Socialkärring

Acordei de mau humor, dormi mal por causa de um torcicolo e tenho uma pilha imensa de roupas para passar. Roupa para passar, definitivamente, ninguém merece. Decidi empurrar com a barriga e aqui estou, a reclamar no blog.

Tenho trabalhado entre uma e duas noites por semana no meu emprego de behandlingassistent – que até agora eu não descobri ao certo como se escreve, já vi tudo junto e separado – e estou satisfeita por ter peitado o negócio e continuado. A cada dia trabalhado vou adicionando mais elementos a imagem a respeito do trabalho social na Suécia, em específico a questão de moradia. Eu digo imagem porque, como sou vikarie (substituta) eu sinto que muitas vezes sou deixada de lado no que se refere à informação. Algumas pessoas do grupo são muito ressabiadas e parecem ter se queimado com relação aos substitutos (estou sendo boazinha com eles agora) principalmente no que se refere a questão do sigilo – e vai lá saber que tipo de formação recebe uma assistente social no Brasil? Se eles soubessem que o Serviço Social brasileiro é regulamentado – ao contrário do SS sueco – e que eu posso perder o meu direito de exercer a profissão se der com a língua nos dentes…

Essa semana, assim como quem não quer nada, dei um cutucão no pessoal. Comentei que achava estranho que uma profissão do nível de responsabilidade do Serviço Social, na Suécia, não fosse regulamentada pois até no Brasil – imagine o Brasil, aquele país da “latinamerika“, em desenvolvimento – é. E faz tempo! É certo que precisamos de um sindicato no Brasil, mas no que se refere a fiscalização do exercício profissional estamos relativamente bem – se pensarmos a nível do tamanho do Brasil. Sempre achei um absurdo a taxa que pagávamos anualmente (ainda recebo os boletos, apesar dos inúmeros e-mails que mandei pedindo o cancelamento), mas o pessoal do Núcleo Regional de Serviço Social da minha região promovia até encontros mensais para debater questões relacionadas a profissão.

Fugi do assunto. Em todo o caso, vou ouvindo umas palavras ali e umas histórias aqui e vou formando a minha ideia a respeito do trabalho social em Göteborg, como já disse, no que se refere ao atendimento de pessoas/famílias permanente ou provisoriamente sem teto. E aqui poucas pessoas admiram ou curtem uma assistente social – tanto, que nós, ou melhor, elas recebem um apelido carinhoso: socialkärring. Bem, social todo mundo entende não? E kärring é nada menos do que um palavrão (no pejorativo; cadela ou velha chata, velha bruxa).

Pelo que entendi nas literaturas que andei pesquisando, o Serviço Social europeu passou por uma fase em que foram registrados muitos casos de abuso de poder profissional, principalmente no atendimento a crianças e adolescentes mas não raro também em outras áreas.  Se a gente espremer um pouco o cérebro vai lembrar de filmes em que a assistente social é a vilã da história, é ela que vem e separa a criança dos pais (biológicos ou não) fazendo com que eles tenham que lutar na justiça pelo direito de permanecer com os pequenos. Nesses filmes, a criança sempre vai parar num orfanato ou com pais adotivos esquisitos que fazem ela sofrer bem a estilo Cinderala mas a assistente social não entende isso, não vê ou às vezes é corrupta e quer a criança lá sofrendo, e não no ambiente em que ela tem a chance de ser feliz… drama! O duro é que aconteceu de verdade. Por causa dessas e de decisões pouco convencionais baseadas no “eu sou o profissional aqui e sei o que estou fazendo” onde assistentes sociais trataram de pessoas que não conseguiram levar a vida como o esperado como completos retardados – “você não sabe o que é bom para você/você escolheu até agora e veja no que deu/eu vou tomar as rédeas da situação”; o profissional é visto com certa desconfiança e tem uma fama bastante vulgar.

