O Arbetsförmedlingen e eu

Eu tenho sérios problemas com a agência de empregos sueca.

E não, não sou só eu: somos eu e todos os estrangeiros, somado a todos os suecos desempregados. Atualmente, cerca de 445 mil pessoas (ou 8,7% da população sueca) entre 15 e 74 anos está desempregada, segundo dados do SCB. Segundo “O Globo”, no Brasil a taxa está em 5,8% da população economicamente ativa.

Obviamente, no Brasil de quase 200 milhões de habitantes 5,8% significa que muito mais pessoas estão desempregadas do que os 445mil na Suécia. Mesmo assim, estamos num país de primeiro mundo que tem uma agência de empregos de merda. Se a agência de empregos sueca funcionasse como as demais instituições suecas… o desemprego aqui seria perto de zero. Mas taí o problema né, porque o A não funciona.

Eu to inscrita na agência desde que recebi meu personnummer, em algum dia do passado longíquo de abril de 2011. Desde o primeiro dia que me cadastrei o meu objetivo foi um emprego como assistente social; mesmo quando eu não falava mais do que oi e tchau em sueco, eu expliquei para eles que queria ser assistente social na Suécia. Eles me apresentaram uma série de programas e incentivos que nunca foram usados – comigo – e eu saí de lá achando que teria uma parceria. Que não existe.

É importante deixar um parêntese, apenas para clarear as coisas: eu sou desorganizada sim, em muitos aspectos, e ver uma pilha de roupa para passar ou para guardar me enche de preguiça, mas eu não tô sentada esperando que o A resolva a minha vida para mim não, eu corro atrás do que eu quero: eu trabalho mesmo que não seja o trabalho que eu sonhei. Enquanto estou lá melhoro meu sueco e o mais importante de tudo, adiciono contatos porque aqui na Suécia é super importante ter um QI (quem indica) alto e variado.

Se você quer parceria com o Arbestförmedlingen tem que sentar na porta deles: ligar lá, mandar e-mail ou encher o saco do seu handläggare diariamente. E nisso, há, nisso infelizmente eu sou uma porta. Quer fazer algo por mim?, ótimo, faça. Não quer fazer?, no problems, eu não me importo; sou maior de 18 e consigo me virar muito bem, obrigada. Agora… sério mesmo, se o seu trabalho seria me ajudar… como dizem os suecos: hallllååå? É realmente necessário que eu te lembre disso todos os dias?

Minha primeira handläggare eu vi uma vez e… nunca mais. Nem por telefone, nem por e-mail. Eu sempre recebia uma daquelas mensagens automáticas: fulana não está no escritório hoje, ela volta tal horas. Ela está de férias, volta em agosto. Ela está doente, talvez nunca mais volte. Meus e-mails ficaram no vácuo eterno. Aí trocaram meu contato lá dentro e… ela me tratava como uma débil mental, fa-lan-do co-mi-go pau-sa-da-men-te e (pausa para respirar) sem-pre per-gun-tan-do se eu es-ta-va en-ten-den-do a-pós ca-da sen-ten-ça – hänger du med, eller? Eu nunca entendi. Falar com ela era um tormento pois se eu fizesse qualquer pergunta ela começava uma explicação do tipo: no príncipio, Deus criou o céu e a terra, e viu que era bom. E falando comigo pausadamente. E perguntando se eu estava entendendo, ela explicava toda a história da criação sem nunca responder as minhas perguntas. Adivinha se eu tinha saco para perguntar mais uma vez?

Sem contar que tudo ela precisava perguntar a outra pessoa, porque ela não tinha a informação. Em janeiro decidi deixar meu emprego de 40% – aquele com o Zé, duas vezes na semana – e ficar só com meu viakariat – substituta, pra trabalhar quando há vagas. Informei isso a handläggare e ela começou a discutir comigo as minhas razões. Cara, me deu nos nervos. Me perguntou duzentas vezes porque eu não queria continuar como assistente pessoal. E o fato de eu ter um diploma de assistente social? Esqueça. Para ela, eu tinha um emprego como assistente pessoal e devia ficar feliz.

