Três anos de Suécia e mais do mesmo

Eu completei três anos de Suécia em abril mas… olha só como é que as coisas vão mudando de prioridade na nossa vida não é? Logo que mudamos vamos contando os dias, as semanas, os meses, as novidades, sempre e com bastante detalhes. Depois a gente vai deixando isso de lado. Não porque não passemos por situações inusitadas, mas simplesmente porque – no meu caso – eu me acostumei a ter um choque cultural com tudo.

Essa coisa de choque cultural… pá, eu lembro de que quando li sobre isso imaginei que seria mais ou uma menos como um tombo, uma ducha de água fria ou um tapa na cara; que viria assim e pau! Eu sentiria tudo de uma vez e com bastante intensidade. É assim às vezes, mas o fato é que não chega tudo de uma paulada só. Vem a prestações, daquelas em que os juros são flutuantes. Às vezes é só um desconforto, às vezes é angustiante. Nesses momentos dá vontade de jogar tudo para o alto e dizer: cansei dessa brincadeira, eu quero voltar para casa!

E foi isso que eu fiz. Grávida, desempregada e me sentindo o koo do mundo cheguei chorando para o Joel e disse que estava cansada dessa merda de país e que queria voltar para casa. Sorte minha que ele é louco para morar no Brasil. Azar o meu que tudo não é tão simples como fazer as malas, comprar um bilhete e zarpar – ou melhor, voar – para o lado de lá. Mas a bem da verdade é: três anos de Suécia não me fazem amar esse país, não me fazem idolatrar essa riqueza, essa segurança, as facilidades e essa perfeição absurda que me cerca. Três anos de Suécia apenas me levaram a simples constatação de que eu sou, definitivamente, o estranho no ninho.

Nota: acho fabuloso gente que mudou para cá e vive bem e feliz. Quem conseguiu entrar no ritmo e está saboreando intensamente cada pedacinho dessa terra cheia de novidades é que está certo porque dispensa dramas desnecessários, dores de cabeça e desapontamento. Vocês tem meu respeito.

Ainda ontem comentei que minha vida na Suécia ainda parece estar dentro de uma bolha. Quando voltei para cá em abril lembro dessa sensação ser muito forte nos primeiros dias: essa paisagem ao meu redor é familiar, mas parece muito a cena de algum filme que eu vi. Eu poderia ser o personagem de algum suspense tenso, daqueles que você espera durante o filme inteiro que algo aconteça e no fim…  não havia nada para acontecer. Talvez essa sensação de estranhamento venha porque de forma inconsciente eu sou a espectadora a espera dessa alguma coisa e não percebi que essa alguma coisa acontece todo dia, mesmo sem ser extraordinária.

Ainda é uma dificuldade muito grande me conectar com suecos. Já desisti. Às vezes me chateio imensamente com isso – ontem foi o caso – mas na maioria dos momentos somente aceito que não rolou e ponto. Eu tenho outros latinos a minha volta, outros estrangeiros e brasucas com os quais é muito simples conversar, marcar um encontro, falar ao telefone ou simplesmente mandar um recado no facebook. No final das contas pode ser que os suecos com quem eu convivo acreditam que estejam super conectados comigo – mas eu não sinto isso. Eu sou quem liga, quem convida para sair e quem tenta manter a conversa animada – sempre. Se eu não fizer, fico no vácuo eterno.

A sensação de solidão é constante.

Quem sabe isso mude agora que eu tenho um emprego e que eu vou estabelecer uma certa rotina na minha vida afinal, quando se tem muito tempo para coçar se acha até chifre em cabeça de cavalo. Quando converso com outros brasileiros a respeito da minha insatisfação em morar aqui eles só sorriem e dizem que assim que eu tiver meu filho minha cabeça vai mudar, eu vou priorizar outras coisas que eu não posso ter no Brasil. Eu me pergunto quais são as minhas prioridades e, sinceramente, ainda não entendi porque elas vão mudar assim que meu filho nascer. Ao contrário, antes de engravidar eu pensava que a Suécia seria um ótimo lugar para educar uma criança. Já desde que engravidei tenho enormes dúvidas. Quem sabe seja isso que acontece com tantos pais pelo mundo afora – e pelo Brasil também – principalmente aqueles que me escrevem querendo saber como mudar para cá porque querem dar um futuro melhor aos filhos – afinal o Brasil anda assim, assado, frito e cozido – e parece que ninguém gosta desse combinação.