Já no Brasil, como o Serviço Social demorou mais tempo a se firmar com profissão e como a gente nunca chegou a provar uma política de assistência social mais consistente, permanente e séria antes de… agora (praticamente); a assistente social sempre foi vista como aquela moça boazinha que ajudava as pessoas e dava cesta básica.

É certo que essa é a primeira imagem que os professores tratam de desmanchar quando botamos os pés na universidade. Assistente social não é uma moça boazinha, assistente social é uma profissional que vai fazer valer leis e trabalhar com ética; e isso nem sempre significa “dar” o que as pessoas querem. Apesar das assistentes sociais suecas não contarem com a popularidades que nós, brasileiras, conta(va)mos; eu entendo que é exatamente aí – quando o querer do usuário bate de frente com o meu poder como profissional – que começa a confusão…

Eu acredito que deva ser imensamente difícil para algumas pessoas se dirigirem até um CRAS (no Brasil) ou socialkontor (na Suécia) para declarar a um completo desconhecido que “falharam” economicamente e precisam de ajuda.  Ao menos a primeira vez. E ainda mais numa sociedade como a nossa em que tudo gira ao redor do “ter”, ou seja, se você não pode “ter” as coisas da moda já é difícil (o que? você não tem um iphone? o carro do ano? uma TV 42′?) ; imagine então não “ter” nem o mínimo do mínimo para sobreviver. Isso te faz, seguramente, um fracassado. Agora imagine a dificuldade de assumir isso. E no Brasil, em muitos casos, você não recebe ajuda se “tem” um pouquinho: os recursos são escassos e você só será contemplado se não “tem nada”. É fácil ficar com raiva da assistente social e dizer que “ela” não quer ajudar.

Não tenho certeza absoluta que aconteça o mesmo por aqui e na verdade chuto que os critérios sejam muito diferentes, mas a atuação profissional é seguramente delimitada por questões financeiras – seja na quantidade de recursos destinados à área como expectativa do mercado. Por exemplo: a relação entre oferta e a procura por apartamentos em Göteborg é caótica, há muito mais gente procurando do que lugares disponíveis para morar e o valor do seu salário mensal é um elemento que faz diferença na lógica de “quem tem direito primeiro a esse apartamento”. Obviamente, você está praticamente fora ou o grau de dificuldade só aumenta se você é uma pessoa com problemas financeiros e que precisa de “ajuda do social” para viver. Há casos em que a própria kommuna paga o aluguel para as pessoas com sérios problemas econômicos, mas aí esbarramos no outro limite: a kommuna não disponibiliza recursos suficientes para pagar o aluguel de “todo mundo”. E não é o administrador da kommuna que tem de dizer isso a população sem teto… Infelizmente, nem sempre o assistente social pode ajudar e aí, bom, aí ele passa de socialsekreterare para socialkärring em um piscar de olhos.

Já acontece no Brasil, mas aí somos chamadas de bruxas. Aquela bruxa lá fica com o dinheiro do Bolsa Família todinho para ela! (OmG! Até as assistentes sociais vivem encostadas no governo…). Eu vi o monte de cestas básicas que ela esconde! (Essa é velha). O prefeito me prometeu mas daí aquela bruxa do CRAS disse que não! Hahaha, essa é minha favorita, eu gostaria que fosse sempre assim. Feliz ou infelizmente isso é um bom sinal (ao menos na maioria dos casos): nem sempre somos bem vistas quando fazemos o que devemos fazer e na terra dos jeitinhos seguir as leis é bem complicadinho. Rimou! Queria saber como rola a coisa por aqui…

Enfim, essa semana foi dia da Assistente Social no Brasil (em 15 de maio) e eu gostaria de dar os parabéns a todas as colegas “bruxas” brasileiras que fazem o seu melhor, lutando contra os contra tempos e se dedicando com ética; e que por mais que o povo desacredite às vezes e seja duro, são, lá no fundo, um bando de moças boazinhas querendo ajudar – hahahaha!

