Leia antes de perguntar #03

Pra tentar retomar a rotina, vou responder a pergunta da Paola a respeito do mercado de trabalho na Suécia (e outras coisiquinhas que vou responder no e-mail) porque assim como ela, outras pessoas me escrevem perguntando como é que anda o mercado de trabalho na Suécia em geral ou em específico (dentro de uma categoria profissional).

Há algum tempo atrás eu publiquei o post “eles sonhavam com um trabalho na Suécia…” e acredito que é importante que todo mundo que está de olho em um visto de trabalho na terra dos vikings leia o post e esteja ciente de que a coisa aqui não anda tão colorida. A crise européia continua e a movimentação de pessoas dentro das fronteiras do velho mundo também. Além disso, assim como muitos brasileiros, muitos europeus veem a Suécia e os outros países escandinavos como sociedades mais organizadas e iguais e querem mudar para cá ainda que o país deles não esteja em “crise”; e eles tem, como eu já repeti muitas vezes, algumas vantagens em relação ao pessoal que não tem cidadania européia.

Falando nisso, peço licença para abrir um parênteses: algumas pessoas escrevem perguntando se o fato de eles terem cidadania italiana, alemã ou qualquer outra cidadania européia ajuda na hora de conseguir um emprego. Sinceramente, eu não sei, e chuto que isso depende do que você está procurando e qual a visão do empregador/empresa a respeito disso. Talvez você tenha cidadania européia e esse seja o empurrãozinho que faltava para eles se decidirem por você ao invés de um nativo. Ou não. Talvez o fato de você ter cidadania européia não significa nada por que você não se encaixa no perfil que eles querem e pronto.

O Arbetsfömedllingen – sim, o famoso A, aquele com quem eu vivo me frustrando – tem uma ferramenta no site chamada yrkeskompassen (bússola profissional, numa tradução livre) pela qual você pode realizar uma pesquisa para descobrir o quanto é que a sua área está saturada ou não de profissionais, baseada num gráfico que mostra o quanto difícil é encontrar emprego dentro de uma determinada região. Bom, desde janeiro eu to procurando emprego como assistente social e nem fui convocada para uma entrevista. Contando que nos meses de junho e julho eu não procurei nenhuma vaga, digamos que após 4 meses de busca ativa de emprego eu só recebi nãos. Agora eu vou mostrar para vocês o que é que diz o yrkeskompassen a respeito da profissão assistente social:

No gráfico, as áreas mais claras representam a menor concorrência, e as áreas escuras, maior. Göteborg se localiza dentro da área laranja no segundo gráfico.

No gráfico, as áreas mais claras representam a menor concorrência, e as áreas escuras, maior. Göteborg se localiza dentro da área laranja no segundo gráfico.

Meu termo de pesquisa foi “socionom” (pessoa que tem graduação em Serviço Social na Suécia tem esse título) e eu escolhi a categoria socialsekreterare (assistente social) uma vez que a pesquisa também mostra resultados para o cargo de kurator (profissional do serviço social que trabalha nas escolas, hospitais e outras instituições).

Segundo a bússola do A, o nível de concorrência dentro da minha profissão na minha região é médio (e eu estou procurando trabalho há meses). Claro que essa não é uma ferramenta com 100% de garantia, mas serve para se ter uma ideia. Além disso, a ferramenta nos dá algumas informações complementares como: o número de assistentes sociais/curadoras desempregadas nas regiões de Västra Götaland (Göteborg) e Halland (Halmstad) é baixo; a concorrência dentro da profissão tem crescido; o número de vagas de trabalho em aberto não tem sofrido uma mudança significativa nos últimos anos.

Além disso, na mesma página da ferramenta de busca é possível dar uma espiada no yrkesprognos (prognose profissional) que serve para dar uma ideia de como o mercado pode estar daqui a um ano ou mais, segundo as expectativas atuais. Para o meu caso (assistente social) a coisa não muda muito, e eles explicam que o fato se dá devido à profissão estar intimamente ligada aos aparatos do Estado.

