Saudades

Na semana antes do meu casamento a minha sogra avisou que haveriam dois convidados surpresa para a festa. Adivinhem qual foi o meu pensamento?

Sim, a primeira coisa que passou pela minha cabeça é que essa maravilhosa família sueca que me acolheu havia feito uma vaquinha para trazer meus irmãos – a Gio e o Jorge – para o casório. É claro que a minha sogra percebeu de uma vez como as minhas expectativas pararam em um trilhão, então ela mais que rapidamente explicou que era uma surpresa pequena e que os convidados não vinham do exterior.

Ainda assim, eu esperei até o último minuto que – tanto meus irmãos como mais umas pessoas especiais – aparecessem de surpresa. Sei lá, sabe essas coisas bestas de filme? Sim, eu esperei. Esperei ver eles na igreja. Mas eles não estavam lá.

Desde o dia do casamento eu sinto muito mais falta deles do que o normal. Eu tenho cá essa saudade que não passa, e coisas bestas me fazem lembrar de momentos gostosos que passamos juntos, ou, em outros casos, coisas que eu gostaria de fazer com eles.

Passei a viagem toda na Grécia fazendo planos infalíveis.

Mas ainda não posso ir ao Brasil.

Então eu fecho os olhos e vivo na minha cabeça esses momentos que eu sei que foram reais e que agora são lembranças especiais. Eu faço de conta que posso fazer isso amanhã e daí fica um pouco menos pesado. Eu sei que faz quase um ano, a minha vida está se ajeitando e tenho encontrado muita gente legal, mas vocês são insubstituíveis! E estão fazendo falta…

Eu não ficar nominando, não precisa.

Eu tenho saudades…

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #27

Algumas atualizações rápidas e rasteiras.

Devido aos milhares de nove pedidos para que eu não feche o blog agora, vou continuar postando meus blá blá blás e desabafos da madrugada, ao menos, for a while. Eu realmente não gosto dessa coisa de blogar pela metade e é assim que me sinto ultimamente: não consigo terminar alguns rascunhos de há muito tempo, teve gente que me pediu mais dicas para estudar sueco, não respondo os coments. Ultimamente me sinto fazendo muita coisa pela metade e isso prova que estou abraçando mais do que posso dar conta. E meu tempo voa! Preciso no mínimo de duas horas para cada post. Och det är mitt fel – a culpa é minha. Eu gostaria de ser uma pessoa  que não cobra tanto de si mesma e que simplesmente posta uma foto do cachorro e voilá! bloguei. Antes que alguém fique brabo, não tenho nada contra gente que posta três linhas e acho mesmo é que essas pessoas é que são felizes. É que eu não consigo, primeiro porque não sei tirar fotos decentes e segundo, não me dou essa liberdade. Comecei o post dizendo que seriam atualizações rápidas e rasteiras mas dá uma olhada para esse parágrafo?

Falando em gente que está a caça de dicas de sueco, deem uma passada no blog da Rúbia – Carioca da Clara Suecando. Quem quiser uns áudios de sueco deixe um comentário com o nome do usuário da conta do Drop Box que eu compartilho; é o melhor que posso fazer por enquanto.

E falando em estudar, recebi a resposta sobre a minha candidatura para o mestrado e começo a estudar em agosto. Inglês. Como eu já suspeitava, meu inglês foi considerado insuficiente – não há o que chorar, é verdade; e antes que eu alcance o nível Engelska 6 posso esquecer a universidade. Sinceramente, me deu quase um alívio: eu realmente não tô afim de cursar universidade agora, ainda me sinto muito insegura com meu sueco e sendo assim, com sueco mais ou menos e inglês mais ou menos eu só sofreria. A gente já recebe muita merda nessa vida de graça, eu não preciso adicionar umas pitadas a mais, obrigada. E aproveitando o ensejo e para evitar futuras surpresas vou estudar o SAS 3 também. Espero que… nem vou esperar nada.

Depois de muita enrolação faço o segundo curso obrigatório para a carteira de habilitação semana que vem. Pra quem queria fazer a carteira em um mês e começou em março… tá longe ainda. Mas estou estudando o livro teórico – körkorts… alguma coisa. E nessas horas é que dá para perceber o quanto meu vocabulário em sueco é pequeno; pá… são muitas palavras que eu não tenho a menor ideia do que significam. Tenho que ler mais e ouvir mais rádio.

Agora tenho um carro no meu nome porque o seguro é mais barato. Estatisticamente, mulheres são muito mais cuidadosas no trânsito do que os homens, apesar de que comprovadamente eles são melhores na hora de estacionar.

