Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #27

Algumas atualizações rápidas e rasteiras.

Devido aos milhares de nove pedidos para que eu não feche o blog agora, vou continuar postando meus blá blá blás e desabafos da madrugada, ao menos, for a while. Eu realmente não gosto dessa coisa de blogar pela metade e é assim que me sinto ultimamente: não consigo terminar alguns rascunhos de há muito tempo, teve gente que me pediu mais dicas para estudar sueco, não respondo os coments. Ultimamente me sinto fazendo muita coisa pela metade e isso prova que estou abraçando mais do que posso dar conta. E meu tempo voa! Preciso no mínimo de duas horas para cada post. Och det är mitt fel – a culpa é minha. Eu gostaria de ser uma pessoa  que não cobra tanto de si mesma e que simplesmente posta uma foto do cachorro e voilá! bloguei. Antes que alguém fique brabo, não tenho nada contra gente que posta três linhas e acho mesmo é que essas pessoas é que são felizes. É que eu não consigo, primeiro porque não sei tirar fotos decentes e segundo, não me dou essa liberdade. Comecei o post dizendo que seriam atualizações rápidas e rasteiras mas dá uma olhada para esse parágrafo?

Falando em gente que está a caça de dicas de sueco, deem uma passada no blog da Rúbia – Carioca da Clara Suecando. Quem quiser uns áudios de sueco deixe um comentário com o nome do usuário da conta do Drop Box que eu compartilho; é o melhor que posso fazer por enquanto.

E falando em estudar, recebi a resposta sobre a minha candidatura para o mestrado e começo a estudar em agosto. Inglês. Como eu já suspeitava, meu inglês foi considerado insuficiente – não há o que chorar, é verdade; e antes que eu alcance o nível Engelska 6 posso esquecer a universidade. Sinceramente, me deu quase um alívio: eu realmente não tô afim de cursar universidade agora, ainda me sinto muito insegura com meu sueco e sendo assim, com sueco mais ou menos e inglês mais ou menos eu só sofreria. A gente já recebe muita merda nessa vida de graça, eu não preciso adicionar umas pitadas a mais, obrigada. E aproveitando o ensejo e para evitar futuras surpresas vou estudar o SAS 3 também. Espero que… nem vou esperar nada.

Depois de muita enrolação faço o segundo curso obrigatório para a carteira de habilitação semana que vem. Pra quem queria fazer a carteira em um mês e começou em março… tá longe ainda. Mas estou estudando o livro teórico – körkorts… alguma coisa. E nessas horas é que dá para perceber o quanto meu vocabulário em sueco é pequeno; pá… são muitas palavras que eu não tenho a menor ideia do que significam. Tenho que ler mais e ouvir mais rádio.

Agora tenho um carro no meu nome porque o seguro é mais barato. Estatisticamente, mulheres são muito mais cuidadosas no trânsito do que os homens, apesar de que comprovadamente eles são melhores na hora de estacionar.

Continuamos trabalhando a todo o vapor com a casa e quase todo dia vem gente ajudar. Uma das coisas que me deu medo quando o Joel disse que queria mudar para o “campo” foi que a gente ficaria isolado. É verdade que alguns amigos que víamos antes agora a gente não vê com tanta frequência, mas de outro lado a casa está sempre cheia. Cheia de gente e cheia de coisas a fazer. E esse é um dos pontos em que tenho que aprender a relaxar…

Cuidar de uma casa de quase 100 metros quadrados não é mesmo que cuidar de um apê de quarenta. Parece que eu nunca consigo terminar de limpar a casa – e sim, agora estou falando igualzinho a minha mãe. Ainda mais com reforma e com tanta gente que vai e vem, que entra e sai, tem dias que eu simplesmente me pergunto de onde vem tanto pó se nesse país chove quase todo dia?

Ok, eu não vou reclamar do clima não porque apesar de frio – as temperaturas estão na média dos 15 graus C – os dias estão ensolarados e se não venta dá para se esbaldar no sol de camiseta. E os dias estão super claros, com luz do sol até quase meia noite e o dia começando a despontar as 2h30m, 3h da matina. Isso dá um pique de deixar tudo bonito: tirar as teias de aranha, plantar flores, trocar as cortinas…

Me empolguei tanto que até fiz aqueles cartões de clientes tanto no Ikea como na Class Olsson. E uma lista! Que será providenciada aos poucos afinal, não há salário que aguente quando se é substituto.

