BVC – Centro de Saúde da Crianca

Fazem apenas dois anos e umas paradas que eu frequento o BVC e desde lá que estou para explicar que bicho é esse – do qual até já reclamei – mas essa é so mais uma para mostrar como as nossas prioridades mudam depois de casamento, comprar uma casa, arrumar trabalho e parir filho – e nem precisa estar nessa ordem. Eu deveria estar lendo – ainda tenho três livros do curso de doula para acabar mas né? Ultimamente se eu tenho um tempinho pra ficar à toa quero escrever.
BVC é a sigla para Barnavårdcentralen – o que a gente poderia traduzir como Centro de Saúde da Crianca. Na Suécia normalmente se usa o termo barn para menores de 18 anos, às vezes se faz a distincão para os maiores de 12 como unga ou tonåringar, mas normalmente barn é usado para todos os menores. O BVC é um centro de atendimento para criancas entre 0 e 6 anos no qual trabalham enfermeiras pediatras partindo da ótica da medicina preventina. Ou seja, o BVC não é para que os pais levem a crianca quando ela fica doente e sim para que os pais facam o acompanhamento do desenvolvimento de seus filhos e sigam o programa de vacinacão.
Normalmente os pais escolhem para qual BVC levarão seus filhos já durante a gravidez e, na maioria dos casos, o primeiro contato dos pais com uma enfermeira pediatra se dá na casa/apartamento do casal já na primeira semana de vida do bebê. Se o parto se dá sem complicacões e a mãe se sente segura com a amamentacão fica cerca de dois a três dias na maternidade antes de ir para casa. Assim que os récem paridos voltam para o ninho a enfermeira pediatra vem dar os parabéns e fazer uma visitinha – que também serve como uma espécie de controle (se os pais se prepararam de forma adequada para a chegada do bebê). Durante o primeiro mês de vida da crianca os encontros com a enfermeira do BVC são semanais, depois passam a ser quinzenais até os 90 dias da crianca. Dos três aos seis meses as visitas ao BVC são mensais, entre os seis e os 12 meses bimestrais e depois o próximo controle se dá aos 18 meses. Aí comecam os grandes intervalos, porque a crianca volta ao BVC aos três, quatro e cinco anos. Essas são as consultas do calendário do programa de acompanhamento ao desenvolvimento da crianca, mas nada impede que os pais marquem mais consultas ao BVC se acharem necessário, sobretudo durante os primeiros meses de vida do bebê.
De tempos em tempos um médico pediatra também está presente nas consultas. Como o parto é feito por parteiras pode ocorrer de não haver nenhum médico na sala durante o nascimento do bebê (há sempre um pediatra e um obstetra de plantão caso seja necessário que assistam ao parto, mas eles só vão entrar na roda se precisarem “dancar”). Depois de 48h do nascimento o bebê vai encontrar um pediatra que fará a primeira avaliacão, coisas como checar a circunferência da cabeca, as juntas da crianca, boca, olhos, ouvidos, auscultar coracão, medir pressão, avaliar a cor etc etc. Na sexta semana de vida o bebê passa por um novo controle junto ao pediatra, assim como aos seis meses e aos 18 meses. Como comentei acima, o BVC segue uma política de saúde preventiva e por isso médicos e enfermeiras acompanham os primeiros meses de desenvolvimento da crianca para avaliar se tudo está ocorrendo como deveria.
No início esse controle se dá por meio da pesagem e medida da altura e circunferência da cabeca da crianca. Daí a enfermeira joga os dados no computador e voilá, temos as famosas curvas de crescimento e desenvolvimento que são super instrumentos para detectar problemas de saúde sérios, anomalias e doencas que fogem do padrão; assim como podem se tornar um pesadelo para todos os pais que não tem um bebê standard (quem mandou querer ser diferente?). Quando o bebê vai crescendo a enfermeira pediatra também vai estar atenta a sinais de retardo no desenvolvimento motor, sensorial ou mental da crianca, por exemplo: se a crianca não segue o barulho de um chocoalho ou vira a cabeca para procurar pelo som; se a crianca não mostra interesse em aprender a caminhar, demora a comecar a falar, etc. Mas nenhum desses sinais tem um ponto pré determinado de quando devem acontecer e de como devem acontecer afinal, as consultas tomam cerca de meia hora e aí vai que o bebê não está afim? Quando Benjamin passou pelo controle de 18 meses a enfermeira deu alguns brinquedos para ele para que ela avaliasse a capacidade de concentracão e o desenvolvimento motor dele. Ele fez uma torre com blocos de madeira e depois viu um livro. E não fez mais nada, porque ele adora “ler”. Ela tentou chamar a atencão dele com outros brinquedos para continuar o teste mas ele não deu moral. Ela me pediu que eu entrasse em contato caso percebesse isso ou aquilo e depois, ficou de boas, dizendo que o Benjamin estava super saudável e se mostrava um piá esperto. Então, elas tem as ferramentas e seguem um protocolo, mas também sabem olhar fora da caixinha – ao menos, às vezes.
As enfermeiras do BVC também são uma espécie de orientadoras nutricionais e educacionais: elas dão informacões sobre como cuidar do bebê (podem até ensinar a trocar fralda), como amamentar (infelizmente, mal e porcamente), como fazer a introducão alimentar (só o tradicional mesmo), como tratar distúrbios do sono do bebê, como incentivar o desenvolvimento motor etc. Acredito que os palpites do BVC são bem interessantes mas nunca segui os conselhos a risca. Primeiro porque não concordo com a linha de pensamento do BVC em relacão a amamentacão, segundo porque gosto de saber o porquê das coisas e se alguém me manda um porquê sim eu já fico com preguica da pessoa e terceiro porque o próprio BVC diz que são orientacões; ou seja, ninguém é obrigado a fazer o que eles mandam. Inclusive, se há pais que por um motivo ou outro não querem vacinar os filhos, eles apenas tem que assinar um termo de compromisso de que recusaram participar do programa de vacinacão.
Se os pais do recém nascido não levam a crianca/bebê as consultas com o BVC passam a ser considerados suspeitos de negligência. Pelo bem e pelo mal acho que apesar de ser uma medida extrema é importante, principalmente se considerarmos que o sistema de saúde sueco não tem um foco preventivo e é para isso mesmo que o BVC existe, para que numa fase importante do desenvolvimento do ser humano seja possível identificar a tempo doencas ou condicões que possam afetar a vida do indivíduo. Se a família recusa o acompanhamento oferecido pelo BVC deve explicar o porquê da recusa e provavelmente – se o escritório de assistência social considerar necessário – serão acompanhados por outros meios.
Agora que vamos ter o segundo bebê já recebemos uma carta do BVC nos dando as boas vindas e informando que seremos acompanhados pela mesma enfermeira pediatra que acompanhou Benjamin. Eu gosto dessas coisas porque antes de nos enviarem essa carta nos fizeram uma entrevista para medir nosso grau de satisfacão. Apenas eu respondi a pesquisa que foi realizada durante uma das consultas de pré natal e acho que isso é um pouco falho… mas mostra que há a oportunidade de trocar de BVC e/ou mesmo apenas de profissional com o qual se tem contato se a família não está satisfeita.
O BVC é um servico gratuito e pode oferecer inclusive apoio às mulheres que tenham depressão pós parto ou que sejam vítimas de violência doméstica.

