Diários de bicicleta

Três palavras para definir Göteborg: chuva, frio e reformas. Reforma de tudo: prédios antigos, dentro do shopping, nas ruas, nos trilhos de trem. A cidade de Gotemburgo (Göteborg é o nome sueco, Gothenburg o nome em inglês) não economiza com asfalto, rodovias, ferrovias, ciclovia, calçadas e tudo o mais: há placas e mais placas espalhadas por toda a cidade – que está cheia de máquinas, buracos e homens trabalhando para todos os lados – com dizeres como “Reforma dos trilhos em Gamlestan. Prazo de entrega: agosto de 2012”.

Na verdade, pra os lados de onde eu moro os trens elétricos pararam de circular desde 17 de junho justamente por causa das reformas entre Gamlestan e Angered. Pra ir para a cidade ou para ir para o mercado agora eu preciso tomar ônibus, o que me custa o dobro do tempo tanto porque o ônibus vai mais lento, quanto porque o ônibus percorre um caminho mais longo e quanto porque os ônibus não circulam com a mesma frequência do trem.

Vamos assim até agosto (mesmo) e por isso tenho usado a magrela: até o mercado são 10 minutos e até Gamlestan são 30. O lado positivo: nunca chego suada porque moro no morro e tanto para o lado do mercado (Angered) quanto para o lado da cidade (Gamlestan) vou só na banguela. Já para voltar… precisa coragem viu?

Ainda tô aprendendo a usar a bike aqui e apesar de a cidade ter ciclovias muito boas e bem sinalizadas no primeiro dia com a magrela rumo ao desconhecido me perdi: a ciclovia acabou e fiquei sem entender se deveria seguir a estrada mesmo ou o quê… fiz uma volta enorme e depois achei a estrada de novo. No caminho de volta para casa percebi que a ciclovia está interrompida apenas cerca de 300m; coisa que será resolvida em pouco tempo: Gotemburgo (assim como a maioria das cidades suecas) tem projetos para melhorar as ciclovias como forma de incentivar os cidadãos a usarem mais a bicicleta. Ainda que com algumas falhas, pedalar mesmo sem saber o caminho é realmente muito seguro: a cada cruzamento existem placas (às vezes  um pouco escondidas) orientando que o centro fica pra lá, o bairro tal para lá também mas o bairro X é para cá.

Outra coisa é que aqui todo mundo que sai de bike sai buzinando para todo o lado: existem marcas no caminho que apontam qual o lado dos pedestres e qual o lado dos ciclistas; invadiu o povo não tem dó e usa e abusa da buzina. Eu ainda sou meio insegura, às vezes quase paro a bicicleta para esperar alguém passar – acho meio desagradável aquele “tlim-tlim” constante.

Preciso providenciar três coisas para minha vida de ciclista ficar melhor: um bom  conjunto de calça e jaqueta a prova de vento e água (chove e chove aqui…); um banco melhor para a magrela e uma luz – que funciona a base do dínamo (se eu fosse sueca adicionaria a lista um capacete e um colete amarelo daqueles reflexivos!). Agora temos luz do dia até as 00 – isso mesmo, meia noite! Ontem voltando do trabalho as 22h ainda podia ver uma pontinha do sol que não tinha se escondido no horizonte – mas a partir de agora a luz vai diminuir e diminuir até que em dezembro a noite vai cair a partir das 15h.

Mas daí vai estar nevando (talvez) e o trem vai estar funcionando de novo – ainda bem!!

Göteborg News

Se um dia eu começar um post com “esse blog ficou às moscas porque eu to sem tempo” é porque estou mentindo. Eu tenho tempo, mas às vezes quero só ficar de boa com o Joel, ou sair – quando tem sol aqui em Göteborg a gente tem mesmo de aproveitar, correr para fora o mais rápido possível e lagartear porque ninguém sabe ao certo quantos 5 minutos esse sol vai durar – estou me esforçando mais para encontrar outros suecos, fazer amizade (não rola se a gente fica grudado no Brasil por meio do computador); e só e simplesmente, sofro de um incurável complexo de Macunaíma. Muitas vezes até penso  “hummm agora dá um tempinho para escrever no blog” mas no momento seguinte é apenas: ai que preguiça!; o que significa mais um dia sem posts.