Falando em emprego… conversei com minha handläggare sobre a nossa relação por cartas. Ela me disse apenas que está seguindo o protocolo e… cara, eu tenho muita dó de todo mundo que está inscrito no A. Se o protocolo deles é desse nível, não é de se estranhar que muito poucos estrangeiros tenham emprego. E aquele relatório que ela disse que eu teria que enviar, eu entendi tudo errado e recebi outra bronca sutil – mas até fiquei feliz, porque dessa vez a bronca veio por e-mail. Em todo o caso, dá para perceber porque eu e o A fazemos uma dupla de sucesso: eles com um protocolo super moderno e eu que não entendo nada. Tenho até amanhã para enviar um novo relatório… adivinha? Nem comecei.

Parei de tomar anticoncepcional porquê mais uma vez descobri que o anticoncepcional que estou tomando é uma bomba: troquei um anticoncepcional que me fez ficar com o rosto manchado por outro que pode me dar trombose. Quem quiser ler mais sobre isso é só usar o Google e as palavras chave Yaz e trombose. 27 mulheres canadenses morreram e há indícios de que o anticoncepcional que elas usavam (Yaz) pode ser  a causa da morte – por tabela. Entre os efeitos colaterais dos anticoncepcionais da marca Bayer (Yaz e Yasmim) há o alerta sobre trombose, sendo que a vigilância sanitária – tanto nos EUA como na Europa – já vinha alertando sobre esse “detalhe” desde 2011. O que me assusta é que mesmo que as agências de controle emitam os alertas os medicamentos continuem sejam receitados.

Mas eu to bem e a vida continua, semana que vem tem Midsommar e logo logo meus pais estão aqui! Com minha irmã mais nova a tiracolo. Eu me caso mês que vem e quase nem posso acreditar que o tempo passou tão rápido. Ainda nem decidimos por completo o menu do dia porque o chef do local da festa é tão enrolado quanto eu. Nem escolhemos o bolo…

E tipo, já falei que estou com torciolo de novo? A segunda vez no último mês…

 

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Indiana Joel e Maria Jones em busca do poço perdido

Tantanratammmm! Tantarammm! Tantanrantamm! Tantanrantantam!

Tantanratammmm! Tantarammm! Tantanrantammm-tarantammm-tarantammm- tarantam!

Ok, isso era para ser aquele clássico de John Williams que ficou extremamente famoso como tema do sucesso do cinema Indiana Jones. Quem não lembra da trilha sonora precisa por o vídeo do You Tube abaixo para rodar antes de ler o post. Quem lembra pode cantar usando a letra (super fiel) que eu deixei acima. =)

Lembram que semana passada eu falei sobre os problemas de fungos/mofo que acometem as casa suecas? Muito obrigada a todos os que me mandaram um alô desejando sorte no combate aos fungos, mas graças a Deus esse não é o caso – ou melhor, ainda não. O fato é que como citei naquele post, algumas medidas de prevenção tem que ser tomadas caso alguma fonte de umidade seja detectada, e foi assim que começou a nossa aventura.

Nossa casinha foi construída na década de 70 e na época o plano era construir uma casa de dois pisos. O projeto inicial não foi aprovado e por isso o pessoal encontrou um jeitinho para o problema: construir uma casa com um porão (källare). No terreno há uma grande rocha meio arredondada que foi explodida e trabalhada de modo a formar uma espécie de “caixa” para a casa. Olhando de frente a casa parece ter um piso só, olhando de trás e de lado dá para ver que são dois. A “terra” que circunda a casa é na verdade uma grande rocha.

casinha

Naquela época ainda não era possível acoplar o sistema de abastecimento de água da casa ao sistema de abastecimento de água da kommuna (município). Assim sendo, foi feito um poço (artesiano) e foi instalada uma bomba d’água dentro da casa, no porão.

O tempo passou, o porão foi aos poucos se transformando em um pedaço da moradia e a bomba foi ficando velha. Em março descobriram um vazamento na bomba e isso significa problemas: água=muita umidade e muita umidade pode ser igual a fungos. Teríamos que trocar a bomba d’água, e isso era para ontem.

Contactamos o encanador (cano em sueco é rör [ett rör], e encanador rörmokare) que disse que precisávamos achar o poço (brunn – en brunn) para verificar o sistema de encanamento da casa e instalar uma espécie de bomba d’água mais moderna que fica dentro do poço. Sinceramente, eu sei lá se isso é impressão minha mas acho que no Brasil já se sabia (há 40 anos atrás) que as bombas d’água funcionam melhor dentro do poço. E isso que nem temos problemas com mofo por lá (depois o Brasil que é subdesenvolvido).

