Diário Caipira-48

Duas coisas nada a ver:

1. Hoje fez sol. Céu azul, quase sem vento, sensação maravilhosa de 20-22 graus… deu até pra suar. Botei os cobertores pra fora (graças a Deus nenhum vizinho tapado fez fogo) e eu fiquei lá, admirando roupas no varal. Tem certas coisas que a gente só aprende dar valor quando é assim, raro. Passei tantos anos estendendo roupa no varal sem nunca ter aproveitado esse cheiro, essa coisa que só vento e sol deixa no tecido. E é totalmente grátis.

2. Tô bem cansada de a Suécia ter essa estratégia para lidar com o Covid. Faz a gente se sentir assim os diferentões do mundo: não tem lockdown, ninguém usa máscara e a taxa de mortos por milhão de habitantes é uma das mais altas do mundo, se não a mais alta. A exceção do último ponto, as duas primeiras questões são compreensíveis. Racionalmente falando, há uma série de argumentos que defendem e até tornam aceitável. Mas cansa.

Acho que os protocolos da OMS são justamente pra tentar padronizar o máximo possível o enfrentamento à pandemia. Se ao menos a gente tivesse um ministro estilo Trump aí seria mais fácil explicar essa zona toda. Mas a verdade é que a Suécia sempre quis bancar a diferentona. Tipo, como durante a Segunda Guerra Mundial, quando o país se declarou “neutro”. Ficou em cima do muro, ajudou um pouco os alemães por baixo dos panos, ajudou judeus a fugirem; no melhor estilo servindo à Deus e ao diabo… exatamente como faz agora: não assume que tenha uma estratégia “larguemos os cidadãos às traças” mas também não tem como explicar a alta taxa de mortalidade da doença no país.

Há muitos casos em que a Suécia foi a diferentona e foi ótimo, fodástico: tipo quando o país foi o primeiro no mundo a tornar o uso de violência na educação de criação de crianças ilegal, o primeiro no mundo a criar licença para pais e mães longa; o país que elevou a segurança dos automóveis a outro patamar… Mas agora, sei lá, não poderíamos ser um pouco mais Maria vai com as outras?

Diário Caipira-47

Estava falando com os meus pais e minha mãe me perguntou se havia possibilidade de voar para o Brasil. Eu disse que não tinha certeza, algumas pessoas conseguem voo. E ela me pediu “vem pra cá”.

Sempre que a gente ficava doente minha mãe aparecia pra cuidar da gente. Eu estava gripada e final de semana peguei outra gripe. Tô aqui escrevendo com o nariz trancado.

Eu queria estar com a minha mãe agora mas definitivamente não queria estar no Brasil. Estava lendo as reportagens sobre a Moderna, empresa que acredita ter criado uma vacina. Dá uma tristeza perceber que uma grande empresa estadunidense está na frente dessa corrida porque eu acredito que a vacina que sair dali – se for eficaz realmente – será super cara. Ou seja, vai reacender a chama da esperança mas ainda não vai frear a pandemia.

Ao mesmo tempo a China diz ter desenvolvido um remédio capaz de combater o corona. Seria outra possibilidade maravilhosa. Um remédio e uma vacina juntos salvariam milhares de pessoas, principalmente no Brasil.

Espero que ambos sejam acessíveis a quem não pode pagar também.

Diário Caipira-46

É incrível como a pandemia joga na nossa cara a desigualdade do mundo: quem pode e quem não pode parar; gente que tem uma casa inteira só pra si mesmo pra se isolar e famílias que moram num quarto; gente que nem tem água pra lavar as mãos e governantes que lavam as mãos no melhor estilo Pilatos…

Diário Caipira-45

Eu quase desisti das flores. Os veados e São Pedro me boicotando, a gata comendo as mudas que estão dentro de casa… Mas aí compramos umas sementes de flores do campo e eu joguei elas na terra hoje.

Eu estava lendo relatos de gente que diz que a melhor terapia que eles encontraram até hoje é estar em contato com a natureza. Muitos suecos dizem que este contato tem sido algo essencial para que eles mantenham a saúde mental durante a pandemia. Que lhes traz calma e esperança perceber que as árvores, por exemplo, mantém-se em pé após uma ventania – e céus, como tem ventado.

A natureza com certeza me acalma também. Adoro sentar ao sol e ouvir os pássaros cantando. Mas minha flores preferidas do jardim não floriram: os rododendros. Em outros anos as flores já teriam há muito caído. Esse ano nem apareceram ainda. Parece que o corona amarrou até a chegada da primavera e o frio não vai embora.

Em abril a Suécia teve o pico de 116 mortes em um só dia. Em maio, o pico se deu no dia quatro, com 80 mortos. Já são quase 3700 pessoas que perderam suas vidas. A gente espera tanto que esse inverno vá embora… queria saber pra quando esperar o fim desses meses que se arrastam e dessa agonia toda.

Preciso abraçar árvores com mais frequência.

Diário Caipira-44

Essa semana a Suécia estendeu a recomendação de que suecos evitem viajar até 15 de julho. Sinceramente, não acho que seria possível mesmo que os suecos quisessem já que muitos países estão com as fronteiras fechadas. A vizinha Dinamarca estuda abrir a fronteira para a Noruega, mas não com a Suécia.

