5 anos de Suécia

Eu já comemorei e já refleti um bocado. Estou niilista demais ultimamente e cansada dos sofismos de internet. Ando bem triste com uma porrada de coisas e me dou o direito de me manter calada quanto a isso.

Eu poderia escrever aquela célebre frase “morar no Brasil é uma bosta mas é bom,  morar no exterior é bom mas é uma bosta” mas pra não ficar no mais do mesmo decidi ir de engenheiros hoje. Uma hora em que eu estiver com ânimo venho aqui contar do trabalho.

Hey, mãe! Eu tenho uma guitarra elétrica
Durante muito tempo isso foi tudo que eu queria ter
Mas hey, mãe… alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente o que fazer
Hey, mãe! tem uns amigos tocando comigo
Eles são legais e além do mais, não querem nem saber
Que agora, lá fora, o mundo todo é uma ilha
A milhas e milhas de qualquer lugar

Nessa terra de gigantes
Que trocam vidas por diamantes
A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes
As revistas, as revoltas, as conquistas da juventude
São herancas são motivo pras mudancas de atitude
Os discos, as dancas, os riscos
Da juventude
A cara limpa, a roupa suja esperando que o tempo mude
Nessa terra de gigantes
Tudo isso já foi dito antes
A juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes

Hey mãe, eu já não esquento a cabeca
Durante muito tempo isso era só o que eu podia fazer
Mas hey hey mãe por mais que a gente cresca
Há sempre alguma coisa que a gente não pode entender
Por isso mãe… só me acorde quando o sol tiver se posto
Eu não quero ver meu rosto antes de anoitecer
Pois agora lá fora
O mundo todo é uma ilha
A milhas e milhas e milhas e milhas e milhas…

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A filosofia da cebola – vezes dois

Esse final de semana o inverno deu as caras (oficialmente ainda estamos no outono) e ontem tivemos uma madrugada de trincar os ossos, com nada menos do que 10°C negativos. O frio chegou na sexta, intensificou no sábado (com seus três graus negativos durante o dia) e  ficou até o anoitecer de ontem quando o termômetro conseguiu registrar 2°C.

Esses números são bastante difíceis de compreender. Eu ficava com frio só de pensar em passar dias abaixo de zero. O aquecimento das casas faz uma diferença enorme e a gente não sente – tão longe se mantenha dentro de casa – o quanto está frio. É na hora de sair que o bicho pega.

Essa é uma questão fundamental para sobreviver o inverno. Hahahaha, ficou séria demais a colocação mas o fato é que saber se vestir vai fazer você passar pelo inverno com menos percalços, vai por mim. Meu corpo mudou muito após a gestação (acho que o fato de gestar um mini viking me causou algum tipo de mutação) e eu estou muito mais resistente ao frio, isso é claro. Mas também não posso negar que depois de tanto tempo finalmente entendi a filosofia da cebola (ou a arte de se vestir em camadas) de que tanto falam desde que eu mudei. Feliz ou infelizmente algumas manhas a gente só aprende com a experiência; ainda assim vou tentar deixar um guia.

Dentro de casa normalmente não é necessário mais do que uma regata e uma manga longa. Claro que você pode substituir por um moleton ou uma blusa mais fina, mas como eu gosto de ter a base da “cebola” eu normalmente visto isso. Vou salientar também que essa é a “cebola” que eu aprendi, não é um modelo universal e sim um exemplo, quiçá o melhor, mas é o que veste aqui em casa e funciona. E o ministério da saúde adverte: não se vista dessa maneira  se você pretende sair correr. Então, para sair em -5° C ontem usei: uma regata, uma manga longa de malha, uma camisa, uma blusa de lã e o casaco; uma calça de malha e um jeans, meias de algodão, meias de lã e uma bota. Touca, cachecol e luvas se você ainda quiser ter orelhas e dedos e não morrer de dor de garganta. E só.