Gente, eu fui muito feliz no meu emprego de assistente pessoal. Sério. Eu ainda trabalho com isso e mesmo que existam aqueles momentos de limpar a bunda do cliente (é isso mesmo!), é um trabalho legal. Eu sempre pergunto para o pessoal que está mudando para cá e entra em contato comigo para chorar as pitangas porque é difícil arrumar emprego: você gosta de trabalhar com pessoas? Tem saco e estômago para virar quase alguém da família de outro alguém e seguir um monte de regrinhas (que a primeira vista, parecem bem bestas)? Procure um emprego como assistente pessoal (personlig assistent). Ainda mais agora, durante o verão, chovem vagas. Se você não sabe o que é, assista o filme Intouchables (em português, Os intocáveis – trailer aqui). E é sempre bom deixar claro que eu to falando isso para quem mora na Suécia e tem visto, e não para quem está procurando uma forma de mudar para cá.

A questão é que é muito difícil conseguir um emprego de 40h semanais como assistente pessoal. Você pode ter até 80% (32h por semana, mais ou menos) se você tiver sorte, mas é mais provável que você consiga 20h por semana. Nada mal para quem estuda não é? Mas eu já acabei o meu tempo de estudante. Eu até trabalhei com duas pessoas ao mesmo tempo – com o Zé e o Zezinho – com um deles eu tinha 17h por semana e o outro eu tinha cerca de 15h; sendo que eu ainda aparecia todas as vezes que me chamavam extra. Mas sério… funciona por um tempo. Como assistente pessoal você terá que abrir mão das suas noites e dos finais de semana, e como eu afirmo sempre, é ótimo: você consegue contatos (QI) suecos e melhora o sueco, mas não vai funcionar para sempre.

Depois de muito discutir com minha handläggare número 2 ela passou a bola para outra pessoa. Pá, a primeira conversa com a handläggare número 3 me deixou nas nuvens: ela respondeu, não me tratou como uma criança de 4 anos e pasmem, respondeu a todas as minhas perguntas. Me disse que a gente faria um plano para mim conseguir o meu sonhado emprego. Gente, eu fui às nuvens!

Fiquei esperando o contato dela que nunca chegou. Pra piorar, mandei um e-mail para ela com o endereço errado (mea culpa) e ela nunca recebeu. Depois de duas semanas recebo umas cartas atrasadas do A e numa delas havia um horário para entrevista, aquele tal em que a gente faria o plano para alcançar o emprego dos meus sonhos. Liguei e ela não respondeu e lá fui mandar o e-mail… e fui aí que percebi que eu havia escrito o nome dela errado e que ela nunca havia recebido minha mensagem com as informações do meu endereço novo entre outras coisas.

Pedi desculpas e tals e; ela nunca responde e-mails. E nunca está no escritório. É como a handläggare número um. E me manda cartas. Eu não entendo, de verdade, o que ela tem na cabeça. Um e-mail não custa nada e é enviado no mesmo instante. Uma carta custa o papel, a impressão, o envelope e o selo e demora um dia para chegar as minha mãos, no mínimo! É super romântico enviar cartas, eu acho, mas eu não to afim de uma relação íntima com o A. Eu quero algo mais efetivo, e talvez, só talvez, eu tenho uma vaga ideia de que e-mails são mais efetivos, mais baratos e ainda por cima, ajudam a preservar o meio ambiente!

Recebi um pacotão dela pelo correio há, o que, um mês atrás: ela imprimiu todas as vagas disponíveis para o cargo de assistente social na região (sim, todas aquelas que estão no Platsbanken, que por acaso, eu sei acessar) e me enviou. Por correio. Umas 40 páginas. É gente, tem muita vaga para assistente social aberta. Todas aquelas vagas que ela imprimiu e me mandou eu vi. Todas elas eu acessei. E todas que não exigem mais do que Socionomexamen eu já havia buscado, antes mesmo de ela me mandar os impressos. Mas foi legal da parte dela me enviar. Só não foi legal para o meio ambiente, pois no momento em que eu entendi que ela só havia impresso direto da página do A, todas as 40 e poucas folhas foram para o lixo.

Entrei em contato, expliquei que eu me viro bem com internet, que foi super atencioso da parte dela, mas desnecessário, mandar os impressos. Ela não respondeu. Enviei mais dois e-mails e no último, você recebe meus e-mails? E ela: sim, eu entro em contato. Adivinha como?

Recebi mais uma chamada para entrevista, por carta, mais uma que chegou o dia depois que eu deveria ter comparecido a entrevista. Aí recebi essa semana uma cartinha dizendo que se eu não compareço a entrevista, o A não pode me ajudar a procurar emprego. Sério mesmo? Se eu receber a cartinha no meu e-mail, ao invés do correio, antes da data da entrevista, quem sabe eu possa comparecer a ela. Agora eu tenho que mandar um relatório mensal contando cada emprego eu procurei, de que forma, se eu liguei para os empregadores e questionei o sistema de seleção, blá blá blá.