Enquanto o Bozó do presidente brasileiro toma a Suécia como exemplo o primeiro ministro sueco tem que rebolar para defender a estratégia sueca. O partido de Stefan Lövfen gostaria de aplicar medidas mais rígidas mas eu não acredito que teria apoio enquanto a agência nacional de saúde pública defender a estratégia atual.

A Suécia tem mantido o número de leitos de UTI e de respiradores disponíveis acima da demanda. Mas a Suécia não está testando geral e tem um número de mortes alta por milhão de habitantes. A justificativa que foi dada é que a estatística é mais exata por causa do número social sueco e da digitalização e integração de diversos sistemas.

Entretanto o governo tem recebido críticas muito duras sobre a forma como o corona se espalhou por asilos em toda a região de Estocolmo. A maior porção de vítimas do corona na Suécia tem mais de 70 anos e o ministério de seguridade social pensa em baixar a idade do grupo de risco de 70+ para 65+. Alguns estudos foram sugeridos para que se faça uma estimativa de como isso afetaria a saúde mental desse grupo.

As férias de verão vão ser por aqui mesmo. A recomendação é de que não se saia do próprio condado e que as viagens de carro respeitem um limite de 2h (no maximo). Pensando no número de pessoas que passarão o verão “em casa” o governo quer editar uma lei que descreva como os restaurantes e cafés devem funcionar durante a pandemia.

Só espero que não seja muito frio.

Diário Caipira-43

Tínhamos planos de sair de caracol esse final de semana. Infelizmente ainda estou com sintomas de resfriado, um pouco de coriza e tosse. Nada que não seja normal no caso um resfriado comum mas as recomendações da Folkhälsomyndigheten é de que as pessoas doentes, ainda que com sintomas leves semelhantes a uma gripe fiquem em casa.

Assim que, primeiro, meu resfriado me boicotou e, segundo, não lembro de um maio tão frio desde meu primeiro maio na Suécia há nove anos atrás. Venta uma ventania digna do outono e o céu está frequentemente nublado. Aí que o sol aparece, você se anima e sai na varanda; o sol some e você morre de frio e volta pra dentro de casa; o sol sai e… eu já desisti.

Se não fosse tão frio poderíamos ter saído com o nosso caracol pra algum “ställplats” que é como se chamam os estacionamentos para trailer à beira de um bosque. Mas na madrugada passada fez 3°C e essa noite estava previsto 2°C.

Frio demais mesmo quando se tem uma casa sobre rodas.

PS: O SCB (IBGE sueco) tem um estudo de 2016 que aponta que em média os suecos viviam em 42m quadrados. Stockholm era na época a cidade com a média menor (33m2 por pessoa) e Emmaboda a cidade onde em média cada sueco tinha 54m2 pra viver. Os dados devem ter mudado bastante, já que a crise de moradia tem se agravado na Suécia. Entretanto se explica pois há muitas pessoas acima dos 55-60anos morando em casa enormes sem filhos.

Diário Caipira-42

Essa semana apareceu no meu feed de notícias do facebook uma foto de quando a gente tinha recém mudado para nossa casa. Fiquei lembrando a história do poço e rindo…

Depois pensei que, de fato, desde que nos mudamos pouquíssimas vezes tomamos um café com os vizinhos. Quando eu era criança as vizinhas costumavam se visitar e tomar chimarrão, comendo cuca; por vezes enquanto faziam crochê. Como a minha mãe era costureira não era tão fácil pra ela levar a costura junto e participar. Mas sei que muitas vezes uma das vizinhas parava lá em casa.

Um dos nossos vizinhos sempre aproveita quando o Joel está no quintal pra vir puxar conversa. Normalmente ele é uma pessoa cordial, mas algumas vezes já foi bem intrometido. Ele não tem vergonha de perguntar quem são nossas visitas, muitas vezes por meio de um interrogatório que deixa elas um tanto constrangidas.

Mas ele já é um senhor aposentado há muito anos. Os demais vizinhos ainda tem uma “agenda cheia”, digamos assim. E apesar de termos vizinhos com crianças na mesma idade que as minhas, muito raramente elas brincam juntas. Agora isso se dá principalmente pelo fato de que uma das crianças da vizinha tem asma.

Vizinhos que não se visitam… E hoje eu também ouvi que na Suécia se considera que uma família vive sob condições precárias de moradia e sem espaço adequado quando cada membro da família (a exceção do casal) não tem o próprio quarto de dormir. Isso significa dizer que numa família de quatro pessoas onde há casal mais dois filhos entende -se que condições adequadas de moradia é um apê ou casa com três quartos. Se estivermos falando de uma família de quatro pessoas com apenas um responsável então condição adequada passa a ser quatro quartos.

Fiquei curiosa e quero descobrir qual é média de espaço – em metros quadrados – per capita na Suécia. Não a densidade demográfica, mas quanto espaço uma pessoa teria em uma casa se todos tivessem o mesmo.

Quanto vocês chutam que seria?