Algumas considerações: quando eu digo uma blusa de lã estou dizendo lã mesmo, não materiais sintéticos. Blusas tricotadas podem ou não ser de lã, a única forma de saber – além de ler a etiqueta – é o preço. Não há na face da Suécia blusas de lã (novas) por menos de 500dinheiros. É possível encontrar lindas blusas de lã em lojas de segunda mão e não importa se elas são finas, a lã esquenta de verdade. Eu aconselho a não usar a blusa de lã durante o outuno se você costuma ter alergias, pois com menos camadas por baixo é provavel rolar aquela coceira básica que vai te deixar ranzinza. Eu não tenho esse problema e usei muito a minha blusa de lã durante o outono, acho mais simples botar apenas ela por cima de uma malha e a jaqueta tapa vento. Ainda com relação às roupas de baixo, no caso das crianças é bom investir em roupas de lã. A maioria das lojas vendem roupas de lã que são como calçolas e manga longa, de materias que misturam lã e seda ou alguma outra coisa. A malha de algodão é ótima para países quentes, mas no frio assim que a criança transpira a malha fica molhada e fria. Já a lã deixa respirar e faz a umidade passar para fora da primeira camada de roupas, assim mesmo que a criança transpire muito ela não ficará molhada e com frio. É uma boa pedida para quem pensa em sair caminhar durante o inverno ou mesmo para os mais sensíveis ao frio, existem essas roupas de baixo (em sueco underställ) para adultos também, tanto em lã (mais caros) quanto em materiais sintéticos  (mais baratos). E, é claro que se você tem uma roupa de baixo que é quente não vai precisar usar o casaco de lã, que pode ser substituído por um tricô normal ou mesmo moleton.

Outra questão importante: se a jaqueta é tapa vento (windproof) não é necessário muita roupa por baixo quando só está frio. Eu tenho uma jaqueta de verão tapa vento e impermeável, usei ela na sexta feira com 3°C, as camadas costumeiras e minha blusa de lã e não houve problemas. Mas se venta essa combinação já não rola porque a jaqueta não tem forro e por mais que seja tapa vento  é um tapa vento mais light por ser uma peça de verão. Há jaquetas de outuno com um forro fino, com um tapa vento ainda melhor que é possível usar em dias com até alguns graus negativos. Para os dias frios de verdade as melhores jaquetas são as forradas com pena de ganso (exatamente). No caso de Gotemburgo, onde chove tanto que chega a chover canivete, é bom que a jaqueta seja de um material impermeável forte. Se você mora aonde neva bastante (e as temperaturas ficam abaixo de 15°C nagativos por longos períodos) vai precisar de jaqueta e calça térmica. Do contrário, a neve é “seca” quando as temperaturas estão abaixo de -2°C.

Observação importante número três: quanto tempo você vai ficar fora? E quanto desse tempo você estará parada/o? Se você vai de carro em algum lugar, não vai precisar de tudo isso para chegar até o carro. Mas é importante levar um casaco grosso a tiracolo, pois se um imprevisto acontecer e o carro morrer na beira da rodovia você não vai querer estar de regata e moleton sem aquecedor enquanto espera o guincho (que pode demorar muito) num frio de 0°C. Mas digamos que você vai caminhar até a estação ou ponto de ônibus, usar o transporte coletivo e depois trabalhar/visitar amigos/vai às compras… quanto tempo você vai ficar fora? Em dias menos frios, quando as temperaturas ainda estão acima de 5°C é melhor se vestir menos. Antes de usar um monte de casacos, experimente botar algo mais quente nos pés e uma touca de tecido – ter a cabeça e os pés quentes faz milagres. Os suecos tem uma filosofia de que é preciso passar um pouco de frio durante o outono para que o corpo acostume. E depois, se você botar muita roupa vai suar caminhando até o ponto/estação, depois vai suar dentro do transporte coletivo, vai suar no mercado/shopping ou vai ter que levar uma porrada de casacos, touca, cachecol, luva na mão. E não esqueça o desodorante, que tem muita gente que não acha as axilas depois de se vestir como cebola e fede violentamente como uma cebola em decomposição.

Agora, imagine que lindo é todo esse ritual cebolístico quando você tem uma criança pequena… conseguiu? Peraí que eu vou ajudar. Você decide sair e aí veste a criança primeiro (lógico) pra depois tomar a sua meia hora de cebola. Errado! A criança fica quente demais nas roupas, fica louca, começa a chorar e arranca touca, luvas e tudo o  que conseguir, pega ódio da roupa de inverno e vai chorar só de ver aquele casaco. Qual a saída? Essa mesma: vista todas as suas camadas (a exceção do casaco e acessórios) e  comece a caçada. Depois de vinte minutos correndo atrás da cria, implorando para ela deixar a gente enfiar mais duas camadas de casaco e meia calça e meia de lã e os sapatos, suada feito uma porca (com roupas para temperaturas negativas dentro de casa você fica mais molhada que funkeira no baile… viu a importância do desodorante?) você finalmente abre a porta e enfia casaco e touca, luvas na criança. E fica feliz de refrescar a cara antes de botar a cereja do bolo você também.

