A beleza da vida

Hoje passei o dia de cama. É muito comum que crianças pequenas peguem ao menos uma virose durante o inverno. Desde que o Benjamin começou na “escolinha” já passamos por duas: na semana passada Joel e Benjamin e nesse fim de semana eu.

Dizem que o mês de fevereiro é ainda mais propício para essas viroses e a maioria dos pais passam esse mês se revezando no cuidado dos filhos, uma vez que é proibido deixar a criança doente na escola.

Primeiro eu fiquei bem desanimada. O Benjamin mal começou e já perdemos dois finais de semana na cama, secando vômito e comendo mal. Isso tudo que ainda posso contar com a ajuda dos meus pais que vieram dar uma espiada no que é inverno de verdade.

Minha mãe (que também está de cama) brincou que agora ela tinha experimentado o inverno sueco em sua plenitude: chuva, frio, temperaturas negativas, vestir em camadas, neve, escuridão e… virose. Não faltou nada. Eu tive que rir e concordar.

Enquanto eu estava deitada com meus ais meu pai pegou o violão e começou a entreter o Benjamin com músicas infantis. Meu pai não toca violão, mas ficou brincando com as cordas e em pouco tempo Ben estava rindo, pulando e rodopiando pela sala. Ficou dançando ao som do sapo que não lava o pé e não deixava que meu pai parasse. Eu fiquei assistindo aquilo tudo já com saudades. A gente vive mais ou menos correndo atrás de perfeição, queremos fazer o que fizermos do “jeito certo” mas na maioria das vezes isso não passa de vaidade. Meu pai tocando violão sem saber, Benjamin desfrutando, rindo e eu deitada na rede com uma puta dor nas juntas… mas mesmo assim meu corpo se encheu de paz e calor contagiante devido a alegria e pureza do meu filho. Eu gostaria de poder ter congelado aquele momento para sempre e então pensei em escrever ainda que eu saiba que as palavras não alcançarão o meu propósito.

É só que a beleza da vida é para ser vivida. E eu estou muito agradecida de ter a oportunidade de perceber isso, ainda que eu esteja tão cansada que só queira dormir.

Ciclos

Eu vivo escrevendo posts pela metade que nunca são publicados. Esse vai ficar meio pela metade, mas vai ser publicado.

Faz algum tempo que eu percebi que sou adulta. Entrei no mundo cinza e chato das responsabilidades e deveres. É um mundo de possibilidades também, mas essa segunda parte é mais complicada. Primeiro o dever, depois o prazer. E dentro da criação católica que recebi quanto menor a dose de prazer melhor, afinal, se você não sofrer o pão que o diabo amassou não vai ser digna do céu.

Hoje foi meu último dia de trabalho no abrigo. Em fevereiro vou virar assistente social de escritório e trabalhar com bolsa família sueco.

Sei lá, a empolgação não está fazendo parte dessa mudança. Não sei se é porque a gente fica mais sério mesmo quando amadurece e se vê adulto, ou se é por causa daquele lance católico (ultimamente eu tenho lido bastante sobre as misérias desse mundo e se existe um inferno que é pior do que a maioria da população mundial passa diariamente cara… eu definitivamente não quero ir parar lá) ou se é porque a minha vida tem mudado tanto ultimamente que nem sinto as mudanças… o negócio está sendo meio… ok. Vou ser assistente social. Vou trabalhar em Gotemburgo. Não vou mais passar três horas indo e voltando do trampo. Vou ter todos os finais de semana livres.

Eu poderia deixar uma frase bem bonitinha tipo “um ciclo se fechou e estou muito satisfeita com a experiência adquirida”… mas pra ser sincera meus ciclos ultimamente estão mais para ciclones, e ao que me parece estou muito ocupada com a bruxa do norte.

Será que existe uma estrada de tijolos dourados?

Retrospectiva 2015 #2

O dia que andei de ambulância

E eu ainda não sei porquê. Mas eu tinha voltado do trabalho e decidido levar o Ben na brinquedoteca. De lá fui direto para casa e o como o guri dormiu no caminho eu resolvi deitar e dormir também (quem é mãe sabe… bebê dormiu vai deitar criatura e não fique esfregando as panelas).

Quando acordei o Joel estava em casa. A gente tinha algumas (muitas) coisas pra arrumar porque íamos para Chicago, e eu fiquei meio que com dor na consciência… até me olhar no espelho e perceber que metade do meu rosto havia paralisado. Pensei em derrame cerebral na hora e falei com o Joel. Ficamos naquela parada de negação do não! Será? Você está brincando né!? e coisas do tipo até ligarmos para o serviço de saúde telefônico (sim, na Suécia é sempre melhor ligar para o serviço de saúde telefônico antes de se dirigir ao hospital porque a chance de você ser mandado para casa é enorme… economiza a viagem). Quando começamos a falar com a enfermeira ela nos mandou desligar imediatamente e chamar a ambulância.

Eu comecei a rir e o Joel quase chora. Aí ligamos a ambulância e em questão de cinco minutos lá estavam dois rapazes na minha sala mandando eu responder perguntas toscas tipo “que dia é hoje?” ou “qual o nome desse instrumento” (meu violão); ergue o braço abaixa o braço, você tem dor de cabeça? Bla bla bla. No fim eles não chegaram a nenhuma conclusão e ligaram para um neurologista. Aí o neurologista diz o óbvio, que não dá para opinar via telefone e que é melhor que eu seja internada para exames.

Afff… até parecia um filme. O problema era eu ser o personagem “doente”. Chegamos no hospital as 8h da noite e lá eu fiquei esperando o médico até as 6h da manhã seguinte.

Exatamente: eu, paciente com suspeita de derrame cerebral fui internada as 20h, fiquei numa maca no corredor do hospital até às 3h e só vi o médico às 6h da matina, dez horas depois. Isso porque as 5h da manhã eu chamei o enfermeiro e disse: “rapaz eu quero ir embora. Eu tenho um bebê de 10 meses em casa, e se eu tivesse sofrido um derrame mesmo estaria paralisada ou morta agora né? Afinal não vem médico me examinar”. O  enfermeiro ficou branco, foi lá buscar o prontuário médico e zip zap, começa a dar um movimento no meu quartinho e dali a pouco chega uma médica me pedindo mil desculpas.

Às 10h fiz uma tomografia cerebral e  às  11h veio o resultado de que meus neurônios ainda eram os mesmos, graças a Deus, Amém. Depois ainda fiquei no hospital até as 19h porque eles queriam fazer testes para ver se eu não tinha borélia, uma doença transmitida pelo carrapato. Mas tudo deu negativo e por fim me mandaram para casa dizendo que eu provavelmente tinha uma inflamação facial, o nosso popularmente conhecido choque térmico.

Eu fiquei pensando em muita coisa nas minhas horinhas na sala de espera. Medo de não estar aqui para ver o Ben crescer, mas estava tranquila e agradecida por ter o Joel ao meu lado. Literalmente, porque ele podia me acompanhar.

Estava no chat com algumas pessoas que me disseram: finge um desmaio menina e aí eles te atendem. Cinco minutos depois chega uma mulher desmaida que é deitada do meu lado e lá ficou até eu ser transferida para meu quartinho. Eu só vi uma médica na emergência. É o mesmo problema em todo o mundo… hospitais lotados, falta de pessoal e gente deitada nos corredores. Aqui na emergência tem uma salinha onde você pega uma senha, aí vem uma enfermeira fazer a pré consulta (medir pressão arterial e se há febre) e  você recebe um lugarzinho no corredor. De tempos em tempos passa um enfermeiro perguntar se está tudo bem e informa quanto tempo vai demorar para o médico atender. Gente esfaqueada, baleada ou acidentada vai direto para a cirurgia, um setor do hospital onde há médicos especialistas em traumatologia. Gente que chega com a ambulância – como eu aquele dia, sem fraturas expostas ou risco de morte – vai direto para o corredor da esperança. Só vê o médico depois de ir para um quarto. Eu vi muita gente idosa chegando de ambulância e ficando na caminha do corredor… por sorte foram atendidos primeiro.