Parabéns pelo dia do Assistente Social!

Anúncios

Trabalhar ou não, eis a questão…

Quem escreve em um blog as três da manhã? Mães de recém nascidos e a Nara… bom, eu acredito lembrar de pelo menos uma vez ter lido algo que ela postou na madrugada. Na verdade, acredito que há gente que escreva no meio da noite, acredito até mesmo que existam aqueles que varam a noite na internet, mas para mim isso é novidade.

Meu trabalho novo é responsável por essa blogagem não convencional. Ou, talvez, aquilo que vai se tornar mais um dos meus trabalhos aqui na Suécia. Seria o 4º emprego diferente em menos de dois anos… primeiro eu não falava sueco e trabalhei como faxineira, aí aprendi um pouco e comecei com o Zé (que não “fala” exatamente, então eu não precisava de fluência); e em seguida foi a vez do Zezinho, que é autista (ele fala, mas eu não preciso um vocabulário muito grande)… Agora a coisa começou a ficar séria.

Ainda não sou assistente social. O que estou fazendo agora é definido como behandling assistans e eu sou, naturalmente, uma behandling assistent ou simplesmente a pessoa que trabalha em um abrigo e acolhe e/ou cuida de pessoas. Eu não lembro qual é o termo utilizado dentro do SUAS no Brasil para este tipo de trabalho e, na verdade, a essa hora da madrugada eu não tenho cabeça nem para lembrar disso e tão pouco vontade de “googlar” o termo. Att behandla significa cuidar/tratar e o termo behandling é utilizado para designar um tipo de tratamento – tanto dentro da área de saúde como fora dela.

A conversa que tive com a studievägledare sobre as minhas ambições acadêmicas na Suécia fez com que eu ficasse literalmente sem dormir. Ela me encorajou a procurar um trabalho como vikarie (substituta) em algum canto da enorme rede social de Göteborg a fim de conseguir alguma experiência e por meio da oportunidade aprender um pouco mais sobre o sistema de assistência social sueco (ao menos da cidade de Göteborg). Dentre as três opções disponíveis naquele momento, duas jamais atenderam ao telefone.

Já quando eu liguei para o pessoal que trabalha com os sem tetos da cidade alguém atendeu e eu agarrei a chance com ambas as mãos, o que fez a Dona Rosa (a responsável pelo abrigo) ficar bem admirada. Não que eu a tenha impressionado com o meu sueco mas o caso é que disparei a história da minha vida de uma vez só pelo telefone sem dizer o meu nome e sem dizer que eu morava em Göteborg. Apesar da gafe ela riu e marcamos uma entrevista.

Se eu disser que tinha alguma ideia da onde estava amarrando o meu burro estaria mentindo: eu sabia que era um boende (abrigo – somente nesse caso na minha tradução livre) mas não sabia ao certo para quem e para quê, qual seria o meu papel. Ela me disse já por telefone algo como “somos um grande abrigo e precisamos de gente para trabalhar a noite com as pessoas sem teto”.  E é isso… trabalho em um grande abrigo que abriga três grupos distintos de usuários: imigrantes, sem teto e semi sem teto (se é que esse termo existe). O último é constituído de um grupo de pessoas que está em transição – perdeu tudo que tinha e não sabe para onde vai. Alguns deles vão se tornar sem tetos, outros vão conseguir de volta alguma estabilidade . Só para constar: estabilidade é um termo muito estreito para ser aplicado nesse caso e eu não to muito feliz em utilizar ele aqui.