Continuamos trabalhando a todo o vapor com a casa e quase todo dia vem gente ajudar. Uma das coisas que me deu medo quando o Joel disse que queria mudar para o “campo” foi que a gente ficaria isolado. É verdade que alguns amigos que víamos antes agora a gente não vê com tanta frequência, mas de outro lado a casa está sempre cheia. Cheia de gente e cheia de coisas a fazer. E esse é um dos pontos em que tenho que aprender a relaxar…

Cuidar de uma casa de quase 100 metros quadrados não é mesmo que cuidar de um apê de quarenta. Parece que eu nunca consigo terminar de limpar a casa – e sim, agora estou falando igualzinho a minha mãe. Ainda mais com reforma e com tanta gente que vai e vem, que entra e sai, tem dias que eu simplesmente me pergunto de onde vem tanto pó se nesse país chove quase todo dia?

Ok, eu não vou reclamar do clima não porque apesar de frio – as temperaturas estão na média dos 15 graus C – os dias estão ensolarados e se não venta dá para se esbaldar no sol de camiseta. E os dias estão super claros, com luz do sol até quase meia noite e o dia começando a despontar as 2h30m, 3h da matina. Isso dá um pique de deixar tudo bonito: tirar as teias de aranha, plantar flores, trocar as cortinas…

Me empolguei tanto que até fiz aqueles cartões de clientes tanto no Ikea como na Class Olsson. E uma lista! Que será providenciada aos poucos afinal, não há salário que aguente quando se é substituto.

Falando em emprego… conversei com minha handläggare sobre a nossa relação por cartas. Ela me disse apenas que está seguindo o protocolo e… cara, eu tenho muita dó de todo mundo que está inscrito no A. Se o protocolo deles é desse nível, não é de se estranhar que muito poucos estrangeiros tenham emprego. E aquele relatório que ela disse que eu teria que enviar, eu entendi tudo errado e recebi outra bronca sutil – mas até fiquei feliz, porque dessa vez a bronca veio por e-mail. Em todo o caso, dá para perceber porque eu e o A fazemos uma dupla de sucesso: eles com um protocolo super moderno e eu que não entendo nada. Tenho até amanhã para enviar um novo relatório… adivinha? Nem comecei.

Parei de tomar anticoncepcional porquê mais uma vez descobri que o anticoncepcional que estou tomando é uma bomba: troquei um anticoncepcional que me fez ficar com o rosto manchado por outro que pode me dar trombose. Quem quiser ler mais sobre isso é só usar o Google e as palavras chave Yaz e trombose. 27 mulheres canadenses morreram e há indícios de que o anticoncepcional que elas usavam (Yaz) pode ser  a causa da morte – por tabela. Entre os efeitos colaterais dos anticoncepcionais da marca Bayer (Yaz e Yasmim) há o alerta sobre trombose, sendo que a vigilância sanitária – tanto nos EUA como na Europa – já vinha alertando sobre esse “detalhe” desde 2011. O que me assusta é que mesmo que as agências de controle emitam os alertas os medicamentos continuem sejam receitados.

Mas eu to bem e a vida continua, semana que vem tem Midsommar e logo logo meus pais estão aqui! Com minha irmã mais nova a tiracolo. Eu me caso mês que vem e quase nem posso acreditar que o tempo passou tão rápido. Ainda nem decidimos por completo o menu do dia porque o chef do local da festa é tão enrolado quanto eu. Nem escolhemos o bolo…

E tipo, já falei que estou com torciolo de novo? A segunda vez no último mês…

 

Brasil x Suécia

Tem dias que eu odeio a Suécia.

Não exatamente o Reino da Suécia em si, no fundo, no fundo; eu curto muito esse país e realmente me sinto em casa. O problema são as coisas que têm no Brasil que não têm aqui. E eu não estou falando das enchentes, corrupção, políticas públicas deficientes, inflação e todas as coisas que nós brasileiros costumamos pensar em primeira instância como sendo Brasil. Também não me refiro a samba, carnaval, capoeira, feijoada, Michel Teló, praias e índios. Tô pensando na minha família, amigos, cerveja gelada e em churrasco.

Racionalmente, sei que me sinto assim porque estava no Brasil com todo mundo até bem pouco. Emocionalmente, é bem mais difícil conter a vontade de só e simplesmente caminhar até aqui e ali, tomar tererê, jogar conversa fora, fazer churrasco e  passar o tempo numa boa. É claro que tenho plena consciência que eu to romantizando e que férias sempre deixam a gente com um gostinho de quero mais, mas eu me dou o direito de pensar que tenho mesmo tudo do bom e do melhor no Brasil e que nem todas as férias do mundo seriam suficientes para aproveitar isso.