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Barriga de menino

Acho que se há um ponto em que essa coisa de distinguir gênero é sensível na Suécia, esse ponto é a gravidez. É claro que estou baseando meus achismos na minha vasta experiência (de duas gravidezes) mas de certo modo parece que não é ok ficar falando do sexo do bebê durante a gestacão.
Veja bem, de forma geral os suecos se preocupam em despir as criancas dessa classificacão besta de “coisa de menino” e “coisa de menina”. Para a maioria o que existe é “coisa de crianca”, indiferente do sexo dela. Obviamente que ainda há muita diferenciacão e rotulacão – tipo, ainda é de certa forma aceito que meninos sejam mais violentos porque uai, é a natureza deles e se você entrar nas cadeias de lojas normais (tipo HM) vai ver as roupas de crianca separada em roupas de menino e roupas de menina; mas filosoficamente é muito importante dentro da sociedade sueca em geral combater o estereótipo de gênero. Daí que ninguém fica perguntando se eu sei o sexo do bebê porque o sueco quer dar a entender que isso não é relevante. É certo que do meu ponto de vista – um tanto extremo – eu acho que normalmente as pessoas nem conversam sobre a gravidez com uma mulher grávida – praticamente ignoram uma condicão gritante – mas se houver alguma conversa vai ser sobre como eu me sinto, quantas semanas de gestacão, é seu primeiro bebê?, você gosta de estar grávida?, foi planejado?, etc etc. Dentre os casais suecos que eu conheco nenhum deles perguntou o sexo do bebê no ultrassom. Não é incomum que a enfermeira que realiza o ultrassom de rotina (normalmente o único a que se tem direito em toda a gestacão) se recuse a falar sobre o sexo da crianca porque isso é um detalhe irrelevante.
O fim de semana passado eu estava em uma festinha e conversei com mulheres que vieram da América Central. Posso dizer que o comportamento delas me fez entender o quanto a galera pensa diferente desse lado do mundo: antes mesmo de perguntar se eu estava bem ou de quantos meses era a gestacão elas disseram que estava na cara que eu estava esperando um menino. “É um menino né? Tua barriga é barriga de menino”. Eu disse é… é um menino. E elas apenas continuaram naturalmente a tecer comentários de como era bom ter filhos homens, que até a gravidez é mais fácil porque a gente fica mais bonita. “Qualquer homem que te olhe detrás nem perceberia a gestacão, já quando a gente engravida de menina incha e vira uma bola”. Meninos são mais fáceis de cuidar, meninos são mais parceiros para com a mãe, meninos isso, meninos aquilo… ter dois então, dá-lhe guria sortuda.
Não posso negar que eu fiquei super feliz ao saber que esperava outro menino. Não porque eu acredite que a gestacão de meninos é mais razoável para conosco, mulheres, ou porque eu acredite que meninos são mais parceiros com a mãe. Em primeiro lugar, acho muito chato essa coisa de casal margarina que tem um menino e uma menina. Hoje em dia parece que, se você tem duas criancas, tem que ser uma de cada “espécie” porque né, é diferente. Tô pra ver uma mãe que diga que dois filhos sejam iguais, mesmo que estejamos falando de duas meninas ou dois meninos. Criancas são diferentes porque são seres humanos únicos, e não por causa do sexo. Em segundo lugar, não me entenda mal, mas eu acho que criar meninos é mais fácil – para o pobre coracão de uma mãe, não do ponto de vista educacional.
Do ponto de vista educacional é muito trabalho educar um menino para que ele não seja um machinho babaca daqueles que vê mulher como o segundo sexo. Para que não confunda pegada com estupro, para que entenda a diferenca entre sim e não, para que não pense que agir como um animal no cio é ok, para que não sinta aquela pressão de se mostrar valentão e macho man. Nesse aspecto inclusive é bom demais morar aqui porque há muitos exemplos de homem que fogem do estereópitipo padrão, e sabe a importância daquela história do “exemplo arrasta”? Então… normalmente quando se fala da Suécia feminista se descreve o empoderamento feminino como algo negativo que faz com que os homens sejam muito moles. Há cinco anos atrás quando desembarquei aqui fiquei chocada com essa faceta porque pra mim não casava não. Mas olha, nada que cinco anos não resolvam. Depois de acompanhar esse experimento de perto, vejo o quanto é positivo principalmente para os homens não precisar manter uma fachada de durão 24/7 e ter a liberdade de ser humano antes de ser homem. Ou mullher, afinal a Suécia é um país supimpa para se nascer menina.
Só que é isso né? A Suécia é um país supimpa para se nascer menina, assim como as vizinhas Finlândia, Noruega e (a nem tão vizinha assim) Islândia. Depois disso, não importa muito se você vai para direita, esquerda ou para baixo, a coisa vai piorando de padrão e ser mulher é tipo… no mínimo, difícil. E acredito que quando você é criada em uma sociedade “livre e igualitária” tem ainda mais problemas quando você sai do mundo das maravilhas. E há tipos de problemas que sempre serão mais preocupantes caso você seja mulher, tipo estupro e violência doméstica, e essa regra vale também para a Suécia. Mas daí eu tô falando das violências mais óbvias, nem estou falando de questões como direitos sociais, o papel ou lugar da mulher na sociedade, a liberdade de expressão, de ir e vir. Eu vivo angustiada com uma série de perigos que meu filho possa estar correndo, mas como mãe de menino não vou ter que ficar me preocupando com que ele seja vítima de violência doméstica quando ele crescer (a não ser que ele seja homossexual) ou estupro coletivo, assédio sexua no trabalho, salário mais baixo porque pode ficar grávido, ser descartado numa selecao para um trabalho por ter um perfil “errado”; essa coisas.
Eu tenho muito que aprender sobre igualdade entre gêneros e é bem capaz que esse sentimento seja a sombra de bom e velho jargão de que mulheres que parem meninos são mais abencoadas. Eu me sinto desafiada a fazer diferente já que eu sempre acreditei que a resposta para a mudanca de paradigma na quesão de iguadade entre homens e mulheres comecava em casa. E comeca mesmo, porque comecou a partir de mim. Agora eu quero dar ao meus filhos uma educacão baseada no amor e na empatia e que ajude a desconstruir a norma vigente de comportamente entre os sexos. Mas eu também já percebi que essa é uma tarefa bem difícil porque para além de descontruir meus preconceitos (primeiro eu tenho que aceitar que há algo errado para que eu queira e possa fazer diferente) para que eu tenha sucesso nessa empreitada tenho que contar com a ajuda do meio que me cerca: família, amigos, escola. E repito, geograficamente não poderia ter escolhido melhor, mas o desafio ainda é o mesmo: Benjamin me disse hoje que não queria uma bota de borboletas porque é coisa de menina. Ele tem dois anos e dois meses.
Quem foi que disse?

