Licença parental

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Essa barriga não é minha. Tirei ela daqui

Essa barriga não é minha. Tirei ela daqui

Chega de mimimi nesse blog e vamos partir para algo mais sério: a licença parental sueca, o chamado föräldraledighet (föraldrar= pais, ledighet=folga e aqui no caso, licença) por meio do qual os pais do bebê (recém nascidos ou quando de uma adoção) recebem o salário parental (=föräldrapenning).

A licença parental sueca tem uma série de fatores bem únicos e é a mais longa (do mundo) atualmente. Eu estou meio avoada e está difícil organizar o pensamento, então decidi colocar a informação por meio de pontos:

* Na Europa, a licença maternidade deve ter no mínimo 14 semanas. Na Suécia, os pais da criança tem o direito de curtir 480 dias de licença. Não, você não está vendo coisas: os pais residentes em solo sueco tem direito a tirar 480 dias de licença parental.

* O direito aos 480 dias de licença não significam que os pais devem tirar a mesma desde o nascimento da criança até que ela complete seu 480° dia de vida. De modo geral os pais suecos costumam ficar em casa com o filhote até que este completa um ano – idade na qual eles podem ingressar no dagis ou förskola (são a mesma coisa, com a diferença de que dagis é o termo antigo utilizado para Centro de Educação Infantil, ou seja, as förskolor; como é o caso de creche em português).

* Os dias de licença que não forem gastos de uma cara com a criança podem ser “guardados” até que a mesma complete 8 anos de idade ou a primeira série do ensino fundamental. Se a criança chegou aos 8 anos e os pais não retiraram toda a licença, azar o deles.

* O salário parental sueco é um direito mesmo que você esteja desempregado ou seja um estudante. De forma geral, o salário parental pago é de, no mínimo, 6750 sek por mês (menos impostos) e máximo de 28320 sek (menos impostos).

* Os seis primeiros meses da licença são calculados tendo como base o salário da pessoa da mesma forma como se calcula um auxílio doença. Ou seja, a pessoa receberá durante os primeiros meses um valor correspondente a 80% do seu salário.

* Nos últimos 90 dias da licença os pais tem um salário parental menor, baseado no pagamento de 180 sek por dia (de licença).

* No caso de pessoas que não tem emprego fixo (eu, por exemplo) o cálculo se dá com base na média dos últimos 6 salários que a pessoa recebeu.

* Se você estava trabalhando (mesmo que com bicos) e ficou desempregado corra para o Arbetsförmedlingen (no mesmo dia se possível!) e faça um registro de desempregado. Esse ato fará com que você tenha direito (no caso de uma gravidez e da chegada de uma criança) a um salário parental baseado na sua contribuição pré desemprego.

* Caso não faça isso ou nunca tenha trabalhado, a pessoa recebe o valor mínimo de salário parental.

* E atenção: se você trabalha mas vai estudar, tem que trabalhar até o dia anterior ao ingresso ao seu curso para ter direito a um salário parental baseado no salário (enquanto empregado). Caso perdeu o emprego (como citei acima) vá imediatamente ao A fazer o registro de desempregado. Esperar (mesmo que seja um dia) pode significar a perda ao direito de receber um salário parental baseado em seu salário (e contribuições) anteriores.

* Mesmo quem gere seu próprio negócio tem direito a licença parental.

*Outro fator decisivamente sueco dessa licença é que o pai tem tanto direito de tirá-la quanto a mãe. Na cartilha, os dois tem direito a um número igual de dias de licença (240 cada) mas na prática são os pais que decidem quem vai ficar com o filho e por quanto tempo. Por exemplo: se a mãe quer tirar 6 meses de licença, e após esse período o pai quer tirar 6 meses de licença, basta informar o acordo ao Försäkringskassan (INSS sueco). Se a mãe decidir que não quer amamentar e que vai continuar trabalhando, tem direito a dois meses de salário parental (como um auxílio doença mesmo, considerando o pós parto). Depois o pai pode assumir por quanto tempo quiser. Do mesmo modo, se a mãe quer assumir toda a licença sozinha, o pai tem direito (obrigação) de tirar no mínimo dois meses.

