Diário Caipira-95

Acordei disposta a fazer faxina hoje.

Estou curada.

PS. Faxina normalmente me ajuda a me sentir bem. Não é legal, não é gostoso, mas a sensação simples de que a gente pode dar um jeito e fazer as coisas ficarem lindas me ajuda a sentir esperança no futuro.

Freud explica.

Diário Caipira-95

Ontem abri o app do WordPress pra escrever e perdi a vontade de escrever. Tô entrando no período pré menstrual e meus ciclos nos últimos dois anos tem sido uma caixinha de surpresas.

Primeiro que dizem que “se você sofre com cólicas isso acaba com a chegada dos filhos”. É, só que não. Vai ver que isso valia no tempo que mulher mal conseguia parir uma criança e passar o puerpério em paz pois lá estava o marido esperando seus direitos pra que daí, depois do primeiro tchu tcha tcha, a dona estivesse grávida outra vez.

O meu maior problema tem sido a variação de humor. Não é que fique brava, irritada. Ficou uma manteiga derretida. Choro, choro, choro pra tudo: se algo é bonito eu choro; se é indefinido, eu choro; tocante, choro; triste, entro em depressão nível fundo do oceano Pacífico.

Fico na esperança de que (já) seja a menopausa. Seria maravilhoso!!!

Diário Caipira-95

O telefone toca as dez. No visor o nome de um dos postos de saúde do bairro. Atendo e ouço um: “Bom dia, eu sou o João, médico do posto de saúde. Você fez o teste pra saber se tem corona e o resulta é negativo. Tenha um bom dia.”

E desligou. Eu digo “obrigada” para o tu-tu-tu-tu.

Então, não sei o que sinto. Não quero ter corona, não quero ficar doente. Ao mesmo tempo queria ter essa bosta de uma vez. Eu sei que está por aí, por todos os lados; e eu queria parar de sentir todos os germes de todas as coisas que eu toco e ficar fazendo malabarismos mil pra abrir portas ou não tocar em meu rosto. To cansada desse receio quando beijo meus filhos ou quero lhes bagunçar os cabelos.

E deveras egoísta. Eu sei. Mas o que será de nós se isso nunca passar?

Diário Caipira-94

Passei o dia esperando… o resultado do teste. Que não veio. Fiz crochê pra relaxar, pensar em outras coisas.

E torta de framboesas. Afinal, nada como uma gordice pra deixar a alma leve, leve. E ficou boa a torta! Nem deu tempo de tirar foto…

Diário Caipira-92

Dei uma volta pelo jardim e constatei que:

– plantei as flores do campo nu lugar errado. A framboesa “fechou” e cresceu, faz sombra sobre meu canteiro de flores do campo. Elas gostam de sol e… não florescem.

– lesmas suecas gostam muito de batata. Deixam apenas o talinho da planta.

– o amor perfeito morreu depois de ser atacado pelos veados pela centésima vez.

– o que sobrou do amor perfeito foi atacado por pulgões.

– as flores da varanda (dois gerânios e algo que não sei o nome) são os únicos sobreviventes.

Logo: cultive plantas dentro de casa.

Diário Caipira-91

É incrível como a gente é feliz com coisas simples. Fui ao bosque que fica do lado de casa e colhi uns mirtilos. Depois pegamos framboesa no jardim – herança da avó do meu marido. Um copo de mirtilos, umas framboesas, banana e leite; voilá, estejam servidos de uma deliciosa batida (ou se for glamourizar, smoothie).

O dia de sol, a gata correndo atrás de borboletas e as crianças fazendo bolhas de sabão (ou se dizem bolas?) poderia ser a cena de um filme. Eu quero guardar essas cenas de luz.

Apenas.

Diário Caipira-90

Eu não sou feita pra essa coisa de isolamento. Estou o dia inteiro pensando positivamente, na saúde das crianças e do marido. Mas – sempre o mas – não sei viver sem abraçar e acarinhar minhas crias.

Agora mesmo destravou-se uma guerra porque o pequeno queria dormir comigo. Em épocas normais não haveria qualquer impedimento. Agora, enquanto espero o teste, não quero dormir no mesmo quarto com as crianças.

Essas incertezas tiram muito da gente.

Diário Caipira-89

Fui lá no posto de saúde fazer o teste. Na verdade, é modo de dizer porque o local do teste fica próximo ao posto de saúde, mas não no mesmo local. Pensando bem é meio óbvio que seja assim. Só porque o corona está em alta não quer dizer que as pessoas deixaram de te ter outras doenças. E é preciso proteger as pessoas doentes do Corona.