Não sei o que responder. Provavelmente minha insatisfação venha porque não me acostumei com o estilo de vida sueco. Talvez seja birra ou minha eterna teimosia que me faz reclamar sempre… o fato é que quando alguém me escreve no seco com “eu quero pelo amor de Deus ir embora daqui!” (do Brasil) minha única vontade é dizer “eu também pessoa… vamos trocar de lugar?”

Qualquer dia desses enfio o Joel numa mala e o nome do blog muda para “de volta para minha terra”. Pena que o programa do Gugu acabou.

 

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Saudades

Na semana antes do meu casamento a minha sogra avisou que haveriam dois convidados surpresa para a festa. Adivinhem qual foi o meu pensamento?

Sim, a primeira coisa que passou pela minha cabeça é que essa maravilhosa família sueca que me acolheu havia feito uma vaquinha para trazer meus irmãos – a Gio e o Jorge – para o casório. É claro que a minha sogra percebeu de uma vez como as minhas expectativas pararam em um trilhão, então ela mais que rapidamente explicou que era uma surpresa pequena e que os convidados não vinham do exterior.

Ainda assim, eu esperei até o último minuto que – tanto meus irmãos como mais umas pessoas especiais – aparecessem de surpresa. Sei lá, sabe essas coisas bestas de filme? Sim, eu esperei. Esperei ver eles na igreja. Mas eles não estavam lá.

Desde o dia do casamento eu sinto muito mais falta deles do que o normal. Eu tenho cá essa saudade que não passa, e coisas bestas me fazem lembrar de momentos gostosos que passamos juntos, ou, em outros casos, coisas que eu gostaria de fazer com eles.

Passei a viagem toda na Grécia fazendo planos infalíveis.

Mas ainda não posso ir ao Brasil.

Então eu fecho os olhos e vivo na minha cabeça esses momentos que eu sei que foram reais e que agora são lembranças especiais. Eu faço de conta que posso fazer isso amanhã e daí fica um pouco menos pesado. Eu sei que faz quase um ano, a minha vida está se ajeitando e tenho encontrado muita gente legal, mas vocês são insubstituíveis! E estão fazendo falta…

Eu não ficar nominando, não precisa.

Eu tenho saudades…

Dois anos de Suécia

E eu esqueci de postar aqui ou qualquer coisa no facebook. Mas eu lembrei dos dois anos. Ou melhor, eu ainda lembro muito bem daquela viagem meio louca que eu empreendi justo quando mudei – 15h num ônibus para pegar o passaporte na embaixada e depois, mais 15h voando – sem contar as esperas entre conexões. No total forma praticamente 48h viajando…

Lembro de ter chegado tão exausta e de dormir 16 horas seguidas. Nada mal para uma dorminhoca.

Muitas coisas mudaram como, por exemplo, a minha impressão de que minha família sueca era muito legal mudou para uma certeza de que minha família sueca é muito legal. Não que eu escreveria no blog que eles são pessoas difíceis se eles fossem pessoas difíceis. Eu só não escreveria nada. E sofreria um bocado pois, piegas ou não, família é importante para mim. Desde o começo eles me apoiaram e na verdade eles são as praticamente as únicas pessoas que ainda me ensinam algum sueco. No mais, acho que eles não são uma família muito sueca pois às vezes me pego numa bagunça meio louca que caberia muito bem dentro do comportamento normal da minha família.

Bom, deu para perceber que alguns preconceitos continuam, não é? Ainda acredito que os suecos são mais fechados, mais frios, mais na deles. Não acredito que isso seja algum tipo de defeito, ao menos não no caso das pessoas das quais gosto. Mas sempre é assim não? Amamos as pessoas que nos são próximas e por isso não entendemos as esquisitices delas como algum tipo de defeito. Mas me irrita por demasiado a falta de língua dos suecos em alguns casos comuns, como, por exemplo: você está sentado no bonde/ônibus no banco do corredor e a pessoa que está na janela precisa sair no próximo ponto. Ela vai: a) pedir licença; b) ficar te olhando para ver se você entende que ela quer licença para passar; c) juntar casaco, livro ou a bolsa num atitude bastante ruidosa para indicar que ela está saindo; d) montar em cima de você ou simplesmente te atropelar porque você não saiu do lugar, sem pedir licença ou desculpas. Só para avisar, nesse caso o sueco vai utilizar (em 90% dos casos) de todas as alternativas citadas com exceção da opção A. Se você estiver em uma lojinha apertada ou similar, qualquer local cheio de gente, é isso que a maioria das pessoas vão fazer também. E muito provavelmente você vai receber uma cara feia por estar no lugar e hora errado.

