Socialkärring

Acordei de mau humor, dormi mal por causa de um torcicolo e tenho uma pilha imensa de roupas para passar. Roupa para passar, definitivamente, ninguém merece. Decidi empurrar com a barriga e aqui estou, a reclamar no blog.

Tenho trabalhado entre uma e duas noites por semana no meu emprego de behandlingassistent – que até agora eu não descobri ao certo como se escreve, já vi tudo junto e separado – e estou satisfeita por ter peitado o negócio e continuado. A cada dia trabalhado vou adicionando mais elementos a imagem a respeito do trabalho social na Suécia, em específico a questão de moradia. Eu digo imagem porque, como sou vikarie (substituta) eu sinto que muitas vezes sou deixada de lado no que se refere à informação. Algumas pessoas do grupo são muito ressabiadas e parecem ter se queimado com relação aos substitutos (estou sendo boazinha com eles agora) principalmente no que se refere a questão do sigilo – e vai lá saber que tipo de formação recebe uma assistente social no Brasil? Se eles soubessem que o Serviço Social brasileiro é regulamentado – ao contrário do SS sueco – e que eu posso perder o meu direito de exercer a profissão se der com a língua nos dentes…

Essa semana, assim como quem não quer nada, dei um cutucão no pessoal. Comentei que achava estranho que uma profissão do nível de responsabilidade do Serviço Social, na Suécia, não fosse regulamentada pois até no Brasil – imagine o Brasil, aquele país da “latinamerika“, em desenvolvimento – é. E faz tempo! É certo que precisamos de um sindicato no Brasil, mas no que se refere a fiscalização do exercício profissional estamos relativamente bem – se pensarmos a nível do tamanho do Brasil. Sempre achei um absurdo a taxa que pagávamos anualmente (ainda recebo os boletos, apesar dos inúmeros e-mails que mandei pedindo o cancelamento), mas o pessoal do Núcleo Regional de Serviço Social da minha região promovia até encontros mensais para debater questões relacionadas a profissão.

Fugi do assunto. Em todo o caso, vou ouvindo umas palavras ali e umas histórias aqui e vou formando a minha ideia a respeito do trabalho social em Göteborg, como já disse, no que se refere ao atendimento de pessoas/famílias permanente ou provisoriamente sem teto. E aqui poucas pessoas admiram ou curtem uma assistente social – tanto, que nós, ou melhor, elas recebem um apelido carinhoso: socialkärring. Bem, social todo mundo entende não? E kärring é nada menos do que um palavrão (no pejorativo; cadela ou velha chata, velha bruxa).

Pelo que entendi nas literaturas que andei pesquisando, o Serviço Social europeu passou por uma fase em que foram registrados muitos casos de abuso de poder profissional, principalmente no atendimento a crianças e adolescentes mas não raro também em outras áreas.  Se a gente espremer um pouco o cérebro vai lembrar de filmes em que a assistente social é a vilã da história, é ela que vem e separa a criança dos pais (biológicos ou não) fazendo com que eles tenham que lutar na justiça pelo direito de permanecer com os pequenos. Nesses filmes, a criança sempre vai parar num orfanato ou com pais adotivos esquisitos que fazem ela sofrer bem a estilo Cinderala mas a assistente social não entende isso, não vê ou às vezes é corrupta e quer a criança lá sofrendo, e não no ambiente em que ela tem a chance de ser feliz… drama! O duro é que aconteceu de verdade. Por causa dessas e de decisões pouco convencionais baseadas no “eu sou o profissional aqui e sei o que estou fazendo” onde assistentes sociais trataram de pessoas que não conseguiram levar a vida como o esperado como completos retardados – “você não sabe o que é bom para você/você escolheu até agora e veja no que deu/eu vou tomar as rédeas da situação”; o profissional é visto com certa desconfiança e tem uma fama bastante vulgar.

Já no Brasil, como o Serviço Social demorou mais tempo a se firmar com profissão e como a gente nunca chegou a provar uma política de assistência social mais consistente, permanente e séria antes de… agora (praticamente); a assistente social sempre foi vista como aquela moça boazinha que ajudava as pessoas e dava cesta básica.

