas ninguém está ali na hora do vamos ver para te ajudar.
então chega a noite e, quando você finalmente pensa que vai descansar, a bagaceira começa.
acorda, troca a fralda, mama, faz cocô, quer mamar de novo, dorme, acorda novamente e o ciclo parece não ter fim.
um, dois, dez dias se passam e a privação de sono começa a te afetar. você bota pomada antiassaduras na escova de dentes achando que é creme dental, confunde desodorante com bom ar, corre pra acudir o bebê que está chorando e de repente se toca que era somente o cachorro do vizinho latindo.
sua relação com seu companheiro já não é mais a mesma desde a gravidez, mas agora parece estar ainda mais afetada: o sono, o resguardo, a irritação e no fundo no fundo parece até que ele está com ciúmes desse bebê.
um furacão passou e tirou tudo do lugar e agora sua vida está completamente revirada. nem você se reconhece mais. vontade de chorar, de dormir três dias seguidos, de sumir do mapa. sentimento de culpa te invade por estar se sentindo tão estranha na época que era pra ser a mais linda da sua vida.
é uma montanha russa de emoções porque, se por um lado você se sente a mulher mais feliz do mundo por ter seu bebezinho tão perfeito ali, por outro parece que você não consegue curtir nada direito.

será que um dia as coisas vão voltar ao normal?
será que um dia eu vou dormir outra vez?
e como vai ser quando eu voltar a trabalhar?

Essa loucura toda faz muito sentido nas palavras de Renato Russo:

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez

Vem cá, meu bem Ben, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.

(…)

Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor

Acho que esse será um caminho longo: copiei e colei e nem assim consegui fazer um post em cinco minutos!

Pré Natal na Suécia #03

É interessante perceber como o interesse pelo blog diminuiu brutalmente depois que anunciei a minha gravidez. Acho que o público do blog vai mudar e, enquanto isso, eu também vou ter que me decidir sobre o que é que vou continuar – ou não – escrevendo.

Há algum tempo atrás compartilhei as minhas primeiras impressões sobre o pré-natal na Suécia (post aqui e aqui). Como mãe de primeira viagem, estrangeira e etc e tal me senti bastante insegura. Além disso, o lance de ser atendida por uma enfermeira obstetra (aprendi o nome correto da profissional) ao invés do médico me deixou bastante confusa. Mas quando eu estive no Brasil fui a uma consulta com o médico e percebi que também saí do consultório apreensiva. O que me levou a concluir que meu causo é apreensão mesmo e não qualquer outra coisa (todo mundo já sabia, menos eu).

Depois da viagem ao Brasil encontrei com a enfermeira obstetra três vezes. A partir da 35a semana de gestação as consultas ficam mais frequentes. Na última delas fiquei sabendo que o bebê já está encaixado. Lindo né? E ela fez um exame manual, sem ultrassom. Essas enfermeiras são treinadas de modo que elas sabem identificar a posição do bebê por meio do toque e massagem na barriga da gestante. Em caso de dúvida aí sim o ultrassom será marcado.

Identificar a posição do bebê na semana 35 ou 36 de gestação é procedimento de rotina aqui. Normalmente a criança “encaixa” mais ou menos nesse período. Às vezes o bebê pode “virar” até no último minuto antes do parto. Mas aqui o procedimento é o seguinte: se durante esse exame a enfermeira obstetra identificar que a criança está sentada a grávida fará um acompanhamento semanal até a semana 37 para ver se o bebê encaixa. Caso isso não ocorra é marcado um procedimento durante a semana 38 em que, com a ajuda de algumas drogas que deixam o útero maleável, um profissional obstetra ajuda a criança a posicionar-se de cabeça para baixo. Umas das suecas que eu conheço passou por esse procedimento. Segundo ela, a mulher fica deitada em uma maca com a cabeça levemente mais baixa que o resto do corpo. A equipe de trabalho aplica a “droga” e você se sente meio anestesiada, com o corpo formigando. Um tanto tonta também. Então a enfermeira obstetra faz uma massagem na sua barriga, e fica massageando até que de repente usa um movimento mais seco para “virar” o bebê. Isso dói e é fácil ficar enjoada (não sei se por causa da droga ou por causa do procedimento). Durante todo o retetê o bem estar da mãe e criança estão sendo controlados por aqueles aparelhinhos e seus bips. Tudo isso dura menos do que 20 minutos mas o procedimento todo leva basicamente um dia pois é feito ultrassom antes e depois da intervenção e, além disso, tanto a droga aplicada quanto o movimento de massagem podem desencadear o parto, então eles ficam com a mulher sobre observação (e é também por causa disso que esse trem não é feito antes da semana 38 de gestação).

Eu não vou ter que fazer nada disso e fiquei com um sentimento de satisfação gigante quando a minha parteira me disse que ele estava de cabeça para baixo e bem encaixado. É claro que o bebê pode virar e resolver sentar no último minuto, mas é de praxe que a mulher seja submetida a um ultrassom quando chegar a maternidade (se houver suspeita de que o bebê está sentado). Nesse caso não sei se eles apenas “viram” a criança ou se rola a cesária. Só sei que parto pélvico não rola por aqui.