Outra coisa que faz um sueco perder a língua é para falar sobre intimidade. É muito difícil falar sobre coisas pessoais mesmo com pessoas que já conheço há algum tempo. Em contra partida uma coisa que curti muito por aqui é que sueco não gosta de fofoca. Ou pelo menos, algumas pessoas mantêm atitudes bem duras com relação a isso. Principalmente no trabalho: alguém fez um comentário indiscreto e uma terceira pessoa cortou na hora. E não, não fui eu a infeliz que teve essa ideia brilhante, eu já sou estrangeira e tenho que provar um bocado para manter meu trampo, não faria uma coisa idiota como espalhar burburinhos. Sueco é bem daquele tipo que acredita que pessoas inteligentes falam sobre coisas – política, ciência, livros, moda, história, música – enquanto pessoas idiotas falam sobre a vida dos outros. Ponto para eles.

Devagar parece que estou engatando novas amizades. No início eu confundi muito gentileza com amizade e quando descobri que estava me iludindo foi muito duro para mim, passei um tempo muito triste e solitária. Agora comecei a trabalhar a coisa de outro modo. Além disso, não há só suecos na Suécia, e graças a Deus encontrei umas pessoas porretas – porque, pasmem, estrangeiros são mais duros contra outros estrangeiros do que os próprios suecos. Isso me doeu muito e foi um dos pontos que me levou a deixar de frequentar a academia. Havia milhares de estrangeiros como eu lá, mas nenhum deles queria estabelecer contato. Ao contrário dos suecos, não foram nem gentis. Mas o objetivo desse blogue não é fazer com que vocês tenham pena de mim – pobre menina rica! Há. Bom, na mesma semana em que recebi meu personnummer (logo depois de chegar) encontrei com uma nicaraguenha porreta no Arbestförmedlingen. Trabalhamos juntas e já rimos e choramos um bocado juntas. E graças a Deus que apareceu essa menina meio persistente no meu mundo porque se não fosse por ela meus contatos aqui na Suécia estariam perto de zero.

Eu me fechei por muito tempo e fiquei meio deprê, tava desiludida com minhas expectativas furadas e chocada pelo fato de outras estrangeiras serem tão rudes comigo. A Jenixa nunca deixou de manter contato e agora que eu peguei a minha ponta de responsabilidade pela nossa amizade a coisa vai crescendo e indo muito bem. Estou feliz por ela não ter desistido e me ensinado também algumas belas lições pois, depois disso, foi devagarinho que eu e a Vânia também fomos juntando nossas fomes com vontade de comer e agora, poxa, sinto nela uma verdadeira amiga.

Acho que o blogue faz um bem danado para mim. Esse contato que eu tenho com todas as outras blogueiras, essa relação simples que a gente acabou estabelecendo por conta das nossas histórias tão parecidas e únicas, isso tem me deixado bem segura de mim mesma e até me forçado a esquecer esse sentimento de rejeição que senti por parte do pessoal mais fechado do lado de cá. Meninas, vocês são especiais, e quem sabe nossa relação não seja daquelas amizades em que rolam segredinhos e longos papos ao telefone; mas eu sinto que nos comentários e os recadinhos por e-mail/facebook uma prova de que temos uma ligação. Obrigada!

Ao mesmo tempo estou muito feliz por perceber que minhas velhas amizades continuam firmes. Quando estive no Brasil em novembro foi tão bom reencontrar minhas parceiras de todo um sempre: Angela, Lu, Maira. Eu mudei, elas também, mas nossa amizade ainda está ali. Eu tinha medo disso mas agora eu sei que quando eu estou com elas basta sentar e fazer como sempre. Matar a saudade.

Falando em saudade, é a saudade da família que bate mais forte, que marca mais dura. Sei lá, meus sobrinhos ficaram gigantes enquanto eu estive fora. As minhas irmãs continuam as mesmas. Já meu irmão ficou com cara de homenzinho – verdade, não adianta xingar. E o pequeno Jorge falando. Meu pai está mais grisalho mas aquele jeito de contar piada e dar risada ainda é a mesmo. Minha mãe… mãe é mãe, elas podem até mudar mas a gente vê só isso, que elas ainda são mães e a minha é, ainda, muito minha mãe.