Quem foi que falou da magia do inverno? ;)

Outono, escuridão e uma série de coisas esdrúxulas

Novembro é o mês mais difícil de se viver por aqui e felizmente não estou sozinha nessa percepção. O fato é que o outono começa lindo com uma explosão de cores na maioria das árvores e arbustos. Mas no final de outubro o horário de inverno entra em vigor, a maioria das árvores já perdeu as folhas e o tempo fica chuvoso, dando a sensação de que de repente as cores foram apagadas do mundo e tudo – ABSOLUTAMENTE TUDO – é cinza e escuro.

Dá um desânimo.

Eu ando duplamente aborrecida porque ando com problemas. Nada comparado aos problemas reais de mais da metade da população do mundo, estou enrolada na minha procrastinação e bastante chateada porque cheguei a conclusão de que após 4 anos e tralalá na Suécia eu ainda não entendo a língua. Hoje mesmo enquanto falava com a minha mãe – que aos 61 anos resolveu aprender inglês – afirmei que encontrar dificuldade para aprender um idioma é normal e que ela  não deveria comparar o próprio rendimento ao rendimento dos outros…

Pois bem, sabem aquela história do faça o que eu digo mas não faça o que eu faço? Por aí. Levei um ovo da minha chefe por telefone de graça porque não tenho a pontuação certa no sueco. E não estou me referindo a língua escrita mas sim a língua falada. No português usamos frases enormes em que as sentenças são separadas por vírgulas, as vírgulas significam pausas e as pausas não significam que terminamos a idéia da sentença. Ou seja, falamos muito para expressar algo em português, e quando pausamos não estamos terminando nossa frase, apenas tomando ar para continuar a explicação.  O que em sueco é meio inadmissível: você fala de forma curta e grossa. Pausas significam que você terminou o que estava dizendo, e se você quer indicar uma vírgula (ou seja, um peraí que tem mais) deve fazer uma inflexão bem acentuada da palavra – o que vai sinalizar ao seu interlocutor para que ele espere a conclusão da sentença.

Fácil, só que não. Levei um ovo de graça, enviei um email tentando consertar a situação e fui colacada no limbo do vácuo eterno. Aff… pra piorar, ainda não tirei a carteira de habilitação – já reprovei três vezes tentando – gastei tempo e dinheiro mas meus colegas de trabalho andam meio putos comigo. Eles acham que não estou me esforçando o suficiente e pode ser que eles tenhan razão. Não ando nem um pouco animada para investir ainda mais tempo e dinheiro quando não consigo a merda da carteira.

O  teste escrito é uma prova de 50 minutos com 70 questões das quais 52 devem ser respondidas corretamente para que você seja aprovado. A prova prática engloba seis quesitos – conhecimento sobre o funcionamento do veículo, conhecimento das leis de trânsito, direção defensiva, direção ecológica, ré e sua segurança enquanto condutor. Da primeira vez que fiz a prova teórica acertei 49, depois 43 e depois 51 – há. Da primeira vez que fiz a prova prática fui aprovada apenas no quesito segurança enquanto condutor – que é tipo se você consegue trocar as marchas sem olhar, não deixar o pé na embreagem, fazer curvas suaves e usar o freio de forma correta. A examinadora me fez perguntas a respeito dos pneus do carro e eu respondi de forma curta – aí fui reprovada em dois quesitos (conhecimento do veículo e das leis de trânsito) – depois eu dirigi muito lentamente aí ela disse que eu estava atrapalhando o tráfego, o que deixa outros condutores estressados e é perigoso (pois é…). Bom e eu nem sabia o que cargas d’agua eles queriam com direção ecológica. Mas ok, fui fazer o teste outra vez aí me fizeram as mesmas perguntas a respeito dos pneus do carro e eu soltei o verbo, falei falei falei e falei até ela me mandar calar a boca. Mas fui reprovada porque dirigi muito rápido, aí isso mostrava que eu não estava dirigindo defensivamente ou ecologicamente.

Fui fazer aulas para entender a merda da direção defensiva e ecológica e… continuo no zero. Porque os caras dizem  assim: dirigir defensivamente significa dirigir “lagom”. E aí fudeu né mano? Lagom? Faz todo sentido pra um sueco mas a mim não me diz nadica de nada. E a direção ecológica me explicaram da seguinte forma: faz de conta que tu tá num jogo onde você perde pontos a cada vez que você frear, então você vai usar freio motor. Ah, e também tem que pular as marchas – da segunda você finca o pé no acelerador até o motor ficar  250mil rpm e troca direto para a quarta. E tem que usar a 4a marcha quando estiver em 50, e a 5a se estiver em 70. E se entra na rodovia daí você pula a 2a, mete a terceira e finca o pé até o motor quase explodir e troca direto para a quinta. Meio confuso??? Capaz… isso é  moleza.