É certo que essa é a primeira imagem que os professores tratam de desmanchar quando botamos os pés na universidade. Assistente social não é uma moça boazinha, assistente social é uma profissional que vai fazer valer leis e trabalhar com ética; e isso nem sempre significa “dar” o que as pessoas querem. Apesar das assistentes sociais suecas não contarem com a popularidades que nós, brasileiras, conta(va)mos; eu entendo que é exatamente aí – quando o querer do usuário bate de frente com o meu poder como profissional – que começa a confusão…

Eu acredito que deva ser imensamente difícil para algumas pessoas se dirigirem até um CRAS (no Brasil) ou socialkontor (na Suécia) para declarar a um completo desconhecido que “falharam” economicamente e precisam de ajuda.  Ao menos a primeira vez. E ainda mais numa sociedade como a nossa em que tudo gira ao redor do “ter”, ou seja, se você não pode “ter” as coisas da moda já é difícil (o que? você não tem um iphone? o carro do ano? uma TV 42′?) ; imagine então não “ter” nem o mínimo do mínimo para sobreviver. Isso te faz, seguramente, um fracassado. Agora imagine a dificuldade de assumir isso. E no Brasil, em muitos casos, você não recebe ajuda se “tem” um pouquinho: os recursos são escassos e você só será contemplado se não “tem nada”. É fácil ficar com raiva da assistente social e dizer que “ela” não quer ajudar.

Não tenho certeza absoluta que aconteça o mesmo por aqui e na verdade chuto que os critérios sejam muito diferentes, mas a atuação profissional é seguramente delimitada por questões financeiras – seja na quantidade de recursos destinados à área como expectativa do mercado. Por exemplo: a relação entre oferta e a procura por apartamentos em Göteborg é caótica, há muito mais gente procurando do que lugares disponíveis para morar e o valor do seu salário mensal é um elemento que faz diferença na lógica de “quem tem direito primeiro a esse apartamento”. Obviamente, você está praticamente fora ou o grau de dificuldade só aumenta se você é uma pessoa com problemas financeiros e que precisa de “ajuda do social” para viver. Há casos em que a própria kommuna paga o aluguel para as pessoas com sérios problemas econômicos, mas aí esbarramos no outro limite: a kommuna não disponibiliza recursos suficientes para pagar o aluguel de “todo mundo”. E não é o administrador da kommuna que tem de dizer isso a população sem teto… Infelizmente, nem sempre o assistente social pode ajudar e aí, bom, aí ele passa de socialsekreterare para socialkärring em um piscar de olhos.

Já acontece no Brasil, mas aí somos chamadas de bruxas. Aquela bruxa lá fica com o dinheiro do Bolsa Família todinho para ela! (OmG! Até as assistentes sociais vivem encostadas no governo…). Eu vi o monte de cestas básicas que ela esconde! (Essa é velha). O prefeito me prometeu mas daí aquela bruxa do CRAS disse que não! Hahaha, essa é minha favorita, eu gostaria que fosse sempre assim. Feliz ou infelizmente isso é um bom sinal (ao menos na maioria dos casos): nem sempre somos bem vistas quando fazemos o que devemos fazer e na terra dos jeitinhos seguir as leis é bem complicadinho. Rimou! Queria saber como rola a coisa por aqui…

Enfim, essa semana foi dia da Assistente Social no Brasil (em 15 de maio) e eu gostaria de dar os parabéns a todas as colegas “bruxas” brasileiras que fazem o seu melhor, lutando contra os contra tempos e se dedicando com ética; e que por mais que o povo desacredite às vezes e seja duro, são, lá no fundo, um bando de moças boazinhas querendo ajudar – hahahaha!

Parabéns pelo dia do Assistente Social!

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #25

Não consigo mais colocar na cabeça nem uma só palavra do livro do BBiC que estive lendo. Minha mente está louca e meus pensamentos correm feito ninfas as vésperas de um solstício de verão. Nada do que leio fica gravado na cuca… dilemas do mundo moderno? Excesso de informação? Não acredito…

Deixei de trabalhar com o Zé em tempo integral para me dedicar um pouco a caça do trabalho como assistente social e aos preparativos do casamento. Quem acha que isso é meio estranho é porque não casou ainda: passei uns par de dias formulando o convite (que mesmo assim ficou super simples) e mais uns dois, três dias atrás do endereço de todo mundo. Na segunda mandei uma leva dos convites, a segunda leva vai na semana que vem e ainda separamos dos amigos mais chegados que moram em Göteborg para que sejam entregues em mãos.