Mas eu mudei um bocado, eu acho. Sou uma pessoa muito insegura em sueco, e sou eu mesmo em português – ou, ao menos, sou aquilo que acredito ser em português. Eu não sei se todo mundo passa por isso mas eu tenho um complexo de dupla personalidade por causa do idioma. Como o português é a língua materna obviamente é muito mais fácil me expressar e mostrar/pedir o que quero, ser objetiva ou não. Eu escolho. Já em sueco… vivo me irritando por perder as palavras, ainda tenho dificuldade em falar ao telefone, me faltam adjetivos, me faltam verbos, me falta segurança. É muito comum me sentir perdida e com vergonha por estar perdida quando estou no meio de suecos. Eu tento manter uma postura calma, com um sorriso enquanto vou fazendo outra coisa até entender o que eles querem – enquanto por dentro estou gritando em desespero por não saber o que está acontecendo. Eu sou uma pessoinha meio fascinada pelo controle e quando ele some das minhas mãos ou desaparece sob meus pés, tenho graves problemas.

Consegui jogar alguns monstrinhos feios pela janela. Foi aqui que deixei de lado o discurso tipo não sou homofóbica mas… para sempre. Suecos são um povo idealista demais, de um jeito meio bobo até, e isso é contagiante. Eles querem igualdade, liberdade e fraternidade com mais força do que os próprios revolucionários da revoluçao francesa de 1792 queriam. E fazem isso por meio de pequenos gestos sem ficar enchendo o saco. Curti e to copiando. Sabe aquela velha máxima um exemplo vale mais que mil palavras? Penso mais nos direitos dos pobres, negros, homossexuais e minorias em geral de uma forma mais concreta. Penso até em mudar o mundo comendo comida ecológica. E comprando bens de consumo ecológicos. Até a causa dos animais – que eu achava meio sem noção – estou achando um barato. Não significa que virei militante, tampouco acredito que vou virar uma militante para tantas coisas. Mas aqui eu entendi que sou capaz de fazer escolhas que mudam o mundo, ou que mudarão o mundo, tanto faz. Eu nem preciso de muito esforço.

Até minha noção de geografia mudou depois que mudei e agora eu tenho uma consciência política mais apurada, tudo culpa daquele ruivo lindo de olhos azuis que cruzou meu caminho. O amor amadureceu, nossa relação também e eu acredito que esse é o curso natural das coisas. Estou mais feliz do que nunca por ter tido coragem de tomar esse passo em direção a um desconhecido tão grande e nesse caso, não me refiro a Suécia e sim, ao amor. Ninguém que muda para cá por causa de um relacionamento espera que o negócio vá pelo ralo, mas nem as minhas melhores expectativas eu poderia imaginar meu relacionamento assim. O Joel fez toda essa enorme mudança valer muito a pena.

Claro que ainda tem muito pelo que estou esperando. Um emprego de tempo integral por exemplo. Mas tudo muda todo o tempo, quem sabe uma bela oportunidade surge sem nem ao menos eu entender porquê. E eu tenho ganhado tanto! Essa oportunidade de morar em uma casa por exemplo, é fantástica. Eu que já morei num coletivo – a gente tinha só um quarto e os móveis para um quarto; e depois num apartamento pequeninho; agora tenho espaço de sobra…

E o ano promete mais, com o casamento e meus pais chegando… vixxx!! Hahahaha!

Dois anos na Suécia e to feliz. Feliz demais.

Coma comida ecológica!

Lancei um “ridículos” no meu bicho papão da solidão e transformei ele no Chacrinha. Rachei de rir, ele morreu de vergonha e fugiu. E como “quem não se comunica se estrumbica” tratei de dar um olá para todos os meus conhecidos suecos. Vou trabalhar mais a relação com esse povo, afinal, eu já sei que eles são “difíceis”, se eu ficar só reclamando nada vai mudar.

Falando nisso encontrei a Karolina ontem no mercado e fique morrendo de remorso. Na bem da verdade, foi ela que me encontrou, me deu um super abraço e me fez dar umas boas risadas. Eu realmente posso considerar ela minha amiga, e ela é SUECA. Pra você ver que tristeza é um sentimento traiçoeiro por demais… eu me fazendo de dodói, agora preciso morder a minha língua: eu tenho uma amiga sueca gente, e fui EU que esqueci dela.

A Karolina é enfermeira e vai casar em agosto com um dos melhores amigos do Joel. A gente tava fazendo um daqueles papos furados quando ela disse que tava morrendo de vontade de chips, e eu disse que nunca tenho vontade de comer essas coisas industrializadas, só comida ecológica e o que faz bem ao coração. Claro que ela riu (comedidamente, mas riu) e entrou na brincadeira, porque precisava de umas dicas para ser mais saudável.