Durante essa fase da reta final é comum que os pais sejam convidados a participar de uma série de cursinhos. Como a gente estava no Brasil (e eu acho que minha parteira me esqueceu) não vamos participar do curso de pais – que é tipo um curso sobre parto e sobre os primeiros dias com o bebê. Eu tive uma aula particular sobre amamentação – isso porquê eu suspeito que minha parteira ficou com dor na consciência após perceber que nos esqueceu – do contrário iríamos eu e o Joel também participar de um curso para pais que é sobre amamentação. O que fizemos juntos foi uma aula de apresentação da maternidade, onde uma enfermeira obstetra muito engraçada falou sobre o parto, explicando tintim por tintim todos os procedimentos disponíveis no hospital, como é o quarto, como funciona o atendimento, o que os pais tem direito e  bla bla bla.

Eu perdi metade da aula porque estava no trabalho e justo naquele dia meu trem atrasou. De toda forma, Joel estava lá e disse que a primeira parte foi mais ou menos uma repetição do que já estamos aprendendo no curso de parto natural (que é particular e já já explico). Duas coisas que não são legais sobre o parto aqui na Suécia: 1. eu não sei aonde vou parir – quando o trabalho de parto começar eu tenho que ligar para a central de partos e eles me dirão se há vagas no hospital mais próximo da minha casa e, em caso negativo, nós teremos que optar por outro hospital fora de Göteborg*; 2. a parteira ou melhor, enfermeira obstetra que me acompanhará no parto não é a mesma que fez meu pré natal. Na verdade, os hospitais tem suas próprias equipes e quem atende as parturientes são as equipes de plantão. O lado positivo disso é que as equipes devem contar com profissionais que tem diversas habilidades, entre elas até acupunturistas. Chique né? Ao menos na teoria as enfermeiras obstetras aqui incentivam as parturientes a utilizarem práticas alternativas para diminuir a dor e a tensão na hora do parto. Na prática eu sei que às vezes o carro entra na frente dos bois, em especial em épocas como essa em que todo mundo quer tirar férias. Sim, a temporada de férias na Suécia vai de junho a agosto e isso significa que se eu pegar uma equipe completa no hospital terei ganhado na mega.

Pois bem, além disso há banheiras disponíveis no hospital – para um banho quente, não perguntei se é possível parir na água (claro que é, mas não sei como é que a gente faz esse requerimento); cada quarto tem seu chuveiro – caso a mulher prefira o banho quente; bolas de pilates; gás do riso e acupuntura (além dos demais anestésicos de praxe); e… esqueci. Pá é tanta coisa que a gente fica meio tonto de informação. Só sei que cada quarto de parto é super equipado com tudo que é necessário para que o trem se transforme numa sala cirúrgica em dois três se necessário, sendo que a mulher tem o direito de ter consigo o/a parceiro/a e uma doula durante todo o trabalho de parto. De forma geral, há muita liberdade e se você quiser ficar andando para lá e para cá pode, assim como se você só quiser ficar deitada na cama olhando o teto pode também.

Uma coisa que achei engraçada é que na listinha que eles nos dão para ajudar a fazer a mala da maternidade estão entre os itens indispensáveis telefone celular, máquina fotográfica e uma lista de músicas que você goste (segundo a parteira palestrante, às vezes a equipe sofre muito com listas que são uma verdadeira rave ou um show de hard rock… fazer o quê?). Além disso eles encorajam o/a parceiro/a a levar um livro e comida para si mesmo. E chocolate e chips para a parturiente! Não é proibido comer durante o trabalho de parto mas a parteira comentou que a maioria das mulheres fica tão nervosa que não consegue comer. Aí ela recomendou bater uma marmita de pedreiro assim que sentir que o trabalho de parto começou.

Enfim… estava falando do curso de parto natural: iniciamos o curso em a abril, logo após chegarmos do Brasil. Seriam quatro encontros para trabalhar respiração, tirar dúvidas sobre o processo do parto, para aprender a relaxar, para que o Joel aprendesse macetes de massagem, enfim, técnicas para ter um parto mais feliz. E tudo isso na faixa, já que é uma amiga da mãe do Joel que nos estava fazendo esse favor. No dia do segundo encontro, a mulher quebra o braço e com fratura praticamente exposta (só não rasgou a carne mas o braço virou um U). Moral da história: ficamos sem o curso de pais lá do posto de saúde e provavelmente ficaremos sem o curso de parto natural, uma vez que a senhora lá teve que fazer uma cirurgia, coitada.

Apesar disso, me sinto bem relax com relação ao parto. Eu infeliz ou felizmente não sou daquelas que pira o cabeção. Na verdade, sou relaxada demais: enquanto tem grávida que fica escutando música clássica desde o quinto mês de gestação para incentivar o desenvolvimento da cria (ao contrário, dia desses eu e Joel estávamos ouvindo hip hop!) eu nem estou lendo para o Benjamin. Ok, eu fiz isso algumas vezes. Mas não fiz yoga para grávidas, tirei uma foto da barriga a cada mês, fiz um diário de gestação ou coisas do tipo. Estou vivendo normal… acho que estou tentando aproveitar porque sei que logo logo minha vida vira de pernas para o ar.

Num domingo de sol

Num domingo de sol

*Sobre os hospitais: Göteborg tem dois, o Salhgrenska Universitetet e o Östra Sjukhuset, mas há um terceiro que fica na cidade vizinha (que é colada em Göteborg) chamado Mönldal Sjukhuset que faz parte desse grupo. A maternidade do Salhgrenska foi fechada há alguns anos então, no caso só há dois hospitais com maternidade em Gotis. No caso deles estarem lotados, temos a opção de nos locomovermos para Trollhätan ou Varberg, ambas a cerca de 1h de carro daqui.

Dedinhos cruzados…