Não estou reclamando do sistema sueco, que é um sistema bom, mas não é gratuito. O boleto veio depois, e foi all inclusive, desde o passeio de ambulância aos exames. É importante explicar também que é um co-finaciamento. Eu não sei se o hospital é do governo, mas a maioria dos serviços pertencem a empresas privadas, aí quando um cidadão precisa de internação, etc; o governo paga a maior parcela da conta.

Depois de uns 10 dias meu rosto estava funcionando normalmente. Tomei una remedinhos meio esquisitos e o Benjamin por tabela por causa da amamentação, mas era isso ou arriscar fisioterapia depois.

Foi um susto. A gente esquece que é mortal, principalmente depois de se tornar mãe. Mas agora eu não esqueço mais.

Retrospectiva 2015

Carteira de habilitação

Comecei e terminei o ano enrolada na carteita de habilitação sueca. Primeiro foram as provas, teórica e prática, as quais não passei. Eu nem lembro se foram 4 provas teóricas e 3 práticas ou apenas três e duas respectivamente… mas janeiro e fevereiro fiquei estudando e estudando o livro sobre as leis de trânsito suecas e fazendo provinhas na Internet. Tentei duas vezes em fevereiro e março e reprovei.

Perdi a fé, o tesão e voltei a trabalhar. Menos tempo, mais gente me cobrando que eu tirasse a carteira… me matriculei numa auto escola e fiz duas aulas em abril. Tinha prova marcada e fui parar no hospital… desmarquei as provas, viajamos para os EUA, voltamos, a polícia me pegou dirigindo sem carteira…

Aí começou a fase B: trabalhei extra no verão, não tive tempo de estudar, paguei a multa que recebi em julho, marquei novas provas que perdi por causa de um atraso nos trens, remarquei as provas; tirei mais aulas práticas e refiz as provas, reprovei, meus colegas de trabalho começaram a perder a paciência e eu perdi meu direito de tirar a carteira (na Suécia você precisa tirar uma licença para tirar a habilitação).

Recorri da decisão, perdi, cansei, pedi as contas.

Ou seja: comecei e terminei o ano sem carteira de habilitação, mas com alguma experiência.

Ou seja dois: aprendi que ser pega pela polícia dirigindo sem habilitação é muito mais sério do que eu pensava. Além de pagar multa, você fica fichada na polícia por um ano e não tem direito de pedir cidadania sueca. Se eu tivesse só o visto temporário teria o visto permanente negado.

Ou seja três: a Suécia também tem uns furos nas suas leis bem esquisitos. Com relação à carteira: como imigrante (de outro país que não pertença a União Européia) você tem direito de usar sua habilitação por um ano na Suécia. Não importa de que modo você dirige durante esse um ano, está ok não ter habilitação sueca. Dizem os bons que há um jeitinho  (sueco claro) para prolongar esse período. Mas depois disso repentinamente dirigir sem habilitação sueca significa algo gravíssimo.

Ou seja (o último): quanto mais tempo você passa na Suécia pior vai ser a forma como você dirige.

Feliz Ano Novo!

A filosofia da cebola – vezes dois

Esse final de semana o inverno deu as caras (oficialmente ainda estamos no outono) e ontem tivemos uma madrugada de trincar os ossos, com nada menos do que 10°C negativos. O frio chegou na sexta, intensificou no sábado (com seus três graus negativos durante o dia) e  ficou até o anoitecer de ontem quando o termômetro conseguiu registrar 2°C.

Esses números são bastante difíceis de compreender. Eu ficava com frio só de pensar em passar dias abaixo de zero. O aquecimento das casas faz uma diferença enorme e a gente não sente – tão longe se mantenha dentro de casa – o quanto está frio. É na hora de sair que o bicho pega.

Essa é uma questão fundamental para sobreviver o inverno. Hahahaha, ficou séria demais a colocação mas o fato é que saber se vestir vai fazer você passar pelo inverno com menos percalços, vai por mim. Meu corpo mudou muito após a gestação (acho que o fato de gestar um mini viking me causou algum tipo de mutação) e eu estou muito mais resistente ao frio, isso é claro. Mas também não posso negar que depois de tanto tempo finalmente entendi a filosofia da cebola (ou a arte de se vestir em camadas) de que tanto falam desde que eu mudei. Feliz ou infelizmente algumas manhas a gente só aprende com a experiência; ainda assim vou tentar deixar um guia.

Dentro de casa normalmente não é necessário mais do que uma regata e uma manga longa. Claro que você pode substituir por um moleton ou uma blusa mais fina, mas como eu gosto de ter a base da “cebola” eu normalmente visto isso. Vou salientar também que essa é a “cebola” que eu aprendi, não é um modelo universal e sim um exemplo, quiçá o melhor, mas é o que veste aqui em casa e funciona. E o ministério da saúde adverte: não se vista dessa maneira  se você pretende sair correr. Então, para sair em -5° C ontem usei: uma regata, uma manga longa de malha, uma camisa, uma blusa de lã e o casaco; uma calça de malha e um jeans, meias de algodão, meias de lã e uma bota. Touca, cachecol e luvas se você ainda quiser ter orelhas e dedos e não morrer de dor de garganta. E só.

Algumas considerações: quando eu digo uma blusa de lã estou dizendo lã mesmo, não materiais sintéticos. Blusas tricotadas podem ou não ser de lã, a única forma de saber – além de ler a etiqueta – é o preço. Não há na face da Suécia blusas de lã (novas) por menos de 500dinheiros. É possível encontrar lindas blusas de lã em lojas de segunda mão e não importa se elas são finas, a lã esquenta de verdade. Eu aconselho a não usar a blusa de lã durante o outuno se você costuma ter alergias, pois com menos camadas por baixo é provavel rolar aquela coceira básica que vai te deixar ranzinza. Eu não tenho esse problema e usei muito a minha blusa de lã durante o outono, acho mais simples botar apenas ela por cima de uma malha e a jaqueta tapa vento. Ainda com relação às roupas de baixo, no caso das crianças é bom investir em roupas de lã. A maioria das lojas vendem roupas de lã que são como calçolas e manga longa, de materias que misturam lã e seda ou alguma outra coisa. A malha de algodão é ótima para países quentes, mas no frio assim que a criança transpira a malha fica molhada e fria. Já a lã deixa respirar e faz a umidade passar para fora da primeira camada de roupas, assim mesmo que a criança transpire muito ela não ficará molhada e com frio. É uma boa pedida para quem pensa em sair caminhar durante o inverno ou mesmo para os mais sensíveis ao frio, existem essas roupas de baixo (em sueco underställ) para adultos também, tanto em lã (mais caros) quanto em materiais sintéticos  (mais baratos). E, é claro que se você tem uma roupa de baixo que é quente não vai precisar usar o casaco de lã, que pode ser substituído por um tricô normal ou mesmo moleton.