E tem mais: sabem por quê eu sentei aqui e vomitei mais de 1500 palavrinhas? Porque hoje pela manhã me liga um tal de Sr. Empregador dizendo que tinha uma empresa de assistência e que queria marcar uma entrevista comigo porque o A tinha me recomendado. Empresa de assistência? Uipiiiiiiiiii!!! E o A me recomendou!!! Inacreditável!!! Depois de tanta palhaçada não é que de vez em quando eles dão uma dentro??? Fique tão eufórica que esqueci de perguntar o nome. E o cara me dizendo que o número de brukare‘s deles tinham aumentado (brukare=pessoa com deficiência na linguagem das empresas de assistência pessoal) e eu entendi como missbrukare (pessoa com dependência química). Eu já estava preparando o meu discurso do “eu não tenho experiência com dependetes químicos mas eu aprendo rápido” quando eu finalmente entendi que ele não queria uma assistente social, que o que ele quer é uma assistente pessoal.

Murchei. Tipo, murchei muito. Eu tenho um emprego como assistente pessoal, eu não preciso de mais um. Eu tenho dois empregos como vikarie, eu não preciso de mais um. Eu quero ajuda para conseguir uma vaga como socialsekreterare, e não como personlig assistent. Eu tenho um Socionomexamen, será que é tão difícil entender?

E porque eu não mando o A as favas? Porque antes de eu completar três anos na Suécia eles podem pagar até 80% do meu salário, se eu conseguir alguém que queira me dar um emprego – integral ou não – isso pode ser atrativo e quem sabe até decisivo. Mas para ter acesso a essa “facilidade” eu preciso estar inscrita lá, mantendo um relacionamento bem bonito com minha handläggare por meio de cartas. Sério. Acho que vou mandar meus relatórios pelo correio. Mas vou imprimir nos dois lados do papel, assim ajuda um pouquinho na preservação do meio ambiente.

Se o Arbetsförmedlingen não fosse uma instituição de merda, o desemprego na Suécia seria zero.

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Emagrecer é preciso #02

To super desanimada. Sim: isso significa que meu programa de exercícios já foi por água abaixo. Na verdade, o mundo não acabou, nada está perdido para sempre, mas desde a quarta-feira da semana passada não levantei mais nem um pesinho, não fui mais caminhar, não treinei mais flexões, nem os polichinelos!

Cheguei a conclusão de que estou com um sério problema de baixa estima. Nunca na minha vida me incomodei tanto com meu “excesso de peso”, e eu realmente entrei no pique e trabalhei firme e forte. Mas eu não consegui descobrir se é uma desculpa ou se é realmente um agravante a questão dos meus horários de trabalho. Com o Zé eu tenho uma agenda fixa, trabalho todo dia assim e dia assado toda a semana. Já com o Zezinho (o menino autista) eu sou substituta, aí acontece por exemplo coisas meio loucas como esse fim de semana (ou desde quinta-feira) quando uma moça adoeceu e eu cai dentro da agenda. Resultado: trabalhei quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, hoje e vou trabalhar todos os dias dessa semana até o domingo.

A verdade é que os patrões me ligam e perguntam se eu quero trabalhar e que eu tenho liberdade para dizer não – por ser apenas substituta – eu tenho outra coisa para fazer. O problema é que quando ninguém está doente eu trabalho só dois dias por semana… então é melhor dizer “sim, eu estou disponível!” do que esperar até que o próximo assistente fique doente! Daí eu estrago minha rotina…

Me sinto exausta porque se eu passo 8 horas no trabalho isso significam 10 horas fora de casa. Nessas dez horas eu posso estar em super atividade ou quase que dormindo. Explico: se eu tô com o Zé e ele tá na cidade podemos estar para lá e para cá olhando coisas em lojas; se eu to com o Zezinho e ele está disposto estou brincando o tempo inteiro. Mas às vezes o Zé quer só assistir um filme, e eu vou sentar ao lado dele (mesmo que eu tenha assistido ao mesmo filme 20 vezes), ou às vezes o Zezinho vai querer só que eu leia um livro (lembro de uma noite que passei uma hora e meia lendo para ele duas histórias diferentes e ao fim ele sempre pedia para que eu repetisse… só parei porque meu turno acabou!). Sem contar toda a questão do esforço físico: vestir, despir, corrigir a postura, mudar de posição uma pessoa adulta é pesado pacas… quero qualquer coisa que esteja incluída dentro da opção descansar quando meu turno acaba. E isso não incluem exercícios físicos.