* Os pais podem optar por tirar a licença juntos por um período de até três meses. Nesse caso, a mãe fica com o bebê metade do tempo (50%) e o pai a outra metade (50%). O único período em que os pais podem ficar 100% ao lado bebê ao mesmo tempo é durante o pós parto, ou no caso de férias (contribuição da leitora Ilka).

* De modo a incentivar que um maior número de pais opte pela licença existe até mesmo um bônus que a família recebe quando o pai assume seus 240 dias de direito.

* Ainda assim, o pai tem direito a permanecer 10 dias em companhia da família após o parto da criança independente da licença parental (ou seja, o pai, na verdade, tem direito a 250 dias de licença).

* Tanto o pai ou a mãe assalariado deve informar (com no mínimo 2 meses de antecedência) aos empregadores por quanto tempo deseja estar de licença parental.

* É proibido por lei que os empregadores neguem ou dificultem o direito de saída de qualquer pai ou mãe.

A licença parental é compartilhada na Suécia desde 1974. Antes disso, apenas a mãe tinha direito a seis meses de licença maternidade. Segundo o SCB, quando da implantação da nova lei a participação dos pais era de simplesmente 0%, passando para 5% em 1980, 10% em 1990 e 12% em 2000. No ano de 2011, 24% dos pais assumiram a parte que lhes cabe da licença parental.

Aqui em casa já decidimos que vamos dividir a licença. Mas conversando com outras mulheres, percebi que não é tão simples assim. Em primeiro lugar, de modo geral, os homens tem um salário maior do que as mulheres. Sendo assim, quando a família decide que o pai vai tirar a licença, as entradas da família diminuem muito mais do que no caso em que uma mulher tira a licença. De acordo com as estatísticas de emprego, mesmo no país feminista Suécia as mulheres ganham menos e trabalham em empregos sem estabilidade com mais frequência do que os homens.

Em segundo lugar, há o nosso caso. Sim, estou falando das estrangeiras. Nós demoramos a entrar no mercado de trabalho e às vezes, nem entramos. E não me refiro apenas as mulheres que vieram a reboque de um amor, me refiro também as famílias que mudaram para cá já com um trampo em vista. A maioria esmagadora muda porque o homi da casa arrumou um trampo aqui, e não vice versa. Sendo assim, no caso da chegada de um pimpolho, mesmo que a mulher não tenho tido salário nenhum o fato de ela assumir sozinha a licença parental representa um ganho (material) muito maior para a família.

Terceiro, passadas essas questões, existem homens das cavernas na Suécia também. Eu sei que às vezes parece que não, afinal, todos são ricos, lindos, loiros de olhos azuis que salvaram suas princesas da pobreza (latino americana ou tailandesa ou filipina ou onde você quer que possa imaginar). E esse é um perigo, porque quando o cara é realmente assim ele não passa de um príncipe machista mesmo com ideais de brucutu que quer uma dona de casa e não uma companheira. O fato de que apenas 24% dos homens na Suécia retiram sua parte da licença parental está sim vinculada ao pensamento conservador de que educar as crianças é coisa de mulher. E antes que alguém observe nos comentários que no Brasil é pior, eu quero deixar claro que não estou estabelecendo uma comparação. Primeiro, porque no Brasil nem há a possibilidade de que o pai tire a licença. Segundo, no Brasil até as mães tem suas licenças postas a risco devido a insegurança financeira.