Maternidade colorida

Há coisas que ficam mais fáceis porque eu moro aqui. Isso é um fato que, na minha humilde opinião, mostra que o papo da meritocracia é só conversa para boi dormir (eu não vou explicar como não fiz por merecer para mudar para a Suécia. Chame de destino se quiser). Uma dessas coisas é a maternidade.
Comeca já na gravidez. Foi chocante para mim e assustador ter que aprender que gravidez não é doenca, mas no fundo… eles estão certos (oh my God, isso é difícil para caralho de dizer). Uma mulher grávida não está doente, está apenas vivendo uma condicão inerente de ser mulher. Não vou dizer com isso que toda mulher grávida está desfilando lindamente com seu barrigão (ou não), cheirando flores e suspirando de felicidade a cada chute do bebê. Estar grávida é uma bosta – com B maiúsculo – do ponto de vista hormonal. Sabe aquela TPM fdp? Tipo assim durante nove meses. Você chora, se acha feia/gorda/uma azeitona que foi trespassada por um palito ou uma elefanta com as pernas inchadas horríveis – quando você não está com a cara inchada e o nariz que lembra o nariz dos anões da Branca de Neve. Ou vive o êxtase que descrevi logo acima, ouve o cantar dos pássaros, sente o ar puro e se imagina Bundchen em pleno catwalking com os flash estourando ao seu redor. Há mulheres que tem problemas de saúde que se agravam durante a gravidez e outras que adquirem problemas durante a gravidez – já ouviu falar de hiperemese? diabetes gestacional? pré eclâmpsia? sínfese púbica? – relacionados ou não com a tempestade hormonal de que falei ali atrás. Mas o fato é que não estamos doentes. E ser tratada como uma pessoa normal que está passando por uma condicão especial – a de gestar – faz da gravidez um momento bem mais fácil de se viver. E fica mais fácil de curtir também.
Até o momento posso dizer que tive gestacões tranquilas. Na primeira delas praticamente não tive  enjoos, tive um pouco de dor nas costas e os incômodos costumeiros com achar posicões confortáveis para dormir etc quando você está com aquela barriga que mais parece com uma bola de pilates embaixo do couro da sua cintura. Ah, tinha os chutes também. Primeiro a gente sempre fica loucamente feliz a cada pequeno movimento do bebê e no final da gestacão a gente só pensa “ô moleque tira seu pé do meu pulmão que eu preciso respirar!”. Essa segunda gravidez está passando tão rápido que eu já nem sei ao certo em qual semana gestacional estou (só sei a dpp e acho que está bom não?), além do quê eu vivo como um zumbie. Não, não estou conectada com aquele jogo estranho do Pokemon. É “só” cansaco mesmo. Já tem umas semanas que estou tomando ferro como complemento mas estou ferrada mesmo porque não tem ajudado e eu simplesmente vivo me arrastando. Infelizmente nem sempre estou me arrastando para a cama, e eu sinto que meu dia seria mais fácil se eu pudesse tirar uma siesta depois do almoco – mas como eu não moro naquele país que eu não sei qual é que diz a lenda que as pessoas tem direito de dormir a siesta – eu apago tão cedo quanto Benjamin. Às vezes mais cedo do que ele na verdade, porque a bateria do meu piá é mais forte do que a minha.
Benjamin já percebe que algo está mudando. Uma pessoa cansada não é tão paciente – e eu me pego muitas vezes saindo de perto para não fazer aquelas coisas burras que pais cansados e estressados fazem com os filhos – o que eu sinto que não é nada bom. Nem sempre eu tenho a clareza de parar e explicar: olha meu filho a mãe está cansada. Então eu procuro dar alguns minutos do meu dia para ele em que eu possa estar bem focada. E isso eu só posso fazer porque tem um homem do meu lado que é pai.
Nessas horas de cansaco e estresse eu me imagino sendo mãe solteira, ou vivendo em um país em que a cultura dominante é do pai que ajuda (tipo o Brasil por exemplo). A mãe tem todas as obrigacões com o(s) filho(s) e a casa e o marido chega e descansa do trabalho, mesmo quando a mulher também trabalha fora. Ou o cara já largou a mulher, paga pensão e acha que faz uma grande coisa (aquela louca fica me cobrando, o que ela quer?, eu pago a pensão). Eu me imagino na outra ponta e me sinto aliviada porque estou apenas imaginando, porque eu quero e posso enquanto grávida e mãe tirar um tempo para mim, fazer comida quando meu estômago está revirando de fome sem ter um menino agarrado as minhas pernas e contar com a divisão das tarefas domésticas. Aleluia! Porque sim, porque isto ajuda demasiado a fazer a minha vida como mãe e grávida mais fácil, afinal, eu não preciso chegar ao ponto de espalhar papel higiênico sobre o tampo do meu próprio vaso para dar uma mijadinha com dignidade (e olha que a gestacão implica em muitas mijadinhas).
