Brasil, ame-o ou deixe-o

Parece piada mas, já que passei boa parte do processo eleitoral no Brasil e ousei me meter em discussões (mulher que tem opinião é metida) ouvi de vários conhecidos e desconhecidos “um pra você é fácil ficar falando, só que você é de fora e não conhece a realidade brasileira”. Um tipo gentil de cala boca. Normalmente seguido de “volta pra cá se está achando tão bom” ou “por que não muda pra um país comunista?”

A Suécia é socialista para muito estadunidense. Enquanto metade da galera que tem um posicionamento político de direita jura que a Suécia é um país de direita e que foi o capitalismo que salvou o país (e foi); outra metade enquadra a Suécia no mesmo pelotão de países socialistas como… digam um qualquer aí. Essa galera jura que os suecos não se tocaram que vivem num comunismo, com um governo que decide tudo (inclusive aonde você pode comprar bebida alcoólica).

Se a coisa vai nesse pé num país desenvolvido, porque seria estranho que tantos brasileiros vivam uma dissonância entre a realidade e o que eles acreditam que é a realidade? Porque a gente é um país que não lê mas principalmente não sabe questionar o que lê, porque temos complexo de irmão caçula e de vira lata e por causa da violência da nossa educação (fechem as universidades, eu tenho todas as respostas).

Essa coisa de crescer dentro de um sistema educacional violento, eu não me refiro a escola e qualquer doutrinação que a galera do escola sem partido se refere. Eu me refiro a educação que a gente recebe em casa mesmo. E sei que muita gente vai protestar do tipo “palmada não mata, ensina” e eu vou concordar: palmada ensina mesmo, ensina muito, ensina que quando é enquanto você puder usar da violência e estiver no topo da cadeia você resolve tudo. A gente vive tão violentado que não percebe. A gente nasce e cresce dentro de núcleos familiares onde existe o certo e o errado, separados muito bem separados por uma linha imaginária. O certo é bom, o errado é mau, e ponto. Ser e estar certo evita sofrimento (físico, psicólogo) e estar certo nos causa bem estar ou simplesmente um sentimento de ufa!, escapei. Quando aprendemos a resolver tudo na base de gritos e pontapés não é estranho que tenha gente ameaçando de morte quem pensa diferente. Sempre que eu me sentir maior ou melhor do que outra pessoa vou fazer valer “o meu certo”, vou fazer todo mundo me engolir, nem que tenha de ser goela abaixo – ou seja, usando de violência.

Pra muitos de nós brasileiros a Suécia só pode ser socialista ou só pode ser capitalista, ela não pode ser uma coisa e também outra coisa. Não existe essa de um pé lá e outro cá, 18, 28, 58… Muito menos 9, 33 ou 77. É 8. Ou 80. E quem decide se é oito ou oitenta é quem manda. Manda quem tem mais – mais dinheiro, mais testosterona, mais poder. Eu pirei meu cabeção nessas férias. É incrível como a mulher brasileira só tem direito de fala se for pura, puríssima, mais alva do que a Branca de Neve. Porque te mandam calar a boca até porque você tem uma espinha na cara. Fulana não tem moral, ela tem caspa!!!

Cidadãs crescidas são tratadas como retardadas mas quem está na última casta dessa cadeia de violência são as crianças. E mesmo assim querem queimar o ECA em praça pública porque essa lei de merda acabou com o direito dos pais – como se o único dever dos pais fosse dobrar os filhos na base da porrada. Engraçado pensar que eu tenho uma lembrança dessa necessidade de me tornar maior, mais velha e mais forte para poder mandar em alguém. Mas a gente esquece quando cresce… ou não. A minha criança interior não aguenta ver tanta gente ríspida: mal dormida, mal comida, mal amada. Tanta gente precisando esculachar o outro pra se sentir bem. A minha criança interior chora de pensar que enquanto pra mim cala-boca-já-morreu-e-quem-manda-aqui-sou-eu ainda tem todo um Brasil de gente sendo violentado diariamente sem armas mas de forma escancarada, escandalosa, que deixa feridas na alma. Quando as pessoas me dizem que deixaram o Brasil por causa da violência eu me pergunto: será que fora do Brasil elas percebem o quanto são violentas? Se a gente pudesse fazer essa auto crítica (que graças a Deus já começou em muitos corações brasileiros) não teria de escutar “vai pra Cuba” ou “pra Venezuela” tantas vezes.