Como eu não vou conseguir botar a prosa em dia, vamos de rapidinhas:

  • Tive uma apresentação oral no SAS ontem. Coisa bem simples, apresentar uma pequena análise do livro “Simon och ekarna” que – eu consegui gente! – terminei de ler na semana passada. Apenas 5 minutos de fala com ajuda de power point para salientar algumas questões da história, nada de contar o resumo do livro.  Fiquei quase maluca, mesmo, estava tão neuroticamente nervosa que cheguei a passar a noite em claro. Fiz e refiz a apresentação 5 vezes, o Joel teve de me assistir – e me ajudou um bocado com dicas; fiz e refiz o texto que deveria entregar juntamente com a apresentação; suei frio e estava tremendo de nervoso. Seria a primeira vez que eu faria uma apresentação oral em sueco… e deu certo. Tipo, não foi assim uma Brastemp, mas eu consegui não gaguejar muito e nem tremer.
  • O SAS agora não é mais SAS A, B e C porque a partir do outono o SAS vai passar a ter o nome de SAS 1, 2 e 3. Por esse estranho motivo quem termina o SAS A agora não vai diretamente para o SAS 2 e tem que fazer a matrícula para o curso até 21 de maio.
  • Chove muito em Göteborg e a metereologia informa que o tempo continuará fechado por pelo menos mais 10 dias. Todo mundo sabe que a metereologia não é uma ciência exata – ainda bem! – mas no caso de Göteborg… O mais engraçado de tudo é que o otimismo ainda está lá em cima: hoje mesmo vi um cartaz com os dizeres “A primavera mais linda é aqui”.
  • A Västraffik (empresa que opera o transporte público em Göteborg) tá de mal comigo: domingo levantei as 5h30min da matina para sair trabalhar as 6h e poder estar no trampo às 7h porque nos fins de semana os trens e ônibus tem um horário especial e não circulam com tanta regularidade como nos dias de semana. Isto posto, estou eu sob o frio de 3 graus no ponto esperando o spårvagn que vem mas não para. Cheguei 20 minutos atrasada. Ontem voltando para casa depois do trampo cheguei a estação as 22h e perdi o trem que deveria sair às 22h01 (eles são “relogiosos” com o tempo). Parti para o ponto de ônibus, que chegou três minutos atrasado. Como eu teria de fazer uma troca no meio do caminho, adivinhem? Perdi o trem de novo e cheguei em casa 15 minutos mais tarde.
  • To tentando comprar uma bicicleta. Usada, claro, porque bicicleta aqui custa o olho da cara. Todo mundo usa um site de compra e venda (meio que estilo do Mercado Livre) que chama Blocket. Já liguei para no mínimo 3 anúncios e ninguém responde nem liga de volta. Outros tantos já venderam a bike que estava lá na página – e ainda está! Recebi uma dica da Maíra de Stockholm: a polícia vende bikes que foram deixadas aqui e ali e nunca foram reclamadas.
  • Outra opção seria fazer uma conta e emprestar bicicletas. No centro da cidade tem um monte de estações com bicis (lacradas, obviamente) e você pode emprestar uma magrela e pedalar por 30 minutos sem pagar nada por isso. Para tanto você precisa apenas abrir uma conta que custa 250koroas (mais ou menos 80pilas) para ter o direito de emprestar as bikes pelo período de sete meses. O problema é que as estações com as bicicletas existem apenas no centro da cidade!
  • Uma Caipira na Suécia informa: ser vegetariano pode fazer mal para a pele. Calma, nada de pedras que eu explico: fui fazer uma consulta (de novo) por causa daquela marca sem nome que ainda tenho na bochecha. Dessa vez foi uma médica muito gente boa que me explicou um monte de coisas e disse que o que eu tenho é rosácea – uma doença facilmente confundida com acne – que piora, entre outras coisas, quando o indivíduo tem falta de vitamina B. Dai ela disparou: você é vegetariana? Porque vegetarianos tem uma tendência de apresentar falta de vitamina B no organismo… e eu tive um insight: desde que mudei para cá deixei de comer a mesma quantidade de carne que comi a minha vida inteira. De certo modo, como melhor porque inclui peixe a minha dieta, mas eu vivi um período de comer nada que não fosse massa – tão de saco cheio de peixe e carne com gosto de papel que eu estava. Claro que enquanto eu estive no Brasil enchi a pança de churrasco, e quando voltei para cá a marca estava menos vermelha – eu achando que havia sido a pomada. Depois piorou. Agora tô feliz com a médica – que foi supimpa – e apesar de ter recebido mais uma pomada (lá vamos nós de teste outra vez!) ao menos to satisfeita de saber o nome do boi.
  • Outra coisa é que ela me deu um puxão de orelha porque não uso protetor solar. Claro que sempre usei no Brasil, mas desde que mudei para a Suécia, sei lá, a gente não sente o calor do sol aqui. Ela disse que mulheres que tomam anticoncepcionais estão mais sujeitas a manchas na pele e devem sempre usar protetor solar com fator mínimo de 30 levando em consideração que o filtro deve ter proteção tanto contra UVA como UVB.

Por hoje é só pessoal!