Eu vivo uma maternidade colorida. E me pergunto: como as mulheres que não tem disso sobrevivem? Porque eu não me considero fraca, eu gosto de um desafio e tenho pulso suficiente pra vencer o Rambo numa queda de braco se eu quisesse. Mas a maternidade quebra as pernas da gente. É uma correria 24/7, você fica planejando os próximos passos para tentar dar uma rotina e seguranca para a crianca (nem sempre dá certo, afinal, criancas são seres vivos imprevisíveis) e ao final do dia sente que… não sente. Não há como prever tudo e, provavelmente por causa do tipo de criacão que eu tive, eu vivo preocupada com o bicho papão que vai pular do guarda-roupa na forma do meu pior pesadelo – igualzinho como acontece no Harry Potter. Um exemplo simples: a gente saiu de férias uns dias e ficamos num apê com sacada no quinto andar. Uma sacada standard, com uma cerca standard. Passei a primeira noite praticamente em claro com medo de que o Benjamin caísse da sacada. Por quê? Sei lá, eu nem vi ele tentar subir. Mas eu não podia dormir. Criancas são criancas, não veem perigo e estão curiosas o tempo inteiro em que estão acordadas – e eu garanto, meu piá fica muitoooo tempo acordado para a idade dele. Vai quê? E eu não estou olhando. Se quiserem recomendar um terapeuta podem fazer isso na caixa de comentários – obrigada – mas eu me sentiria mais tranquila sabendo que outras mães vivem essas paranoias também (alguém levantou a mão aí?).
Eu vi uma mãe escrever no Facebook que queria um tempo da maternidade. Depois eu vi mais uma mãe escrevendo que trocava duas criancas por balas – alguém aceitava? – só para ela poder ir a academia. Loucas? Sem coracão? De modo algum. Às vezes me dá pena ver gente escrevendo sobre como a maternidade é bela, principalmente quando parte de pessoas que não são mães. Porque maternidade é linda, rosas são lindas, carro novo é lindo e casais apaixonados vivem grudadinhos. A gente aceita que a rosa murcha e morre, aceita que até carro novo dá problema, aceita que a paixão acabe mas não aceita de forma alguma que uma mãe diga que maternidade é um saco. Não se ela não usar as palavras mágicas e colocar um “mas… vale a pena” na mesma frase. Vale a pena? Não. Do alto da minha maternidade colorida eu acho que não vale a pena. Ser mãe é literalmente levar na cara o tempo inteiro e é super bom quando estamos cheias de hormônios gestacionais e da amamentacão, mas depois que eles somem do corpo a coisa vai mudando de figura. Eu cheguei a rasa conclusão – baseada nos meus parcos conhecimentos teóricos e empíricos a respeito do tema – que maternidade é uma coisa instintiva e puramente animal. A gente tem que trabalhar e muito para que ela não seja baseada em trocas – tipo eu te cuido agora e você me cuida quando estiver velho, eu te sustento agora e você me sustenta daqui uns anos – e parar de ver a maternidade como se a gente fosse a virgem Maria se doando pela maior causa da humanidade. Não porque não possa ser doacão, eu acredito conhecer mulheres que tomaram uma decisão de se doar integralmente a maternidade e que curtem isso. Não quer dizer que elas achem super todos os dias da semana, correndo atrás dos filhos, limpando vômito, bunda, mijo, fazendo comida, balancando o menino doente num braco e limpando com o outro – não exatamente nessa ordem e muitas vezes tudo ao mesmo tempo – sem pensar um “aonde foi que amarrei meu burro?”. Mas tudo bem se elas pensarem. Tudo bem se eu pensar. Posso compartilhar com algumas outras mães, mas jamais dizer em voz alta. Não se eu não usar as palavras mágicas na mesma frase.
Se você é uma das mães que vai morrer dizendo que maternidade é sempre linda ou que maternidade é padecer no paraíso não me odeie. Eu não te conheco e não estou te criticando, só penso diferente. A maioria das mães que eu conheco vivem aquela agonia louca de amarem muito seus filhos e ao mesmo tempo odiarem – não em tempo integral – a maternidade, principalmente por causa dessa opressão absurda de que a gente tem que dizer que tudo bem, tudo bem, tudo bem, quando não está bem; e ouvir um: “mais vai passar… é fase”. É engracado que a maternidade é feita de uma série de fases difíceis em que a maioria das mulheres está arrancando os cabelos, mas é uma coisa linda demais, um dom de Deus. “Olha que esse tempo vai passar rápido demais e você vai sentir saudade”. Sim, já sinto saudades das coisas lindas e charmosas que meu piá fez enquanto bebê, mas não sinto saudade da trabalheira que era dar conta de todo o resto que envolvia o fato de ele ser bebê. E quando eu penso que mais um está chegando… mas, espera, é uma fase e vai passar.
Eu não consigo entender o paradoxo. Talvez seja cedo demais. Talvez seja porquê meu cérebro de alguma forma estagnou naquela fase que a maioria das pessoas vive entre os 3 e 5 anos quando você irrita infinitamente todos os adultos ao redor fazendo um milhão de perguntas a respeito dos “porquês”. O meu porquê atual é mais um para quê: para quê – e para quem – romantizar tanto a maternidade quando ela é uma coisa tão difícil?
Isso, e eu já falei que vivo uma maternidade bem mais descomplicada aqui na Suécia?