Quando a D. Rosa começou a me explicar as peculiaridades do trabalho fiquei assustada. Alguns dos usuários têm doença mental, outros fazem uso de drogas ou álcool. Eu deveria trabalhar usando um pequeno alarme próximo ao corpo, o qual eu passo disparar em caso de me sentir ameaçada. E o mais difícil: ficar acordada a noite toda (começo as 21h30min e saio as 8h da matina). Como eu não sabia o que fazer ao certo decidi experimentar e então eu alcancei a oportunidade de trabalhar por duas noites (seguidas) com o pessoal que já faz o trabalho há anos, numa espécie de introdução da qual tanto eu como eles podem decidir se foi bem sucedida ou não.

Por fim, cá estou eu experimentado passar a noite em claro para atender pessoas sem teto. O meu papel é acolher pessoas que estiveram em contato com o sistema social e por algum motivo querem (ou precisam de) uma noite tranquila em uma cama. Elas recebem um quarto (o abrigo fica em um velho hotel), comida (jantar e café da manhã), a possibilidade de tomar banho e lavar roupas, assim como acesso a novas roupas (usadas). Eu não preciso fazer nenhum espécie de abordagem individual – do tipo chegar no usuário e submetê-lo a uma entrevista; quem quer conta quem é e para onde vai e quem não quer, come e dorme. O departamento em que estou é quase que uma casa de passagem, em teoria os usuários não deveriam/poderiam voltar ou passar uma temporada por aqui mas, com base no que vi/ouvi a noite passada e hoje, muitos deles são velhos conhecidos.

A primeira impressão é que gostei do trabalho e, principalmente, dos colegas que já encontrei – ri demais e apesar do relógio voltar para trás entre as 3h e 5h da matina, no mais vai sem muito problemas afinal, eles tem muito o que dividir e eu quero muito escutar mas… não sei se tenho peito para continuar com isso. Sinceramente, meu medo foi substituído por algum sentimento entre a compaixão e a empatia, e isso é tanto bom como ruim. O problema maior está em passar a noite em claro e virar de ponta cabeça a minha vida. Se eu continuo nessa vou ficar longe de duas coisas que fazem minha vida repleta de sentido, em primeiro lugar o Joel – trocamos apenas algumas palavras tanto na segunda como na terça e amanhã… vou dormir durante o dia outra vez! – e em segundo lugar, a minha cama.

Tudo  que tenho ouvido aqui nesses dois dias me deixou entusiasmada mas também dividida; feliz e triste. De certa forma, não há muitas diferenças entre a realidade do trabalho social (que eu conheço) no Brasil com o daqui – eu vou explicar isso em outra hora, mas me refiro sobretudo as frustrações e expectativas com relação a esse trabalho e a possibilidade de tratamento de pessoas com dependência química. Por outro, parece que ser assistente social que trabalha com pessoas sem teto não é um caso fácil – sem falar que de forma nenhuma assistente social passa por uma moça boazinha que ajuda as pessoas; não na Suécia.

No fim, guardo uma certeza: a studievägledare tinha razão.

Socionomexamem! Vivaaaaaa!

Fonte aqui

Puta palavrão não? Mãe, desculpe aí os termos vulgares… Mas isso tem um significado tão grande que nem sei o que fazer comigo mesma essa semana depois de receber a resposta da Högskolverket (sim, o idioma sueco é cheio de palavrões, no bom sentido…) na terça e…: meu diploma de Serviço Social é válido na Suécia!!!

Isso significa tudo: de repente é como se eu tivesse acabado a minha graduação em Socionom (esse é o nome do curso de Serviço Social na Suécia) e definitivamente, muitas portas vão se abrir; profissionalmente falando. Aqui na Suécia há um curso específico de assistência social (Socialsekreterare) e um curso de Serviço Social (Socionom, como disse). A principal diferença é que quem tem o diploma de Socialsekretarare pode trabalhar como assistente social de prefeitura (para o governo) e ONGs (se não me engano). Quem tem Socionomexamem – como eu agora! =D – pode trabalhar dentro das escolas, do governo, das ONGs, dentro da área hospitalar e etc e até no judiciário ou como curador(a)… isso mesmo: aqui na Suécia o Judiciário não pode designar qualquer um para fazer/prestar serviço de graça não!