Outra questão importante: se a jaqueta é tapa vento (windproof) não é necessário muita roupa por baixo quando só está frio. Eu tenho uma jaqueta de verão tapa vento e impermeável, usei ela na sexta feira com 3°C, as camadas costumeiras e minha blusa de lã e não houve problemas. Mas se venta essa combinação já não rola porque a jaqueta não tem forro e por mais que seja tapa vento  é um tapa vento mais light por ser uma peça de verão. Há jaquetas de outuno com um forro fino, com um tapa vento ainda melhor que é possível usar em dias com até alguns graus negativos. Para os dias frios de verdade as melhores jaquetas são as forradas com pena de ganso (exatamente). No caso de Gotemburgo, onde chove tanto que chega a chover canivete, é bom que a jaqueta seja de um material impermeável forte. Se você mora aonde neva bastante (e as temperaturas ficam abaixo de 15°C nagativos por longos períodos) vai precisar de jaqueta e calça térmica. Do contrário, a neve é “seca” quando as temperaturas estão abaixo de -2°C.

Observação importante número três: quanto tempo você vai ficar fora? E quanto desse tempo você estará parada/o? Se você vai de carro em algum lugar, não vai precisar de tudo isso para chegar até o carro. Mas é importante levar um casaco grosso a tiracolo, pois se um imprevisto acontecer e o carro morrer na beira da rodovia você não vai querer estar de regata e moleton sem aquecedor enquanto espera o guincho (que pode demorar muito) num frio de 0°C. Mas digamos que você vai caminhar até a estação ou ponto de ônibus, usar o transporte coletivo e depois trabalhar/visitar amigos/vai às compras… quanto tempo você vai ficar fora? Em dias menos frios, quando as temperaturas ainda estão acima de 5°C é melhor se vestir menos. Antes de usar um monte de casacos, experimente botar algo mais quente nos pés e uma touca de tecido – ter a cabeça e os pés quentes faz milagres. Os suecos tem uma filosofia de que é preciso passar um pouco de frio durante o outono para que o corpo acostume. E depois, se você botar muita roupa vai suar caminhando até o ponto/estação, depois vai suar dentro do transporte coletivo, vai suar no mercado/shopping ou vai ter que levar uma porrada de casacos, touca, cachecol, luva na mão. E não esqueça o desodorante, que tem muita gente que não acha as axilas depois de se vestir como cebola e fede violentamente como uma cebola em decomposição.

Agora, imagine que lindo é todo esse ritual cebolístico quando você tem uma criança pequena… conseguiu? Peraí que eu vou ajudar. Você decide sair e aí veste a criança primeiro (lógico) pra depois tomar a sua meia hora de cebola. Errado! A criança fica quente demais nas roupas, fica louca, começa a chorar e arranca touca, luvas e tudo o  que conseguir, pega ódio da roupa de inverno e vai chorar só de ver aquele casaco. Qual a saída? Essa mesma: vista todas as suas camadas (a exceção do casaco e acessórios) e  comece a caçada. Depois de vinte minutos correndo atrás da cria, implorando para ela deixar a gente enfiar mais duas camadas de casaco e meia calça e meia de lã e os sapatos, suada feito uma porca (com roupas para temperaturas negativas dentro de casa você fica mais molhada que funkeira no baile… viu a importância do desodorante?) você finalmente abre a porta e enfia casaco e touca, luvas na criança. E fica feliz de refrescar a cara antes de botar a cereja do bolo você também.

Quem foi que falou da magia do inverno? ;)

Um dia na Suécia

Eu recebo comentários em ondas, provavelmente devido ao fato de escrever bem menos. Mas volta e meia aparece gente que manda comentários em posts antigos do blog com perguntas que não tem nada a ver com o conteúdo do referido post (deixando bem na cara que não leu nada do que estava aí) e a maioria dessas pessoas repete a mesma pergunta (seria um eco?): como é a vida na Suécia?

Recebi o mesmo questionamento esses dias na página do face. Eu ia responder o de sempre: pessoa, esse é o link do meu blog, essas abobrinhas aqui descrevem mais ou menos a vida na Suécia. Mas aí tive a ideia genial de desvendar os segredos da vida na Suécia contando como é um dia comum da minha vida – já que eu não ando com tempo de fazer algo mais informativo e concreto.

Algumas singularidades para situar os desavisados e os futuros leitores desse post: estou trabalhando “meio período”; o que significa que passo bastante tempo em casa. Mas vamos lá!

Um dia de trabalho na Suécia…

Acordo as 5h. Tomo um café, normalmente com pausa para amamentar a cria. Pego as minhas bolsas (passo 24h no trampo) e saio para o ponto às 5h55. Pego um bonde para a estação central. Se o café foi para o saco porque eu amamentei a cria compro um café. Pego um trem para Falköping. Caminho para o trabalho cerca de 20 minutos (não é longe, é só a preguiça mesmo). Começo a trabalhar às 9h. Saio as 9h30 do dia seguinte, normalmente ganho uma carona até a estação porque a galera tem dó de me deixar caminhar com as minhas bolsas  (uma delas cheia de leite). Pego o trem para Göteborg. Chego na estação e tomo o primeiro bonde que passar para casa. Chego a tempo do almoço.
Eventualmente passo pegar o Ben na casa dos padrinhos ou de algum amigo – caso o Joel tenha uma reunião de trabalho importante. Depois do almoço a rotina segue como num dia em que eu não fui trabalhar.

Um dia em casa na Suécia

Acordo assim que o Benjamin acordar (entre 6h e 7h30, depende da “sorte”). Tomamos café e aí vamos fazer as tarefas de casa ou um passeio. Pode ser uma caminhada, gosto muito de sair caminhar com o Ben… deixo ele escolher o caminho e parar o quanto quiser para juntar todo tipo se coisa e tentar por na boca, ou ir para um balanço, essas coisas. Nesse caso voltamos e comemos uma fruta. Depois brincamos ou fazemos limpeza e aí almoço. Almoço pede uma siesta e com sorte depois da comida tem a soneca do Benjamin, quando ele acordar o Joel vai estar chegando. A gente empacota um lanche e sai para trabalhar com a reforma da casa. Volta quando anoitece, faz uma janta, bota a cria para dormir e assiste as notícias/uma série/ou um filme dependendo da hora, do cansaço ou do tesão. Normalmente vou dormir às 22h30.

A rotina em um final de semana ou dia de semana para mim não varia muito. Como eu trabalho em forma de plantão então procuro aproveitar “as folgas” já que trabalho finais de semana também. A principal diferença é que se estou em casa em um sábado normalmente passamos o dia na reforma da casa. Domingos é dia de ver a família então normalmente rola um passeio para os sogros, ou alguma das cunhadas.

Como estamos vivendo um tempo especial com a reforma da casa temos encontrado os amigos apenas de vez em quando, numa rapidinha no anoitecer ou quando eu saio sozinha com o Ben e passo o dia fora. Normalmente fazemos isso quando o Joel tem reuniões depois do trabalho. Eventuais escapadinhas para um jantar ou cinema estão descartadas no momento por conta do cansaço mesmo.

Eu não sei como funciona no Brasil depois que você tem filhos, mas aqui ter uma criança te dá automaticamente um upgrade para o time dos pais. Dificilmente você vai se encontrar com os amigos que não tem crianças. Primeiro porque essa galera ainda sai para beber e fazer festa em uma sexta feira – o que sinceramente não está na minha lista de prioridades – ou se promove um jantar deixa claro que o evento é para adultos. Isso me dá muita preguiça. Fiquei antisocial com a maternidade e o Joel, se deixasse, passaria o dia e a noite na reforma.

É isso aí. Essa é a minha vida na Suécia.

Tá sentindo falta do glamour? Pois eu não.

Bandida

Essa é a história da prima de uma amiga minha que mudou para a Suécia há uns tempos.