O inverso seria mais sensato, uma vez que ela é vegetariana. Não que eu esteja a fim de me torna vego, mas eu tenho que admitir que os vegetarianos comem melhor, ou que, no mínimo, são mais criativos na hora de fazer compras e preparar um prato. Aprendi muito depois que mudei para a Suécia (e tive de me abdicar de comer a mesma quantidade de carne que comia antes) sobre alimentação, principalmente porque todo mundo busca um cardápio mais balanceado.

Hoje vamos ter o tal debate na aula. Há, eu realmente recebi um e-mail ontem as 10 e tantas da noite com o seguinte recado: “amanhã antes da aula nos encontramos e decidimos o que vamos falar.”… vá???!!!!!! Antes da aula quando? Tipo 5 minutos antes da aula? Odeio fazer trabalho em grupo, que palhaçada isso!

Fiz uns apontamentos, pesquisei uma série de sites sobre comida orgânica/ecológica e descobri uma série de coisas interessantes. Há uma tendência de que consumidores que optam pela comida ecológica (segundo o Bláblánomequenãolembroblá Institute da Suécia – um órgão que publica estudos sobre o que os suecos compram e etc) optam por um leque muito mais variado de produtos do que os que não compram comida ecológica. Concordo com isso: antes de entrar nessa a minha dieta sempre foi feijão com arroz e carne e salada. Gosto muito de macarrão, mas sempre que fiz macarrão foram duas modalidades: macarrão alho e óleo – para os dias de preguiça – e macarrão a carbonara (molho de tomate e carne moída); muitas vezes com feijão, mas sem salada. E salada sempre foi uma salada, de preferência alface ou tomate que é rapidinho por demais.

Sim, meu lema na cozinha sempre foi “por que complicar se não precisa”? Sou preguiçosa e feliz na hora de cozinhar também, e no meu caso isso pode ter mudado não porque comecei a comer comida ecológica mas porquê conheci o Joel; ele adora preparar um prato caprichado. Depois que eu introduzi o molho de tomate para o macarrão aqui em casa ele até decidiu fazer molho de tomate caseiro – sim, ele passou horas cozinhando tomates e testando esse e aquele tempero. Parece coisa de filme porque ele vai para a cozinha e solta um jazz; parece um chef cortando coisas e misturando e… eu olhando claro, pra aprender. =P

Mas sobre a comida ecológica: não há nenhum estudo científico que comprove que a comida orgânica/ecológica é melhor para a saúde do que a comida convencional. Entretanto uma pesquisa feita nos EUA em 2002 aponta que os primeiros apresentaram em média 13% de resíduos de substâncias químicas nas amostras enquanto os alimentos convencionais apresentaram em média 71%. Não precisa ser gênio para saber – e eu não concordo que seja senso comum acreditar – que resíduos de pesticidas e herbicidas prejudicam a saúde. Além disso, eu sou caipira bem, vi com esses olhos que um dia a terra há de comer… hahahaha. Brincadeira. Como eu morei no interior eu sei de muitas pessoas que se intoxicavam com “veneno de lavoura”. Se o alimento convencional não faz mal para quem come ainda faz muito mal para quem o produz.

A Universidade de Uppsala fez um estudo apontando que o problema dos orgânicos/ecológicos é que a produção desse tipo de produto não pode atingir uma grande escala. As perdas nas lavouras de orgânicos sempre são mais acentuadas do que nas convencionais que por utilizarem todo o leque disponível de “idas” (pesticidas, herbicidas, inseticidas…) e sementes transgênicas produzem mais. Segundo esse apontamento, se a humanidade escolher a produção orgânica condenará a fome milhões… Eita discursinho capitalista viu? Segunda a FAO jogamos fora cerca de 1/3 de tudo o que produzimos, seja por causa de transporte e armazenamento inadequado ou porque os alimentos que perdem a aparência viçosa perdem também seu valor comercial.

É fato que os alimentos orgânicos/ecológicos tem uma vida mais longa do que os alimentos convencionais – principalmente no caso dos hortifruti – uma vez que os convencionais tem mais água e por isso parecem murchar e adquirem a aparência de “velhos” muito mais rapidamente do que os orgânicos/ecológicos.  Consumidores habituados a comprar orgânicos compram alimentos mais maduros porque sabem que eles não vão estar podres no dia seguinte. Ainda segundo a FAO, na Europa até 115kg de comida são jogados fora por ano (per capita) contra 11kg na África. Na América Latina as perdas no processo de transporte/armazenamento chegam a 40% da safra anual. Acho que podemos muito bem passar sem transgênicos e os “idas” se aprendermos a utilizar, transportar e armazenar melhor os alimentos.