Não que o Brasil seja melhor do que a Suécia, ou vice e versa. É só que em alguns momentos quando eu to caminhando no meio do gelo penso tanto no sol e calor do Brasil que me dá uma deprê… Quando to no meio do Nordstan e sei que ninguém me conhece e que eu não conheço ninguém no meio daquele povão, me sinto imensamente sozinha e me dá uma deprê… Eu posso entender todo mundo e me fazer entender no sueco, mas em alguns momentos perco o timing e sou a ultima a rir da piada. Isso também me dá uma deprê… Ninguém me mandou embora do Brasil, e eu vim parar aqui porque quis. E isso também me deprime!

Eu já passei por aquela de “odiar” de verdade tudo que a Suécia representava para mim: salmão, batatas, vegetarianos, frio e neve; e por isso mesmo sei que esse sentimento agora, esse saudosismo não tem nada a ver com isso. Eu tenho uma vida aqui tão boa quanto a que eu tinha no Brasil – poderia até sublinhar que em algumas questões é até melhor, como a questão do trabalho: eu gostei muito de estar assistente social no Brasil, ser funcionária pública e trabalhar em uma prefeitura; mas agora eu tenho desafios grandes no meu trabalho – seja por causa da língua, seja por causa do trato pessoal; uma coisa com a qual estava sonhando antes.

Racionalmente, eu sei que não é culpa da Suécia. Somente porque eu moro na Suécia posso comemorar uma série de coisas que, se não são realmente fantásticas são, ao menos, peculiares: a neve deixa tudo mesmo lindo (estou apaixonada!); eu tenho família em dois lugares extraordinários do globo, e; eu to falando sueco! Hahá, apenas cerca de 9 milhões de pessoas no mundo podem dizer isso!

To numa situação tipo elástico: fico pensando que seria maravilhoso ter todo mundo de “lá” aqui, ou pegar todo mundo “daqui” e levar para lá… simplesmente impossível. Dai que o impasse continua…

Por isso tem dias que eu odeio a Suécia… mas em todos os outros, eu amo de paixão!!

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #07

No episódio de hoje de Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca…

O mês de novembro foi intenso: eu e Joel conseguimos um apartamento (alugar um, não comprar); ficamos noivos, acabei o SFI e recebi meu presente de Natal antecipado… um grandão – a família do Joel me deu uma viagem para o Brasil. Além disso, teve a viagem de barco para a Dinamarca, e a viagem que eu e Joel fizemos para Stokholm. Me sinto explodindo de alegria!

Em início de novembro o Joel recebeu um convite da boplats para ver um apartamento aqui perto de onde moramos, um etta como os suecos dizem (cozinha, banheiro e um quarto, sendo que às vezes é só banheiro mais um cômodo grandão onde fica a cozinha também) no térreo com um pequeno jardim. Já comentei que essa coisa de alugar apartamento na Suécia é meio confusa, então só posso explicar que você entra em um site de apartamentos (como o boplats por exemplo, que acho que é o maior da Suécia) e faz um perfil explicando onde você quer morar e o que você quer (apartamento com dois, três, quatros cômodos; em que andar), e a partir disso você está oficialmente buscando e pode ver os locais vagos, a planta do apê e etc; quantas pessoas procuraram o mesmo lugar, bla bla bla. Ser convidado para ver um apê não significa que você vai receber o direito de morar lá. Enfim, fomos para a visitinha, eu gostei, o Joel também, mas ficamos em segundo lugar no ranking de possíveis contemplados – porque eles avaliam um monte de coisas, incluindo o tempo que você está esperando na fila, seu salário…  Não sei o primeiro da lista morreu ou quê, mas é quase que só isso mesmo para alguém desistir de um apê aqui, e por fim, nós saímos  ganhando e foi uma surpresa maravilhosa! Eu amo morar no coletivo, mas é tão legal pensar que vamos ter um cantinho só para nós! Mudamos em 03 de dezembro, e isso é uma coisa realmente grande e fantástica se levado em consideração que cerca de 10 mil pessoas esperam para ter a oportunidade de alugar um apartamento em qualquer canto de Göteborg, e que o Joel esperou na fila por dois anos até ser contemplado!

O bom de morar em um etta é que não preciso, definitivamente, me preocupar com móveis, além do que, ganhamos muitas coisas do avô do Joel. Sim, eu sou extremamente feliz porque a família dele me acolheu de uma forma muito calorosa, sempre me tratam com respeito e puxa… eles até pagaram minha viagem para o Brasil! Eu fiquei tão emocionada que chorei…

Então no dia 11 de novembro eu fui com outros assistentes pessoais que trabalham com o Zé para a Dinamarca. A gente fez essa viagem para se entrosar, conversar e tals, já que todo mundo sempre se encontra rapidinho quando o turno termina. Infelizmente, a Joahanna ficou doente e o Magnus… não sei! Mas então embarcamos em um navio daqueles que aparecem em filmes e ficamos 3 horas tagarelando até chegar a Dinamarca. A foto abaixo é do café da manhã. Ficamos na Dinamarca apenas uma hora e meia, mas foi extremamente divertido. Eu comprei um UNO! na Dinamarca e na volta a gente ficou jogando UNO! e rindo e falando merda.