Recebi o resultado do meu pedido de visto permanente e aquela carteirinha tão fabulosa acaba de chegar na minha porta. Eita coisa besta viu? Mandei a papelada em dezembro e em janeiro recebemos em casa um formulário com 4 perguntas bem idiotas (de assinalar com x) que deveria ser respondido por ambos. Mas as perguntas, no caso, eram direcionadas apenas ao Joel: você realmente conhece a Maria Helena? Você mora com ela? Quer continuar esse relacionamento? e a outra questão eu nem lembro, mas acho que era a única aberta do tipo quais os planos para o futuro? As três primeiras perguntas vinham com a opção “sim” e “não”, e “se não, por quê?”. No fim os dois assinamos a tal entrevista. Menos mal, nem precisei comparecer ao Migrationsverket para aquele outro tipo de entrevista ridícula a qual minha amiga foi submetida (e perguntaram a ela em qual lado da cama ela dormia…oO). O que interessa é que agora tenho meu permanent upphålstillstånd.

Essa semana tive um encontro inspirador com uma studievägledare (orientadora vocacional) a respeito das minhas ambições com relação ao Serviço Social na Suécia. Fiquei feliz e muito puta da cara ao mesmo tempo porque ela me confirmou o que eu já descobri faz um mês: para entrar na universidade na Suécia você precisa que o seu diploma do ensino médio seja válido por aqui e o fato de ter um diploma universitário (válido ou não) não conta muito a menos que você queira se candidatar a vagas abertas em cursos extras da grade do Serviço Social. Quando visitei a Vuxutbildningen para conversar a respeito da minha educação na Suécia eles me disseram que tendo o diploma reconhecido eu poderia entrar na Universidade. Ponto. Mas não é bem assim… para entrar na universidade é necessário Sueco nível 2, Matemática nível 2, Estudos Sociais nível 1 e Inglês nível 1. Eu posso pegar o meu certificado de Ensino Médio e tentar validar meus conhecimentos em matemática e inglês – é muito difícil que não sejam correspondentes – o que infelizmente é muito difícil de acontecer em relação aos Estudos Sociais, uma vez que no Brasil não estudamos a sociedade sueca.

Eu poderia ter estudado Samhällkunskap ao mesmo tempo em que estudava o SAS, afinal eu tinha aula uma vez por semana, não iria doer nem um pouco ter aula duas vezes por semana… mas eu nem sabia que eu precisaria dessa merda disciplina também. O lado positivo é que como estudei muita sociologia na faculdade eu talvez possa compensar daí. Dedinhos cruzados.

E pra quê todo o papo de universidade se eu tô com o diploma na mão? Porque para todos os efeitos por meio da universidade posso estagiar e daí meus problemas com relação a) não tenho experiência na Suécia e b) não conheço o sistema social sueco estariam resolvidos. Fiquei muito feliz porque ela (a orientadora vocacional) mais uma vez afirmou que meu curso foi aprovado em  100% e que não preciso complementar, que esse complementação seria só uma forma mesmo de tornar meu currículo mais atraente. Sinceramente, foi a melhor orientação que já recebi nesses meus quase dois anos de Suécia, ela foi clara, tranquila, me mostrou os caminhos possíveis, questionou minhas ideias formadas, plantou outras, assinalou as dificuldades e também os impossíveis que posso encontrar. Saí de lá de espírito renovado e com o telefone para contato de mais alguns locais de trabalho, como substituta (timvikarie) o que acho que será perfeito para começar – e mais fácil de conseguir.

Fácil e fácil porque para cada 5 anúncios de vagas com trabalho social, 4 pedem carteira de habilitação. Não deu nega, já fiz a inscrição pelo site do körkortportalen (portal da carteira de habilitação) e vou gastar um tanto das minhas economias com isso. Afinal de contas, eu to meio devarde e me dá um nervoso ficar esperando um e-mail ou telefone pra entrevista que nem sei pra que lado que me pego. Liguei e tentar vender meu peixe por telefone, mas ainda é muito desconfortável conversa em sueco pelo telefone, e já cansei de conversar com secretárias eletrônicas.

Essa é mais uma das razões pela qual a minha leitura do BBiC não vai para frente: eu lembro que tenho que entrar em contato com fulano e ligo, mas o fulano saiu e eu me programo para ligar mais tarde. Volto para o texto e já perdi o fio da meada, retomo a leitura de algumas páginas para me achar e quando o negócio engata percebo que meu telefone mudou de cores e já corro para ver se é e-mail… estou neurótica.