Eu dirigi 8 anos no Brasil antes de mudar para a Suécia. Não acho que era uma condutora perfeita porque a gente melhora com o tempo, vai adquirindo mais experiência e tals. Mas… essas exigências da prova prática aqui não fazem o menor sentido. Ainda mais porque quando você entra em Gotemburgo você vê a galera andando acima do limite de velocidade e fazendo cagada o tempo todo – tipo dirigir no sentido errado em uma rotatória (mas hein??? Já vi várias vezes com esses olhos que a terra um dia há de comer) ou parando em cima da linha do bonde elétrico ou não dando a preferência ao pedestre (é lei). A Suécia tem índices de acidentes de trânsito muito baixos então quem faz as cagadas todas naturalmente são apenas os imigrantes – ironia mode on. Tô bem frustrada com essa situação e penso seriamente em sair do trabalho para deixar de lado essa coisa com a carteira de habilitação. Ao menos até eu aprender o que significa lagom.

Mas nem tudo é escuridão e há tons mais claros de cinza.

Só preciso de umas doses cavalares de vitamina D.

Kvinnofrid – o conceito de mulher livre

Diz a história que já no século XIII a Suécia introduziu uma lei de proteção à mulher intitulada kvinnofrid. Segundo essa lei, aquele que praticasse violência contra uma mulher poderia receber de açoites (40 chibatadas) à pena de morte. A lei foi introduzida por Birger Magnusson, um cavaleiro do rei sueco que se tornou tutor do herdeiro ao trono entre 1250 e 1266; e foi incorporada a “constituição” sueca em 1280, na qual permaneceu em forma de capítulo especial até 1864.

Já as más línguas dizem que essa lei era uma balela, uma forma de punir aqueles que ousassem molestar mulheres casadas – desde que os molestadores não fossem o próprio marido, obviamente. Pra deixar a coisa mais clara, uma mulher não podia representar a si mesma (legalmente) até meados do século XVIII e sempre precisava do intermédio do pai ou marido para prestar uma queixa. Assim sendo, apenas moças solteiras que fossem molestadas ou as casadas que sofressem violência de outrem que não fosse o marido usavam do princípio do kvinnofrid – ou melhor, os pais e maridos usavam desse aparato legal. Por isso, alguns dos textos que li apontam que o kvinnofrid era uma desculpa para lavar a honra dos machinhos de plantão.

Acabei mergulhando na história da legislação de proteção à mulher na Suécia por causa de um livro que li (gömda, em sueco, da escritora Liza Marklund). A história, baseada em fatos reais, conta a saga de Maria Eriksson, uma mulher em luta contra a violência absurda que ela sofreu tanto nas mãos do ex namorado quanto das autoridades  suecas que deveriam protege-la. Dá uma baita raiva da humanidade e me deixou curiosa, uma vez que o enredo se passa no final da década de 80: a situação da mulher vítima de violência era tão ruim assim? Pergunta meio sem nexo, já que a situação da mulher vítima de violência no mundo é muito ruim. Muito ruim mesmo… mas sei lá, aqui é para ser o país mais avançado do mundo em questão de igualdade de gênero, imaginei que o buraco fosse mais embaixo.

E é.

Essa questão da representatividade legal, por exemplo: em meados do séc XVIII mulheres solteiras poderiam requisitar o direito de representarem a si mesmas ao rei. Ou seja, mulheres ricas e solteiras poderiam alcançar esse direito, que anteriormente cabia apenas a viúvas. Uma vez que se casassem, perdiam o direito de uma vez. Em 1858 o processo passa a ser mais simples e mulheres solteiras podem requisitar o direito de representarem a si mesmas ao juizado. Em 1863, mulheres solteiras maiores de 25 ganham automaticamente o direito legal de representarem a si mesmas; sendo que em 1884 basta que as solteiras tenham 21 anos. Somente em 1921 as mulheres casadas também passam a ter esse direito, que em 1974 passa a ser aos 18 anos.

Pode parecer meio sem nexo mas essa é uma questão fundamental. Como uma mulher poderia denunciar uma violência se ela não tinha direito a voz? Em todo o caso, no fim do século 19 o conceito de kvinnofrid é retirado da legislação sueca. Mas o termo seria resgatado na década de 80, num movimento feminista que culminou com a aprovação da kvinnofridskränkning lag (ou lei sobre o direito das mulheres livres – numa tradução livre) em 1998. Na verdade, o termo kränkning serve para definir um comportamento que gere mágoa, constrangimento ou violência (verbal, psicológica ou física); ou seja, a lei é sobre o que fere o direito das mulheres, uma espécie de “Maria da Penha” sueca.