Fechado para o verão

Sabe aquele papo de que o ano só comeca no Brasil depois do carnaval?
A Suécia fecha para o verão.
Todo mundo que tem um emprego fixo tem direito a cinco semanas de férias por ano. Até os 40 anos, porque a partir daí serão seis. Quem ainda não tem direito as seis semanas dá um jeito de ter, juntando horas extras ou tirando a licenca parental. E aí tudo fecha porquê, né… ninguém quer estar trabalhando enquanto o colega está aproveitando um dia de verão.
E não se trata apenas daquela loucura para viajar. Se trata de ficar com a família, os amigos e tirar um tempo fora da rotina. Sueco adora uma rotina, mas também é louco por cortar a grama. Eu tenho uma teoria de que essa alegria toda de cortar a grama está relacionada ao fato do “veja, tudo está verde, está quente, eu vou sentar do lado de fora de casa e por isso estou arrumando meu quintal”. Ou só um “preciso um lugar para colocar a grelha”, ou melhor, “preciso um lugar do lado de fora para colocar a grelha”. E, é claro, está relacionado ao fato de que o sueco corta a grama durante dois, três meses por ano – e não o contrário, como é comum no Brasil. Quando eu trabalhava em Falköping tinha um colega iraquiano que se sentia extremamente incomodado com essa coisa da grama. Ele morava num condomínio de casas – aquelas que são grudadinhas umas nas outras, mas tem um quintal em frente e outro nos fundos – e dizia que o vizinho cortava a grama uma ou duas vezes por semana durante o verão. Esse não era o problema. O problema era que o vizinho já havia dado a ele inúmeras indiretas sobre a grama estar muito crescida, e sobre a altura ideal do corte, aquelas coisas tipo de revista de jardinagem. Ele se sentia pressionado a cortar a grama mesmo quando achava que a grama estava curta, só por causa do vizinho da fita métrica. O Joel vive angustiado com o que os vizinhos vão pensar sobre a grama. Enquanto ele se sente em meio a uma plantacão de capim, com grama até os olhos, eu olho para fora e penso: ué… que grama?
Verão na Suécia significa ir para a casa de campo, jogar cartas com as criancas, ler um livro que está em alta e ouvir o programa especial da P1, o Sommarpratarna (Papo de verão, talvez, se eu posso ser um pouco criativa). Ao menos os mais velhos. Ou talvez não. Eu achava que todo mundo que ouvia esse programa era a galera dos 40+ mas sabe o quê? Puro preconceito. Tem muito jovem que adora o programa. Basicamente não é nada além do que gente famosa e nem tão famosa assim falando de coisas da vida. Pode ser uma ativista pelo direito do povo sami, os índios suecos (ela inclusive é rapper gente!); ou o Zlatan, contando histórias da infância; o ex primeiro ministro sueco falando do livro ruim que ele publicou e até freira fala nesse programa – sobre caridade e Deus.
Outra coisa interessante do verão é que, já que a galera toda sai de férias, entra uma multidão de substitutos. Jovens substitutos, em sua maioria, que vão trabalhar apenas o verão ou gente que vai garantir (ou tentar ao menos) uma vaga. É tipo aquele lance de trabalho de fim de ano no Brasil, nas festas: gente que está dando uma mão porque algo extraordinário acontece (sol e calor). Esse lance dos trabalhos de verão são muito sérios aqui porque os jovens recebem um subsídio do governo para estudar (tipo bolsa escola, mas todo mundo em idade escolar recebe dependendo apenas da frequência). O detalhe é que durante as férias escolares não tem bolsa. E isso vale para os universitários também – na Suécia é possível emprestar dinheiro do governo para poder se dedicar 100% aos estudos sem trabalhar. É tipo como se todo o universitário tivesse acesso a bolsa de estudos, só que no caso, você devolve depois de formado. Mas como você só recebe enquanto tem frequência, e a frequência é zero durante as férias, entre junho e agosto/setembro ninguém ganha auxílio… aí o jeito é descolar uma grana extra. E já que todo mundo sai de férias mesmo e as empresas ficam as moscas… junta-se a fome com a vontade de comer.
O lado negativo dessa história é que isso pode até mesmo acontecer em hospitais. Tipo as enfermeira obstetras saem de férias e do quadro de pessoal permanente tem apenas duas pessoas trabalhando… juntamente com uma porrada de jovens recém formados ou em formacão que conseguiram um bico de verão. E isso sem exagero gente.
Eu também saí de férias. Mas como eu não tenho as manhas e não sei das tretas, não vou ficar “deboas” cinco semanas…