A guria estava tirando a carteira de habilitação, até mesmo porquê ela precisa disso no trabalho. Ela já fez a prova teórica duas vezes e reprovou, assim como a prova prática. Pelo que ela me disse sempre achou que seria difícil passar no teórico, mas não imaginou que ficaria tão nervosa com a prova de direção a ponto de reprovar. Duas vezes. Bom, ela também foi para a auto escola então aprender o jeito sueco de dirigir.

Mesmo sem carteira, ela saia para dar umas voltas sem o carro às vezes… e bem, da última vez ela encontrou um senhor policial. Ela parou o carro e foi honesta, disse que não tinha habilitação sueca, disse de onde vinha e para onde ia, disse que estava tentando tirar a carta. O policial foi bem gente boa com ela, conversou, disse que entendia, que deve ser muito chato mudar de país e de repente ter que começar tudo de novo. E  deu a multa.

Aí eu perguntei a ela se ela não argumentou e ela disse que não. Que sabia que não podia dirigir, que sabia que podia ser parada numa blitz. Que simplesmente aceitou a consequência pelos atos dela. Afinal, isso significa ser adulta. Ela disse inclusive que o senhor policial informou a ela que ela poderia negar o crime, mas isso pareceu meio forçado. Tipo, eu nego que estava dirigindo um carro sem carta… me teletransportei até aqui, eu sou um X men. Dãã.

Como resultado dessa traquinagem ela pode perder o direito de tirar a habilitação por um ano. E ela recebeu um boleto pelo correio que fez ela cair de costas e vai vender um rim para pagar pelo delito. Se alguém que estiver lendo isso está no mercado de tráfego de órgãos, manda uma mensagem para mim pela página do Facebook que eu boto vocês em contato.

E no capítulo de hoje aprendemos que desrespeitar a lei no estrangeiro custa muito caro então, queridos leitores, não tentem reproduzir esse comportamento.

Dona Maria

Uma das coisas que mais quebrou as minhas pernas com a mudança de país foi a questão da minha identidade profissional. Eu não sou o tipo Dona Maria que é zelosa com a casa – afinal de contas, Amélia que era mulher de verdade – e o fato de ver meu diploma não valer de nada me angustiava.

Até eu arrumar um emprego…

É aquela velha história: você se mata estudando pra passar no vestibular, mas a universidade não é mole não; você se desdobra escrevendo e reescrevendo currículo e carta de apresentação, mas se dar bem no trampo é que são elas. Ano passado, trabalhei apenas um mês e meio antes de sair em licença maternidade e agora que estou há três meses de volta a ativa é que entendo o quanto foi suave aquele período (vassoura nova varre que é uma beleza). Eu estava mais tranquila, havia outras preocupações dentro e fora do campo profissional. Agora há muito mais pressão de todos os lados.

Isso está relacionado ao fato de ser mãe, em primeiro lugar, e ao fato de ser a mais jovem do meu grupo de trabalho, em segundo. Eu mencionei no post passado que apesar da Suécia ser um país liberal me espanta alguns comportamentos conservadores em relação a amamentação, da mesma forma que me espantou que algumas pessoas ficaram surpresas quando eu disse que voltaria ao trabalho antes do Benjamin completar um ano. Eu posso estar enganada, mas senti reprovação também. A pergunta que mais ouvi foi “por quê? Ele ainda não fez um ano, e a licença é longa”. É verdade, a licença é longa, mas eu quero dividir ela de modo igual com o Joel. Porquê eu sou mãe, é super importante minha presença ao lado do meu filho e etc (principalmente até o primeiro ano) mas ele tem um pai que também anseia por um vínculo forte com seu filho. É muito difícil, como mãe e tendo a carga cultural que eu tenho, dar abertura para que o meu parceiro seja pai. Primeiro, porque eu sou o tipo de pessoa chata que acredita que as coisas são muito melhores quando são feitas do “meu jeito”. Segundo, a gente cresce ouvindo que mãe é que sabe o que é bom para o filho. Mas pai também sabe. Eu sabia ser mãe o mesmo tanto que o Joel sabia ser pai quando Benjamin nasceu. Por conta da amamentação, meu vínculo com o Benjamin se estabeleceu mais rápido, mas tudo que eu aprendi aprendi com o Benjamin. Se o Joel não tivesse oportunidade de ficar sozinho com o bebê também não aprenderia.

Então eu quero deixar uma crítica para nós mulheres: temos que ter mais coragem de largar nossos filhos na mão de nossos companheiros. Você casou, ajuntou com essa pessoa porque ela é especial (se você está em um relacionamento saudável), então deixe seu bebê provar disso também. Instinto paterno existe, e o seu filho não vai gostar menos de você porque você é corajosa o suficiente para compartilhar responsabilidades.

Como eu falei, não é fácil… mesmo que racionalmente eu tenha tomado essa decisão, na prática a história é outra. Muitas vezes quando estou no trabalho penso que deveria ter esperado mais para voltar. Que seria mais fácil se eu não tivesse peitos cheios de leite que me fazem perguntar o que é que o meu pequeno está comendo, se ele está dormindo bem (mesmo porquê eu passo 24h seguidas longe de casa). Quando temos alguma reunião em que assuntos delicados estão sendo discutidos pela milésima vez desde que eu voltei, ou quando um dos adolescentes do abrigo começar a ser muito adolescente (e eu com eles né?); eu sempre me pergunto: o que é que eu tô fazendo aqui?

O fato de ser a mais nova do grupo me faz sentir meio burra às vezes porque nosso trabalho compreende tanto questões práticas como burocráticas. Há coisas que a galera já está cansada de fazer e eu não tenho a menor idéia de como funcionam; eu não tenho conhecimento da rede de apoio e frequentemente me pego boiando. É um desafio, e eu me sinto bem com isso, mas sempre rola aquela pressão também. Principalmente no quesito linguístico… meus colegas costumam elogiar meu sueco, mas na hora do pega pra capar ainda sou muito lenta tanto para escrever quanto para argumentar. Normalmente, entro muda e saio calada de reuniões porque não desenvolvi o sueco suficiente para entrar no timing de uma discussão acolorada e conseguir expressar meu ponto de vista. Vai melhorar com o tempo, mas nessas horas minha auto estima fica super abalada e eu me pergunto se eu quero mesmo isso.

Mas eu sei que eu quero. Estou acumulando experiência e apesar da pressão constante (eu sinto que “posso” trabalhar fora mas tenho que mostrar que ainda serei uma boa mãe – bem anos 80, mas é isso mesmo) eu começo a dominar e compreendercada vez melhor o sistema social sueco.

Dona Maria sim. Mas não daquele jeito.

Pequenas Grandes Coisas #Capítulo Já perdi a conta


Impaciência.

Eis a palavra que rege meus dias.

Super dramático né? Me avisaram. Me disseram que no fim estaria implorando para essa criança nascer e eu duvidei. Acho que isso é bem normal e no meu caso em particular, inevitável. Eu sou desconfiada por natureza e tão teimosa que se alguém me dissesse que bananas vem de bananeiras e eu não soubesse, duvidaria até descobrir a verdade.

Em todo o caso, nem completei as 40 semanas ainda. Tecnicamente estou com 38 semanas e alguns dias. Minha barriga já não cabe mais em blusa nenhuma. Tenho uma calça de grávida servindo, mas graças ao bom Deus tem feito calor nessa terra de gelo e uso e abuso dos meus vestidos (nessas horas, eu agradeço ainda mais aos céus por ter uma mãe costureira).