Por fim, deixo para vocês os links utilizados para escrever os dados (os pontinhos e as estatísticas) desse post: forsäkringskassan e SCB. Deixo também um aviso aos navegantes: eu não vou responder a questões relacionadas a “como é que eu faço para dar entrada na minha licença Maria? Porque eu sou nova na Suécia, estou grávida e blá blá blá…”. Desculpe meninas, mas isso é bem importante e eu não posso ajudar agora. Primeiro, porque estou vivendo meu próprio período de cuidar da minha gravidez. Segundo, vocês não fizeram essas crianças sozinhas e acredito que o pai saiba sueco (ou no mínimo inglês, se está aqui a trabalho) e para ele vai ser bem mais fácil ler e entender tudo sobre a licença parental (basta escrever “föraldrapenning försäkringskassan” no google e clicar em pesquisar). Terceiro, esse processo é complicado e exige uma série de ligações, contato constante com o Försäkringskassan, envio de documentos e tudo o mais. Qualquer falta de informação ou mesmo desentendidos vão fazer uma grande diferença. Eu não posso assumir a responsabilidade de mastigar tudo e depois ainda escutar que passei a info errada. Infelizmente, é assim mesmo que tem sido ultimamente e por isso mesmo já deixo claro aqui que não vou dar orientações a respeito do tema.

Se ao contrário, você estiver a fim de conversar e desabafar porque assim como eu também não entende bulhufas desse sistema: seja bem vindx! Tanto aqui como na página da internet podemos trocar figurinhas.

Se ainda não curtiu a página no face, clique aqui.

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Pré Natal na Suécia – II

Como eu citei no início do post anterior, segundo o pessoal dos movimentos pelo parto humanizado no Brasil (favor não confundir parto humanizado com parto em casa), a Suécia é um dos países modelo número um em parto humanizado no mundo, justamente por causa da questão das enfermeiras parteiras.

Acho que uma das vantagens de fazer o pré natal com uma parteira é que a gente se sente a vontade. A parteira que  está fazendo meu acompanhamento é muito simpática e tranquila e não foi a mesma que me receitou aquele anticoncepcional ruim e isso foi muito importante para mim. O que eu acho que foi mais negativo é o fato de que há um protocolo meio rígido a ser seguido, fazendo com que as consultas de uma hora pareçam ter apenas cinco minutos. Eu nunca tive oportunidade de ter aquela conversa que eu achava que teria com a parteira, na qual eu poderia botar para fora as minhas dúvidas – que eram muitas.

Mas eu não acho que seja uma falha pessoal da parteira e sim da forma como o sistema de saúde na Suécia é construído. A Su comentou por aqui uma vez que o sistema na Suécia não trabalha a medicina preventiva, e simplesmente isso faz uma enorme diferença.

Além disso, não sei porquê achei que a questão seria mais específica, como quando vamos à ginecologista no Brasil mesmo ou como aconteceu no dia do ultrassom bônus, no qual a médica me examinou para ver se tudo estava bem. É importante ressaltar também que as parteiras não tem essa formação ginecológica; quem faz isso por aqui continua sendo o médico. Por isso eu senti que a minha primeira consulta era mais para preencher uma ficha de cadastro: nome completo, peso, altura, data da última menstruação, falar um pouco sobre a dieta recomendada, coleta de sangue para exames, informação sobre o exame de urina, sobre o ultrassom (que só acontece cerca de dez semanas depois), mais info sobre diversos exames que o casal tem acesso (pagando ou gratuitamente) durante a gestação, info sobre possíveis sintomas de aborto espontâneo, info diversas e vixx Maria, nosso tempo está acabando… você tem alguma dúvida? E eu né… tenho muitas! Ao que ela me respondeu que era natural, que eu devia procurar alguns fóruns de mães ou que eu deveria ligar para o serviço de saúde 24h (1177) se eu me sentisse mal.

Sinceramente, alguém pode me dizer o que acontece na primeira consulta pré natal no Brasil?

Em todo o caso, saí do primeiro encontro frustrada. Troquei umas figurinhas com as amigas, desabafei, liguei para minha mãe e perguntei para ela como eram os acompanhamentos pré natal na década de 70, quando ela engravidou pela primeira vez. Parece exagero, mas é assim que eu me senti, mandada direto no túnel do tempo para um lugar onde você não tem os recursos que existem no mundo inteiro – apesar de viver em um país de primeiro mundo.