Em todo o caso, nada disso seria algum problema se alguém soubesse onde o poço estava… pois o poço em questão estava enterrado, sem nenhum tipo de marcação. Não encontramos nenhuma nota fiscal da empresa que fez o poço e nem um mapa que pudesse indicar onde o poço estava. O ex dono da casa disse que achava que o poço estava em uma das esquinas da casa, próximo a janela da cozinha. Sabíamos – com certeza – apenas que a bomba está (dentro da casa) a uma profundidade de 180 cm abaixo da terra (se pensarmos no lado de fora) e que poderíamos cavar para seguir os canos para descobrir onde o poço estava. Conversamos com alguns vizinhos, nenhum deles sabia dizer onde o poço estava, apenas que normalmente o poço ficava a uns quatro metros de distância da casa. Fazer buracos de 1,8m de profundidade até os canos e depois continuar seguindo por possivelmente quatros metros… nada mal.

Fomos eu e Joel fazer uns buracos no quintal para tentar achar os canos e encontramos… pedras. Muitas pedras. Muitas pedras grandes. Provavelmente foram resultado da explosão da rocha que o pessoal não soube o que fazer e que alguém teve a ideia de jerico de colocar ao redor da casa – assim como quem perfurou o poço e instalou o encanamento teve a ideia de jerico de esconder o poço. Tudo bem, a ideia de seguir os canos não parece viável, afinal.

Alugamos um detector de metal, acreditando que o poço provavelmente teria uma tampa de metal e… nada. O treco “bipou” como louco o quintal inteiro, menos no local em que o ex dono da casa disse que provavelmente encontraríamos o poço. Enquanto isso, a bomba continuava vazando água dentro da casa e era só uma questão de tempo para o problema se tornar um problemão.

Well, grandes problemas exigem grandes intervenções. Alugamos um brinquedinho para acabar com a palhaçada.

Alguém aí acha que o Joel se divertiu?

Alguém aí acha que o Joel se divertiu?

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Só para dar um close no tamanhinho das pedras.

E, voilá! Eis que encontramos o poço!

Que tampa de metal que nada... a mais ou menos um metro embaixo da terra

Que tampa de metal que nada… a mais ou menos um metro embaixo da terra

O rörmokare vem na quarta instalar a bomba nova. Encontramos o poço perdido e estamos livres da ameaça terrível dos fungos! Eeeeee! É certo que também destruímos o quintal, mas tudo porque além de usarmos a máquina para encontrar o poço começamos o trabalho de drenagem. Mas essa já é outra história.

Uma coisa eu tenho certeza: colocarei uma placa bem grande (brunnen ligger här) para que ninguém, no futuro, xingue as pessoas que trabalharam com esse poço como eu xinguei nesse mês de abril e maio. Se o que dizem é verdade – que quando alguém fala mal de nós ficamos de orelhas quentes – algum idoso por aí ficou com as orelhas queimando!

Para finalizar, deixo vocês com um poema:

No meio do caminho

No meio do jardim tinha um poço
tinha um poço no meio do jardim 
tinha um poço
no meio do jardim tinha um poço. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do jardim 
tinha um poço 
tinha um poço no meio do caminho 
no meio do caminho tinha um poço

(Paródia do poema “No meio do Caminho” de Carlos Drummond de Andrade).

Villa, Volvo, Vuvve

Há um ditado sueco que diz que você se torna oficialmente adulto (vuxen) quando consegue ter os três v’s: morar numa villa, ter um Volvo e um cachorro (vuvve). Coincidentemente ou não, vuxen também começa com v.

Uma villa sueca não é o mesmo que uma vila no Brasil e sim uma casa. A bem da verdade eu não tenho certeza se a villa deve ser um tipo específico de casa, sei apenas que um bairro onde há casas e não prédios de apartamentos é conhecido como villa området; uma casa é en villa (não confundir com o verbo descansaratt vila); ou muitas casas, flera villor. Em todo o caso, eu moro numa villa området em uma pequena villa.

Morar em uma casa nos abriu uma série de oportunidades que eu não havia imaginado. Desde quarta-feira, por exemplo, estamos com o cachorro dos pais do Joel, a Zemta – essa cadela muito simpática que está comigo um tempão na foto do meu profile do blog . Eles foram viajar e não teriam ninguém que pudesse cuidar da vuvve, e nós aproveitamos o fato para dar uma treinada (ando azucrinando o Joel com a ideia de adotar um animal de estimação). É uma coisa maravilhosa! Um cachorro muda todo o astral de uma casa. Já fui dar belas caminhadas com a Zemta, apesar da chuva da quarta e quinta-feira o fato de termos que sair com ela já nos rendeu a descoberta de mais um lago próximo de casa, apenas quinze minutos de distância. Além do quê é imensamente efetivo ter um vuvve para combater o sedentarismo, e essa pessoa que vos escreve aqui tem chumbo na bunda e um imã em sofás, cadeiras e, acima de tudo, na cama.