Claro que eu to imensamente feliz. Eu até tinha comentado com a Fernanda (do blog Aprendendo a Viver na Suécia) que eu estava com medo de ter o meu pedido negado… eu tive contato com muita gente que teve o pedido negado e teve que começar tudo de novo (inclusive cursar disciplinas suecas de ensino médio para ter a possibilidade de entrar na universidade). Mas olha só a coincidência (ou não): eu e a Fernanda enviamos os pedidos mais ou menos na mesma data (em algum dia de maio) e ela recebeu a resposta duas semanas antes de mim. A Fernanda é formada na área de educação e tem pós (se você é da mesma área dela ou apenas tem interesse de entender toda essa história pode ler ela aqui) e eu não – isso que estava me dando um medinho de não vai rolar, não vai rolar…

A Fernanda até tinha me passado o telefone da Högskolverket para eu entrar em contato, mas eu estava um pouco desanimada de tanto ouvir gente dizer que não tinha conseguido… esperei. E na terça-feira quando recebi o envelope, meu coração tava a mil: recebi três vias e na terceira, um documento com timbre e com letras grandes dizendo que “Sua formação corresponde a  graduação em Socionom“. Fiquei eufórica!

Isso significa duas coisas: primeiro, que a qualidade das universidade públicas brasileiras (apesar de sucateadas) é muito boa. Não estou querendo dizer que a Suécia é um país modelo em educação, que aqui tudo é lindo e perfeito não. Estou dizendo que os padrões suecos de exigência descartam uma grande quantidade de profissionais estrangeiros (que com diploma universitário trabalham de motorista de ônibus, por exemplo) e não só aqueles vindos da África, das Arábias, Ásia e do leste Europeu: profissionais de enfermagem espanholas tem dificuldade em obter a validação de seu diploma universitário aqui. Ou seja, se meu diploma de graduação foi aprovado é porque eu sou pró (é claro) e porque a universidade em que obti a graduação é de qualidade (UNIOESTE gente, campus de Toledo). E pelo que eu entendi, a Cíntia (do blog Minha Aquarela) que teve o diploma válido pela Högskolverket também estudou em universidade pública (UEL, de Londrina), o que reforça ainda mais o que eu to querendo dizer.

Segundo que, mesmo que meu curso de Serviço Social no Brasil não tivesse nada a ver com a Suécia eu não tenho a obrigatoriedade de frequentar nenhum curso complementar. Na carta em que recebi eles me dizem que meu curso apresenta pontuação superior ao curso sueco, e que a sugestão deles é que eu frequente um curso sobre a sociedade sueca e sobre legislação sueca – para que seja mais fácil para mim, e não por exigência deles. Diante disso, povo do meu Brasil que lê esse simples blog: acreditem na educação brasileira, vão para a universidade (de preferência, pública). E agora vem o discurso: nós brasileiros temos que parar de afirmar a todo o momento que nosso país é uma merda, que todo mundo só pensa em futebol e no final da novela das oito (que todo mundo sabe que começa as nove), que a política não tem jeito, que todo mundo é corrupto e blá blá blá. Temos muito o que fazer para que o nosso país dê certo sim, mas podemos começar por aprender a valorizar o que temos (e que sabemos) que é bom: nossas universidades públicas por exemplo.  Se elas são elitizadas e etc isso é problema nosso! Quem é pobre, negro, índio, mulheres e etc tem que ter coragem de gritar e lutar por seus direitos. Eu sou filha de pedreiro e toda a minha família se sacrificou para que eu frequentasse a universidade. Nós podemos, se quisermos, transformar essa situação!