Eu tenho plena consciência de que o sistema não é ruim – não estou sendo irônica – basta analisar os indicadores de qualidade. Mesmo no Brasil, entre 1990 e 2010 a mortalidade materna caiu 51% e é claro que este é um reflexo da implantação do SUS, mas também do trabalho da Pastoral da Criança. A maioria das mulheres que trabalham na Pastoral são pessoas tão simples quanto aquelas que são atendidas mas esse é um trabalho que dá tão bons resultados que foi “exportado” para mais 19 países no mundo. Ainda assim, 56 mulheres de cada 100 mil morrem anualmente no Brasil em decorrência da gravidez/parto contra apenas 4 mortes a cada 100 mil na Suécia (dados da ONU 2010).

Não há como discutir com números. Mas há como reclamar da falta de calor daqui – e por isso é que já comentei no primeiro post que eu encaro como mais uma questão de choque cultural. Além disso, devido ao meu azar em topar com enfermeiras mais do que ranzinzas eu não me sinto bem vinda nos postos de saúde ou emergências. Sim, eu estou levando isso para o lado pessoal mas já comentei por aqui que o entendimento geral – na sociedade – é de que os árabes e somalianos estragam o sistema porque eles vivem correndo para lá sem motivos – o que irrita o pessoal. Ora bolas, eu sou brasileira, mas já me perguntaram se eu sou curda, ou iraniana (será o nariz? hahaha) e provavelmente o pessoal do sistema de saúde não pensa que são somente os árabes e somalianos que estragam as coisas, para eles qualquer estrangeiro está lá porque não entende seu papel na sociedade e não sabe que posto de saúde e emergência não é local para se passear. Eu já ouvi outros brasileiros criticarem “esses refugiados” e eu quero fazer um apelo: acorda gente! Vocês só estão fazendo a coisa pior para nós mesmos! Ou vocês acham que o pessoal vai perguntar a nacionalidade no atendimento da emergência?

Conheço duas mulheres que tiveram complicações durante a gravidez e foram tratadas com descaso pelos profissionais de saúde daqui. Uma delas perdeu o bebê e uma das trompas por causa de uma gravidez que se desenvolvia fora da útero e foi duramente criticada (até chamada de mentirosa) por enfermeiras que disseram na cara dela que estava exagerando, não era nada – enquanto ela tinha dor e sangramento constante. Outra quase morreu no parto porque, apesar de apresentar todos os sintomas de pré eclâmpsia, o pessoal ficou com cara de paisagem e não deu importância porque ela estava fazendo drama – foi necessária a intervenção de uma terceira pessoa para que ela não se transformasse em um número de estatística. Elas não são suecas e sofreram as consequências de um sistema que parte do princípio que todo estrangeiro faz fita e exagera demais. Se não bastasse isso, nós mesmos ajudamos a fortificar o preconceito falando que é tudo culpa dos refugiados. Mais uma vez: quem é que acha que o pessoal vai perguntar a nacionalidade em uma emergência ou no posto de saúde?

Fechando a sessão desabafo, acho importante reforçar a questão do choque cultural. Pra quem achou que isso era uma coisa que vinha de uma vez só, tá super enganado. Eu me sinto super perdida, no meio de estranhos que não comemoram o fato de uma vida estar surgindo e cercada de enfermeiras ranzinzas que acham que estou de fita. E ainda carrego aquela falsa sensação de que talvez no Brasil seria melhor, simplesmente porque o pré natal é com o médico. Incrível como a gente continua endeusando os nossos “doutores”.

Eu não dei trégua para minha parteira, liguei para ela, dei um jeito de conversar um pouco e no nosso segundo encontro já me sentia mais tranquila. Mas eu também segui os conselhos dela e gastei muito tempo dividindo minhas dúvidas com amigas, tanto as que não são mães ainda – obrigada por me emprestarem seus ouvidos; assim como caí na carne da Cíntia, do blog Minha Aquarela. Nada melhor do que encontrar alguém que curte falar sobre suas experiências na montanha russa da vida materna para poder fazer um longo papo furado. Além disso, a Cíntia me indicou uma porrada de blogs maternos – eis aí o porque de eu não comentar mais ninguém, estou consumindo tudo que posso a respeito de gravidez e mães de primeira viagem. E mais uma vez, eu amo o cara que inventou o skype!