Foi por isso que o programa Fome Zero ficou tão famoso no mundo. Tem muita gente que acredita que Fome Zero era só um nome bonito para o Bolsa Família, e que fora disso muito pouco se fez. Ledo engano e falta de informação, para variar. O Fome Zero tem uma série de parceiros – entre eles o “Alimente-se bem com um Real” do Sebrae (não to certa que era do Sebrae mesmo, mas é um dos Ss) e os programas de apoio a Agricultura Familiar. É muito mais fácil para um pequeno produtor rural ser um produtor orgânico do que convencional: ele não precisa botar a cabeça a prêmio no banco anualmente para financiar a compra dos grãos e “idas”, além do que o objetivo da cultura orgânica é a qualidade e não apenas quantidade. Por isso mesmo em 2009 82% dos agricultores paranaenses que cultivavam orgânicos/ecológicos eram agricultores familiares.

Essas e outras coisas encontrei garimpando sites (em português ainda, claro) na internet sobre o mercado de produtos orgânicos no mundo – que cresce cerca de 8% ao ano. Escrevi um monte de tópicozinhos em sueco e daqui a pouco vamos ver se eu consigo falar na frente de todo o mundo sem gaguejar.

Pelo menos aqui no blog consegui convencer alguém?

Haha…

Porquê não mudar para a Suécia

Final de semana estive conversando com novos amigos brasileiros. Pra minha felicidade a Mari (do blog Mundo da Mari) veio conhecer Göteborg com o marido e mais uma família muito supimpa. O resultado foi para lá de positivo: demos um pulinho no castelinho de Haga e como estava chovendo – essa foi a desculpa – e nevando nos escondemos em um pub e demos altas gargalhadas. Sim, exatamente aquele tipo de gargalhada que atrai o olhar de todos os suecos sentados ao redor – rir alto não é lagom.

Conversa vai e vem, comentamos um pouquinho sobre a fantasia que muita gente tem que quem muda para a Europa muda para um reino de conto de fadas. Eu acho que mudamos mais para um tipo de Duloc – lembra do Shrek? Aquela musiquinha: “aqui em Duloc é tão bom viver, nossas regras já vamos lhes dizer: no jardim não pisar, todos cumprimentar, Duloc é especial. Na cabeça shampoo, lave bem o seu… pé! Duloc é, Duloc é, Duloc é especial!”

Funciona exatamente igual quando mudamos para um país perfeito. Esses países europeus onde a democracia impera, o machismo já morreu e todo mundo sabe na ponta da língua os seus direitos. Onde os políticos corruptos são presos. Mas também onde não é legal rir alto, dançar solto e nem chorar demais – isso é sinônimo de selvageria. Não é lagom. E é claro que você também vai querer fazer o que é lagom, todo mundo sabe o seu lugar na sociedade, todo mundo sabe que tem que contribuir. Um reino quase perfeito. Quase. Mas não porque o dono de Duloc ainda não é rei, e sim porque falta muita coisa que é comum aos nossos olhos.

Depois que passei esse dia especial com eles, fiquei quase deprimida. A última vez que ri tanto foi quando estive no Brasil. Me dá uma sensação de vazio enorme. Uma solidão. E eu nem posso pegar um ônibus e dar uma chegada na casa da Angela, tomar uma breja na varanda da casa e falar do infinito. Nem tomar um teres com a Lu enquanto a gente comenta as travessuras da Alana. Ou fazer um papo furado com a Maira por causa da falta de homem bonito e solteiro no mercado. Viver aquela montanha russa louca com os cabo de guerra familiares, que bem ou não resolvidos são esquecidos no minuto seguinte a base de um bom churrasco…

Aqui eu tenho internet melhor, transporte melhor, acesso melhor a cultura entretenimento e etc e tal. To conectada, como diriam muitos, com o melhor que a tecnologia tem para oferecer. Plugada no mundo e… sozinha. Conexões humanas zero. Eu e Joel contra o mundo. Que saco isso. Não tenho amigos suecos, todo mundo tem agendas cheias de compromissos consigo mesmos. Tenho “uns par” de colegas de trabalho, pessoal com quem é legal pacas confraternizar uns minutinhos, mas se for para botar as fofocas em dia ou chorar algum leite derramado, ainda ligo para o Brasil.