Eu to fora do Brasil por enquanto, mas eu pretendo voltar e com a experiência que obtive aqui ajudar a fazer o Brasil ainda melhor. Isto porque a Suécia é um país de primeiro mundo e aqui há muitas experiências que funcionam mil maravilhas? Talvez… mas o meu pensamento é que simplesmente às vezes é mais fácil encontrar soluções quando “estamos de fora” e, independente da sociedade sueca ser assim ou assado, cada experiência abre nossos horizontes e faz desabrochar a criatividade.

Discurso bonito né? Eu quase podia pensar numa carreira política… mas agora eu vou estar muito ocupada aproveitando para melhorar a minha vida com o meu diploma de universidade pública brasileira que é válido na Suécia!

Quem sabe num futuro então… não? Ô meu pai!! hahahaha…

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #07

No episódio de hoje de Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca…

O mês de novembro foi intenso: eu e Joel conseguimos um apartamento (alugar um, não comprar); ficamos noivos, acabei o SFI e recebi meu presente de Natal antecipado… um grandão – a família do Joel me deu uma viagem para o Brasil. Além disso, teve a viagem de barco para a Dinamarca, e a viagem que eu e Joel fizemos para Stokholm. Me sinto explodindo de alegria!

Em início de novembro o Joel recebeu um convite da boplats para ver um apartamento aqui perto de onde moramos, um etta como os suecos dizem (cozinha, banheiro e um quarto, sendo que às vezes é só banheiro mais um cômodo grandão onde fica a cozinha também) no térreo com um pequeno jardim. Já comentei que essa coisa de alugar apartamento na Suécia é meio confusa, então só posso explicar que você entra em um site de apartamentos (como o boplats por exemplo, que acho que é o maior da Suécia) e faz um perfil explicando onde você quer morar e o que você quer (apartamento com dois, três, quatros cômodos; em que andar), e a partir disso você está oficialmente buscando e pode ver os locais vagos, a planta do apê e etc; quantas pessoas procuraram o mesmo lugar, bla bla bla. Ser convidado para ver um apê não significa que você vai receber o direito de morar lá. Enfim, fomos para a visitinha, eu gostei, o Joel também, mas ficamos em segundo lugar no ranking de possíveis contemplados – porque eles avaliam um monte de coisas, incluindo o tempo que você está esperando na fila, seu salário…  Não sei o primeiro da lista morreu ou quê, mas é quase que só isso mesmo para alguém desistir de um apê aqui, e por fim, nós saímos  ganhando e foi uma surpresa maravilhosa! Eu amo morar no coletivo, mas é tão legal pensar que vamos ter um cantinho só para nós! Mudamos em 03 de dezembro, e isso é uma coisa realmente grande e fantástica se levado em consideração que cerca de 10 mil pessoas esperam para ter a oportunidade de alugar um apartamento em qualquer canto de Göteborg, e que o Joel esperou na fila por dois anos até ser contemplado!

O bom de morar em um etta é que não preciso, definitivamente, me preocupar com móveis, além do que, ganhamos muitas coisas do avô do Joel. Sim, eu sou extremamente feliz porque a família dele me acolheu de uma forma muito calorosa, sempre me tratam com respeito e puxa… eles até pagaram minha viagem para o Brasil! Eu fiquei tão emocionada que chorei…

Então no dia 11 de novembro eu fui com outros assistentes pessoais que trabalham com o Zé para a Dinamarca. A gente fez essa viagem para se entrosar, conversar e tals, já que todo mundo sempre se encontra rapidinho quando o turno termina. Infelizmente, a Joahanna ficou doente e o Magnus… não sei! Mas então embarcamos em um navio daqueles que aparecem em filmes e ficamos 3 horas tagarelando até chegar a Dinamarca. A foto abaixo é do café da manhã. Ficamos na Dinamarca apenas uma hora e meia, mas foi extremamente divertido. Eu comprei um UNO! na Dinamarca e na volta a gente ficou jogando UNO! e rindo e falando merda.

Da esquerda para a direita: Leila, Emília, Fredrik, Robert e Jasmina.