Sorte que tenho um super viking me ajudando ♥… Ainda assim, ficarei off por um tempo.

Ano novo…

Quando um ano termina e outro começa a gente tem o costume de fazer promessas de ano novo ou apenas de fazer uma lista de desejos para o ano vindouro. Não deixei nenhuma lista com a, b, c ano passado e penso tampouco fazer isso agora entretanto, vou compartilhar meu desejo número um para o ano de 2013.

Eu vou casar esse ano. Gente que doido isso! É maravilhoso. Lindo. Espetacular e… ridiculamente caro. Já me disseram que eu tenho que relaxar, que é só uma vez na vida (e sim, eu entendo porque as pessoas deveriam se casar apenas uma vez na vida e também porquê muitas delas resolvem nunca mais casar outra vez quando por acaso se divorciam: é lindo mas é carooooo!). Meus pais vem para o casório e vão ficar uns dias conosco e meu desejo número um para o ano de 2013 tem a ver com tudo isso, não apenas que o casamento seja uma festa bonita e gostosa como também que meus pais passem um tempo super legal junto com a gente.

Isso me deixa um pouco ansiosa com relação ao meu desejo número dois para o ano de 2013: quero meu emprego como assistente social. Já comecei a ler o conjunto de leis sociais suecas – edição comentada (600 e trá-lá-lá-lá páginas das quais li 10, reli, entendi 2 parágrafos por página… mas eu vou pegar no tranco) e já mandei uns currículos, mas acho que preciso mesmo de um tempo para me familiarizar com termos e com o geral de cada lei para não parecer uma porta na entrevista.

Preciso abrir um parêntese: a Fernanda – do blog Aprendendo a Viver na Suécia – mudou para cá mais ou menos no mesmo período que eu, ela conseguiu a validação do diploma dela (de pedagoga) algum tempo antes do meu, e ela conseguiu emprego agora, depois de lutar uns bons três meses. Isso me enche de esperança! Deixo o relato dela aqui – que contêm ótimas dicas para quem está procurando emprego no geral (e não só na Suécia): Proletária novamente.

Parêntese dois: dizem que o Arbetsförmedlingen oferece aos estrangeiros que tem uma profissão – indiferente se esta é resultado de graduação universitária ou não – um curso de sueco profissional. Não é este o nome do curso, mas eu estou chamando assim porque o objetivo desse curso de sueco em particular seria de auxiliar o estrangeiro a aprender termos e expressões relacionados a sua profissão. Pra variar, não tem para mim: são poucas as assistentes sociais que caem de paraquedas na Suécia e se eu quisesse ter uma espécie de curso geral de sueco profissional (para adquirir uma linguagem mais formal) teria que ir para uma cidade lá nos confins do norte sueco. Sem falar que eu só poderia me candidatar a vaga e aceitar que talvez eu não seria selecionada.

Pra terminar, eu me pergunto porque eu tenho um relacionamento tão ruim com o Arbetsförmedligen: uma handleggare que não tem tempo para mim, cursos que eu não posso frequentar ou que não existem na minha área, programas nos quais eu não me encaixo porque trabalho demais ou de menos – sim, porque você não pode se registrar para isso ou aquilo se você não tem ao menos algum trabalho em vista… Aquele curso (o de sueco profissional) faria um bem absurdo tanto para mim quanto para o meu currículo!! No fim das contas, acho que entendi tudo errado e misturei as bolas legal, me enchi de expectativas com coisas que nunca foram para mim e que não existem, porque, sinceramente, não pode ser perseguição – e se fosse, por que eu?

Voltando ao foco, se eu conseguir o emprego provavelmente não terei férias em menos de um ano… eu me pergunto se as coisas se “casariam”. Não estou sofrendo por causa disso, mas avaliando: meus pais virão e é a primeira vez que eles vão ficar longe de casa e tirar férias de verdade, quero que seja especial para eles… será que consigo conciliar o trabalho novo, preparativos do casório e ser uma boa anfitriã para meus pais? Nem é certo que eu tenha algum trabalho até a chegada deles… mas talvez seria interessante eu procurar alguma coisa de 50% para começar… se bem que eu quero trabalhar 100%… ou continuar assistente pessoal até eles irem embora e usar o meio tempo para me aprofundar no meu livrinho de legislação social sueca… quem sabe frequentar um curso de sociologia e história da sociedade sueca… tantas ideias!