Aviso aos navegantes: para quem começou a acompanhar o blog agora e não está entendendo bulhufas (afinal é verão na Europa certo?), aqui vai uma verdade absoluta sobre a Suécia: o verão aqui significa temperaturas acima de 15 graus C durante uma semana. Podemos ter um único dia de verão durante toda a estação – sim, isso aconteceu (exagero) em 2011 quando me mudei para a terra dos vikings: choveu, choveu, choveu e choveu durante junho, julho e agosto. As temperaturas ficaram em torno dos 16 graus C e o verão todo foi uma bosta. Esse ano os termômetros tem marcado temperaturas recordes: 20 até 26 graus C já em maio. Mas o midsommar vem aí (dia 20) e esse é com certeza um dia em que chove ou faz frio. Se não fizer, algo está bem errado…

Ando tão cansada que meu complexo de Macunaíma anda ao extremo. Tanto que eu nem uso dizer “ai que preguiça”, tamanha a preguiça. Estar grávida quase parindo é como viver em slow motion: tu-do le-va ma-is do que o do-bro do tem-po pa-ra ser con-cluí-d0 e mui-tas ve-zes le-va ho-ras a-té ser co-me-ça-do. Já comecei vários posts aqui, queria contar coisas sobre o trabalho e etc e tal, mas não vai. Fico o tempo todo pensando: ah puxa, melhor fazer isso primeiro. Isso sempre demora. E aí não volto mais. Os rascunhos estão salvos e quem sabe, num futuro não muito distante, eles saiam do forno. Ainda não vou responder aos coments, sorry, mas queria deixar claro que não penso em fechar o blog. Sei que me expressei mal no início do último texto, e o que quero dizer é que: minha vida já mudou. Me sinto tão diferente agora! Não sei sobre o que vou escrever depois que o Benjamin chegar, não sei se vou continuar tendo o mesmo foco no blog e talvez seja difícil uma vez que eu não sou mais a mesma pessoa. Isso é uma coisa que sempre converso com a Vânia, como a maneira que a gente escreve vai mudando conforme o tempo vai passando… normal. Não vou fechar as portas, mas pode ser que fique algum tempo sem postar (tipo duas semanas, como da última vez!).

Mas, já que toquei no assunto trampo, estou ansiosa para sair – porque quero ver a carinha desse ser que me habita – mas também estou um pouco triste de não poder continuar. Há tanta coisa que fazer, tenho tantas ideias, mas não dá para começar nada agora pois… pá, nem dá tempo. Ainda estou com aquela sensação de que vassoura nova varre que é uma beleza mas ao mesmo tempo já me descobri em alguns conflitos. Por exemplo, o fato de ser a mais nova no grupo às vezes faz o pessoal me tratar como se eu precisasse de orientação constante. É maravilhoso, eu sei, e sou grata por isso, mas também dá aquela sensação de ei! Eu sou grande sabia? Talvez seja excesso de cuidado por causa do meu estado interessante – como eu trabalho com uma maioria de não suecos, o tratamento dispensado a grávidas é bem mais cheio de cuidados do que quando eu trabalhei apenas com suecos. E não, isso não é impressão minha: existem suecos que são extremamente calorosos com uma gestante, mas a grande maioria mantém distância como se você tivesse lepra.

Por causa disso é bom procurar se enturmar com a galera que já tem filho ou está para ter. Das gurias solteiras que conheço – à exceção das cunhadas – são umas poucas que se dão ao trabalho de perguntar como é que a coisa anda e quando é que essa criança sai. Talvez seja um traço cultural, ou só mais um fruto da minha falta de capacidade de estabelecer conexões com as suecas: se eu não ligo elas não ligam, e isso não mudou com a questão do parto iminente.

Falando em parto iminente, me perguntaram se eu não tenho medo de parir. E sim, é claro que a gente fica tentando advinhar o quanto é que vai doer (se é mesmo que o grau de intensidade da dor é como de cólicas renais, tenho uma ideia de que o negócio não será mole) mas no mais eu estou torcendo para as dores começarem. Como cada parto é diferente, eu fico gastando energia imaginando o que vai rolar primeiro: as contrações ou a bolsa estourando; e aonde é que vou estar afinal, eu trabalho em uma cidade que fica a uma hora de trem de Göteborg, e ainda não saí de licença.

Falando em trem e transporte coletivo, eu andava bem contente com o meu translado para o trabalho, até passar por três atrasos gigantescos no início do mês. Teve um dia que tive que dirigir (130 km) para o trabalho e outro em que simplesmente demorei quatro horas para chegar… aí, como Murphy é meu amigo, junta-se a isso o fato de que meu celular estragou. Hahahaha! E eu nessa vibe super slow motion passei uma semana procrastinando para resolver o problema… O que seria dessa vida sem um pouco de aventura não? Nem imagino o que aconteceria se o parto começa lá no trampo (ainda vou trabalhar mais dois turnos antes de entrar em licença) e eu não posso chegar em casa por falta de trem e nem avisar que estou presa no caminho por falta de celular…

Mas não há motivos para pânico, e além da super barriga e da minha lerdeza nada mudou. Ou melhor, o que mudou é que a dor nas costelas amainou muito – talvez porque o bebê encaixou e baixou um pouco – graças a Deus; e que eu tenho uma certa tristeza por saber que não vou poder mostrar o pequeno grande homem a família assim que ele resolver dar as caras. Quando a gente decide mudar pesa uma série de prós e contras, mas eu na minha cabecinha de vento nunca pensei o quanto seria triste estar grávida longe da minha mãe, do meu pai, dos meus irmãos.

Com certeza a família do Joel está me cercando de cuidados. Eles estão eufóricos – é o primeiro neto, e todo mundo está na torcida para que a criança chegue logo. Até organizamos um chá de bebê – coisa que não é tradição na Suécia, e eles adoraram participar. Além disso, na falta da família de sangue, arrumei uma linda família de amigas brasileiras… Nada melhor do que a própria língua e cultura para que a gente se sinta em casa.

 

Essa foi no chá... quando a barriga ainda estava mais ou menos limpa

Essa foi no chá… quando a barriga ainda estava mais ou menos limpa

Uma dessas gurias me disse – há um tempo atrás – que a maternidade me abriria muitas portas, e estou começando a entender… eu sempre tive medo de acabar me apoiando excessivamente no Joel, ou de usar meu filho como escudo para a minha falta de afinidade com a cultura desse país, mas devagar as coisas tem se ajeitado. É tanto carinho de perto e de longe que nem estou cabendo dentro de mim!

Eu continuo pensando, com um cadinho de tristeza, em todas as pessoas com quem eu gostaria de dividir esse momento especial e percebi que há muita gente daqui que entra nessa lista agora.

Finalmente!

Três anos de Suécia e mais do mesmo

Eu completei três anos de Suécia em abril mas… olha só como é que as coisas vão mudando de prioridade na nossa vida não é? Logo que mudamos vamos contando os dias, as semanas, os meses, as novidades, sempre e com bastante detalhes. Depois a gente vai deixando isso de lado. Não porque não passemos por situações inusitadas, mas simplesmente porque – no meu caso – eu me acostumei a ter um choque cultural com tudo.

Essa coisa de choque cultural… pá, eu lembro de que quando li sobre isso imaginei que seria mais ou uma menos como um tombo, uma ducha de água fria ou um tapa na cara; que viria assim e pau! Eu sentiria tudo de uma vez e com bastante intensidade. É assim às vezes, mas o fato é que não chega tudo de uma paulada só. Vem a prestações, daquelas em que os juros são flutuantes. Às vezes é só um desconforto, às vezes é angustiante. Nesses momentos dá vontade de jogar tudo para o alto e dizer: cansei dessa brincadeira, eu quero voltar para casa!