Eu tenho tentado me alimentar melhor e por isso tenho sempre frutas na bolsa. Infelizmente eu não sei explicar mas tenho uma carência louca por coisas salgadas (alguém aí já viu fruta salgada? me conte o nome), e daí posso comer o que quiser doce que ainda chegarei em casa louca por um prato de macarrão com molho de tomate. Sorte que na minha lista de prioridades estão também um banho quente e a minha cama. Por preguiça não faço o tal macarrão, como qualquer coisa (salgada) e vou para internet/banho/cama.

E como mal. Pensando no tal prato de macarrão que eu teria de cozinhar em casa nesses dias eu sempre como porcaria. E por porcaria leia-se Mac Donalds. Obviamente esse foi um costume que adquiri aqui na Suécia pois na minha cidade no Brasil não tinha nenhum Mac Donalds. E mesmo que a gente comesse x salada ao menos uma vez por semana acho que não era tão gorduroso e tão junk como ir a esses restaurantes fast food. Mas depois de comer duas ou três variedades de frutas e ainda sentir o estômago vazio lá estou eu parada a espera do próximo trem que chega em 10 minutos pensando: quanto tempo demora para entrar na fila do Mac Donalds e pedir um Mac Feast? Voltei a tomar coca-cola… até quando compro um kebab peço uma coca-cola para acompanhar.

Alguém vai dizer que eu posso acordar mais cedo para me exercitar. Desculpe alguém, mas eu sou boa de cama e eu preciso desfrutar de ao menos 8 horas bem dormidas de sono. Ou isso ou sou uma lesada no dia seguinte – além de ficar de mau humor. Não é legal trabalhar com pessoas mal humorada.

Ainda bem que tenho aquelas semanas em que trabalho apenas dois dias. Então faço exercícios e cuido melhor de mim mesma. Pior que assim fica difícil ver algum resultado.

E eu definitivamente não to feliz com meu corpo.

Há dias assim

Eu sou uma pessoa muito besta de coração mole. Talvez a afirmação soe um tanto quanto idiota quando em uma grande parte dos posts aqui do blog eu pareço mais uma velha ranzinza e mal humorada. Mas tudo vai da forma como a gente lê… muitas vezes as palavras deitadas “no papel” não podem transmitir aquilo que realmente sentimos, somente uma impressão.

Sim, mas eu tava falando do meu coração mole e do quanto eu sou doce (durante uns milésimos de segundo) e o papo chegou até aqui por causa do meu trabalho: quando eu comecei a trabalhar como assistente pessoal um dos coordenadores perguntou para mim o que eu achava mais difícil e eu respondi muito rápido que era discutir com o sujeito que eu cuido, o Zé. Ele me disse que “assistente pessoal não tem que ser amigo, tem que ser profissional. Nós estamos muito perto do usuário, é uma proximidade que não é habitual (no caso da cultura sueca) e por isso é fácil confundir essa proximidade com uma amizade”.

Tenho que admitir que fiquei um pouco chocada, não pelo que ele tinha dito mas porque eu não queria dar a impressão de que é penoso argumentar com o usuário, ainda que para mim seja, devido a essa questão da “proximidade” no trabalho. O que eu pensava quando tivemos essa conversa era que meu sueco era tão pobre que era difícil argumentar com o cidadão quando eu precisava dizer não diante de uma coisa que ele queria fazer e que seria perigosa para ele; mas a verdade é que existe o outro lado também.

Você está ao lado do usuário – que é também o seu patrão – em situações tão bizarras e íntimas que às vezes nem pessoas que tem uma relação muito próxima – como por exemplo um casamento ou mesmo irmãos – viveram juntos. É simplesmente um desafio gigantesco estar tão perto de alguém – duas, três vezes na semana – e simplesmente ser profissional. Ao menos para mim; eu ainda não aprendi a fazer isso.