Infelizmente, o yrkeskompassen não mostra qual são os grupos onde o desemprego (segundo a profissão) é maior, mas o SCB sim. Segundo o SCB (statistiska centralbyrån), estrangeiros podem levar até 7 anos para conseguir um emprego dentro da área em que eles são formados/graduados. Há sempre exceções, como por exemplo, a Fernanda que mora em Helsinborg e que após 2 anos e tra-lá-lá na Suécia conseguiu um emprego dentro da área dela (leia mais aqui). Acho importante frisar também que eu moro na Suécia, tenho visto e falo (porcamente) a língua. Quem está de fora tem de providenciar o visto e aprender a língua, então eu repito: acho mais fácil tentar vagas dentro de empresas, onde você precisa inglês, como vagas de liderança/gerência ou, ainda, dentro das áreas de tecnologia e informação.

E o que tudo isso tem a ver com a pergunta da Paola? Ora bolas, eu não tenho todas as informações pertinentes a Suécia só porque moro aqui mas eu sei onde encontrar e estou contando para vocês. Obviamente, o site se apresenta todo em sueco mas, com a ajuda do Google translator dá para ter uma boa ideia daquilo que você quer.

Só vou dar um exemplo: joguei no GT a palavra enfermeira.

blog 114

Depois vou no yrkeskompassen (acessando o link que deixei acima ou a página do A – http://www.arbestsförmdlingen.se – no rodapé da página [bem abaixo] existe a opção arbetssökande e nessa lista você clica em Jobbet och framtiden) e digito a palavra que consegui.

blog 116 blog 113

Ele me deu vários resultados, afinal, enfermeira podem ter diversas especializações. Nesse caso, é só procurar algo que tenha “grund” no meio, pois grund significa base ou indica o geral. E… voilá!

blog 115

Pronto. Clicando sobre o mapa ele mostra os resultados para cada região. Agora é só usar o GT de novo. O mercado de trabalho para enfermeiras na Suécia parece muito bom; mas eu sempre ouço elas reclamarem no rádio dos baixos salários e da falta de reconhecimento da profissão. O mundo não é perfeito.

Divirtam-se!

O Arbetsförmedlingen e eu

Eu tenho sérios problemas com a agência de empregos sueca.

E não, não sou só eu: somos eu e todos os estrangeiros, somado a todos os suecos desempregados. Atualmente, cerca de 445 mil pessoas (ou 8,7% da população sueca) entre 15 e 74 anos está desempregada, segundo dados do SCB. Segundo “O Globo”, no Brasil a taxa está em 5,8% da população economicamente ativa.

Obviamente, no Brasil de quase 200 milhões de habitantes 5,8% significa que muito mais pessoas estão desempregadas do que os 445mil na Suécia. Mesmo assim, estamos num país de primeiro mundo que tem uma agência de empregos de merda. Se a agência de empregos sueca funcionasse como as demais instituições suecas… o desemprego aqui seria perto de zero. Mas taí o problema né, porque o A não funciona.

Eu to inscrita na agência desde que recebi meu personnummer, em algum dia do passado longíquo de abril de 2011. Desde o primeiro dia que me cadastrei o meu objetivo foi um emprego como assistente social; mesmo quando eu não falava mais do que oi e tchau em sueco, eu expliquei para eles que queria ser assistente social na Suécia. Eles me apresentaram uma série de programas e incentivos que nunca foram usados – comigo – e eu saí de lá achando que teria uma parceria. Que não existe.

É importante deixar um parêntese, apenas para clarear as coisas: eu sou desorganizada sim, em muitos aspectos, e ver uma pilha de roupa para passar ou para guardar me enche de preguiça, mas eu não tô sentada esperando que o A resolva a minha vida para mim não, eu corro atrás do que eu quero: eu trabalho mesmo que não seja o trabalho que eu sonhei. Enquanto estou lá melhoro meu sueco e o mais importante de tudo, adiciono contatos porque aqui na Suécia é super importante ter um QI (quem indica) alto e variado.

Se você quer parceria com o Arbestförmedlingen tem que sentar na porta deles: ligar lá, mandar e-mail ou encher o saco do seu handläggare diariamente. E nisso, há, nisso infelizmente eu sou uma porta. Quer fazer algo por mim?, ótimo, faça. Não quer fazer?, no problems, eu não me importo; sou maior de 18 e consigo me virar muito bem, obrigada. Agora… sério mesmo, se o seu trabalho seria me ajudar… como dizem os suecos: hallllååå? É realmente necessário que eu te lembre disso todos os dias?