E foi isso que eu fiz. Grávida, desempregada e me sentindo o koo do mundo cheguei chorando para o Joel e disse que estava cansada dessa merda de país e que queria voltar para casa. Sorte minha que ele é louco para morar no Brasil. Azar o meu que tudo não é tão simples como fazer as malas, comprar um bilhete e zarpar – ou melhor, voar – para o lado de lá. Mas a bem da verdade é: três anos de Suécia não me fazem amar esse país, não me fazem idolatrar essa riqueza, essa segurança, as facilidades e essa perfeição absurda que me cerca. Três anos de Suécia apenas me levaram a simples constatação de que eu sou, definitivamente, o estranho no ninho.

Nota: acho fabuloso gente que mudou para cá e vive bem e feliz. Quem conseguiu entrar no ritmo e está saboreando intensamente cada pedacinho dessa terra cheia de novidades é que está certo porque dispensa dramas desnecessários, dores de cabeça e desapontamento. Vocês tem meu respeito.

Ainda ontem comentei que minha vida na Suécia ainda parece estar dentro de uma bolha. Quando voltei para cá em abril lembro dessa sensação ser muito forte nos primeiros dias: essa paisagem ao meu redor é familiar, mas parece muito a cena de algum filme que eu vi. Eu poderia ser o personagem de algum suspense tenso, daqueles que você espera durante o filme inteiro que algo aconteça e no fim…  não havia nada para acontecer. Talvez essa sensação de estranhamento venha porque de forma inconsciente eu sou a espectadora a espera dessa alguma coisa e não percebi que essa alguma coisa acontece todo dia, mesmo sem ser extraordinária.

Ainda é uma dificuldade muito grande me conectar com suecos. Já desisti. Às vezes me chateio imensamente com isso – ontem foi o caso – mas na maioria dos momentos somente aceito que não rolou e ponto. Eu tenho outros latinos a minha volta, outros estrangeiros e brasucas com os quais é muito simples conversar, marcar um encontro, falar ao telefone ou simplesmente mandar um recado no facebook. No final das contas pode ser que os suecos com quem eu convivo acreditam que estejam super conectados comigo – mas eu não sinto isso. Eu sou quem liga, quem convida para sair e quem tenta manter a conversa animada – sempre. Se eu não fizer, fico no vácuo eterno.

A sensação de solidão é constante.

Quem sabe isso mude agora que eu tenho um emprego e que eu vou estabelecer uma certa rotina na minha vida afinal, quando se tem muito tempo para coçar se acha até chifre em cabeça de cavalo. Quando converso com outros brasileiros a respeito da minha insatisfação em morar aqui eles só sorriem e dizem que assim que eu tiver meu filho minha cabeça vai mudar, eu vou priorizar outras coisas que eu não posso ter no Brasil. Eu me pergunto quais são as minhas prioridades e, sinceramente, ainda não entendi porque elas vão mudar assim que meu filho nascer. Ao contrário, antes de engravidar eu pensava que a Suécia seria um ótimo lugar para educar uma criança. Já desde que engravidei tenho enormes dúvidas. Quem sabe seja isso que acontece com tantos pais pelo mundo afora – e pelo Brasil também – principalmente aqueles que me escrevem querendo saber como mudar para cá porque querem dar um futuro melhor aos filhos – afinal o Brasil anda assim, assado, frito e cozido – e parece que ninguém gosta desse combinação.

Não sei o que responder. Provavelmente minha insatisfação venha porque não me acostumei com o estilo de vida sueco. Talvez seja birra ou minha eterna teimosia que me faz reclamar sempre… o fato é que quando alguém me escreve no seco com “eu quero pelo amor de Deus ir embora daqui!” (do Brasil) minha única vontade é dizer “eu também pessoa… vamos trocar de lugar?”

Qualquer dia desses enfio o Joel numa mala e o nome do blog muda para “de volta para minha terra”. Pena que o programa do Gugu acabou.

 

Pequenas Grandes Coisas #31

Preciso responder aos coments dos posts anteriores mas… organização não é o meu forte e como tenho algumas coisas para contar decidi deixar umas novas antes de desistir por completo.

Estou avaliando seriamente se vou ou não a missa da Paixão. Como no caso não iria a uma igreja católica, não tenho ideia de como seria o ritual. Isso me dá um pingo de curiosidade mas também muita preguiça. Além disso tenho outras ideias na cabeça e não estou pensando em Jesus. Não é que eu tenha abandonado a fé ou etc, apenas não estou praticando e acho um pouco hipócrita sair de casa na sexta feira santa esquentar o banco de uma igreja quando eu sei que vou ficar pensando nas coisas que eu gostaria de fazer em casa…

Tenho me envolvido bastante com a reforma da sala de estar – e tudo o que isso significa. Reforma significa, além de tudo, que sua casa estará uma constante baderna e sujeira. Eu vou juntando um pouco ali, varrendo um pouco lá, mas depois de lixar as paredes… pá, não teve jeito. Tudo está meio branco e esquisito, meio grudando. Hoje quero fazer os últimos detalhes da pintura na parede (se as roupas do Benjamin já secaram) e costurar algumas coisinhas…

Eu me dei uma máquina de costura no Natal. Uma coisa bem simples. Eu não sou boa costureira não – não tenho paciência para os detalhes, vou cortando, emendando e metendo a costura reta (coff, coff) como dá. Se um lado ficou mais curto que outro… eu posso desmanchar uma vez. Mas não estou confeccionando roupas, porque eu tenho simancol. Mas fiz um boneco para o Ben quando estive no Brasil! Eu fiquei impressionada de que tenha ficado bom. Modéstia a parte. Tem gente que acha feio demais porque é preto, que é racista porque tem aqueles traços exagerados negros que um saci tem, e que vai assustar o menino – porque é um saci e porque tem uma perna só. E porque o Saci é mau (veja que mãe desnaturada: não vai a missa da paixão e ainda por cima confecciona um Saci para o menino!). Mas eu não estou querendo provocar ou ofender pessoas negras, só quero que meu filho tenha contato com o folclore brasileiro. E o Saci no folclore brasileiro é assim: um menino preto de uma perna só. Acho que o boneco vai servir também para ensinar o Benjamin sobre diferenças e sobre respeitar elas – tanto porque o saci é preto, tanto porque ele tem uma perna só. Há criança deficientes, pessoas deficientes no mundo; e já que é muito bom ensinar o menino a brincar de boneca e já que é muito fácil comprar bonecas “lindas” branquinhas e de olhos azuis (ironia viu gente)… meu trabalho tinha que valer a pena uai! E como eu disse, acho que meu saci ficou muito lindo. Não vai assustar o moleque não.

Saci

A foto – para variar – não é boa, mas sacaram que eu fiz dedos no pé?

Falando nisso, acho que é a primeira vez que escrevo o nome do guri no blog. Eu ainda não decidi o que vou escrever a respeito dele. Acho um barato mães que compartilham as aventuras dos filhos – esses blogs tem me salvo quando acordo de madrugada e não posso retornar ao meu sono de beleza e reparação. Mas eu tenho a impressão de que este blog não se transformará num blog materno. Eu escrevo só o que me vai na telha, sem um foco muito certo ainda… Em todo o caso, Benjamin foi uma escolha antiga. Sempre achei o nome lindo, o som, o significado. Convencer o Joel não foi um trabalho difícil, uma vez que ele tinha várias sugestões para nomes de menino mas sabia o nome que queria no caso de uma menina. Já meu caso era o contrário: tinha várias sugestões para nome de menina, mas sabia o que eu queria se fosse um menino… Decidimos que, fosse uma menina o pai escolheria o nome, fosse menino era minha vez. Há, ganhei!