Ano novo, dilemas novos!

*****

Enquanto isso, minha irmã mais velha achou o sapato de casamento perfeito para mim – o que faria minha irmã mais nova ter um ataque!

dois um

Socionomexamem! Vivaaaaaa!

Fonte aqui

Puta palavrão não? Mãe, desculpe aí os termos vulgares… Mas isso tem um significado tão grande que nem sei o que fazer comigo mesma essa semana depois de receber a resposta da Högskolverket (sim, o idioma sueco é cheio de palavrões, no bom sentido…) na terça e…: meu diploma de Serviço Social é válido na Suécia!!!

Isso significa tudo: de repente é como se eu tivesse acabado a minha graduação em Socionom (esse é o nome do curso de Serviço Social na Suécia) e definitivamente, muitas portas vão se abrir; profissionalmente falando. Aqui na Suécia há um curso específico de assistência social (Socialsekreterare) e um curso de Serviço Social (Socionom, como disse). A principal diferença é que quem tem o diploma de Socialsekretarare pode trabalhar como assistente social de prefeitura (para o governo) e ONGs (se não me engano). Quem tem Socionomexamem – como eu agora! =D – pode trabalhar dentro das escolas, do governo, das ONGs, dentro da área hospitalar e etc e até no judiciário ou como curador(a)… isso mesmo: aqui na Suécia o Judiciário não pode designar qualquer um para fazer/prestar serviço de graça não!

Claro que eu to imensamente feliz. Eu até tinha comentado com a Fernanda (do blog Aprendendo a Viver na Suécia) que eu estava com medo de ter o meu pedido negado… eu tive contato com muita gente que teve o pedido negado e teve que começar tudo de novo (inclusive cursar disciplinas suecas de ensino médio para ter a possibilidade de entrar na universidade). Mas olha só a coincidência (ou não): eu e a Fernanda enviamos os pedidos mais ou menos na mesma data (em algum dia de maio) e ela recebeu a resposta duas semanas antes de mim. A Fernanda é formada na área de educação e tem pós (se você é da mesma área dela ou apenas tem interesse de entender toda essa história pode ler ela aqui) e eu não – isso que estava me dando um medinho de não vai rolar, não vai rolar…

A Fernanda até tinha me passado o telefone da Högskolverket para eu entrar em contato, mas eu estava um pouco desanimada de tanto ouvir gente dizer que não tinha conseguido… esperei. E na terça-feira quando recebi o envelope, meu coração tava a mil: recebi três vias e na terceira, um documento com timbre e com letras grandes dizendo que “Sua formação corresponde a  graduação em Socionom“. Fiquei eufórica!

Isso significa duas coisas: primeiro, que a qualidade das universidade públicas brasileiras (apesar de sucateadas) é muito boa. Não estou querendo dizer que a Suécia é um país modelo em educação, que aqui tudo é lindo e perfeito não. Estou dizendo que os padrões suecos de exigência descartam uma grande quantidade de profissionais estrangeiros (que com diploma universitário trabalham de motorista de ônibus, por exemplo) e não só aqueles vindos da África, das Arábias, Ásia e do leste Europeu: profissionais de enfermagem espanholas tem dificuldade em obter a validação de seu diploma universitário aqui. Ou seja, se meu diploma de graduação foi aprovado é porque eu sou pró (é claro) e porque a universidade em que obti a graduação é de qualidade (UNIOESTE gente, campus de Toledo). E pelo que eu entendi, a Cíntia (do blog Minha Aquarela) que teve o diploma válido pela Högskolverket também estudou em universidade pública (UEL, de Londrina), o que reforça ainda mais o que eu to querendo dizer.