Talvez seja cedo para reclamar, talvez seja eu que não dou cola e bola para minhas relações suecas. Mas elas estão pobres, pobrérrimas (se essa palavra existe): fora Joel e família, não teria ninguém com quem eu posso contar. Volta e meia rola um dia desses no qual eu falaria para alguém mudando: fique lá, pense mais um pouco. Aqui chove demais (ainda mais quando a gente tá cansado e chateado), neva na primavera e o verão faz 15 graus C… E o pior: vai demorar mais de um ano para você ter amigos, se você não misturar com brasileiros e formar uma panelinha feliz.

Tem dias que a Suécia parece mais um sonho estranho, daqueles que a gente nunca sabe ao certo se foi bom ou ruim, um sonho que foi só… esquisito. Só um exemplo: tivemos quase 15 graus quando a primavera começou, agora desde sexta está frio, hoje chove (de novo) e neva e tinha um cervo no jardim da casa da avó do Joel. Ele parecia o Bambi com a bunda e o rabinho branco. Tudo louco e fora do compasso.

Eu posso estar e estou maximizando sentimentos aqui, nesse post. Mas isso é só para deixar bem claro que nas plaquinhas da Duloc sueca o “hahaha” é sempre escrito com letras minúsculas, e tem de ser comedido. Quem já leu ou está lendo sobre choque cultural vai dizer: ahhhh… É isso também. Choque cultural não é uma coisa que dura 3 meses. Eu ainda to dentro: tem dias para se maravilhar, e tem certos dias que dá uma vontade de chutar o lagom para Marte e mandar todo mundo a pqp, bando de gente sem sal e sem salsa. Depois eu me acalmo e acho que posso sobreviver.

Claro que posso.

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #07

No episódio de hoje de Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca…

O mês de novembro foi intenso: eu e Joel conseguimos um apartamento (alugar um, não comprar); ficamos noivos, acabei o SFI e recebi meu presente de Natal antecipado… um grandão – a família do Joel me deu uma viagem para o Brasil. Além disso, teve a viagem de barco para a Dinamarca, e a viagem que eu e Joel fizemos para Stokholm. Me sinto explodindo de alegria!

Em início de novembro o Joel recebeu um convite da boplats para ver um apartamento aqui perto de onde moramos, um etta como os suecos dizem (cozinha, banheiro e um quarto, sendo que às vezes é só banheiro mais um cômodo grandão onde fica a cozinha também) no térreo com um pequeno jardim. Já comentei que essa coisa de alugar apartamento na Suécia é meio confusa, então só posso explicar que você entra em um site de apartamentos (como o boplats por exemplo, que acho que é o maior da Suécia) e faz um perfil explicando onde você quer morar e o que você quer (apartamento com dois, três, quatros cômodos; em que andar), e a partir disso você está oficialmente buscando e pode ver os locais vagos, a planta do apê e etc; quantas pessoas procuraram o mesmo lugar, bla bla bla. Ser convidado para ver um apê não significa que você vai receber o direito de morar lá. Enfim, fomos para a visitinha, eu gostei, o Joel também, mas ficamos em segundo lugar no ranking de possíveis contemplados – porque eles avaliam um monte de coisas, incluindo o tempo que você está esperando na fila, seu salário…  Não sei o primeiro da lista morreu ou quê, mas é quase que só isso mesmo para alguém desistir de um apê aqui, e por fim, nós saímos  ganhando e foi uma surpresa maravilhosa! Eu amo morar no coletivo, mas é tão legal pensar que vamos ter um cantinho só para nós! Mudamos em 03 de dezembro, e isso é uma coisa realmente grande e fantástica se levado em consideração que cerca de 10 mil pessoas esperam para ter a oportunidade de alugar um apartamento em qualquer canto de Göteborg, e que o Joel esperou na fila por dois anos até ser contemplado!

O bom de morar em um etta é que não preciso, definitivamente, me preocupar com móveis, além do que, ganhamos muitas coisas do avô do Joel. Sim, eu sou extremamente feliz porque a família dele me acolheu de uma forma muito calorosa, sempre me tratam com respeito e puxa… eles até pagaram minha viagem para o Brasil! Eu fiquei tão emocionada que chorei…

Então no dia 11 de novembro eu fui com outros assistentes pessoais que trabalham com o Zé para a Dinamarca. A gente fez essa viagem para se entrosar, conversar e tals, já que todo mundo sempre se encontra rapidinho quando o turno termina. Infelizmente, a Joahanna ficou doente e o Magnus… não sei! Mas então embarcamos em um navio daqueles que aparecem em filmes e ficamos 3 horas tagarelando até chegar a Dinamarca. A foto abaixo é do café da manhã. Ficamos na Dinamarca apenas uma hora e meia, mas foi extremamente divertido. Eu comprei um UNO! na Dinamarca e na volta a gente ficou jogando UNO! e rindo e falando merda.