Minha primeira handläggare eu vi uma vez e… nunca mais. Nem por telefone, nem por e-mail. Eu sempre recebia uma daquelas mensagens automáticas: fulana não está no escritório hoje, ela volta tal horas. Ela está de férias, volta em agosto. Ela está doente, talvez nunca mais volte. Meus e-mails ficaram no vácuo eterno. Aí trocaram meu contato lá dentro e… ela me tratava como uma débil mental, fa-lan-do co-mi-go pau-sa-da-men-te e (pausa para respirar) sem-pre per-gun-tan-do se eu es-ta-va en-ten-den-do a-pós ca-da sen-ten-ça – hänger du med, eller? Eu nunca entendi. Falar com ela era um tormento pois se eu fizesse qualquer pergunta ela começava uma explicação do tipo: no príncipio, Deus criou o céu e a terra, e viu que era bom. E falando comigo pausadamente. E perguntando se eu estava entendendo, ela explicava toda a história da criação sem nunca responder as minhas perguntas. Adivinha se eu tinha saco para perguntar mais uma vez?

Sem contar que tudo ela precisava perguntar a outra pessoa, porque ela não tinha a informação. Em janeiro decidi deixar meu emprego de 40% – aquele com o Zé, duas vezes na semana – e ficar só com meu viakariat – substituta, pra trabalhar quando há vagas. Informei isso a handläggare e ela começou a discutir comigo as minhas razões. Cara, me deu nos nervos. Me perguntou duzentas vezes porque eu não queria continuar como assistente pessoal. E o fato de eu ter um diploma de assistente social? Esqueça. Para ela, eu tinha um emprego como assistente pessoal e devia ficar feliz.

Gente, eu fui muito feliz no meu emprego de assistente pessoal. Sério. Eu ainda trabalho com isso e mesmo que existam aqueles momentos de limpar a bunda do cliente (é isso mesmo!), é um trabalho legal. Eu sempre pergunto para o pessoal que está mudando para cá e entra em contato comigo para chorar as pitangas porque é difícil arrumar emprego: você gosta de trabalhar com pessoas? Tem saco e estômago para virar quase alguém da família de outro alguém e seguir um monte de regrinhas (que a primeira vista, parecem bem bestas)? Procure um emprego como assistente pessoal (personlig assistent). Ainda mais agora, durante o verão, chovem vagas. Se você não sabe o que é, assista o filme Intouchables (em português, Os intocáveis – trailer aqui). E é sempre bom deixar claro que eu to falando isso para quem mora na Suécia e tem visto, e não para quem está procurando uma forma de mudar para cá.

A questão é que é muito difícil conseguir um emprego de 40h semanais como assistente pessoal. Você pode ter até 80% (32h por semana, mais ou menos) se você tiver sorte, mas é mais provável que você consiga 20h por semana. Nada mal para quem estuda não é? Mas eu já acabei o meu tempo de estudante. Eu até trabalhei com duas pessoas ao mesmo tempo – com o Zé e o Zezinho – com um deles eu tinha 17h por semana e o outro eu tinha cerca de 15h; sendo que eu ainda aparecia todas as vezes que me chamavam extra. Mas sério… funciona por um tempo. Como assistente pessoal você terá que abrir mão das suas noites e dos finais de semana, e como eu afirmo sempre, é ótimo: você consegue contatos (QI) suecos e melhora o sueco, mas não vai funcionar para sempre.

Depois de muito discutir com minha handläggare número 2 ela passou a bola para outra pessoa. Pá, a primeira conversa com a handläggare número 3 me deixou nas nuvens: ela respondeu, não me tratou como uma criança de 4 anos e pasmem, respondeu a todas as minhas perguntas. Me disse que a gente faria um plano para mim conseguir o meu sonhado emprego. Gente, eu fui às nuvens!

Fiquei esperando o contato dela que nunca chegou. Pra piorar, mandei um e-mail para ela com o endereço errado (mea culpa) e ela nunca recebeu. Depois de duas semanas recebo umas cartas atrasadas do A e numa delas havia um horário para entrevista, aquele tal em que a gente faria o plano para alcançar o emprego dos meus sonhos. Liguei e ela não respondeu e lá fui mandar o e-mail… e fui aí que percebi que eu havia escrito o nome dela errado e que ela nunca havia recebido minha mensagem com as informações do meu endereço novo entre outras coisas.