São realizados dois controles pela parteira antes do ultrassom, ou seja, antes da 18a semana. Como eu descobri minha gravidez cedo, esses dois encontros já se foram há tempos. Enquanto meu ultrassom não chega, também não vou ver a parteira – a menos que eu apresente algum sinal estranho. E isso é bárbaro demais: como é que eu vou saber? Para mim tudo é novo e estranho agora. É lindo, mas super estranho. Mulheres grávidas não estão doentes (é bom ser relembrada Manoel) mas eu fui contaminada pelo medo absurdo que as pessoas tem aqui de que a gravidez talvez não vai vingar, que a primeira gestação é comum acabar em aborto. E se eu precisar de atendimento de emergência não vai ser minha parteira legal me esperando com sua simpatia e tranquilidade, e sim qualquer outra enfermeira bruxa pronta para me acusar de que estou exagerando, devia ter tomado alvedon e ficado em casa.

Fiquei mais aliviada quando completei a 12a semana mas ainda assim, eu queria muito estar “em casa” agora e me sentir mais envolvida por um clima mais leve e de felicidade em torno da gestação. Definitivamente, quando se trata de saúde, eu não me sinto bem vinda aqui.

Só por Deus mesmo.

Pré Natal na Suécia – I

Fonte: Google

Fonte: Google

Desde que mudei para cá sempre ouvi dois extremos a respeito de ter filhos na Suécia: há aquelas pessoas que dizem que não podiam ter imaginado um atendimento melhor, assim como há aquelas que reclamam de tudo (tudo mesmo) relacionado ao acompanhamento da mulher e do bebê, principalmente na hora do parto.

Eu nunca tive filho no Brasil, minha irmã teve crianças a long time ago e eu não acompanhei de perto as gestações das pessoas mais próximas que tiveram bebê nos meus últimos anos no Brasil. Além disso, já fazem quase três anos desde que eu deixei a minha terra e, por todo o tempo em que lá morei, nunca havia ouvido falar em violência obstétrica, por exemplo. Se você quer saber mais sobre esse tipo de violência, pode assistir ao documentário “A dor além do parto” – disponível no You Tube.

Daí que, mudando para a Suécia, me deparo descobrindo essa questão (da violência obstétrica no Brasil) e com ela vem a informação de que a Suécia é um dos países modelos em pré natal e parto humanizado no mundo (leia esse texto aqui). Bom, acho que a maioria das mulheres que participa de comunidades de brasileiros na Suécia não sabe ou não concorda com essa informação e eu, bem, ainda estou bem no início dessa minha jornada como grávida e futura mãe, por isso não sei bem ao certo o que pensar. Em todo o caso, pelo que conheço do sistema no Brasil, o sistema de pré natal é muito diferente aqui na Suécia. Só para deixar claro, a minha intenção não é estabelecer um juízo de valor (quem é melhor, a Suécia ou o Brasil) porque definitivamente, eu não tive filho no Brasil e por isso não posso comparar uma e outra experiência. Além disso, acho que a experiência de ser mãe no Brasil deve ser muito diferente lá no Amazonas do que é em São Paulo, na rede particular ou pública de saúde, com todos os prós e contras com que cada situação envolve.

Aos fatos: a Suécia tem um centro de atendimento de saúde da mulher chamado Mödervårdcentralen. Esses centros contam com uma espécie de enfermeira parteira, que tem o título de barnmorska (eu digo barnmoça por brincadeira, fica bem próximo a pronúncia do nome correto) que faz o acompanhamento de mulheres nos casos de planejamento familiar, exames relacionados a saúde da mulher, pré natal e pós natal (não sei exatamente até quantos meses da vida do bebê). Eu vou chamá-las aqui simplesmente de parteiras, mas é importante lembrar que o conceito de parteira na Suécia não é o mesmo daquele das parteiras das regiões menos favorecidas do Brasil. Não que eu ache que aquelas mulheres parteiras do interior sejam menos do que as parteiras suecas,  só que é importante informar que ser parteira na Suécia é uma profissão que exige formação universitária (enfermagem+especialização).