Segundo que, mesmo que meu curso de Serviço Social no Brasil não tivesse nada a ver com a Suécia eu não tenho a obrigatoriedade de frequentar nenhum curso complementar. Na carta em que recebi eles me dizem que meu curso apresenta pontuação superior ao curso sueco, e que a sugestão deles é que eu frequente um curso sobre a sociedade sueca e sobre legislação sueca – para que seja mais fácil para mim, e não por exigência deles. Diante disso, povo do meu Brasil que lê esse simples blog: acreditem na educação brasileira, vão para a universidade (de preferência, pública). E agora vem o discurso: nós brasileiros temos que parar de afirmar a todo o momento que nosso país é uma merda, que todo mundo só pensa em futebol e no final da novela das oito (que todo mundo sabe que começa as nove), que a política não tem jeito, que todo mundo é corrupto e blá blá blá. Temos muito o que fazer para que o nosso país dê certo sim, mas podemos começar por aprender a valorizar o que temos (e que sabemos) que é bom: nossas universidades públicas por exemplo.  Se elas são elitizadas e etc isso é problema nosso! Quem é pobre, negro, índio, mulheres e etc tem que ter coragem de gritar e lutar por seus direitos. Eu sou filha de pedreiro e toda a minha família se sacrificou para que eu frequentasse a universidade. Nós podemos, se quisermos, transformar essa situação!

Eu to fora do Brasil por enquanto, mas eu pretendo voltar e com a experiência que obtive aqui ajudar a fazer o Brasil ainda melhor. Isto porque a Suécia é um país de primeiro mundo e aqui há muitas experiências que funcionam mil maravilhas? Talvez… mas o meu pensamento é que simplesmente às vezes é mais fácil encontrar soluções quando “estamos de fora” e, independente da sociedade sueca ser assim ou assado, cada experiência abre nossos horizontes e faz desabrochar a criatividade.

Discurso bonito né? Eu quase podia pensar numa carreira política… mas agora eu vou estar muito ocupada aproveitando para melhorar a minha vida com o meu diploma de universidade pública brasileira que é válido na Suécia!

Quem sabe num futuro então… não? Ô meu pai!! hahahaha…

De Assistente SOCIAL para Assistente PESSOAL

O assunto de hoje é trabalho!! Mas primeiro: estou experimentando o novo tema do blog e gostaria que o pessoal deixasse nos coments um “o que estou achando desse novo visual”. Ainda gosto mais do tema antigo mas ao mesmo tempo acho que esse aqui é mais simples tanto no que diz respeito a navegação quanto no que diz respeito a facilidade de acesso e de visualização dos posts. Digam se ficou mais fácil comentar também!

Så där… (então é assim) em julho do ano passado eu consegui o meu primeiro emprego aqui na Suécia – que foi como Marinete (faxineira) – e quase que na mesma semana (acho que apenas um 3 ou 4 dias depois) consegui fazer um teste como assistente pessoal, no que eu tenho trabalhado até hoje. Às vezes quando alguém me pergunta o que eu to fazendo aqui eu digo “Sou assistente pessoal” e o fulano já responde “Que bom, tá trabalhando na sua área então…“; e simplesmente não: assistente SOCIAL (socialsekreterare em sueco) é uma coisa, e assistente PESSOAL (personlig assistent em sueco) é outra. .

Talvez essa confusão tenha a ver com o fato de que a Suécia não fica na Suíça mas mesmo assim ainda me perguntam se o chocolate aqui é bom e se eu já falo alemão… Primeiro que para ser assistente social (tanto no Brasil quanto na Suécia) é preciso obter um diploma de bacharel em Serviço Social – no Brasil – ou de Socionom – na Suécia. Para ser assistente pessoal não é necessário um curso universitário mas sim paciência e vontade de trabalhar com pessoas doentes, idosas e com deficiência (física e/ou mental) – ou seja, assistente PESSOAL está mais para a área de saúde.

Cursei a universidade durante 4 anos e obtive meu diploma de Serviço Social, tendo trabalhado durante 5 anos como assistente social de prefeitura. Assistente social definitivamente não cuida de pessoas, assistente social é para auxiliar indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social a ter conhecimento e acesso aos seus direitos tendo como objetivo maior a superação da situação de vulnerabilidade/risco. Mais ou menos grego, não? Certo, vamos focar somente no fato de que assistente social não cuida de pessoas e que não trabalha individualmente.

Assistente pessoal é só simplesmente alguém para cuidar de uma pessoa. O assistente pessoal vai estar ao lado de um indivíduo e ajudar ele/ela a realizar as tarefas do dia-a-dia: fazer comida, comer/beber, organizar a casa, ir ao supermercado, tomar um ônibus, ir ao banheiro, tomar banho, se vestir, tomar remédios na hora e quantidade certa.  O trabalho que um assistente pessoal vai desenvolver depende somente do grau de dependência da pessoa com quem ele trabalha (que recebe o nome de brukare): algumas pessoas recebem assistência de apenas algumas horas por dia, enquanto outros dependem de assistentes 24 horas.