Minha barriga está uma bolotinha, todo mundo diz que eu não engordei (eles não veem meu músculo do tchau, como ficou gordinho) e que estou só a  pança mesmo. Não vou postar fotos aqui, não enquanto minha irmã não me mandar algumas fotos que tiramos quando estive no Brasil. Ela tem muito talento e fez um trabalho muito bonito. Então eu não vou tirar uma foto meia boca com meu celular, o que eu costumo fazer sempre, só para ter qualquer imagem aqui. No mais, eu me sinto bem grávida. Me sinto bonita e ainda um tanto especial. É só não sair na rua… porque daí me bate aquela deprê da invisibilidade. No mais, o guri gosta de brincar com a minha bexiga: eu imagino desde o sapateado, até treino de MMA a um batuque cadenciado num surdo. Dias mais, dias menos. Agora começou aquela fase chata em que eu tenho que procurar uma posição confortável para dormir e eita! Que tarefa viu? De um jeito dorme a perna, de outro me dá cãimbras, de outro não pode porque tranca a circulação… Aí o menino já enfia o pé embaixo da costela e as ancas decidem começar a doer a uma hora da madruga. Mas por incrível que pareça… o que mais me incomoda são pesadelos – sempre acordo por causa de sonhos ruins – e uma ardência na pele, seguida de fortes dores no meu umbigo (dizem que é normal, só a pele se esticando mas eu tenho que confessar: morro de medo de ver a barriga se abrindo bem no meu umbigo e de perder a criança no chão! Em meio a tripas e muito sangue… lol). Não tenho estrias ainda – elas podem aparecer a qualquer momento. Dizem que é hereditário – minha mãe não tem muitas, nem minha irmã mais velha – e eu acredito que a alimentação é que faça uma incrível diferença nesse sentido. Bom, eu como frutas e verduras todos os dias – ainda que elas tenham gosto de nada. E passo óleo e creme em tudo, vivo bezuntada. Mas se vier, vieram e não há o que fazer…

Tem bastante gente curiosa a respeito do meu emprego. Como é que se resolveu? Porque vocês lembram que eu não havia dito nada no dia da entrevista não é? Pois… eu mandei um e-mail (pedi ajuda ao marido para redigir de forma que ficasse super objetiva, bem humilde) contando da gravidez e da data prevista para o parto. A primeira resposta veio rápida e rasteira, nem cinco minutos depois e extremamente enxuta: temos que conversar a respeito assim que você voltar para a Suécia. É, eu estava no Brasil. Respondi normalmente que claro que sim, que estava a disposição blá blá blá, mas já me deu aquele medinho de sofrer um bullying no trampo por causa da minha travessura. Trocamos mais alguns e-mails, todos assim bastante secos e objetivos: quanto tempo eu desejava de licença maternidade (essa história explico melhor depois), quando eu queria sair, se eu queria começar mesmo – uma vez que vou trabalhar entre um mês e um mês e meio… poderia tentar um espécie de auxílio gravidez e etc e tal. Mas no final das contas, assim que cheguei na Suécia recebo um telefonema da minha chefe desejando-me os parabéns pela minha gravidez. Isso me deu uma confiança e um alívio enorme!! Minha chefe parece ser uma pessoa bastante prática, e já organizamos tudo o que vai acontecer desde o dia em que começo (oficialmente 5 de maio) até o dia em que vou sair (mistério…).

Definitivamente, esse emprego afastou muitas nuvens negras do meu horizonte. Sempre tenho a impressão de que a minha falta de amor pelo solo sueco é devido a falta de segurança financeira e ao excesso de horas livres que eu tenho. Todo mundo tem uma vida e eu preciso imensamente de contato com outras pessoas – já confessei no post passado o quão carente sou – e não dá para ficar encontrando gente no meio da semana para um almoço, um fika, uma escapadinha; afinal, os outros tem o que fazer, sou eu que estou aqui de varde. No fim das contas, cai tudo nas costas do Joel e como eu quero preservar o meu relacionamento, eu tento maneirar e não grudar nele assim que ele passa pelo umbral da porta. Ainda estou naquela vibe de saudades intensas do Brasil, simplesmente porque lá nunca estou sozinha.

Aqui, morando no campo e numa casa, posso curtir a paz e o sossego até enjoar. E eu enjoo rápido. Tenho ouvido muita música enquanto estava lixando paredes e pintando. E não é perigoso para o bebê? Não, eu uso máscara e não estou me matando de trabalhar. Fiz uma porrada de pausas enquanto lixava – meu músculo do tchau gordinho é pesado, eu não posso trabalhar um tempão com ele dependurado no meu antebraço – para comer, tomar água, ligar para outras pessoas, tirar uma soneca ou só ficar de bobeira na internet – tem muito blog materno para ler e, graças a Deus, uma comunidade grande de mães para trocar figurinhas.

Fui trabalhar duas vezes. Uma vez como assistente pessoal, outra num trampo que arrumei em fevereiro para fazer uns bicos, que é uma mistura de assistente pessoal e behandlingsassistent. Como assistente pessoal trabalhei algumas vezes com uma moça, e foi uma experiência muito boa. Já no outro trampo… a equipe de trabalho não é unida e bom, é difícil trabalhar quando um fala mal do outro o tempo inteiro. Mas,  como diria minha amiga Angela, eu não estou dando bicudas em notas de cem e quando eles me ligam, eu vou. Só que é realmente um alívio olhar para o relógio e perceber que só falta uma hora para sair. Sério… nunca me senti assim nem quando trabalhava como faxineira na Suécia! Esse é, de longe, o pior trampo que já tive na vida.

Por essas e outras é bom e mau ficar em casa. Bom porque eu acabo descobrindo algumas coisas bestas – tipo Bezerra da Silva! – que são maravilhosas e mau porque eu não tô fazendo nenhum dinheirim. Já não fiz dinheirim nenhum mês passado, só curtindo a vida boa no Brasil…

Ainda assim, tô animada. Vou aproveitar esse mês para deixar as coisas do piá engatilhadas – quarto pronto, se Deus quiser – que mês que vem eu já tenho uma agenda de trabalho… e em junho tem o chá de bebê sueco!

Então é Páscoa e eu não comprei nada de chocolates. Eles me dão uma sensação super estranha e no dia seguinte eu tenho tipo… ressaca. E eu tô fazendo um curso de parto natural. E descobri umas manchas brancas na minha bochecha. E sardas na testa! Também decidi que vou fazer um quadro usando uma janela velha como moldura… só não decidi que fotos vou colocar ainda. E quero costurar os lençóis para a cama do guri… e uma cobra de tecido… e comprar uma máquina fotográfica…

Eu já disse que estamos reformando o banheiro?

Pré Natal na Suécia – II

Como eu citei no início do post anterior, segundo o pessoal dos movimentos pelo parto humanizado no Brasil (favor não confundir parto humanizado com parto em casa), a Suécia é um dos países modelo número um em parto humanizado no mundo, justamente por causa da questão das enfermeiras parteiras.

Acho que uma das vantagens de fazer o pré natal com uma parteira é que a gente se sente a vontade. A parteira que  está fazendo meu acompanhamento é muito simpática e tranquila e não foi a mesma que me receitou aquele anticoncepcional ruim e isso foi muito importante para mim. O que eu acho que foi mais negativo é o fato de que há um protocolo meio rígido a ser seguido, fazendo com que as consultas de uma hora pareçam ter apenas cinco minutos. Eu nunca tive oportunidade de ter aquela conversa que eu achava que teria com a parteira, na qual eu poderia botar para fora as minhas dúvidas – que eram muitas.