Quando eu descobri que estava grávida liguei para esse centro de saúde da mulher (vou abreviar para CSM) para marcar um encontro com a parteira. Tive que esperar três semanas porque a primeira “consulta” não é realizada antes que a mulher complete a 8a semana. Eu sou péssima com essa coisa de contar as semanas, até hoje me embanano toda, só sei que eu fiquei super ansiosa. Eu queria encontrar alguém, falar com uma pessoa entendida do assunto, contar a minha felicidade, meus medos, trocar figurinhas sobre qualquer coisa. Me senti super no vácuo. Acho que é esse excitamento de mãe de primeira viagem, mas eu sei lá… nesse momento eu comecei a sentir um choque cultural muito grande porque eu queria muito ir ao médico e tirar essas dúvidas, falar sobre meu bebê e me sentir tranquilizada a respeito de coisas bobas que passam pela cabeça da gente.

É claro que na Suécia também há a opção do atendimento na rede privada de saúde. É um pouco complicado de entender, porque o atendimento público de saúde na Suécia também é privado, ao menos, os postos de saúde normais são: você paga uma taxa para ir ao médico. Não é o valor da consulta integral (que seriam 300 coroas no caso de clínico geral, no mínimo 700 coroas quando um especialista), mas a consulta não é gratuita. No caso dos CSM as consultas são gratuitas e eu não sei explicar se eles são totalmente subvencionados, totalmente públicos, ou se é pelo fato de que os CSM públicos não contam com médicos mas sim uma equipe formada por parteiras, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. Em todo o caso, há CSM privados. A diferença: você paga, e eles contam com um médico e aparelho de ultrassom.

Conversamos aqui em casa sobre isso, sobre talvez migrar para um CSM privado. Em teoria, é melhor. Mas eu não estou certa, só ouvi uma pessoa falando sobre isso e é claro que ela falou maravilhas; mas não é todo mundo que tem coragem de reconhecer que trocou merda por bosta (ainda mais quando paga). Pra mim, atendimento particular no Brasil nunca foi aquele “ohhh, que maravilha!”. Depois, eu acho errado pagar por um serviço que deve ser gratuito afinal, eu pago impostos nesse país, não vou pagar duplamente por algo que eu considero já ter pago. Assim fica meio fácil o governo recolher impostos mas oferecer um serviço meia boca, já que ninguém usa. Eu acho melhor usar e ajudar a fortalecer e melhorar o sistema que é para todos.

Mas voltando a questão do ultrassom… por meio dos CSM públicos você tem direito a apenas um ultrassom durante a gravidez, na 18a semana. A não ser que a mulher apresente algum tipo de complicação, dor ou suspeita com relação a gestação, não serão feitos outros exames de ultrassom durante a gravidez. Nem mesmo próximo ao parto, se a parteira tiver certeza que a criança está de ponta cabeça e encaixada eles não fazem ultrassom. Já nas clínicas particulares é diferente: a mãe pode pedir ultrassom sempre que estiver preocupada e quiser checar o bebê (e mais uma vez, você paga por isso).

Quando a minha parteira me informou essa questão do ultrassom eu fiquei meio preocupada. Não sou a favor de ultrassom em 3D, e penso mesmo que ficar espiando a criança o tempo inteiro é uma coisa desnecessária, mas tanto no início da gravidez quanto no término acho que não seria demais não. Além disso, a parteira me disse que o ultrassom faz mal a criança e eu fui pesquisar na internet mas não achei nada. É claro que eu não estou dizendo que ela – que estudou quase cinco anos para chegar onde chegou – está de conversa mole comigo, mas eu se for comparar com o caso do meu anticoncepcional então, o que é que é para mim pensar? Tipo, eu estava tomando um anticoncepcional recomendado pela parteira que é potencialmente perigoso (tá até no google). Todo medicamento é, mas ela não me disse que eu podia ter os efeitos colaterais que eu tive. E então ela me diz que ultrassom faz mal a criança, e o único estudo que comprova que ultrassom tem efeito colateral foi realizado na Inglaterra e mostra que criança expostas longamente ao ultrassom tendem a nascer canhotas. Algum problema em ser canhoto? Países como Alemanha (que também são primeiro mundo) oferecem mais de um ultrassom durante a gestação.