Então essa semana algumas coisas engraçadas aconteceram… Nosso carro foi riscado (há algum tempo) e o Joel resolveu aproveitar a cobertura do seguro e reparar a obra de arte do sem noção que passou uma chave ou qualquer coisa em quase toda a lateral esquerda. Como o risco cobria as duas portas o reparo demoraria uma semana para ficar pronto mas, nada de pânico, pois a cobertura do  seguro nos dava a possibilidade de alugar um carro por um preço simbólico por dia. O Joel reservou a opção mais barata um veículo do mesmo porte mas quando foi retirar, surpresa! Nenhuma outra opção estava disponível a não ser um Volvo. Como o pessoal da locadora de veículos não tinha a disposição o carro que o Joel havia solicitado ficamos com o Volvo (claro que pagando pelo valor estipulado na reserva) – e eu fiquei muito feliz. Sei lá porque brasileiro é bobo assim com carro, mas o Volvo que nos “emprestaram” ainda cheira a novo…

Pegaram o lance? Somos um casal oficialmente adulto – na definição sueca. Ao menos por uns dias…

A villa e o Volvo!

A villa e o Volvo!

Zemta. Ela é tímida e não gosta de tirar fotografias... é só ter a máquina fotográfica na mão que ela se esconde...

Zemta. Ela é tímida e não gosta de tirar fotografias… é só ter a máquina fotográfica na mão que ela se esconde…

A "dona da villa" e o vuvve.

A “dona da villa” e o vuvve.

Numa pose melhor em outros carnavais...

Numa pose melhor em outros carnavais…

Mudei!

Deixei meu bairro de estrangeiros barulhentos e coloridos para cair em uma vila bem sueca. É sinistro. E tipo, uma vila mesmo, tenho quatro vizinhos e  ouço o sino das seis horas tocar. Mas curti muito isso!

No sábado juntamos uma galera que ajudou a carregar nossos móveis – que pareciam quase nada, afinal, quando se mora em 40m quadrados a coisa deveria ser simples, certo? Errado! Precisamos de três viagens até o trem ser completo… Adivinhem só quem é que estava no meio dessa galera? A Vânia do “Diário de uma Teimosa” e o maridão dela! Um muito obrigado super especial para vocês dois!

Depois de todo o carregamento e descarregamento olhei para todas aquelas caixas e a bagunça e tudo parecia tão surreal. Todos os meus móveis em uma casa. E tipo, eu tenho quintal agora.  E muitas caixas para organizar! Nem sei onde estão todas as minhas roupas e minha sorte é que não trabalho até quarta feira. Enfim, parece incrível, decidimos meio de supetão e agora é real: temos uma casa.

Temos e temos pois não compramos. A história  é longa e os detalhes desnecessários e para simplificar a coisa toda mudamos porque “alugamos” a casa por um ano. Alugar não seria bem o termo, mas tudo é meio enrolado. Certinho, ao modo sueco, mas enrolado. Na verdade, temos um acordo com o dono e dentro dos termos do nosso contrato podemos mexer na casa durante esse período, trocar papel de parede, pintar, fazer pequenos e grandes reparos e um monte de outros etc. E queremos, o Joel parece criança em dia de Natal e até eu estou doida para começar. Na verdade, já comecei: estou faxinando a casa todinha!

Fazia parte do acordo pegar a casa do jeito que estava, ou seja, com tudo dentro. Aquilo que o dono queria ele levou embora e agora é com a gente fazer o faxinão. Quando entramos na casa no sábado estava uma bagunça, com as nossas coisas misturadas as coisas que o antigo dono havia deixado, um caos! A Vânia me deu uma ajuda de fada na cozinha – obrigada de novo mulher! – e depois disso ficamos eu e Joel organizando quarto por quarto.

Dica de limpeza: para tirar o ferrugem de talheres use coca cola.

E tiramos muita coisa daqui que não vamos usar. Separamos o que é possível ser aproveitado para o second hand e o restante vai (e já foi) para o lixo. E não é bem assim, pegar tudo e colocar num saco e deixar num depósito não: cada coisa tem que ser separadinha dentro de categorias (vidro, metal, papelão, plástico duro, coisas que não há como reaproveitar e serão queimadas, porcelana/vasos, eletrodomésticos, madeira, químicos); sendo que os remédios (mesmo os vencidos) devem ser devolvidos nas farmácias. Falando nisso, a Priscila do “Mineira abaixo de Zero” acabou mesmo de escrever um post contando como é que funciona essa coisa de separar o lixo por aqui. Curioso? Clique aqui.

Como não achei a máquina fotográfica ainda, deixo aqui uma ideia de como a casa parece. Mas não, a gente não mora num prado…

casa