E está aberta a temporada de caça…

No dia 14 de outubro foi aberta a temporada de caça aos alces. O alce é símbolo nacional e é tratado como animal selvagem na Suécia – não é permitida a criação de rebanhos de alces; portanto, a única forma de conseguir a carne de alce é por meio da caça. Além disso, a temporada de caça serve para que se faça o controle populacional do bicho que é considerado um verdadeiro pesadelo nas estradas, principalmente durante outuno/inverno quando os dias mais curtos e as longas noites escuras fazem ser quase impossível de o enxergar (mesmo ele sendo tão grande).

Foto: Kent Kristenson. Fonte: Länstyrelsen Västra Götaland

Foto: Kent Kristenson. Fonte: Länstyrelsen Västra Götaland

Bom, estamos no país da organização e mesmo que a caça seja uma prática tão selvagem não escapa de ter uma rigorosa orientação. Além disso, vou deixando claro desde agora que esse post tem como objetivo apenas esclarecer como é que se dá uma coisa que é bastante comum na Suécia: a caça ao alce. Não estou apoiando a causa, defendendo ou tentando fazer uma análise. Vou apenas apresentar os fatos.

Primeiro que para ser um caçador na Suécia é preciso fazer um curso de caça. Após o curso, ser aprovado em uma prova da associação sueca de caça (Jägareförbundet). Sem a licença de caçador (que só vem com o curso e a aprovação na prova) não é possível comprar armas de  caça pois para tanto é imprescindível o porte de uma outra licença expedida pela polícia. Para obter a licença da polícia (só reforçando) é preciso o certificado de participação no curso de caçador e respectiva licença. Não há idade mínima para participar do curso de caça ou para obtenção de licença como caçador, mas a idade mínima para portar espingardas de caça é de 18 anos.

O departamento responsável pela supervisão das temporadas de caça na Suécia é o Länstyrelsen, que podemos porcamente comparar com o nosso governo do estado. Todas as informações que repasso a vocês nessa página retirei da Länstyrelsen Västra Götaland – acredito que as regras sejam as mesmas e tenham uma orientação nacional, sendo que apenas a extensão das florestas, da população e do número de animais que podem ser abatidos por região é que diferem – do fórum da página do Jägareförbundet e da Wikipédia (em sueco).

Primeiro, a temporada de caça tem data para começar e terminar: 14 de outubro de 2013 a 28 de fevereiro de 2014. O Länstyrelsen faz o registro das permissões de caça, do número de alces existentes no território e do número de animais que podem ser abatidos (portanto, cada animal abatido deve ser referenciado a instituição), assim como o controle das áreas onde é permitido a caça. Com a temporada de caça aberta é comum que alces sejam vistos nas cidades e pequenas vilas e é definitivamente proibido atirar em animais que estejam dentro ou próximos de áreas urbanas ou povoações.

Existem cinco tipo diferentes de áreas de caça. A licença a ser requisitada depende do tipo de área em que a pessoa irá caçar. As áreas são rigorosamente controladas e administradas por associações de caçadores, associações de defesa dos alces e outras organizações semelhantes. Ao final de cada período de caça é necessário que seja enviado um relatório formal (por parte do administrador da área) em que conste o número de alces abatidos (com descrição de sexo e tamanho/idade do animal) e quando. Caso os relatórios não sejam enviados, as áreas de caça perdem sua licença e passam a ser chamadas de área de caça tipo K, onde somente é possível abater “novilhos” de alce.

Além da área tipo K, existem as áreas Ä, A, B e E. Uma área Ä conta com uma população de alces que precisa ser controlada, daí a caça (ainda que seguindo o plano de caça) é mais aberta. Já a área tipo A precisa de licença especial, porque conta com um número X de cabeças a serem abatidas (independente da idade/tamanho do bicho). Áreas do tipo B, E e K são áreas em que o número de alces a serem abatidos são estritamente controlados: em áreas tipo B apenas um alce (independente de tamanho/idade) pode ser abatido; nas áreas E somente um novilho de alce pode ser abatido e nas áreas K, como citado acima, somente novilhos de alce.