Eu acabei por fazer um ultrassom porque tive aquela crise renal. Foi um bônus, e eu tenho que admitir que fiquei muito mais tranquila depois de ver o meu bebê lá, mesmo que por poucos segundos, e ouvir a médica dizer que meu útero estava bonitinho e que não havia nada de errado – pelo menos não até aquele momento. O fato de o ultrassom ser realizado durante a 18a semana de gestação tem um propósito bem claro: o médico vai checar a fundo o desenvolvimento da criança, tanto o interno, quanto o externo. Nessa altura da gestação a maioria dos órgãos já está formada e só falta mesmo se fortalecer, como é o caso dos pulmões. O coração já bate desde a segunda/terceira semana de vida. Nessa fase é possível identificar algum tipo de má formação dos órgãos, ossos, coluna, etc.

Algumas pessoas entendem que esse ultrassom é um fator decisivo para o interrompimento da gestação, afinal, a mãe pode solicitar a permissão para abortar depois da 18a semana se identificar alguma má formação no feto. Nessa mesma semana, mães com mais de 35 anos podem realizar gratuitamente testes cromossômicos no bebê, do tipo que apresentam a possibilidade da criança ter Síndrome de Down por exemplo. Eu recebi um panfleto explicativo durante a minha primeira conversa com a barnmorska com informações sobre o procedimento, sobre o significado dos resultados e com alguns links para que os pais pudessem ler mais sobre “o que significa ter uma criança deficiente”. Apesar de não ter 35 anos eu posso realizar os mesmos exames mediante o pagamento de uma taxa de 1500 coroas, mas eu decidi deixar para lá. Depois de trabalhar por quase dois anos com uma criança deficiente eu sei muito bem o que isso significa, e também sei que não seria motivo suficiente para que eu decidisse abortar. No fim, essa é uma informação que não me interessa; e eu vou fazer apenas o ultrassom mesmo, lá na 18a semana.

Até lá, fico aqui ainda meio que roendo as unhas. Não por falta de ultrassom, mas porque acho que falta apoio mesmo.

Tenho mais o que falar sobre o pré natal na Suécia, apenas decidi dividir a informação em vários  posts porque afinal, é tanto!

Será tabu?

Dias atrás eu comentei que as grávidas suecas costumam esperar no mínimo até o término do terceiro mês para compartilhar a notícia de que estão esperando, às vezes até mesmo nem os membros mais próximos da família sabem. Eu fico imaginando como é que é que ela escondem os enjoos, o cansaço e outros trelelês que são comuns nos primeiros meses de gravidez entre as mulheres em “estado interessante”.

Eu liguei para a família (tanto a brasileira como a sueca) no mesmo dia em que descobri. Mandei sms para as amigas no Brasil (quase matei algumas do coração!) ou recadinho no facebook, além de mandar um sms para o pessoal próximo aqui também. Recebi um monte de recadinhos de volta, sms e também mensagens pelo facebook, com congratulações. Estava me sentindo a própria rainha da cocada preta.

Eu acho que essa parte de contar para todo mundo é tão legal: não tem uma pessoa que fique triste. Eu lembro que uma das minha colegas de trabalho ficou tão emocionada que chorou. Me deu um abraço forte e disse que desejava paz e bem para mim e a criança. Me deixou emocionada também. E encucada… por que as suecas não compartilham do seu “estado interessante” logo que o descobrem?