A Maria da Penha sueca trouxe seis propostas principais. De forma geral, a lei ficou mais dura contra atos de violência contra a mulher, desde a pequenas ofensas ao estupro – quem não lembra do famoso caso de Julian Assange, que foge até hoje da justiça sueca por ter sido acusado de gozar em uma mulher sem o consentimento dela? – proibiu a prostituição e instituiu uma política de igualdade de gênero, para que o Estado tome atitudes concretas para inclusão da mulher no mercado de trabalho, entre outros.

Não dá para detalhar toda a lei, até mesmo porque de lá para cá algumas coisas foram redigidas e se tornaram ainda mais claras/detalhadas/afiadas. Uma, que se passaram quase vinte anos e outra que a criatividade dos advogados de defesa não tem limites: há pouco tempo ouvi no rádio o caso de um estuprador que, apesar do estupro evidente, foi absolvido porque afirmou que estava dormindo. O estupro pôde e foi provado, mas ninguém podia provar que o estuprador não estava dormindo. É ou não é pra acabar? Mas uma das coisas que acho interessante é que se você presencia um ato de violência contra uma mulher e não denuncia você pode se tornar cúmplice e pegar cadeia junto com os agressores.

Em todo o caso, uma das questões mais peculiares dessa lei é a questão da prostituição: na Suécia é proibido comprar sexo, mas não é proibido vender. É, eu sei que dá um nó, também demorou caras para minha ficha cair. Esse modelo ficou conhecido como “modelo nórdico” porque foi recentemente adotado também pela Noruega e Finlândia e até agora tem se mostrado muito eficaz no combate à exploração sexual de mulheres. Eu sei que muita gente insiste no discurso “a prostituição é a profissão mais velha do mundo” mas a realidade é que a prostituição – na imensa maioria dos casos – é uma forma de violência contra a mulher. Nenhuma mulher com condições de escolher o que fazer da vida vai escolher se prostituir (surfistinhas são exceções). Quando a prostituição é criminalizada sem que a vítima o seja fica mais fácil para as autoridades desmontarem cartéis de tráfico humano (quem nunca assistiu Lilian forever eu recomendo, mas não assista se estiver deprimid@).

Segundo uma pesquisa de 2014 realizada em Stockholm, cerca de 7,5% dos homens suecos entre 18 e 65 anos confessaram ter comprado sexo ao menos uma vez na vida; mas menos de um por cento deles disse ter feito isso no último ano (há, sabe de nada…). O número de mulheres que vendem sexo na rua caiu mais do que pela metade desde 1995 (cerca de 200 a 250), mas os anúncios de serviços sexuais online aumentaram consideravelmente e mostram, inclusive, que o número de jovens rapazes que vendem sexo é maior do que o número de jovens mulheres. O instituto de pesquisa (no caso, do estado de Stockholm – tipo o distrito federal) disse que precisa de estudos mais detalhados antes de afirmar se os anúncios online indicam o crescimento da prostituição ou só o desenvolvimento dos meios de marketing desse tipo de serviço. Em todo o caso, o documento indica a necessidade de intervenção junto a jovens para buscar entender porquê eles estão recorrendo a prostituição, principalmente os rapazes.

Apesar da rigidez da lei, como comentei, ainda há muita impunidade. As autoridades suecas acreditam que cerca de 80% dos casos de violência contra a mulher não são denunciados porque são praticados por alguém muito próximo a vítima. Ainda assim acredito que seja um bom exemplo de como tentar promover mulheres realmente livres.

Fonte: Wikipédia, Aftonbladet e Stockholm länsstyrelsen.

Bandida

Essa é a história da prima de uma amiga minha que mudou para a Suécia há uns tempos.

A guria estava tirando a carteira de habilitação, até mesmo porquê ela precisa disso no trabalho. Ela já fez a prova teórica duas vezes e reprovou, assim como a prova prática. Pelo que ela me disse sempre achou que seria difícil passar no teórico, mas não imaginou que ficaria tão nervosa com a prova de direção a ponto de reprovar. Duas vezes. Bom, ela também foi para a auto escola então aprender o jeito sueco de dirigir.

Mesmo sem carteira, ela saia para dar umas voltas sem o carro às vezes… e bem, da última vez ela encontrou um senhor policial. Ela parou o carro e foi honesta, disse que não tinha habilitação sueca, disse de onde vinha e para onde ia, disse que estava tentando tirar a carta. O policial foi bem gente boa com ela, conversou, disse que entendia, que deve ser muito chato mudar de país e de repente ter que começar tudo de novo. E  deu a multa.