Os pedidos de licença devem ser enviados até o fim de maio do ano corrente para serem analisados pela Länstyrelsen (to falando do que estava escrito na página da Länstyrelsen da região em que eu moro, Västra Götaland). Cada pedido deve conter o nome do caçador administrador da área (ou presidente da associação de caçadores), o nome dos caçadores que poderão atuar na área, as dimensões da área e o plano de caça para aquele local, aprovado também pela associação de defesa dos alces. Pelo que entendi, o registro das áreas deve ser enviado anualmente para que o Länstyrelsen tenha o controle do nome dos caçadores registrados, do plano de caça e de eventuais mudanças na área (se a população de alces ficou menor ou maior pode mudar de categoria). Além disso, é preciso desembolsar 2300 coroas suecas (ou aproximadamente R$ 800).

Além de pagar pela licença do território o caçador paga ao Länstyrelsen uma taxa por cada cabeça abatida: 100 coroas suecas (cerca de R$ 35) por cada novilho e 850 coroas suecas (cerca de R$300) por cada animal adulto. Pelo que vi em um fórum na internet (um fórum qualquer tipo Yahoo) um animal adulto pode render até 250 kg de carne limpa. Bom, no fim das contas, depois de somar tantas licenças (licença de caçador, licença para arma, licença para caçar naquele território mais a taxa final por cabeça) entendo porque a carne de alce é cara.

Acho interessante mencionar também que é feito um controle do número de fêmeas e machos que são abatidos. A orientação do Länstyrelsen é de que devem ser abatidos a mesma quantidade de machos como de fêmeas e é aprovada apenas uma diferença percentual de 10% – por exemplo, do total de animais abatidos 40% eram fêmeas e 60% eram machos, ou vice e versa. A abertura para essa diferença percentual é possível pois é bom lembrar que há áreas em que é possível abater apenas um animal. Se abateu uma fêmea, essa área vai contribuir para que o percentual de fêmeas abatidas seja maior (e vice versa). É proibido abater uma mamãe alce com filhote, a menos que o mesmo já esteja na categoria de novilho e tenha sido abatido primeiro – o novilho não vai ficar grudado na mãe, aí vai alguém e atira no bicho e depois percebe que a mãe estava ali por perto.

Fonte: Google

Fonte: Google

Conheço pessoalmente apenas uma caçadora (sim, caçadorA). Penso que aqui na região de Göteborg não seja tão comum por causa da densidade populacional. Mas tem gente que vai para o norte, caça em grupos com cães e tudo o mais. Outros ficam na moita em umas casinhas de observação que a gente vê por todo o canto (como essa aí ao lado). Tem gente que curte messssmoooo ficar sozinho.

A população de alces na Suécia está estimada em cerca de 270 mil cabeças (segundo o amigo Wiki). O número de caçadores registrados é maior do que a população do bicho: 300 mil, sendo que apenas 5% deles são mulheres (olha a minha amiga esta poderosa!). De acordo com as estatísticas que encontrei na página do Svenska Jägareförbundet foram abatidos cerca de 96 mil animais durante a temporada de caça 2012-2013; ou 15 mil toneladas de carne. Eu provei carne de alce apenas uma vez e é deliciosa!

Gostaria de ter encontrado mais estatísticas relacionadas a caça, por exemplo, quantos alces são abatidos aqui na minha região. Mas o älgdata – que é um sistema de dados sobre os resultados das temporadas de caça que você encontra no site do Länstyrelsen – é extremamente complicado, e não gera um relatório tipo “geral” mas sim por área de caça. Mó trampo! E o mesmo acontece no site vildata. Peguei esse gráfico aqui do site Jordbruket i Siffror.

Fonte: Jordbruket i Siffror

Fonte: Jordbruket i Siffror

Um aviso aos navegantes: quem gosta de caminhar no mato durante esse período deve usar roupas coloridas pois nem sempre as placas de área de caça estão no começo do bosque (ou não são coloridas e chamativas). Devido a cor da pelagem dos alces (entre marrom e cinza escuro) usar cores semelhantes quando se está no meio da floresta pode ser um tiro no pé.