Eu penso que essa coisa entre o assistente pessoal e o usuário seja mais ou menos como uma relação entre mãe e filhos, ao menos para as pessoas de coração mole como o meu. Subimos seis lances de escadas carregando o Zé, eu e mais um assistente, para ele descer os tobogãs de um clube. Cada vez que estivemos a caminho eu ficava rezando para Deus mandar um anjo colocar cola na minhas mãos e não deixar o Zé – molhado – escorregar. Depois dos primeiros lances de escada a minha oração já era para a escada se tornasse rolante, e de preferência, com super velocidade para cima, pois os meu braços começavam a tremer… mas assim que sentávamos o cidadão no topo do tobogã e ele começava a gritar de entusiasmo, tudo sumia: a preocupação de ele escorregar das mãos, a sensação de que meus braços iam cair do corpo, a quase irritação por não ter um elevador para o tal tobogã (imagine se tivesse como seria difícil para o pessoal do clube domar a criançada), os seis lances de escada…

Sei lá quantas dez vezes subimos aquelas escadas, às vezes rumo a outro tobogã dois lances de escada acima, com as crianças impacientes querendo passar na frente do tiozinho que tava sendo carregado. Suei, tremi, quase pedi pinico, meus braços tão super cansados hoje mas o que eu sinto é uma imensa satisfação devido aqueles míseros gritos de felicidade que rolavam em alguns segundos.

Não penso que eu e o Zé sejamos amigos, mas o tipo de relação entre assistente pessoal e usuário está – ao menos para mim – bem longe de ser puramente profissional. A pessoa para qual trabalhamos não é apenas um chefe, é especial por motivos além do óbvio da deficiência que carrega. E a proximidade a que o assistente está submetido, o usuário e a família dele também estão. Acabamos por ser mexidos e por mexer, só e simplesmente porque há dias que são assim… daquele jeito que a vida de qualquer um é.

***

Quero deixar como indicação um filme muito interessante que mostra um pouco o que é ser assistente pessoal e que assisti na semana passada. A produção é francesa e é mais ou menos assim o meu trabalho, com exceção que na França só tem assistência pessoal quem pode pagar por ela e que aqui na Suécia ela é para todo cidadão sueco que precise.

Trailer do filme em português aqui.

De Assistente SOCIAL para Assistente PESSOAL

O assunto de hoje é trabalho!! Mas primeiro: estou experimentando o novo tema do blog e gostaria que o pessoal deixasse nos coments um “o que estou achando desse novo visual”. Ainda gosto mais do tema antigo mas ao mesmo tempo acho que esse aqui é mais simples tanto no que diz respeito a navegação quanto no que diz respeito a facilidade de acesso e de visualização dos posts. Digam se ficou mais fácil comentar também!

Så där… (então é assim) em julho do ano passado eu consegui o meu primeiro emprego aqui na Suécia – que foi como Marinete (faxineira) – e quase que na mesma semana (acho que apenas um 3 ou 4 dias depois) consegui fazer um teste como assistente pessoal, no que eu tenho trabalhado até hoje. Às vezes quando alguém me pergunta o que eu to fazendo aqui eu digo “Sou assistente pessoal” e o fulano já responde “Que bom, tá trabalhando na sua área então…“; e simplesmente não: assistente SOCIAL (socialsekreterare em sueco) é uma coisa, e assistente PESSOAL (personlig assistent em sueco) é outra. .

Talvez essa confusão tenha a ver com o fato de que a Suécia não fica na Suíça mas mesmo assim ainda me perguntam se o chocolate aqui é bom e se eu já falo alemão… Primeiro que para ser assistente social (tanto no Brasil quanto na Suécia) é preciso obter um diploma de bacharel em Serviço Social – no Brasil – ou de Socionom – na Suécia. Para ser assistente pessoal não é necessário um curso universitário mas sim paciência e vontade de trabalhar com pessoas doentes, idosas e com deficiência (física e/ou mental) – ou seja, assistente PESSOAL está mais para a área de saúde.

Cursei a universidade durante 4 anos e obtive meu diploma de Serviço Social, tendo trabalhado durante 5 anos como assistente social de prefeitura. Assistente social definitivamente não cuida de pessoas, assistente social é para auxiliar indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social a ter conhecimento e acesso aos seus direitos tendo como objetivo maior a superação da situação de vulnerabilidade/risco. Mais ou menos grego, não? Certo, vamos focar somente no fato de que assistente social não cuida de pessoas e que não trabalha individualmente.

Assistente pessoal é só simplesmente alguém para cuidar de uma pessoa. O assistente pessoal vai estar ao lado de um indivíduo e ajudar ele/ela a realizar as tarefas do dia-a-dia: fazer comida, comer/beber, organizar a casa, ir ao supermercado, tomar um ônibus, ir ao banheiro, tomar banho, se vestir, tomar remédios na hora e quantidade certa.  O trabalho que um assistente pessoal vai desenvolver depende somente do grau de dependência da pessoa com quem ele trabalha (que recebe o nome de brukare): algumas pessoas recebem assistência de apenas algumas horas por dia, enquanto outros dependem de assistentes 24 horas.