Enfim, lá fui eu para o local do teste que era em princípio um container desses que normalmente tem às margens de obra onde tem não sei o quê guardado e uma cozinha para os trabalhadores poderem comer. Lá estavam cinco enfermeiros tomando uma xícara de café… na chuva. Estava pingando e todo mundo estava com cara de “não aguento Gotemburgo”. Eu soltei um “Gente mas que judiação mandarem vocês ficarem aqui na chuva!” e aí a galera já animou. Um enfermeira olhou pra mim sorrindo e disse: “ao menos hoje é um dia quente!”

Realmente, hoje o dia estava mais ameno. Um pouco nublado, mas nada daquele vento cortante do domingo. Enquanto ela me atendia o outro pessoal levantou uma tendinha. Entendi perfeitamente o comentário da guria. O que são uns pingos de chuva quando a gente tem que ficar no vento frio?

Quando fui embora disse um muito obrigado e fiquei pensando no trabalho deles. Eu ouvi um episódio do Sommar i P1 onde uma enfermeira de UTI conta sobre o dia a dia pós corona. Uma coisa que eu nunca tinha pensado é que eles tem que gritar por causa da máscara e da viseira. Hoje percebi isso. A guria que me atendeu estava evidentemente gritando comigo. Simpática, com um sorriso, mas gritando.

Tomara que os profissionais de saúde sejam mais valorizados quando toda essa loucura passar.

Diário Caipira-88

Ainda em casa e extremamente cansada. Parece que corri uma maratona e já esqueci. Falando nisso, que ano longo esse não? 2020, o ano que demorou uma década pra acabar.

Eu tive férias em junho e já me sinto como se houvessem passado meses desde as férias. Na semana que vem eu teria mais férias, agora fico nessa indecisão. Posso contactar a minha chefe e pedir um teste pada voltar a trabalhar mas, para tanto, tenho que estar tão bem a ponto de aguentar o tranco no trabalho. Do jeito que estou me arrastando não rola. Assim que vou esperar mais um dia para ter certeza.

Ou vou contactar o posto de saúde e tentar um teste por meio deles. Já li e reli todos os artigos sobre Covid disponíveis nos sites oficiais e a única conclusão que chego é que não dá pra saber que se você está doente de Covid se baseando em sintomas. O doente pode ter febre, pode ter dor de garganta, pode ter isso, aquilo, aquele outro; pode ter vários sintomas combinados ou apenas um…

Parece que é. Mas será?

Diário Caipira-87

Estou cansada dessa coisa de corona. A cada vez que fico resfriada bate aquela angústia. Se for olhar pelo copo meio cheio, posso ficar em casa sem remorso sempre que estiver com coriza.

O tempo mudou na semana passada, esfriou. Na sexta feira acho que fui trabalhar com roupa de menos. Assim que um resfriado não é lá muito estranho… ainda assim aff, a incerteza me come por dentro.

Diário Caipira-86

Estávamos falando dessas coisas que o dinheiro não compra (que são muitas) quando pensei em manga e como é maravilhoso comer uma manga suculenta que quando a gente morde chega a melecar até o cotovelo.

Talvez você não goste de manga mas dificilmente não guarde na memória a lembrança de se lambuzar com fruta… meus filhos vão com certeza lembrar de quando ficavam com as mãos roxas e até mesmo a língua ficava azul de tanto comerem mirtilos.

Na falta de manga, eu entrei na brincadeira pra pintar a língua de azul. Mas tenho que treinar mais.

Diário Caipira-85

Fomos até Gräfnäs, a beira do lago Anten, no município vizinho. Não foi a primeira vez que estive lá visitando as ruínas do Castelo de Gräfnäs mas foi a primeira vez que vi essa árvore.

É um ek. Acho que é uma das árvores mais bonitas aqui da Suécia, junto com o carvalho chorão e o “ask”. E podem ficar enormes. A madeira do ek é ótima para fazer barcos. Por causa disso o ek era a árvore do rei e ninguém podia derrubar sem o consentimento real. Mas depois do advento do barco a vapor essa proibição ficou na história apenas.

A árvore desse parque foi usada num filme infanto-juvenil baseado numa série de livros de aventura “LasseMajas detektivbyrån” (Série Agência dos detetives Marcos e Maia em português). Eu coube lá dentro dela sem problemas e comigo poderiam facilmente mais dois adultos se esconderem… virei criança e achei um barato. Já meus pequenos acharam assustador demais.

Estava um pouco frio demais para ficar fora hoje. Espero não ficar resfriada.

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Agradeço imensamente todos que fizeram preces pelo pai da minha amiga. Ele continua internado e não há previsão de alta… mas me alegra e fortalece ouvir tantas pessoas empenhadas em fazer o bem. Obrigada, de coração.