Mas eu não acho que seja uma falha pessoal da parteira e sim da forma como o sistema de saúde na Suécia é construído. A Su comentou por aqui uma vez que o sistema na Suécia não trabalha a medicina preventiva, e simplesmente isso faz uma enorme diferença.

Além disso, não sei porquê achei que a questão seria mais específica, como quando vamos à ginecologista no Brasil mesmo ou como aconteceu no dia do ultrassom bônus, no qual a médica me examinou para ver se tudo estava bem. É importante ressaltar também que as parteiras não tem essa formação ginecológica; quem faz isso por aqui continua sendo o médico. Por isso eu senti que a minha primeira consulta era mais para preencher uma ficha de cadastro: nome completo, peso, altura, data da última menstruação, falar um pouco sobre a dieta recomendada, coleta de sangue para exames, informação sobre o exame de urina, sobre o ultrassom (que só acontece cerca de dez semanas depois), mais info sobre diversos exames que o casal tem acesso (pagando ou gratuitamente) durante a gestação, info sobre possíveis sintomas de aborto espontâneo, info diversas e vixx Maria, nosso tempo está acabando… você tem alguma dúvida? E eu né… tenho muitas! Ao que ela me respondeu que era natural, que eu devia procurar alguns fóruns de mães ou que eu deveria ligar para o serviço de saúde 24h (1177) se eu me sentisse mal.

Sinceramente, alguém pode me dizer o que acontece na primeira consulta pré natal no Brasil?

Em todo o caso, saí do primeiro encontro frustrada. Troquei umas figurinhas com as amigas, desabafei, liguei para minha mãe e perguntei para ela como eram os acompanhamentos pré natal na década de 70, quando ela engravidou pela primeira vez. Parece exagero, mas é assim que eu me senti, mandada direto no túnel do tempo para um lugar onde você não tem os recursos que existem no mundo inteiro – apesar de viver em um país de primeiro mundo.

Eu tenho plena consciência de que o sistema não é ruim – não estou sendo irônica – basta analisar os indicadores de qualidade. Mesmo no Brasil, entre 1990 e 2010 a mortalidade materna caiu 51% e é claro que este é um reflexo da implantação do SUS, mas também do trabalho da Pastoral da Criança. A maioria das mulheres que trabalham na Pastoral são pessoas tão simples quanto aquelas que são atendidas mas esse é um trabalho que dá tão bons resultados que foi “exportado” para mais 19 países no mundo. Ainda assim, 56 mulheres de cada 100 mil morrem anualmente no Brasil em decorrência da gravidez/parto contra apenas 4 mortes a cada 100 mil na Suécia (dados da ONU 2010).

Não há como discutir com números. Mas há como reclamar da falta de calor daqui – e por isso é que já comentei no primeiro post que eu encaro como mais uma questão de choque cultural. Além disso, devido ao meu azar em topar com enfermeiras mais do que ranzinzas eu não me sinto bem vinda nos postos de saúde ou emergências. Sim, eu estou levando isso para o lado pessoal mas já comentei por aqui que o entendimento geral – na sociedade – é de que os árabes e somalianos estragam o sistema porque eles vivem correndo para lá sem motivos – o que irrita o pessoal. Ora bolas, eu sou brasileira, mas já me perguntaram se eu sou curda, ou iraniana (será o nariz? hahaha) e provavelmente o pessoal do sistema de saúde não pensa que são somente os árabes e somalianos que estragam as coisas, para eles qualquer estrangeiro está lá porque não entende seu papel na sociedade e não sabe que posto de saúde e emergência não é local para se passear. Eu já ouvi outros brasileiros criticarem “esses refugiados” e eu quero fazer um apelo: acorda gente! Vocês só estão fazendo a coisa pior para nós mesmos! Ou vocês acham que o pessoal vai perguntar a nacionalidade no atendimento da emergência?

Conheço duas mulheres que tiveram complicações durante a gravidez e foram tratadas com descaso pelos profissionais de saúde daqui. Uma delas perdeu o bebê e uma das trompas por causa de uma gravidez que se desenvolvia fora da útero e foi duramente criticada (até chamada de mentirosa) por enfermeiras que disseram na cara dela que estava exagerando, não era nada – enquanto ela tinha dor e sangramento constante. Outra quase morreu no parto porque, apesar de apresentar todos os sintomas de pré eclâmpsia, o pessoal ficou com cara de paisagem e não deu importância porque ela estava fazendo drama – foi necessária a intervenção de uma terceira pessoa para que ela não se transformasse em um número de estatística. Elas não são suecas e sofreram as consequências de um sistema que parte do princípio que todo estrangeiro faz fita e exagera demais. Se não bastasse isso, nós mesmos ajudamos a fortificar o preconceito falando que é tudo culpa dos refugiados. Mais uma vez: quem é que acha que o pessoal vai perguntar a nacionalidade em uma emergência ou no posto de saúde?

Fechando a sessão desabafo, acho importante reforçar a questão do choque cultural. Pra quem achou que isso era uma coisa que vinha de uma vez só, tá super enganado. Eu me sinto super perdida, no meio de estranhos que não comemoram o fato de uma vida estar surgindo e cercada de enfermeiras ranzinzas que acham que estou de fita. E ainda carrego aquela falsa sensação de que talvez no Brasil seria melhor, simplesmente porque o pré natal é com o médico. Incrível como a gente continua endeusando os nossos “doutores”.

Eu não dei trégua para minha parteira, liguei para ela, dei um jeito de conversar um pouco e no nosso segundo encontro já me sentia mais tranquila. Mas eu também segui os conselhos dela e gastei muito tempo dividindo minhas dúvidas com amigas, tanto as que não são mães ainda – obrigada por me emprestarem seus ouvidos; assim como caí na carne da Cíntia, do blog Minha Aquarela. Nada melhor do que encontrar alguém que curte falar sobre suas experiências na montanha russa da vida materna para poder fazer um longo papo furado. Além disso, a Cíntia me indicou uma porrada de blogs maternos – eis aí o porque de eu não comentar mais ninguém, estou consumindo tudo que posso a respeito de gravidez e mães de primeira viagem. E mais uma vez, eu amo o cara que inventou o skype!

São realizados dois controles pela parteira antes do ultrassom, ou seja, antes da 18a semana. Como eu descobri minha gravidez cedo, esses dois encontros já se foram há tempos. Enquanto meu ultrassom não chega, também não vou ver a parteira – a menos que eu apresente algum sinal estranho. E isso é bárbaro demais: como é que eu vou saber? Para mim tudo é novo e estranho agora. É lindo, mas super estranho. Mulheres grávidas não estão doentes (é bom ser relembrada Manoel) mas eu fui contaminada pelo medo absurdo que as pessoas tem aqui de que a gravidez talvez não vai vingar, que a primeira gestação é comum acabar em aborto. E se eu precisar de atendimento de emergência não vai ser minha parteira legal me esperando com sua simpatia e tranquilidade, e sim qualquer outra enfermeira bruxa pronta para me acusar de que estou exagerando, devia ter tomado alvedon e ficado em casa.

Fiquei mais aliviada quando completei a 12a semana mas ainda assim, eu queria muito estar “em casa” agora e me sentir mais envolvida por um clima mais leve e de felicidade em torno da gestação. Definitivamente, quando se trata de saúde, eu não me sinto bem vinda aqui.

Só por Deus mesmo.