Aí eu perguntei a ela se ela não argumentou e ela disse que não. Que sabia que não podia dirigir, que sabia que podia ser parada numa blitz. Que simplesmente aceitou a consequência pelos atos dela. Afinal, isso significa ser adulta. Ela disse inclusive que o senhor policial informou a ela que ela poderia negar o crime, mas isso pareceu meio forçado. Tipo, eu nego que estava dirigindo um carro sem carta… me teletransportei até aqui, eu sou um X men. Dãã.

Como resultado dessa traquinagem ela pode perder o direito de tirar a habilitação por um ano. E ela recebeu um boleto pelo correio que fez ela cair de costas e vai vender um rim para pagar pelo delito. Se alguém que estiver lendo isso está no mercado de tráfego de órgãos, manda uma mensagem para mim pela página do Facebook que eu boto vocês em contato.

E no capítulo de hoje aprendemos que desrespeitar a lei no estrangeiro custa muito caro então, queridos leitores, não tentem reproduzir esse comportamento.

Dona Maria

Uma das coisas que mais quebrou as minhas pernas com a mudança de país foi a questão da minha identidade profissional. Eu não sou o tipo Dona Maria que é zelosa com a casa – afinal de contas, Amélia que era mulher de verdade – e o fato de ver meu diploma não valer de nada me angustiava.

Até eu arrumar um emprego…

É aquela velha história: você se mata estudando pra passar no vestibular, mas a universidade não é mole não; você se desdobra escrevendo e reescrevendo currículo e carta de apresentação, mas se dar bem no trampo é que são elas. Ano passado, trabalhei apenas um mês e meio antes de sair em licença maternidade e agora que estou há três meses de volta a ativa é que entendo o quanto foi suave aquele período (vassoura nova varre que é uma beleza). Eu estava mais tranquila, havia outras preocupações dentro e fora do campo profissional. Agora há muito mais pressão de todos os lados.

Isso está relacionado ao fato de ser mãe, em primeiro lugar, e ao fato de ser a mais jovem do meu grupo de trabalho, em segundo. Eu mencionei no post passado que apesar da Suécia ser um país liberal me espanta alguns comportamentos conservadores em relação a amamentação, da mesma forma que me espantou que algumas pessoas ficaram surpresas quando eu disse que voltaria ao trabalho antes do Benjamin completar um ano. Eu posso estar enganada, mas senti reprovação também. A pergunta que mais ouvi foi “por quê? Ele ainda não fez um ano, e a licença é longa”. É verdade, a licença é longa, mas eu quero dividir ela de modo igual com o Joel. Porquê eu sou mãe, é super importante minha presença ao lado do meu filho e etc (principalmente até o primeiro ano) mas ele tem um pai que também anseia por um vínculo forte com seu filho. É muito difícil, como mãe e tendo a carga cultural que eu tenho, dar abertura para que o meu parceiro seja pai. Primeiro, porque eu sou o tipo de pessoa chata que acredita que as coisas são muito melhores quando são feitas do “meu jeito”. Segundo, a gente cresce ouvindo que mãe é que sabe o que é bom para o filho. Mas pai também sabe. Eu sabia ser mãe o mesmo tanto que o Joel sabia ser pai quando Benjamin nasceu. Por conta da amamentação, meu vínculo com o Benjamin se estabeleceu mais rápido, mas tudo que eu aprendi aprendi com o Benjamin. Se o Joel não tivesse oportunidade de ficar sozinho com o bebê também não aprenderia.

Então eu quero deixar uma crítica para nós mulheres: temos que ter mais coragem de largar nossos filhos na mão de nossos companheiros. Você casou, ajuntou com essa pessoa porque ela é especial (se você está em um relacionamento saudável), então deixe seu bebê provar disso também. Instinto paterno existe, e o seu filho não vai gostar menos de você porque você é corajosa o suficiente para compartilhar responsabilidades.

Como eu falei, não é fácil… mesmo que racionalmente eu tenha tomado essa decisão, na prática a história é outra. Muitas vezes quando estou no trabalho penso que deveria ter esperado mais para voltar. Que seria mais fácil se eu não tivesse peitos cheios de leite que me fazem perguntar o que é que o meu pequeno está comendo, se ele está dormindo bem (mesmo porquê eu passo 24h seguidas longe de casa). Quando temos alguma reunião em que assuntos delicados estão sendo discutidos pela milésima vez desde que eu voltei, ou quando um dos adolescentes do abrigo começar a ser muito adolescente (e eu com eles né?); eu sempre me pergunto: o que é que eu tô fazendo aqui?