Benjamin, b-day, bebê a caminho, barriguda, bandida, burocracia e mais um monte de bês

Benjamin completou dois anos e eu também – de maternidade. Parece uma vida inteira desde que ele nasceu e muitas vezes a sensação de que não havia vida antes do filho é tão forte que me faz esquecer que eu já fui criança. Só não esqueço de todo porque a gente pensa muito na própria infância, o que foi bom e o que não foi, e usa como parâmetros para a própria maternidade. O foda é que eu penso tanto que muitas vezes fico na dúvida se estou realmente lembrando de fatos vividos ou são apenas experiências resignificadas depois de ouvir tanta gente repetindo o “lembra quando isso e aquilo? daí aconteceu pau e corda…”
E é isso mesmo, como o título sugere, estou de barriga e o bebê chega em novembro. Tenho várias conhecidas suecas parindo agora ou em um futuro próximo, o que deveria me garantir um pouco de companhia para “empurrar o carrinho por aí”; o que infelizmente não será verdade. Não é pra me fazer de coitada, é só que o meu jeito de encarar a maternidade não bate com o jeito da galera daqui. Um exemplo simples: Benjamin não desmamou. Porque não precisa – minha gravidez é tranquila, ele quer mamar e vai continuar mamando enquanto quiser. Já ouvi gente sugerir o desmame delicademente e também na cara dura – assim ó: você terá enormes problemas se não desmamar pra ontem – além das pessoas que, apesar de não dizerem nada, estão gritando corporalmente o quanto isso é esquisito. Das gurias com quem eu convivo que tiveram uma criança ao mesmo tempo que eu a maioria está na segunda rodada e falando do desmame do filho número dois.
Já fiz o ultrassom de rotina daqui – que acontece entre a semana 18 e 20 – já sei que o bebê está se desenvolvendo como deveria, que viu ter mais um piá (yes!), e que nos preciso de mais ultrassons. Durante a primeira gestação essa falta de ultrasonografias me deixava desconfortável, agora eu vejo isso com mais naturalidade. Acredito que o fato de morar na Suécia e ter contato com um sistema de acompanhamento a gestante mais simples – veja bem, é humanizado mas nem sempre – em que a gravidez não é tratada como doença me ajudou muito a crescer como mulher. Eu quero muito ajudar outras mulheres a se fortalecer nesse sentido e para isso me formei doula. Não sei se terei possibilidade de utilizar o que aprendi aqui, ser doula na Suécia ainda é um trabalho pouco conhecido e a maioria das mulheres escolhe ter apoio exclusivo do parceiro durante o parto mas, apesar de sentir que esse é um projeto que talvez precise de alguns anos antes que eu possa aplica-lo, espero começar aos poucos a deixar o mundo burocrático da assistência social de escritório em que entrei e ficar mais perto das pessoas.
Uma das coisas que preciso dar jeito é na carteira de motorista. Aham, continuo bandida, mas uma bandida de meia tigela que vai ao mercado próximo de auto quando está com a massa do bolo pronta e percebeu que esqueceu o fermento. Agora que já perdi a autorização para tirar a carteira tenho que pagar por uma nova autorização, um novo exame de vista e esperar ter mais sorte nas minhas provas.
Enquanto isso, vou de bike. Tenho uma vida um tanto quanto intensa em duas rodas, o que tem preservado minha sanidade física e mental: vou e volto do trabalho de bicicleta, aproximadamente 16km por dia que me custam meia hora pedalando (são cerca de 50 minutos de transporte público por causa das conexões escrotas que tenho que fazer para chegar ao bairro vizinho). É ótimo, mas não vai funcionar no inverno de -10°C com duas crianças, sendo uma delas um bebê de poucos meses. Então bora mexer a bunda da cadeira e tirar a carteira – rimou.
Falando em coisas a tirar, vou tirar a cidadania sueca e da próxima vez que ir ao Brasil registrar minha saída definitiva. Estou com uma lista grande de coisas a fazer no Brasil, muito do que tem a ver com essa coisa de registrar que mudei – na qual nunca pensei por acreditar que voltaria logo e por pura ignorância mesmo – mas que teria facilitado a minha vida e me preservado de algumas cobranças desnecessárias. Então fica a dica para quem estiver saindo: conte para  receita federal que você está mudando, mesmo que não seja para sempre.
Eu ando com muita saudade de blogar. Mas tenho dormido em pé. E sinceramente… sinto que há muitas coisas das quais eu gostaria de falar que não cabem aqui. Então por enquanto fica como está.
Beijos pra quem fica!