Então, Joel, eu e Stockholm. Emprestamos um apê de uma amiga e passamos uns dias fantásticos. Caminhamos muito, porque o apê era pertinho de Gamla Stan e de um dos centros de Stockholm. Conheci a Paula e o marido dela, Tobias. Jantamos juntos e fomos andar em Gamla Stan, ver os guardas reais e o Castelo do Rei assim como o Parlamento Sueco. O Gustaf nem mora lá, mas foi super divertido conhecer pessoalmente a Paula, a primeira pessoa com que eu conversei sobre casar e morar na Suécia. Ano passado ela fez um super favorzão para mim e puxa, é super bom encontrar alguém com quem você falou pela internet um milhão de vezes ou o quê, e perceber que essa pessoa é ainda mais especial do que você tinha imaginado! Agora ela tem de vir para Göteborg, e se quiser até pode dormir no meu sofá cama… hahahHahaha – amiga pobre é isso!

Paula, Tobias, Joel e uma caipira, em Stockholm, Suécia!

Eu queria muito ter encontrado a Maíra também – do Sonhos Escandinavos – mas o Joel me pediu… ahhhhhhhhh!! Eu ainda fico suspirando e olhando o anel de noivado no meu dedo. Que brega né? To fudida porque nunca pensei nessa coisa toda de casamento, nem sei por onde começar… no Brasil – lá nas bandas donde eu moro – a gente serve muito churrasco e cerveja (alguma coisa de whisky também) e da-lhe baile sertanejo! Pronto, todo mundo feliz. Mas oi Jesus, nem sei bem direito sueco, agora vou ter que aprender a preparar um casamento sueco!!!

HahAhahAHAhAh!! Que bom que é reclamar de barriga cheia!!

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #06

Agora que tenho uma “rotina” eu talvez possa responder a pergunta: você gosta de morar na Suécia? Apesar de ter completado seis meses na terra dos vikings eu, sinceramente, não sei o que pensar. O que está claro é que: minha vida com o Joel é maravilhosa [Ponto]; minha vida escolar se resume a uma noite por semana, 3 horas de exercícios e pequenos textos (estudar por conta não entra aqui nesse contexto); minha vida de Marinete é como a vida de uma Marinete seria – ou como eu imagino que seria; minha vida como assistente pessoal…

A assistência pessoal é um capítulo a parte porque, puxa eu nem imaginava. Antes de partir eu pensava em trabalhar como Marinete, ou como garçonete, ou qualquer tipo de serviço desses para o qual não é preciso muito mais do que a vontade… acho que tive sorte de conhecer uma pessoa que acabou gostando de mim a ponto de aceitar que alguém que fala mal e mal sueco possa ser parte da equipe de assistentes que trabalham com ele. Sim, porque a coisa mais importante nesse tipo de trabalho é que tem que existir uma “química” entre os envolvidos, tem que rolar uma amizade ou o que meio que desde o primeiro minuto.

A Suécia paga para que pessoas idosas, com deficiência, autismo, doenças graves que causem dependência e/ou vítimas de acidentes que levarão traumas que as impossibilitem de alguma forma pelo resto da vida tenham o acompanhamento de um assistente pessoal, às vezes 24 horas por dia, que garanta a elas certa independência. Penso que posso dizer que isso é parte da política de assistência social sueca.

Às vezes o assistente é pago diretamente pelo governo/Estado por trabalhar em uma espécie de programa similar ao “nosso” programa saúde da família: uma equipe vai atender o usuário em casa, fazendo-lhe visitinhas. Essas podem ser de 30 min a 1 hora e tem por objetivo verificar se o cidadão come, está vestido, está bem, está tomando a medicação… enfim, cuidar dele sem estar ao lado monitorando. Essas pessoas fazem também comida, as compras no supermercado e outros, tudo para garantir que o beneficiado, na maioria idosos, possam estar fora de risco. Isso porque na Suécia é extremamente importante respeitar a vontade da pessoa [idosa], e mesmo se ela está doente (como com Alzeheimer em fase inicial, por exemplo) tem o direito de morar sozinha. Mas como assim mesmo eles podem se machucar, o Estado provê essa assistência que pode ser minimizada ou maximizada de acordo com o caso e o tempo.