O fato de ser a mais nova do grupo me faz sentir meio burra às vezes porque nosso trabalho compreende tanto questões práticas como burocráticas. Há coisas que a galera já está cansada de fazer e eu não tenho a menor idéia de como funcionam; eu não tenho conhecimento da rede de apoio e frequentemente me pego boiando. É um desafio, e eu me sinto bem com isso, mas sempre rola aquela pressão também. Principalmente no quesito linguístico… meus colegas costumam elogiar meu sueco, mas na hora do pega pra capar ainda sou muito lenta tanto para escrever quanto para argumentar. Normalmente, entro muda e saio calada de reuniões porque não desenvolvi o sueco suficiente para entrar no timing de uma discussão acolorada e conseguir expressar meu ponto de vista. Vai melhorar com o tempo, mas nessas horas minha auto estima fica super abalada e eu me pergunto se eu quero mesmo isso.

Mas eu sei que eu quero. Estou acumulando experiência e apesar da pressão constante (eu sinto que “posso” trabalhar fora mas tenho que mostrar que ainda serei uma boa mãe – bem anos 80, mas é isso mesmo) eu começo a dominar e compreendercada vez melhor o sistema social sueco.

Dona Maria sim. Mas não daquele jeito.

Dia dos namorados e um alô para quem morre de amores por um viking

Eu ando com muita saudades de escrever. O blog sempre serviu de válvula de escape para mim, principalmente nos meus dias mais difíceis do lado cá. Esses dias recebi um e-mail mal educado, de uma pessoa me perguntando se eu cansei de falar mal da Suécia ou simplesmente caí na real. Fala sério? Há uma porcão de blogs mostrando o quanto a vida na Suécia é boa, eu não acredito que precise frisar essa questão. Não quer dizer que esses blogs são menos importantes, ou que eu queira ser diferente. Quer dizer apenas que eu decidi mostrar o lado B das coisas, uma vez que o lado A está bem explícito.

Eu gosto da vida na Suécia e concordo com a maioria das coisas que as minhas colegas blogueiras expõe sobre esse país tão seguro. Sou feliz vivendo aqui. Em muito devido aos fatos especiais que me trouxeram para cá, e é justamente sobre isso que eu quero falar…

Hoje se comemora o dia dos namorados no hemisfério norte – ou melhor, o dia de todos os coracões na Suécia (já deu para perceber que eu não estou usando cedilhas?). Apesar das parcas atualizacões que venho fazendo por aqui, ainda há muita gente que me escreve por causa da minha história. O que vem mudando é que ultimamente mais e mais gente vem me escrevendo para pedir conselhos amorosos e isso, bem, é muito complicado.

Já me perguntaram se eu achava que dá para confiar em suecos, se dá para levar eles no motel, se transar no primeiro encontro faz com que eles pensem que somos putas, se vale a pena largar marido e filhos por causa de uma paixão avassaladora por um sueco super carinhoso e gentil de olhos azuis, se é normal que o namorado viking tenha fotos de mulheres nuas no computador, se é verdade que eles preferem as latinas e tailandesas porque as suecas são feministas peludas egocêntricas e malvadas…

Quero abrir um parêntese sobre a última questão. Há uma dicotomia muito interessante relacionada a esse fato. Por um lado, um monte de gente dissemina e acredita piamente que suecos não se casam com suecas porque elas são feministas castradoras. Por outro lado, um monte de gente – quando não as mesmas pessoas – afirmam que suecos são ótimos partidos, uma vez que cresceram em um país onde homens e mulheres tem direitos iguais, então eles são mais gentis e nem um pouco machistas. Partindo do pressuposto que mulheres suecas não servem para casar (elas são feministas peludas egocêntricas e malvadas), imagino que a maioria desses príncipes encantados sejam filhos de chocadeira…

Ironias a parte, o meu problema se deve ao fato de que não sou uma boa conselheira amorosa. Uma, porque me dá preguica. Tem gente que romantiza demais a relacao com um estrangeiro. Gente, se você é uma mulher hétero interessada em um cara hétero, saiba que o estrangeiro é só um homem hétero e ponto final. Homens podem ser doces e interessantes, podem ser malas arrogantes, podem ser machistas retrógrados, podem ser sexistas disfarcados, podem ser um ser maravilhoso, único e especial, e isso não porque são suecos ou brasileiros, mas sim porque são humanos.