Não penso que seja difícil ser um assistente pessoal na Suécia. Para conseguir um trabalho como este basta falar sueco e ser simpático (consegui meu trampo mais por ser simpático do que por dominar a língua =). Além disso, existe uma rede de organizações que trabalham em benefício do brukare, assim quando este precisa de órteses e próteses; ir ao dentista, médico ou psicólogo; trocar a cadeira de rodas ou consertar o óculos basta ligar para a pessoa responsável e tudo será arranjado. Uma dessas organizações é o Hjälpmedelcentralen (centro de aparalhos de ajuda – mais ou menos), que trabalha com as cadeiras de rodas (rullstol), lampadas de laser (peklampa) que são utilizados pelos deficientes que não podem falar e usam a linguagem “Bliss” e com o “lyften” (um aparelho que parece um guincho utilizado para auxiliar os assistentes a mover o brukare da cama para a cadeira de rodas, por exemplo, de forma que não é necessário ser forte e carregar um indivíduo que não pode se sustentar nas próprias pernas), entre outras coisas.

Ainda que o brukare seja muito doente e extremamente dependente sua assistência será garantida pelo governo. O atendimento a saúde não é gratuito na Suécia, mas as consultas tem um preço acessível a todos e se você tem algum tipo de doença ou o quê que te leva a gastar mais de mil coroas por ano com o atendimento de saúde você recebe o dinheiro de volta por meio do imposto de renda; ou por meio de um cartão chamado “frikort” deixa de pagar pelas consultas a partir do momento em que o cartão mostra que a marca de mil coroas foi alcançada. Existem taxis especiais para usuários de cadeiras  de rodas (färdtjänst), e esse tipo de taxi tem um preço fixo e  bem menor do que os demais. Ainda, os assistentes pessoais não são pagos pelo usuário, e sim pelo INSS sueco (Försäkringskassan).

Eu já enviei os meus documentos da graduação na universidade traduzidos para a Högskoleverket e só estou esperando a resposta deles para tentar conseguir o meu diploma como assistente social por aqui. Para isso, preciso também terminar o SAS 2, o que vai acontecer talvez em dezembro desse ano. Então, não há pressa em obter a resposta da Högskoleverket, pelo menos ainda não.

Fica talvez para o ano que vem voltar a ser assistente SOCIAL e deixar de ser assistente PESSOAL…

Profissão: Assistente Social

Tem algumas coisas que a gente passa como estrangeiro que, simplesmente, não tem noção: ontem tava no trabalho com o Zé (tipo uma escola, uma APAE) e ele queria uma imagem da internet; fui perguntar para o pessoal qual computador a gente poderia utilizar para isto e a Sra. Monitora veio com essa “Você sabe lidar com computadores?”! Na hora me senti uma pimenta mas respirei fundo e deu um simples sim com um sorriso – meu sorriso anda tão falso que eu poderia trabalhar para uma agiota – mas no fundo a idéia seria gritar.

Eu ando meio sensível com essa questão das minhas habilidades “profissionais”. Eu sou assistente social e trabalhei com isso por cinco anos, mas quando o gato come a “língua da gente” simplesmente não dá para mostrar o que você é e sabe com tanta facilidade como quando temos a língua no lugar. Então chega uma Sra. Monitora e faz uma pergunta simples (mas ridícula ao mesmo tempo) e eu entro direto no modo “combate”. Agora eu penso que ela poderia ter perguntado isso simplesmente porque ela não poderia encontrar uma imagem na internet, redimensionar, recortar – se preciso e imprimir; mas na hora me deu uma “reiva danada” e tudo o que eu queria era gritar: “hallå! Estrangeiro não é sinônimo para “retardado”!” Não que eu pense que pessoas que não podem entender computadores sejam retardadas, mas qual é o indivíduo com menos de 30 – 35 anos que não pode mexer com esse trem?????

Por um tempo em que trabalhei na Prefeitura em Maripá tive uma máquina muito velha com XP instalado. Isso significa um computador muito lento, que travava muito e que sumia com meu trabalho volta e meia, quando não cortava os downloads e uploads que eu tinha de enviar pela internet. Eu sempre tinha de fazer as coisas duas vezes e meia para conseguir algum resultado. Durante esse tempo falei com a minha chefe sobre isso – porque os computadores seriam trocados, mas processos de licitação duram séculos – e só informei que tentaria melhorar a máquina. Sei muito pouco sobre software e hadware, mas entrei para o Clube do Hardware  e comecei a mudar uma série de configurações do sistema: bons resultados, ótimo; mau resultado, desfazia o processo ou esperava… enfim “eu” iria ganhar um computador novo em alguns (muitos) meses.