Não penso que seja difícil ser um assistente pessoal na Suécia. Para conseguir um trabalho como este basta falar sueco e ser simpático (consegui meu trampo mais por ser simpático do que por dominar a língua =). Além disso, existe uma rede de organizações que trabalham em benefício do brukare, assim quando este precisa de órteses e próteses; ir ao dentista, médico ou psicólogo; trocar a cadeira de rodas ou consertar o óculos basta ligar para a pessoa responsável e tudo será arranjado. Uma dessas organizações é o Hjälpmedelcentralen (centro de aparalhos de ajuda – mais ou menos), que trabalha com as cadeiras de rodas (rullstol), lampadas de laser (peklampa) que são utilizados pelos deficientes que não podem falar e usam a linguagem “Bliss” e com o “lyften” (um aparelho que parece um guincho utilizado para auxiliar os assistentes a mover o brukare da cama para a cadeira de rodas, por exemplo, de forma que não é necessário ser forte e carregar um indivíduo que não pode se sustentar nas próprias pernas), entre outras coisas.

Ainda que o brukare seja muito doente e extremamente dependente sua assistência será garantida pelo governo. O atendimento a saúde não é gratuito na Suécia, mas as consultas tem um preço acessível a todos e se você tem algum tipo de doença ou o quê que te leva a gastar mais de mil coroas por ano com o atendimento de saúde você recebe o dinheiro de volta por meio do imposto de renda; ou por meio de um cartão chamado “frikort” deixa de pagar pelas consultas a partir do momento em que o cartão mostra que a marca de mil coroas foi alcançada. Existem taxis especiais para usuários de cadeiras  de rodas (färdtjänst), e esse tipo de taxi tem um preço fixo e  bem menor do que os demais. Ainda, os assistentes pessoais não são pagos pelo usuário, e sim pelo INSS sueco (Försäkringskassan).

Eu já enviei os meus documentos da graduação na universidade traduzidos para a Högskoleverket e só estou esperando a resposta deles para tentar conseguir o meu diploma como assistente social por aqui. Para isso, preciso também terminar o SAS 2, o que vai acontecer talvez em dezembro desse ano. Então, não há pressa em obter a resposta da Högskoleverket, pelo menos ainda não.

Fica talvez para o ano que vem voltar a ser assistente SOCIAL e deixar de ser assistente PESSOAL…

Göteborg News #01

Faz um tempo que ando pensando em escrever um pouquinho sobre as notícias que circulam nos jornais e etc de Göteborg, mas eu estou me preparando para a minha primeira despedida de solteiro aqui na Suécia e por isso não havia começado ainda. A despedida de solteiro não é a minha e eu to super ansiosa porque aqui na Suécia despedida de solteiro é levada bem a sério – tanto para o noivo quanto para a noiva – e apesar de eu não ser tão pop (ainda) eu vou passar por essa ano que vem, sem sombra de dúvida.

Ok, depois da data eu posto maiores informações aqui no blog, talvez umas fotos! Mas como eu ia dizendo… fazia um tempo que eu tava afim de comentar algumas notícias que rolam nos periódicos gotemburgueses só que eu preciso de tempo para não escrever apenas abobrinhas e ter os dados corretos. Eu até tinha separado alguns recortes de jornal, mas no fim das contas eles encontraram o lixo antes de eu ter tesão de escrevê-los. Por conta do último post recebi alguns coments muito interessantes de uma senhorita Maria Carolina – com links de reports relacionados a Suécia. Por coincidência – ou não – um deles era justo sobre o tema que havia pensado escrever.

O objetivo não é a produção de um texto de cunho jornalístico e sim de deixar alguns dados e informações sobre a cidade e o país em que vivo, misturado a alguma experiência pessoal – quando possível.

“Boneca Deficiente” Cria Polêmica em Göteborg – Essa foi da contribuição da Maria Carolina, que deixou o link com reportagem em português da R7 (aqui). O “lançamento” da boneca foi na semana passada, e claro que a aparência “peculiar” do brinquedo gerou as mais diversas discussões. A boneca não está a venda mas foi exposta nas prateleiras de lojas e mercados e sua embalagem traz os seguintes dizeres: “trate-me como um deficiente mental”. Segundo a GIL (Göteborgskooperativet för Independent Living) o brinquedo marca o início de uma campanha pela discussão de como os deficientes mentais são tratados pela população em geral, destacando que os deficientes mentais são pessoas como as demais.