Uma das coisas que ouvi por aqui é que o pessoal quer ter certeza que a criança vai “vingar”: segundo uma pesquisa de 2010, cerca de 12 mil suecas perdem seus bebês a cada ano, o que significa que entre 10 e 35% das gestações (a estatística varia de acordo com a idade da mulher) terminam antes do terceiro mês. Isso não é muito comparado com os números de abortos provocados na Suécia. Em todo o caso, não estou aqui para retomar aquela discussão e nem para estabelecer um juízo de valor, mas a impressão que tenho é que há um tabu gigantesco em torno do aborto espontâneo.

Uma das primeiras vezes que encontrei uma grávida aqui ela estava no quarto mês e com uma barriga aparente. A gente foi a uma festinha de uns amigos e a guria estava lá, para cima e para baixo com super cara de grávida mas o resto do povo tava assim… sei lá, como que ignorando o “estado interessante” dela… É difícil explicar. Eu perguntei ao Joel se ele sabia se aquele casal estava esperando, e ele só riu e disse que não sabia, que provavelmente ela estava gorda. Daí foi a minha vez de rir: gorda? Com aquela barriga de grávida? Sem essa. Lá pelo meio do jantar o casal levantou e informou aos presentes a gravidez da guria. Achei aquilo super surreal – um monte de gente fazendo cara de surpresa, um monte de vivas e tals e o clima do ambiente mudou, com toda a mulherada passando para abraçar e cumprimentar a futura mamãe… super cara de pau ou sei lá, respeito?

Ou vai ver que o pessoal na Suécia é como o Adão aqui...

Ou vai ver que o pessoal na Suécia é como o Adão aqui…

Recentemente um casal de amigos próximos “engravidou” e eu fiquei super surpresa quando a guria me contou mas pediu que eu não comentasse com outras pessoas, pois eles estavam dividindo a notícia apenas com os mais próximos. Me surpreendeu eu ser uma entre “os mais próximos”, mas também o fato de que eles não queriam que muita gente soubesse porque “a primeira gravidez a gente nunca sabe… há um risco grande de aborto espontâneo”.

Obviamente, a questão é choque cultural… mas eu ainda fico imaginando se não há um grande tabu por detrás dessa história toda. A impressão que levo é que perder uma criança aqui é tão ou mais chocante do que no Brasil, onde ser mãe é ainda uma questão imposta pela sociedade, não uma escolha. Aqui, apesar do debate em relação a questão ter versus não ter filhos parecer estar mais avançado, ainda é chocante que mulheres não possam levar adiante uma gravidez – tanto que elas guardam o fato somente para si e os mais próximos. É claro que cada um tem o direito de dividir o que bem quiser a respeito da sua vida, mas se a gravidez é um motivo de alegria para o casal, por que esconder? Suecos são mais reservados, em todos os casos. Só não entendo gente que tem uma super barriga e ainda disfarça que não está grávida.

Uma das minhas cunhadas me perguntou se eu queria que a minha gravidez fosse um segredo até o terceiro/quarto mês da gestação e eu respondi que elas poderiam comentar que seriam tias para todo mundo  porque eu não entendia essa coisa de “esconder a gravidez” – se eu perder a criança, quero que as pessoas que estão ao meu redor e gostam de mim possam me apoiar; não quero virar uma mártir solitária. Aí ela comentou que também não entendia isso, que parecia que era feio uma mulher perder o bebê… eu fique surpresa por ela dizer isso e começamos a discutir um pouco a questão. Todo mundo que eu conto a respeito da gravidez fica surpreso por eu dividir isso assim (puxa, tão cedo… você ainda nem completou o terceiro mês!), mas eu ficou enjoada toda vez que abro uma geladeira (agora tá melhorando!), recebi uma lista enorme de coisas que não devo comer durante a gestação e aí? Como é que explico que a louca por carne aqui de repente parou de comer presunto? Seria lindo dizer que estou apoiando a causa de ativistas contra os maus tratos animais mas, a bem da verdade é que, apesar de eu respeitar o trabalho deles, quero mais o meu pedaço de bife suculento no prato. Ao invés de ficar de mimimi é muito mais simples dizer simplesmente: estou grávida. Só que na cultura sueca o buraco é mais embaixo…

Tô viajando na maionese? Será tabu? Ou só mais uma questão de choque cultural?