Quando sai do meu trabalho sai apenas porque iria mudar. Eu tinha uma vida muito simples e tranquila e no meu mundo trabalhar na prefeitura era algo muito bom: sábado e domingo livres, ficava por dentro de praticamente tudo que era novo dentro da área do Serviço Social – Serviço Social no Brasil ainda é do governo – de graça e sem esforço, salário bom (para quem é sozinho)… O maiores entraves sempre foram a falta de recursos e picuinhas políticas: quando o Lula se tornou presidente conseguiram aprovar o Sistema Único de Assistência Social (política que estava sendo cozinhada há algum tempo, para variar) e isso vinha – acredito que ainda vem – ajudando a tornar o papel do assistente social mais claro e definido dentro das partições públicas.

Hoje li no Facebook que aprovaram uma lei para que as escolas públicas contem com uma comissão formada por assistente sociais e psicólogos. Que lindo… não há nem professores suficientes nas escolas, agora vão colocar um assistente social e um psicologo para resolver os problemas – que na maioria das vezes são administrativos ou familiares – dentro da escola. Bom para nós assistentes sociais que “conquistamos” mais um campo de trabalho de graça; ruim para nós assistentes sociais que vivemos para descascar o abacaxi dos outros.

Talvez seja importante, mas não agora. Não temos assistentes sociais trabalhando nos juizados de menores, na verdade não há assistentes sociais trabalhando no judiciário brasileiro – eu e mais outras muitas assistentes sociais fomos forçadas a trabalhar de graça para a Comarca de Palotina, e isso não acontece apenas na Comarca de Palotina – Paraná – Brasil… Nem um juiz sabe qual o papel de uma assistente social, o que esperar do restante da população? Assistente social não é para resolver problema de pobre, assistente social não é para dar o bolsa família ou cesta básica, assistente social não é definitivamente para dar qualquer coisa para gente miserável: assistente social é para fazer valer o direito de qualquer cidadão, seja ele pobre ou não – o caso é que no Brasil o foco está somente nessa área da população.

Aqui na Suécia assistente social atende criança, adolescente, homem, mulher, velho, homossexual, dependente químico e estrangeiro, indiferente de “classe social”. E não é porque é Suécia, porque é Europa, ou porque é primeiro mundo: é porque aqui se tem respeito para com o profissional assistente social, e está muito claro o que é da alçada dele ou não. Não existem assistentes sociais que trabalham de graça para o judiciário sueco aqui não.

No mesmo setor que eu trabalhava havia outra assistente social chamada Angela e ela sempre repetia que “quando alguém não sabe o que fazer com determinada situação, empurra para o Serviço Social”. No caso das escolas, é isso que está acontecendo: cada vez mais as crianças são agrupadas dentro de “sintomas” – esse é hiperativo, esse é disléxico, vamos ver… esse é um pouco avoado, mas vamos colocar ele no grupo “dificuldade de aprendizado”…; resultado de traumas de “famílias desestruturadas”. Vamos tomar vergonha na cara meu povo, desde quando mãe e pai com preguiça de educar o filho é família desestruturada? Ou pior, desde quando somente as famílias pobres é que são famílias desestruturadas?

Exatamente isso, só as famílias pobres tem problemas, e são para os pobres que nós, assistentes sociais, trabalhamos e continuaremos trabalhando. Ou tem algum filho de deputado/senador estudando em escola municipal/colégio estadual? Se ter uma equipe “multidisciplinar nas escolas”, formada por assistente social + psicólogo, é assim tão bom por que as escolas privadas brasileiras não precisam de uma equipe dessas? Por que a lei será aplicada para as escolas públicas? E por qual salário, minhas colegas de profissão, seremos submetidas a isto? E vamos trabalhar as 30h da lei que foi aprovada/reprovada…? E nas escolas que funcionam 60h por semana, quantas equipes existirão? Por quantos alunos cada assistente social e psicóloga será responsável?

Tem gente comemorando no Brasil, e eu não entendi porquê.