Retrospectiva 2015 #2

O dia que andei de ambulância

E eu ainda não sei porquê. Mas eu tinha voltado do trabalho e decidido levar o Ben na brinquedoteca. De lá fui direto para casa e o como o guri dormiu no caminho eu resolvi deitar e dormir também (quem é mãe sabe… bebê dormiu vai deitar criatura e não fique esfregando as panelas).

Quando acordei o Joel estava em casa. A gente tinha algumas (muitas) coisas pra arrumar porque íamos para Chicago, e eu fiquei meio que com dor na consciência… até me olhar no espelho e perceber que metade do meu rosto havia paralisado. Pensei em derrame cerebral na hora e falei com o Joel. Ficamos naquela parada de negação do não! Será? Você está brincando né!? e coisas do tipo até ligarmos para o serviço de saúde telefônico (sim, na Suécia é sempre melhor ligar para o serviço de saúde telefônico antes de se dirigir ao hospital porque a chance de você ser mandado para casa é enorme… economiza a viagem). Quando começamos a falar com a enfermeira ela nos mandou desligar imediatamente e chamar a ambulância.

Eu comecei a rir e o Joel quase chora. Aí ligamos a ambulância e em questão de cinco minutos lá estavam dois rapazes na minha sala mandando eu responder perguntas toscas tipo “que dia é hoje?” ou “qual o nome desse instrumento” (meu violão); ergue o braço abaixa o braço, você tem dor de cabeça? Bla bla bla. No fim eles não chegaram a nenhuma conclusão e ligaram para um neurologista. Aí o neurologista diz o óbvio, que não dá para opinar via telefone e que é melhor que eu seja internada para exames.

Afff… até parecia um filme. O problema era eu ser o personagem “doente”. Chegamos no hospital as 8h da noite e lá eu fiquei esperando o médico até as 6h da manhã seguinte.

Exatamente: eu, paciente com suspeita de derrame cerebral fui internada as 20h, fiquei numa maca no corredor do hospital até às 3h e só vi o médico às 6h da matina, dez horas depois. Isso porque as 5h da manhã eu chamei o enfermeiro e disse: “rapaz eu quero ir embora. Eu tenho um bebê de 10 meses em casa, e se eu tivesse sofrido um derrame mesmo estaria paralisada ou morta agora né? Afinal não vem médico me examinar”. O  enfermeiro ficou branco, foi lá buscar o prontuário médico e zip zap, começa a dar um movimento no meu quartinho e dali a pouco chega uma médica me pedindo mil desculpas.

Às 10h fiz uma tomografia cerebral e  às  11h veio o resultado de que meus neurônios ainda eram os mesmos, graças a Deus, Amém. Depois ainda fiquei no hospital até as 19h porque eles queriam fazer testes para ver se eu não tinha borélia, uma doença transmitida pelo carrapato. Mas tudo deu negativo e por fim me mandaram para casa dizendo que eu provavelmente tinha uma inflamação facial, o nosso popularmente conhecido choque térmico.

Eu fiquei pensando em muita coisa nas minhas horinhas na sala de espera. Medo de não estar aqui para ver o Ben crescer, mas estava tranquila e agradecida por ter o Joel ao meu lado. Literalmente, porque ele podia me acompanhar.

Estava no chat com algumas pessoas que me disseram: finge um desmaio menina e aí eles te atendem. Cinco minutos depois chega uma mulher desmaida que é deitada do meu lado e lá ficou até eu ser transferida para meu quartinho. Eu só vi uma médica na emergência. É o mesmo problema em todo o mundo… hospitais lotados, falta de pessoal e gente deitada nos corredores. Aqui na emergência tem uma salinha onde você pega uma senha, aí vem uma enfermeira fazer a pré consulta (medir pressão arterial e se há febre) e  você recebe um lugarzinho no corredor. De tempos em tempos passa um enfermeiro perguntar se está tudo bem e informa quanto tempo vai demorar para o médico atender. Gente esfaqueada, baleada ou acidentada vai direto para a cirurgia, um setor do hospital onde há médicos especialistas em traumatologia. Gente que chega com a ambulância – como eu aquele dia, sem fraturas expostas ou risco de morte – vai direto para o corredor da esperança. Só vê o médico depois de ir para um quarto. Eu vi muita gente idosa chegando de ambulância e ficando na caminha do corredor… por sorte foram atendidos primeiro.

Não estou reclamando do sistema sueco, que é um sistema bom, mas não é gratuito. O boleto veio depois, e foi all inclusive, desde o passeio de ambulância aos exames. É importante explicar também que é um co-finaciamento. Eu não sei se o hospital é do governo, mas a maioria dos serviços pertencem a empresas privadas, aí quando um cidadão precisa de internação, etc; o governo paga a maior parcela da conta.

Depois de uns 10 dias meu rosto estava funcionando normalmente. Tomei una remedinhos meio esquisitos e o Benjamin por tabela por causa da amamentação, mas era isso ou arriscar fisioterapia depois.

Foi um susto. A gente esquece que é mortal, principalmente depois de se tornar mãe. Mas agora eu não esqueço mais.