Um dos membros da GIL declarou que a maioria das pessoas dizem coisas estranhas como “Uau! É fantástico que você compra sua própria comida!” e isso faz com que um deficiente se sinta como um completo idiota. Apesar de discordar quanto a aparência da boneca concordo que mesmo numa sociedade como a sueca é necessário expandir a discussão acerca da capacidade/incapacidade dos deficientes mentais. Primeiro, porque nem todas as deficiências mentais são graves e segundo, porque há falta de informação e isso cria preconceito.

Por trabalhar com um CP skada (paralisia cerebral) vivo muitas situações que vão do hilário ao ridículo. Às vezes as pessoas olham para mim e dizem: “O seu trabalho é lindo! Parabéns!” e outras vem para me dizer: “Sabe a posição em que ele está dormindo… vai deixar ele com dores. FAÇA ALGUMA COISA.”… Tipo, o Zé gosta de dormir na cadeira de rodas, às vezes ficamos meia hora, 40 minutos no spårvagn e ele simplesmente dorme. Não é diferente de uma pessoa normal que dorme no ônibus, trem; mas sempre tem alguém para cutucar e dizer que não está certo. Se eu dormir no trem, ninguém vai cutucar o Joel e dizer: “Olha, a cabeça da sua namorada está torta, ela vai ter torcicolo…” E dai, o que fazer?

Como assistente de um CP-skada eu percebo que as pessoas tem de conversar mais sobre o assunto, entender que mesmo aquelas pessoas com cara de retardada (como a da boneca) tem muito mais entendimento do que a expressão sugere. É super interessante no meu dia-a-dia perceber que algumas pessoas tem dificuldade de entender que como assistente de um deficiente mental eu não estou para pensar, sentir e decidir por ele (somente em questões específicas), e que na verdade eu sou mais como um porta voz, alguém que por estar perto há algum tempo aprende a identificar alguns sinais e pode conseguir coisas que a pessoa em questão quer mais rápido.

Eu não entendia isso no início e muitas vezes eu agi como uma idiota por insegurança, por não saber como tratar como uma pessoa que tem deficiência mental. Agora que eu já tive contato com vários CP-skada sei que até mesmo aqueles que tem cara de retardado não são tão retardados como parecem, e que a gente diz oi para eles como diz para qualquer pessoa, apertam a mão ou o  quê, e fala principalmente olhando para o deficiente, e não para o assistente, mãe, pai, irmão, primo, namorado, amiga, amigo… etc. Se definitivamente não der para fazer isso porque a pessoa não entende, a pessoa ao lado vai explicar, e você não vai pagar mico; ao contrário, vai ter mostrado respeito.

Na dúvida, trate o deficiente mental apenas como uma pessoa.

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #06

Agora que tenho uma “rotina” eu talvez possa responder a pergunta: você gosta de morar na Suécia? Apesar de ter completado seis meses na terra dos vikings eu, sinceramente, não sei o que pensar. O que está claro é que: minha vida com o Joel é maravilhosa [Ponto]; minha vida escolar se resume a uma noite por semana, 3 horas de exercícios e pequenos textos (estudar por conta não entra aqui nesse contexto); minha vida de Marinete é como a vida de uma Marinete seria – ou como eu imagino que seria; minha vida como assistente pessoal…

A assistência pessoal é um capítulo a parte porque, puxa eu nem imaginava. Antes de partir eu pensava em trabalhar como Marinete, ou como garçonete, ou qualquer tipo de serviço desses para o qual não é preciso muito mais do que a vontade… acho que tive sorte de conhecer uma pessoa que acabou gostando de mim a ponto de aceitar que alguém que fala mal e mal sueco possa ser parte da equipe de assistentes que trabalham com ele. Sim, porque a coisa mais importante nesse tipo de trabalho é que tem que existir uma “química” entre os envolvidos, tem que rolar uma amizade ou o que meio que desde o primeiro minuto.

A Suécia paga para que pessoas idosas, com deficiência, autismo, doenças graves que causem dependência e/ou vítimas de acidentes que levarão traumas que as impossibilitem de alguma forma pelo resto da vida tenham o acompanhamento de um assistente pessoal, às vezes 24 horas por dia, que garanta a elas certa independência. Penso que posso dizer que isso é parte da política de assistência social sueca.