Eu já sabia. Tenho trabalhado isso bastante desde que o Benjamin nasceu por meio de terapia. Porque bem lá no fundo eu quero vencer na força. Eu quero dobrar os outros. Tenho uma necessidade absurda de provar que estou certa, que tem que ser do meu jeito. Eu vou para o Brasil e vejo esse meu comportamento (que eu não quero mais) sendo esfregando diariamente na minha cara. Resultado: saí do Brasil triste, mas aliviada. Cansei da brutalidade. Essa aí que está na nossa pele no dia a dia. O assalto, o assassinato é o resultado desse feijão com arroz nosso de violências cotidianas, aquelas que a gente faz e que a gente não vê mas que minam a nossa auto estima e acabam com a nossa energia.

O que me entristece é ter consciência de que essa discussão está longe de chegar na mesa do brasileiro porquê tem muito mais coisas que o cidadão precisa resolver. O brasileiro vive sem tempo pra pensar e poder planejar, vive correndo atrás de estabilidade. Na Suécia isso tem de sobra, aí temos tempo de roer nossas neuroses. Eu já estou aqui roendo a minha: como é possível amar essa bagunça toda chamada Brasil?

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Feliz dia do assistente social

Eu acho que cinco anos fizeram um buraco na minha cabeca, porque quando eu era funcionária pública no Brasil e trabalhava de segunda a sexta-feira eu ainda tinha vida pós trabalho. Agora a impressão que eu tenho é que depois que eu chego em casa eu preciso urgentemente comida e cama…
Claro que nada é igual. Há cinco anos atrás eu não tinha marido, filho, e nem toda uma casa pra limpar (que aliás, eu só limpo no sábado). Mas é fato de que a profissão de assistente social é classificada – na Suécia – como uma das mais difíceis – se você trabalha nos escritórios de assistência social, os chamados socialkontor. Se você joga no google palavras como stress e assistência social juntas aparecem uma série de artigos relacionados, tanto partindo de sindicatos como de outros instrumentos de pesquisa que citam a profissão como uma das piores do país em relacão ao ambiente de trabalho e número de trabalhadores afastados devido a esgotamento nervoso.
Eu sei o que você está pensando, mas eu sou Tomé: tenho que ver para crer. No caso, fazer para crer. E agora eu creio: trabalhar no escritório de assistência social tem me deixado mais cansada do que eu posso me lembrar em toda a minha vida. A carga de trabalho é grande, e como eu sou novata ainda demoro muito para fazer qualquer coisa, e como eu não tenho sueco como língua materna demoro muito para escrever relatórios e aí já lascou-se tudo. A sensacão é de que eu tenho trabalho atrasado desde o segundo dia em que comecei. Agora, depois de cerca de três meses, tenho me sentido bastante chateada com isso porque eu tinha a esperanca que fosse alguma coisa relacionada a minha falta de jeito. Infelizmente, falando com outras colegas descobri que não sou a única que me vê na mesma situacão e que aquelas que estão mais tranquilas o estão porque ligaram o foda-se literalmente e não se importam o mínimo com o trabalho acumulado.
O sistema funciona mais ou menos da seguinte forma: se você tem problemas econômicos entra em contato com o servico de assistência social, que nesse caso se chama stöd och försörjningstöd – apoio e auxílios financeiros (na verdade o substantivo försörjning se traduz melhor como “independência financeira”); e pede para marcar uma entrevista com uma assistente social. Dentro de alguns dias você encontra a assistente social e tem que estar munido de uma série de documentos que mostram que você faliu financeiramente (seu dinheiro está acabando e você não tem como pagar as contas do próximo mês) e você não tem mais nenhum tipo de reserva – não é possível ter uma poupanca e receber auxíllio do social, ou um carro, ou uma casa, ou… bens materiais de muito valor; e que você tem feito tudo o que poderia para resolver a sua situacão sozinho. Essa última parte significa que, se por exemplo, você ficou desempregado, tem procurado empregos por meio da agência de empregos e tem um plano lá; ou que caso você esteja doente você esteja seguindo a risca o tratamento. A assistente social que atende o usuário vai escrever um relatório socio econômico analisando a situacão do indivíduo e emitir um parecer em um prazo que normalmente gira em torno de 10 dias. Nesse parecer o mais importante é responder a duas perguntas: essa pessoa realmente está falida? e ela fez todo o possível para resolver essa situacão sozinha, buscou outras formas de ajuda antes de se voltar ao escritório de assistência social? Se a resposta para as duas questões é sim, a pessoa tem direito a auxílio financeiro – ekonomiskt bistånd. Ou seja, eu trabalho como o bolsa família sueco.