Ou na cabeça, o que é bem pior.

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Olha o tipo dessa placa!!!? Se você não sabe sueco então, nem vai dar bola para um pedaço desses de papel…

Fonte: Google

Fonte: Google

Placas de área de caça deveriam ser assim (ou parecem mais ou menos como essas):

Fonte: Google

Fonte: Google

Fonte: Google

Fonte: Google

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #03

Eu quase morri de rir quando descobri que a palavra sueca para estar arrepiado é gåshud [e você pronuncia gozruid] que remete à pele do ganso depenado. Ou à pele de uma ave depenada – porque enfim, a pele da galinha, do ganso, do pato, do marreco, enfim, das aves todas devem ser daquele jeito sem penas… ou não? Posso dizer que tenho certeza que é assim com frangos, porque quando a gente mora em cidade pequena sempre tem frango da colônia (=sítio= chácara= pequena fazenda) para vender no mercado, e a minha mãe mesmo matou frango em casa.

Em todo caso eu penso que isso não seria engraçado para pessoas que nunca viram uma ave depenada. Não sei se o povo sueco chega a ver isso de fato [aves depenadas] mas quem mora por aqui sabe que bicho é o que não falta: a cidade é cheia de gaivotas prontas para roubar seu Mac Lanche Feliz, e porque tem “mato” para todo lado é extremamente fácil ver veadinhos ou esquilos atravessando a estrada. Na casa dos pais do Joel – que moram 50km de Göteborg – às vezes os veados estão no quintal!

Que lindo né?

Nem tanto. No verão, quando tem luz praticamente 24h por dia, ninguém vai ser surpreendido por um veadinho despreocupado atravessando a estrada. Ok, pode ser mas se vocês bem lembram eu disse no blog que suecos são ultra preocupados com segurança e dirigem sempre dentro do limite de velocidade – que nas estradas secundárias é de, no máximo, 90km/h – e nesse jeito lagom de ser dá para evitar o acidente. Já no inverno…

Hoje a gente estava na casa do avô do Joel de carro e quando voltamos – cerca de 19h – já estava bem escurinho e chovendo, e a gente viu muito rápido dois veados atravessando a estrada cerca de 100m talvez à nossa frente! Já imaginou o estrago que causa um bichinho desses no carro? E no caso de um alce então?

O alce é o animal símbolo da Suécia e puxa, eu acho que é maior do que um cavalo. Não é tão comum aparecer em qualquer lugar como os veados e esquilos, mas sim, em alguns casos eles aparecem do nada cruzando as estradas. Porque os suecos gostam de mato, tem muito mato ao redor dos lagos, tem muitos lagos grandes e pequenos – o que facilita com que os alces acabem se perdendo das reservas – afinal animais não lêem aquelas placas territoriais. Já houve até o caso de aparecer um casal deles no Posseidon – no centro centro de Göteborg.

A caça é permitida em algumas regiões e o Joel disse que a carne – de alce – é muito saborosa. Mas ninguém pode sair dando tiro nos bichos fora das zonas de caça, e isso significa que simplesmente não rola um tipo de controle populacional desses [veados e alces] próximo aos centros urbanos. Durante o inverno passado o governo permitiu a caça de lobos porque eles estavam literalmente invadindo as cidades, o que causou a maior polêmica.

Também não acho legal essa coisa de ficar atirando contra os animais, mas o que fazer então? Se alguém fecha os animais em cercados, está colocando os bichos na prisão. Se atirar contra é assassinato. Mas e quem mora no norte, não tem luz praticamente durante um mês, vai viver com os lobos uivando na porta de casa? Com chuva e escuridão, é quase impossível ver os animais próximos das estradas, e no caso de atropelar um alce, o motorista e passageiro da frente também correm risco de vida.

Problemas a parte, dizem a boca pequena que a questão não é de toda má e que também rola a solução: se você bater o carro mas de alguma forma provar que foi por causa de um alce, o seguro cobre completamente.

Quem disse que é só no Brasil que se dá um jeitinho?

PS.: O Joel comentou que a Volvo é uma de duas empresas que fazem testes de colisão contra alces! HahahAHHaahahA!