Vento torto

Toda vez que a primavera/verão sueco começam é a mesma coisa: gente lagarteando para todos os lados, aproveitando qualquer réstia de sol – seja entre as nuvens ou entre os prédios – e gente que se joga nos lagos por aí quando a temperatura atinge os 10 graus C.

Isso sempre me leva a pensar em duas coisas.  A primeira é que, para alguém que passou a maior parte da vida andando na sombra literalmente, essa caça louca pelo sol não faz sentido. Fisiologicamente faz todo o sentido, o corpo fica sem sol por longos meses e está clamando por vitamina D. Mas eu não entendo que as pessoas continuem fazendo isso ao sol do meio dia. É meio paródia isso, a pessoa quer sair para pegar um sol entre 12 e 12h30 – o horário de almoço – e aí quando entra está assustada porque se queimou. Saca? Minhacarasuperbrancaquenãoviusolduranteoitomesesobviamentevaificarcermelhadeumavez. Deu pra entender né? Mas o dia depois de amanhã lá vão eles, fazer mais do mesmo. Aí quando me dizem que a memória do ser humano é curta eu me pergunto: que memória?

E o banho de lago. As temperaturas atingem a marca mágica de 10 graus e aí, metereologicamente a primavera começou. E com ela as competições para ver quem será o corajoso a tomar o primeiro mergulho do ano. A intenção é só essa mesmo: tirar a roupa, pular na água, gritar, gritar muito, xingar o mundo, gritar mais um pouco, xingar mais um pouco e continuar intercalando os dois enquanto sai da água pra se secar. Normalmente depois desse ritual o sueco vai soltar dois comentários: o “caralho tá muito frio!” e o “a sensação na água é terrível mas agora eu me sinto super bem”. Such…

Quando a temperatura chega aos 20 graus C é hora de deixar as crianças também entrarem na brincadeira. E eu? Eu penso na minha mãe que não deixava a gente tomar banho de piscina quando, apesar de quente, tinha vento. Porque vai que né? Se tomasse um vento torto ou uma friagem…