Da esquerda para a direita: Leila, Emília, Fredrik, Robert e Jasmina.

Então, Joel, eu e Stockholm. Emprestamos um apê de uma amiga e passamos uns dias fantásticos. Caminhamos muito, porque o apê era pertinho de Gamla Stan e de um dos centros de Stockholm. Conheci a Paula e o marido dela, Tobias. Jantamos juntos e fomos andar em Gamla Stan, ver os guardas reais e o Castelo do Rei assim como o Parlamento Sueco. O Gustaf nem mora lá, mas foi super divertido conhecer pessoalmente a Paula, a primeira pessoa com que eu conversei sobre casar e morar na Suécia. Ano passado ela fez um super favorzão para mim e puxa, é super bom encontrar alguém com quem você falou pela internet um milhão de vezes ou o quê, e perceber que essa pessoa é ainda mais especial do que você tinha imaginado! Agora ela tem de vir para Göteborg, e se quiser até pode dormir no meu sofá cama… hahahHahaha – amiga pobre é isso!

Paula, Tobias, Joel e uma caipira, em Stockholm, Suécia!

Eu queria muito ter encontrado a Maíra também – do Sonhos Escandinavos – mas o Joel me pediu… ahhhhhhhhh!! Eu ainda fico suspirando e olhando o anel de noivado no meu dedo. Que brega né? To fudida porque nunca pensei nessa coisa toda de casamento, nem sei por onde começar… no Brasil – lá nas bandas donde eu moro – a gente serve muito churrasco e cerveja (alguma coisa de whisky também) e da-lhe baile sertanejo! Pronto, todo mundo feliz. Mas oi Jesus, nem sei bem direito sueco, agora vou ter que aprender a preparar um casamento sueco!!!

HahAhahAHAhAh!! Que bom que é reclamar de barriga cheia!!

Domingo é dia de saudade!

O engraçado é que quando eu morava no Brasil – não lembro direito mas acho que foi a Lu – quem cunhou a frase depressão do “Fantástico” [aquele programa global que uma vez já teve muito mais haver com o próprio nome] porque quando começa o Fantástico se tem a certeza de que o fim de semana acabou.

Eu tenho um tipo de depressão de domingo à noite – mas não é porque o fim de semana acabou, nem é saudade de assistir ao Fantástico, é que eu fico imaginando o que todo mundo está fazendo. Está, porque com 5 horas de diferença, e agora com o verão chegando, quando eu to me preparando para dormir [eu durmo cedo] o meu povo querido láááááá no Brasil ainda está aproveitando – ou não – a tarde… e me bate aquela saudade.

O que eu estaria fazendo no Brasil? Vendo futebol na tv com meu pai e comendo pipoca. Ou talvez assistindo um filme com pai e mãe – assisti o Fabuloso Destino de Amélie Poulain e fiquei pensando que minha mãe adoraria vê-lo. Correndo para o ponto de ônibus com a Ana porque ela deixa para escovar o cabelo 20 minutos antes do horário do ônibus, e daí que a cada domingo precisávamos correr as seis horas atrás do buss com as 50 malas com sapatos e produtos de maquiagem e roupas que ela levava para passar dois dias na casa da mãe. Conversando com a Gio em outro ponto de ônibus esperando o metropolitano que chega sempre atrasado e lotado em Entre Rios. Escutando alguma música que meu irmão aprendeu no violão. Ou eu estaria sentada na varanda da casa da Angela para tagarelar. Ou na varanda da Maira para o mesmo. Caminhar um pouquinho com a Lu e a Alana antes de tomar o busão para casa.

Eu tenho saudade, mas minha vida não ficou no passado. Do contrário: hoje sentamos eu e Joel numa praia sueca – um pouco de areia, mar bem escuro, a praia cheia de algas, um vento friooooo!!! – para sonhar e tagarelar. Falar do futuro, falar de trabalho, estudo, falar de felicidade! E pensar que tantos domingos a tarde eu sentei diante desse mesmo computador para falar com o Joel pelo skype, querendo tanto fazer o que eu fiz hoje!

Acho surpreendente simplesmente isso: que eu sentei numa praia sueca para falar da vida… com um rapaz sueco fantástico que mudou meu mundo. A vida é cheia de surpresas, quem sabe quando eu vou sentar de novo com todas as pessoas queridas de quem eu tenho saudade agora?

Eu penso que será logo…