Pedi desculpas e tals e; ela nunca responde e-mails. E nunca está no escritório. É como a handläggare número um. E me manda cartas. Eu não entendo, de verdade, o que ela tem na cabeça. Um e-mail não custa nada e é enviado no mesmo instante. Uma carta custa o papel, a impressão, o envelope e o selo e demora um dia para chegar as minha mãos, no mínimo! É super romântico enviar cartas, eu acho, mas eu não to afim de uma relação íntima com o A. Eu quero algo mais efetivo, e talvez, só talvez, eu tenho uma vaga ideia de que e-mails são mais efetivos, mais baratos e ainda por cima, ajudam a preservar o meio ambiente!

Recebi um pacotão dela pelo correio há, o que, um mês atrás: ela imprimiu todas as vagas disponíveis para o cargo de assistente social na região (sim, todas aquelas que estão no Platsbanken, que por acaso, eu sei acessar) e me enviou. Por correio. Umas 40 páginas. É gente, tem muita vaga para assistente social aberta. Todas aquelas vagas que ela imprimiu e me mandou eu vi. Todas elas eu acessei. E todas que não exigem mais do que Socionomexamen eu já havia buscado, antes mesmo de ela me mandar os impressos. Mas foi legal da parte dela me enviar. Só não foi legal para o meio ambiente, pois no momento em que eu entendi que ela só havia impresso direto da página do A, todas as 40 e poucas folhas foram para o lixo.

Entrei em contato, expliquei que eu me viro bem com internet, que foi super atencioso da parte dela, mas desnecessário, mandar os impressos. Ela não respondeu. Enviei mais dois e-mails e no último, você recebe meus e-mails? E ela: sim, eu entro em contato. Adivinha como?

Recebi mais uma chamada para entrevista, por carta, mais uma que chegou o dia depois que eu deveria ter comparecido a entrevista. Aí recebi essa semana uma cartinha dizendo que se eu não compareço a entrevista, o A não pode me ajudar a procurar emprego. Sério mesmo? Se eu receber a cartinha no meu e-mail, ao invés do correio, antes da data da entrevista, quem sabe eu possa comparecer a ela. Agora eu tenho que mandar um relatório mensal contando cada emprego eu procurei, de que forma, se eu liguei para os empregadores e questionei o sistema de seleção, blá blá blá.

E tem mais: sabem por quê eu sentei aqui e vomitei mais de 1500 palavrinhas? Porque hoje pela manhã me liga um tal de Sr. Empregador dizendo que tinha uma empresa de assistência e que queria marcar uma entrevista comigo porque o A tinha me recomendado. Empresa de assistência? Uipiiiiiiiiii!!! E o A me recomendou!!! Inacreditável!!! Depois de tanta palhaçada não é que de vez em quando eles dão uma dentro??? Fique tão eufórica que esqueci de perguntar o nome. E o cara me dizendo que o número de brukare‘s deles tinham aumentado (brukare=pessoa com deficiência na linguagem das empresas de assistência pessoal) e eu entendi como missbrukare (pessoa com dependência química). Eu já estava preparando o meu discurso do “eu não tenho experiência com dependetes químicos mas eu aprendo rápido” quando eu finalmente entendi que ele não queria uma assistente social, que o que ele quer é uma assistente pessoal.

Murchei. Tipo, murchei muito. Eu tenho um emprego como assistente pessoal, eu não preciso de mais um. Eu tenho dois empregos como vikarie, eu não preciso de mais um. Eu quero ajuda para conseguir uma vaga como socialsekreterare, e não como personlig assistent. Eu tenho um Socionomexamen, será que é tão difícil entender?

E porque eu não mando o A as favas? Porque antes de eu completar três anos na Suécia eles podem pagar até 80% do meu salário, se eu conseguir alguém que queira me dar um emprego – integral ou não – isso pode ser atrativo e quem sabe até decisivo. Mas para ter acesso a essa “facilidade” eu preciso estar inscrita lá, mantendo um relacionamento bem bonito com minha handläggare por meio de cartas. Sério. Acho que vou mandar meus relatórios pelo correio. Mas vou imprimir nos dois lados do papel, assim ajuda um pouquinho na preservação do meio ambiente.

Se o Arbetsförmedlingen não fosse uma instituição de merda, o desemprego na Suécia seria zero.