Da esquerda para a direita: Leila, Emília, Fredrik, Robert e Jasmina.

Então, Joel, eu e Stockholm. Emprestamos um apê de uma amiga e passamos uns dias fantásticos. Caminhamos muito, porque o apê era pertinho de Gamla Stan e de um dos centros de Stockholm. Conheci a Paula e o marido dela, Tobias. Jantamos juntos e fomos andar em Gamla Stan, ver os guardas reais e o Castelo do Rei assim como o Parlamento Sueco. O Gustaf nem mora lá, mas foi super divertido conhecer pessoalmente a Paula, a primeira pessoa com que eu conversei sobre casar e morar na Suécia. Ano passado ela fez um super favorzão para mim e puxa, é super bom encontrar alguém com quem você falou pela internet um milhão de vezes ou o quê, e perceber que essa pessoa é ainda mais especial do que você tinha imaginado! Agora ela tem de vir para Göteborg, e se quiser até pode dormir no meu sofá cama… hahahHahaha – amiga pobre é isso!

Paula, Tobias, Joel e uma caipira, em Stockholm, Suécia!

Eu queria muito ter encontrado a Maíra também – do Sonhos Escandinavos – mas o Joel me pediu… ahhhhhhhhh!! Eu ainda fico suspirando e olhando o anel de noivado no meu dedo. Que brega né? To fudida porque nunca pensei nessa coisa toda de casamento, nem sei por onde começar… no Brasil – lá nas bandas donde eu moro – a gente serve muito churrasco e cerveja (alguma coisa de whisky também) e da-lhe baile sertanejo! Pronto, todo mundo feliz. Mas oi Jesus, nem sei bem direito sueco, agora vou ter que aprender a preparar um casamento sueco!!!

HahAhahAHAhAh!! Que bom que é reclamar de barriga cheia!!

O frio sueco

Uma das coisas que vai demorar deveras para me acostumar é a questão da distância. Não, não é a distância que estou do Brasil – isso não vou acostumar mesmo, e eu falo é da distância que as pessoas tomam uma das outras por aqui.

A Suécia é definitivamente um país difícil para se fazer amigos. Cinco meses e meio é pouco para tamanha pretensão, mas eu me sinto verdadeiramente longe de conquistar a amizade de algum deles. Não me refiro a amabilidade e gentileza, quem conhece o povo sueco sabe que são na maioria amáveis e gentis, me refiro a amizade mesmo, essa coisa de chegar e falar de um tudo e nada e ainda ser extremamente divertido só porque essa/aquela pessoa é especial, é um amigo.

Um, que eu não falo sueco. Não para falar de sonhos, esperança, amor, fé, raiva, frustração… dos desejos que posso melhor comunicar estão os do tipo “eu quero água, eu não quero chá, café? sim, obrigada” só. Sinto imensa vontade de conversar alguma coisa inteligente para variar, e às vezes eu nem tento ficar enchendo a cabeça do Joel porque até a mim me cansa meu monólogo com ele. Sorte que a paciência dos suecos é grande.

Dois; que as pessoas são mais reservadas. O comum aqui é que você tem um grande amigo que foi o cara/a mina que começou com você no mesmo jardim de infância – ou seja, pessoas que aprenderam a usar calças sem fraldas juntas. Sabem tudo um do outro. Tem quase um casamento, tão grande é a história de… tudo. Sim, apesar do que dizem as más línguas, os europeus tem mais de um amigo, o que não significa que eles se comportem de forma parecida com a nossa. E, uma vez que estamos na Suécia… quando se encontram não tem gritaria e xingamento, não tem abraço e retetê porque, afinal, amizade verdadeira também é uma coisa lagom.

Três; que as pessoas são muito reservadas. Gostam de falar, mas tem hora para isso. Gostam de dançar e ouvir música, mas tem hora para isso. Gostam de ter tempo para si mesmas, e se isso significa ficar longe dos outros não tem problema.

Não penso que eu seja uma pessoa difícil de se relacionar e tenho tentado, mesmo com meu sueco ruim, mas é de desanimar. Eu já sei de cor todas as perguntas que cada pessoa com quem eu vou conversar pela primeira vez vai fazer, e sempre fico imaginando uma forma de continuar a conversa, mas até agora… fica cada vez mais claro o quanto as pessoas são gentis, e que gentileza é uma forma bem bonita de ser distante.

Sinto falta de calor. Calor humano…