Todo o atendimento no setor de apoio e auxílio finaceiro é individualizado. Isso significa que cada caso será analizado individualmente e depois que o assistente social escrever o relatório mesmo que a resposta às questões acima não sejam exatamente um “sim e sim” no parecer e sejam, por exemplo, um “sim e sim, mas…” o usuário pode receber auxílio.  Quando o relatório social e econômico fica pronto é hora de fazer outro documento, o plano de trabalho ou projeto de trabalho. Nele o assistente social e o usuário vão definir o que o cidadão precisa fazer para conquistar a independência financeira. O plano sempre inclui uma série de fatores mas alguns deles são essenciais e se o cidadão não os cumpre não recebe auxílio para aquele mês em específico.Isso porque o fato de você receber o auxílio uma vez não faz com que o direito ao auxílio seja automático. Na verdade, o auxílio é avaliado mês a mês.
Ao contrário do bolsa família brasileiro, o bola família sueco não é formado apenas por valores definidos. A grosso modo podemos dizer que há um auxílio básico, esse sim é um valor definido que muda apenas de acordo com a idade do cidadão. O bolsa família sueco é formado de diversos auxílios complementares, entre eles aluguel, luz, o seguro da casa, cartão de ônibus e internet (varia de município para município) e auxílios eventuais, que são gastos com medicamentos e consultas ao médico, dentista, a compra de óculos e auxílio funeral, entre outros. Mas esse é um capítulo a parte que daria por si só um post gigante.
Se você tem problemas muito sérios, tais como aluguéis atrasados que fazem com que você possa perder seu apartamento e nem um puto pila no bolso (e quando eu digo nem um puto pila eu estou realmente dizendo isso: sua conta bancária deve estar no zero) quando sua geladeira está vazia você pode receber auxílios emergenciais para pagar o aluguel e comprar comida no momento em que você procura o escritório de assistência social. Nesses casos o assistente social emite um parecer baseado nas informacões disponíveis quando o usuário se volta para o sistema, e depois de receber uma pequena ajuda só para que ele não seja jogado na rua e ou morra de fome, o usuário entra na roda como todo mundo e vai ter que esperar por uma entrevista, relatório e parecer social para continuar recebendo algum tipo de auxílio.
Assim falando parece um sistema muito enxuto no qual é difícil de entrar. É e não é. Para que qualquer pessoa possa receber auxílio econômico ela tem que apresentar um extrato bancário. E nós assistentes sociais temos que analisar esse extrato bancário. Dos últimos três meses. Por quê? Porque se você estava na merda, sabia que não tinha dinheiro e continuou gastando como se tivesse um salário pra cair na conta vai dancar. Mas vocês podem imaginar que esse tipo de decisão não é muito fácil de comunicar a um usuário…
Se eu disse que o trabalho como assistente social é classificado como um dos mais extenuantes da Suécia, trabalhar com o bolsa família sueco está no topo da lista entre os piores trabalhos que o assistente social pode fazer. Pessoalmente não sei o que pensar, estou muito crua ainda e nem peguei o jeito, além do quê eu tenho problemas sérios em ter de escrever tanta documentacão numa língua que é razoavelmente nova para mim. Mas de modo geral as assistentes sociais aqui reclamam do mesmo que reclamamos no Brasil: salários muito baixos diante da carga de trabalho, e carga de trabalho que é realmente uma sobrecarga de trabalho.
Eu quis escrever esse post para dividir um pouco dessa experiência em um mundo novo, ou uma nova dimensão de um mesmo mundo – uma visão ainda um tanto crua e baguncada – como homenagem a todas as assistentes sociais brasileiras. Um viva as minhas colegas de profissão e forca na peruca gente… vamos precisar!