Mas a cultura influencia, óbvio. E que a cultura sueca é muito diferente da cultura braisleira é um fato. Feliz ou infelizmente, ninguém nasce em linha de producao e, apesar da diferenca cultural, na Suécia os homens também traem, também assistem pornô, também batem em mulher e também abandonam a mocinha na porta da igreja.

Vou contar alguns casos: mais de uma guria me escreveu e-mails gigantes me contando os pormenores de suas histórias tristes com um sueco. Enquanto elas sonhavam em vir para cá (e o cara enrolando), ele estava saindo numa boa com outras garotas. Certa vez em uma festa eu conheci um sueco que veio me dizer que tinha uma namorado no Rio e que estava querendo trazer ela para cá. Me perguntou se tinha sido fácil para mim conseguir o visto. Eu comecei a contar minha história, até que um amigo do Joel veio tirar uma com a cara do sujeito, bem no estilo ” ai ai João, você ainda não tirou a Ana da cabeca? Olha que se a Rosa ficar sabendo…”. Aí que eu fui entender: o cara estava noivo de uma sueca, mas tinha uma namorada no Brasil. Ele vivia dizendo para ela que ia trazer ela para cá e visitava a guria uma vez por ano, mas ela nem sonhava que o cara estava na contagem regressiva para o casamento. A desculpa dele para ela era que por causa da filha dela o processo era mais demorado… Ele veio me fazer perguntas para descobrir se ia ser fácil ela descobrir que ele só estava enrolando… e ele me confessou isso na cara dura, justificando que era muito jovem para assumir uma crianca!

Ano passado, uma outra garota me escreveu dizendo que sofria violência psicológica do parceiro sueco. Estava grávida, não tinha dinheiro para voltar para o Brasil e vivia abandonada pelo cara, que tinha várias amantes e vivia viajndo a Europa com elas e contando para que lugares lindos ele tinha levado as outras gurias. Ainda uma segunda garota grávida me escreveu para contar que estava numa situacao semelhante. Na comunidade de Brasileiros na Suécia (no facebook) uma terceira pediu ajuda pelo amor de Deus pois tinha sido despejada pelo namorado, que simplesmente decidiu que ela não ia mais ficar na casa dele e pau, largou a menina na estacão de Stockholm e disse: se vira… Além de violência psicologica, eu sei que há brasileiras que sofrem de violência física aqui também.

Por fim, há aqueles que desistem “a tempo”. Quando você dá entrada no visto, o sueco tem que confirmar a história e dizer a imigracão que está disposto a te dar casa, comida e roupa lavada. Tem gente que entra em pânico nesse momento e simplesmente diz que não, que não era bem isso, que não pode ser responsável por outra pessoa. Não sei se é melhor ou pior, só sei que deve ser bem duro descobrir que o cidadão no fundo nem sabia ao certo o que queria.

Isso tudo para jogar mais um pouco de lama na reputacao inimputável desse reino tão e tão distante?

Não, é apenas para dar um toque: o que você espera ouvir quando escreve para uma pessoa que não te conhece, que não conhece o homem dos seus sonhos, que não tem a mínima ideia dos pormenores que envolvem a história de vocês? Se você espera ouvir um vem, vem agora que você será feliz para sempre, bateu na porta errada baby. Uma, que mesmo que eu escreva isso para você será uma mentira e duas, acho que você deve pedir conselhos para alguém que te conhece, tipo a sua mãe ou a melhor amiga.

É certo que eu vivo uma história de amor com um sueco. Isso pode ser algo que temos em comum. Mas, apenas para reforcar, cada ser humano é unico e eu não posso orientar um terceiro a tomar as mesmas atitudes que eu. É muita responsabilidade. E tem gente que se irrita! Tipo a guria que me escreveu perguntando se ela devia largar o marido e filhos para ficar com um sueco e eu disse que não iria opinar, me deu uma resposta torta dizendo que eu devia ajudar por ser uma questão cultural. Uma questão cultural? Essa é uma questão pessoal e no mínimo extremamente sensível por dizer respeito a vida de menores. Além de tudo, tem bem cara de cilada: a pessoa me escreve, pergunta o que eu acho; eu digo que eu acho que ela deve apostar; tudo dá errado e depois… foi a caipira do blog que me MANDOU largar do marido!

Enfim, se você é solteira, independente e quer arriscar… coloque as coisas na balanca do seguinte modo: e se ele não fosse sueco? E se ele fosse brasileiro e eu tivesse que me mudar, sei lá, do Amazonas para o Rio Grande do Sul ou vice e versa, sabendo o que eu sei, eu faria isso?

Se você está na duvida, é bom por um freio.