Pessoas que se machucam em acidentes contam com assistência até a recuperação e/ou pelo resto da vida, e podem escolher se vão ter isso em casa ou em uma clínica. No caso de clínicas, estas servem também para a internação de idosos – desde que o mesmo esteja doente e seja dependente. As clínicas mais parecem um prédio comum: a pessoa vai ter um quarto exclusivo, um tanto quanto espaçoso com banheiro privativo e uma pequena cozinha (que conta com pia e geladeira). As refeições serão servidas em um espaço comunitário, mas no mais a pessoa pode ter coisinhas que são só suas. Eu vi um desses lugares e penso que é muito bom e bonito, tranquilo e com uma equipe completa de profissionais de saúde que estarão trabalhando para cuidar da pessoa doente, em recuperação ou idosa.

O Estado paga também empresas que prestam assistência pessoal aos cidadãos. Elas dispõe de uma lista de assistentes que podem ser solicitados a qualquer hora – chamados substitutos, ou assistentes que já tem uma rotina de trabalho específica com um usuário. Este é o meu caso: eu trabalhei como substituta por dois meses e depois passei a trabalhar dois dias por semana com o Zé [nome fictício do cidadão que eu cuido].

O Zé conta com assistência pessoal 24h, como muitas pessoas com deficiência aqui. Certo dia ele me perguntou como era isso no Brasil, como era para as pessoas com deficiência… e eu fiquei falando da falta de rampas e banheiros adaptados, e de bla bla bla… “Eles podem morar sozinhos? Eles tem assistentes como eu?” e quando eu disse não: “Que chato morar toda a vida com os pais!”.

Eu não sei se o sistema é similar Europa a fora, mas depois do comentário do Zé os meus olhos se abriram para uma série de questões que eu até então não tinha percebido. Agora eu vejo os deficientes físicos (mentais leves e moderados) passeando na cidade, fumando, fazendo compras, comprando bebidas, saindo para baladas. Assim, se por um lado eles tem uma vida marcada pela dependência de outras mãos e braços (a dos assistentes), por outro estão extremamente livres para fazer as próprias escolhas e experimentar muito mais do que um deficiente com o mesmo grau de dependência teria no Brasil. Afinal de contas, qual seria a mãe ou pai que concordaria que o filho deficiente (parcialmente ou totalmente dependente) fumasse ou bebesse? Qual seria o irmão que levaria ele para a balada? É óbvio que o assistente responsável pelo fulano ou ciclano não pode dar a ele/a bebida até o cidadão entrar em coma alcoolico, e que ele não vai poder usar drogas ilegais ou o quê. Mas ele pode decidir, e tentar.

No último post quando falei da clínica de saúde para pessoas idosas eu disse que isso foi estranho para mim. Parece abandono. Mas então a assistência pessoal para pessoas com deficiência também não seria correta, porque é um serviço que igualmente tira a responsabilidade dos ombros da família. E por que a família tem que ser responsável? Se o cidadão paga por isso uma vida inteira, é direito dele desfrutar o serviço. Assim o Estado e a família fazem um trabalho em conjunto: a família cuida de contratar um dos bons serviços que o Estado oferece, e monitora  os resultados. Não é que o idoso será deixado na clínica e ninguém mais vai ir visitá-lo; e não é porque o deficiente tem assistentes que a família vai esquecê-lo.

Abandono e negligência podem estar muito perto. E às vezes, pessoas que moram juntas estão mais longe do que se pode imaginar. Cuidar é muito mais do que estar perto!

PS.: a íntegra da charge que eu não consegui postar da ultima vez!