Às vezes o assistente é pago diretamente pelo governo/Estado por trabalhar em uma espécie de programa similar ao “nosso” programa saúde da família: uma equipe vai atender o usuário em casa, fazendo-lhe visitinhas. Essas podem ser de 30 min a 1 hora e tem por objetivo verificar se o cidadão come, está vestido, está bem, está tomando a medicação… enfim, cuidar dele sem estar ao lado monitorando. Essas pessoas fazem também comida, as compras no supermercado e outros, tudo para garantir que o beneficiado, na maioria idosos, possam estar fora de risco. Isso porque na Suécia é extremamente importante respeitar a vontade da pessoa [idosa], e mesmo se ela está doente (como com Alzeheimer em fase inicial, por exemplo) tem o direito de morar sozinha. Mas como assim mesmo eles podem se machucar, o Estado provê essa assistência que pode ser minimizada ou maximizada de acordo com o caso e o tempo.

Pessoas que se machucam em acidentes contam com assistência até a recuperação e/ou pelo resto da vida, e podem escolher se vão ter isso em casa ou em uma clínica. No caso de clínicas, estas servem também para a internação de idosos – desde que o mesmo esteja doente e seja dependente. As clínicas mais parecem um prédio comum: a pessoa vai ter um quarto exclusivo, um tanto quanto espaçoso com banheiro privativo e uma pequena cozinha (que conta com pia e geladeira). As refeições serão servidas em um espaço comunitário, mas no mais a pessoa pode ter coisinhas que são só suas. Eu vi um desses lugares e penso que é muito bom e bonito, tranquilo e com uma equipe completa de profissionais de saúde que estarão trabalhando para cuidar da pessoa doente, em recuperação ou idosa.

O Estado paga também empresas que prestam assistência pessoal aos cidadãos. Elas dispõe de uma lista de assistentes que podem ser solicitados a qualquer hora – chamados substitutos, ou assistentes que já tem uma rotina de trabalho específica com um usuário. Este é o meu caso: eu trabalhei como substituta por dois meses e depois passei a trabalhar dois dias por semana com o Zé [nome fictício do cidadão que eu cuido].

O Zé conta com assistência pessoal 24h, como muitas pessoas com deficiência aqui. Certo dia ele me perguntou como era isso no Brasil, como era para as pessoas com deficiência… e eu fiquei falando da falta de rampas e banheiros adaptados, e de bla bla bla… “Eles podem morar sozinhos? Eles tem assistentes como eu?” e quando eu disse não: “Que chato morar toda a vida com os pais!”.

Eu não sei se o sistema é similar Europa a fora, mas depois do comentário do Zé os meus olhos se abriram para uma série de questões que eu até então não tinha percebido. Agora eu vejo os deficientes físicos (mentais leves e moderados) passeando na cidade, fumando, fazendo compras, comprando bebidas, saindo para baladas. Assim, se por um lado eles tem uma vida marcada pela dependência de outras mãos e braços (a dos assistentes), por outro estão extremamente livres para fazer as próprias escolhas e experimentar muito mais do que um deficiente com o mesmo grau de dependência teria no Brasil. Afinal de contas, qual seria a mãe ou pai que concordaria que o filho deficiente (parcialmente ou totalmente dependente) fumasse ou bebesse? Qual seria o irmão que levaria ele para a balada? É óbvio que o assistente responsável pelo fulano ou ciclano não pode dar a ele/a bebida até o cidadão entrar em coma alcoolico, e que ele não vai poder usar drogas ilegais ou o quê. Mas ele pode decidir, e tentar.

No último post quando falei da clínica de saúde para pessoas idosas eu disse que isso foi estranho para mim. Parece abandono. Mas então a assistência pessoal para pessoas com deficiência também não seria correta, porque é um serviço que igualmente tira a responsabilidade dos ombros da família. E por que a família tem que ser responsável? Se o cidadão paga por isso uma vida inteira, é direito dele desfrutar o serviço. Assim o Estado e a família fazem um trabalho em conjunto: a família cuida de contratar um dos bons serviços que o Estado oferece, e monitora  os resultados. Não é que o idoso será deixado na clínica e ninguém mais vai ir visitá-lo; e não é porque o deficiente tem assistentes que a família vai esquecê-lo.

Abandono e negligência podem estar muito perto. E às vezes, pessoas que moram juntas estão mais longe do que se pode imaginar. Cuidar é muito mais do que estar perto!

PS.: a íntegra da charge que eu não consegui postar da ultima vez!