Feliz dia do assistente social

Eu acho que cinco anos fizeram um buraco na minha cabeca, porque quando eu era funcionária pública no Brasil e trabalhava de segunda a sexta-feira eu ainda tinha vida pós trabalho. Agora a impressão que eu tenho é que depois que eu chego em casa eu preciso urgentemente comida e cama…
Claro que nada é igual. Há cinco anos atrás eu não tinha marido, filho, e nem toda uma casa pra limpar (que aliás, eu só limpo no sábado). Mas é fato de que a profissão de assistente social é classificada – na Suécia – como uma das mais difíceis – se você trabalha nos escritórios de assistência social, os chamados socialkontor. Se você joga no google palavras como stress e assistência social juntas aparecem uma série de artigos relacionados, tanto partindo de sindicatos como de outros instrumentos de pesquisa que citam a profissão como uma das piores do país em relacão ao ambiente de trabalho e número de trabalhadores afastados devido a esgotamento nervoso.
Eu sei o que você está pensando, mas eu sou Tomé: tenho que ver para crer. No caso, fazer para crer. E agora eu creio: trabalhar no escritório de assistência social tem me deixado mais cansada do que eu posso me lembrar em toda a minha vida. A carga de trabalho é grande, e como eu sou novata ainda demoro muito para fazer qualquer coisa, e como eu não tenho sueco como língua materna demoro muito para escrever relatórios e aí já lascou-se tudo. A sensacão é de que eu tenho trabalho atrasado desde o segundo dia em que comecei. Agora, depois de cerca de três meses, tenho me sentido bastante chateada com isso porque eu tinha a esperanca que fosse alguma coisa relacionada a minha falta de jeito. Infelizmente, falando com outras colegas descobri que não sou a única que me vê na mesma situacão e que aquelas que estão mais tranquilas o estão porque ligaram o foda-se literalmente e não se importam o mínimo com o trabalho acumulado.
O sistema funciona mais ou menos da seguinte forma: se você tem problemas econômicos entra em contato com o servico de assistência social, que nesse caso se chama stöd och försörjningstöd – apoio e auxílios financeiros (na verdade o substantivo försörjning se traduz melhor como “independência financeira”); e pede para marcar uma entrevista com uma assistente social. Dentro de alguns dias você encontra a assistente social e tem que estar munido de uma série de documentos que mostram que você faliu financeiramente (seu dinheiro está acabando e você não tem como pagar as contas do próximo mês) e você não tem mais nenhum tipo de reserva – não é possível ter uma poupanca e receber auxíllio do social, ou um carro, ou uma casa, ou… bens materiais de muito valor; e que você tem feito tudo o que poderia para resolver a sua situacão sozinho. Essa última parte significa que, se por exemplo, você ficou desempregado, tem procurado empregos por meio da agência de empregos e tem um plano lá; ou que caso você esteja doente você esteja seguindo a risca o tratamento. A assistente social que atende o usuário vai escrever um relatório socio econômico analisando a situacão do indivíduo e emitir um parecer em um prazo que normalmente gira em torno de 10 dias. Nesse parecer o mais importante é responder a duas perguntas: essa pessoa realmente está falida? e ela fez todo o possível para resolver essa situacão sozinha, buscou outras formas de ajuda antes de se voltar ao escritório de assistência social? Se a resposta para as duas questões é sim, a pessoa tem direito a auxílio financeiro – ekonomiskt bistånd. Ou seja, eu trabalho como o bolsa família sueco.
Todo o atendimento no setor de apoio e auxílio finaceiro é individualizado. Isso significa que cada caso será analizado individualmente e depois que o assistente social escrever o relatório mesmo que a resposta às questões acima não sejam exatamente um “sim e sim” no parecer e sejam, por exemplo, um “sim e sim, mas…” o usuário pode receber auxílio.  Quando o relatório social e econômico fica pronto é hora de fazer outro documento, o plano de trabalho ou projeto de trabalho. Nele o assistente social e o usuário vão definir o que o cidadão precisa fazer para conquistar a independência financeira. O plano sempre inclui uma série de fatores mas alguns deles são essenciais e se o cidadão não os cumpre não recebe auxílio para aquele mês em específico.Isso porque o fato de você receber o auxílio uma vez não faz com que o direito ao auxílio seja automático. Na verdade, o auxílio é avaliado mês a mês.
Ao contrário do bolsa família brasileiro, o bola família sueco não é formado apenas por valores definidos. A grosso modo podemos dizer que há um auxílio básico, esse sim é um valor definido que muda apenas de acordo com a idade do cidadão. O bolsa família sueco é formado de diversos auxílios complementares, entre eles aluguel, luz, o seguro da casa, cartão de ônibus e internet (varia de município para município) e auxílios eventuais, que são gastos com medicamentos e consultas ao médico, dentista, a compra de óculos e auxílio funeral, entre outros. Mas esse é um capítulo a parte que daria por si só um post gigante.
Se você tem problemas muito sérios, tais como aluguéis atrasados que fazem com que você possa perder seu apartamento e nem um puto pila no bolso (e quando eu digo nem um puto pila eu estou realmente dizendo isso: sua conta bancária deve estar no zero) quando sua geladeira está vazia você pode receber auxílios emergenciais para pagar o aluguel e comprar comida no momento em que você procura o escritório de assistência social. Nesses casos o assistente social emite um parecer baseado nas informacões disponíveis quando o usuário se volta para o sistema, e depois de receber uma pequena ajuda só para que ele não seja jogado na rua e ou morra de fome, o usuário entra na roda como todo mundo e vai ter que esperar por uma entrevista, relatório e parecer social para continuar recebendo algum tipo de auxílio.
Assim falando parece um sistema muito enxuto no qual é difícil de entrar. É e não é. Para que qualquer pessoa possa receber auxílio econômico ela tem que apresentar um extrato bancário. E nós assistentes sociais temos que analisar esse extrato bancário. Dos últimos três meses. Por quê? Porque se você estava na merda, sabia que não tinha dinheiro e continuou gastando como se tivesse um salário pra cair na conta vai dancar. Mas vocês podem imaginar que esse tipo de decisão não é muito fácil de comunicar a um usuário…
Se eu disse que o trabalho como assistente social é classificado como um dos mais extenuantes da Suécia, trabalhar com o bolsa família sueco está no topo da lista entre os piores trabalhos que o assistente social pode fazer. Pessoalmente não sei o que pensar, estou muito crua ainda e nem peguei o jeito, além do quê eu tenho problemas sérios em ter de escrever tanta documentacão numa língua que é razoavelmente nova para mim. Mas de modo geral as assistentes sociais aqui reclamam do mesmo que reclamamos no Brasil: salários muito baixos diante da carga de trabalho, e carga de trabalho que é realmente uma sobrecarga de trabalho.
Eu quis escrever esse post para dividir um pouco dessa experiência em um mundo novo, ou uma nova dimensão de um mesmo mundo – uma visão ainda um tanto crua e baguncada – como homenagem a todas as assistentes sociais brasileiras. Um viva as minhas colegas de profissão e forca na peruca gente… vamos precisar!