Diário Caipira-123

Se eu leio as notícias a respeito do corona no Brasil fico pensando o que será que pensam as pessoas que estão cumprindo isolamento há seis meses…?Eu vejo no meu feed das redes sociais todo mundo pedindo e insistindo para que todos aqueles que podem fiquem em casa… mas pelas notícias vejo vídeos e fotos onde parece que a pandemia acabou. Ao mesmo tempo, outras notícias dizem exatamente o contrário. Parece extremamente contraditório.

Enquanto isso, na Suécia, chegamos ao total de quase 85mil casos confirmados e também quase 5900 mortes. A faixa etária mais atingida (segundo a testagem) é de pessoas entre 50-59 anos. Homens morrem mais do que mulheres e quase que a totalidade daqueles que vieram a óbito por causa do Covid tinham mais de 70 anos (5.194 das 5.835 mortes). Desde o dia 18 de agosto as mortes provocadas por corona tem ficado abaixo de 5 por dia.

Apesar disso, a recomendação é manter distância, evitar aglomerações e ficar em casa caso haja qualquer suspeita de doença. Sabemos que temos o inverno pela frente e que Espanha e Itália já vem sentindo uma segunda onda e estão aplicando novas medidas de contenção. A gente também sabe que há bastante gente que já esqueceu a pandemia e que não segue as recomendações. Os cinemas reabriram a semana passada (ou retrasada?). A vida segue certa normalidade (o que é normal?) mas tudo está diferente.

Parece que vivemos em dimensões diferentes do mesmo mundo simultaneamente.

*Fonte das estatísticas: Folkhälsomyndigheten

Diário Caipira-122

Já que todo mundo está meio pestiado, passamos o dia em casa fazendo nada. Ou melhor, muita coisa. Entre elas, tive que disputar com a gata as peças do meu quebra cabeça.

Ela apenas se deita no meio. Daquilo que eu estiver montando… não importa qual parte do desenho seja, ela vai para o ponto exato que eu decidir montar. Eu tirei ela de cima do que já havia montado, bagunçando tudo. Tive que montar novamente. Coloquei um tampo em cima, ela achou graça e passou a “desenterrar” as peças e morder. Por fim, tive que esconder o quebra cabeça.

Ao menos agora as crianças passaram a achar o quebra cabeça interessante. Por causa da gata.

Diário Caipira-120

Setembro é o mês de combate ao suicídio. Ainda me choca saber que muitas pessoas acreditam que na Suécia há uma alta taxa de suicídio porque a maioria dos suecos é ateu (60% ainda fazem parte da Igreja Sueca e, estatisticamente, a população sueca é mais agnóstica do que ateia). Eu li isso no SCB, mas já não sei se os dados são atuais.

O que é muito atual quando o assunto é suicídio é tabu. São muitos, aliás: falar sobre suicídio vai acabar incentivando as pessoas a tirarem a própria vida; gente que diz que quer morrer só quer chamar atenção; gente que não dá valor a própria vida tem falta de Deus; gente que está por baixo só precisa se esforçar; gente que tira a própria vida é ingrata e egoísta…

Queria falar sobre um em especial: falar sobre suicídio. Se alguém te confessar que a vida anda pesada (e está, essa pandemia está quebrando as pernas geral) e que já pensou em suicídio, não diga a pessoa pra tentar ver o lado bom das coisas. Sabe, quando a gente chega lá naquele ponto em que começa a pensar na morte como algo a desejar (e não a evitar), significa que algo não está funcionando. E não é que ficamos bobos. É que alguma coisa cria uma deficiencia no cérebro que nos impede de curtir, sentir satisfação, ver o lado luminoso das coisas. Esse papo tipo “ah, mas pensa nos seus filhos, cachorro, periquito, papagaio,.casa, carro, viagem, blá blá blá etc etc” talvez funcione uma vez. Depois vai servir apenas pra alimentar a fogueira da angústia onde a gente vai se cobrar por não conseguir ficar feliz. Afinal, é só querer…

Se alguém lhe disse que pensa em se matar pergunte a pessoa se ela já fez um plano de como seria. Se a pessoa lhe diz que não pode haver tempo para tentar entrar em ação aos poucos. Se a pessoa lhe contar com detalhes como faria para se matar não perca tempo.

Fale com o posto de saúde ou até mesmo chame a emergência.

Ättestupan

O palavrão aí em cima define o local onde, segundo alguns mitos, havia um precipício do qual os idosos se jogavam ou eram jogados para encontrar a morte (lembram da família dinossauro?). De acordo com esse mesmos mitos, a tradição tomava lugar quando o idoso já não podia se sustentar sozinho ou não podia contribuir para o sustento da comunidade à qual pertencia.

Quando visitamos o morro do Chapéu em Halmstad no verão havia a informação que, segundo a cultura popular local, Viserhatt fora um desses “precipícios do suicídio/assassinato” de idosos. Entretanto, de acordo com historiadores suecos não foram encontradas provas de que essa tradição realmente existiu na Suécia, ainda mais porque essa suposta tradição teria existido até por volta do século V.

Ainda assim, a expressão “ättestupan” é utilizada como metáfora para criticar quando alguma política de proteção à terceira idade não funciona. Um exemplo atual foi quando a estratégia sueca de combate ao Covid fracassou em relação à proteção dos idosos que vivem em asilos. Já se sabia que o vírus era mais perigoso para os idosos, e a forma como o vírus se propagou nos asilos suecos foi criticada duramente.

Parece que a prática existia e existe, ainda que ninguém seja jogado de um princípio… ao menos não literalmente.

Diário Caipira-cento e alguma coisa

Eu vou ter que parar de enumerar os posts porque nunca me lembro o número do último que escrevi.

Hoje estava fazendo panquecas e refletindo como a vida da gente muda em certas coisas quando a gente mergulha em uma outra cultura: panquecas, no Brasil, eram feitas para serem recheadas com carne, depois cobertas com muito queijo e molho… aqui, panquecas são recheadas de chantilly e alguma geleia. Mesmo assim podem ser um almoço, sozinhas.

Lembro quando me sugeriram isso pela primeira vez: comer panquecas para o almoço num café na cidade. E a minha deceção ao receber um prato com duas panquecas, chantilly e geleia ao lado.

O mais interessante é que hoje, enquanto fazia as panquecas na frigideira, minha mãe perguntou se eu iria rechear com carne ou a gente comeria à sueca. Ri comigo mesma. Depois de 10 anos aqui, panquecas “à moda sueca” são apenas panquecas. E tenho certeza que se eu dissesse aos meus filhos “vamos rechear panqueca com molho de carne moída?”; eles responderiam em uníssono:

– Eca!

Memórias de um Caracol-15

Tínhamos a esperança de sair de trailer uma última vez antes do verão ir embora, no entanto, pelo jeito vai ficar para a próxima primavera.

É incrível como o tempo mudou de cara na última semana e se travestiu de outono: o vento está frio e, principalmente, o sol indo embora mais cedo. Como disse no último post, apesar de as temperaturas estarem mais ou menos iguais aquelas que enfrentamos na primavera quando estávamos saindo acampar, a sensação agora é de que queremos nos recolher.

Sentamos pra desenhar hoje e os meninos me presentearam com esse belo retrato do nosso verão. Já dá saudades…

Diário Caipira – 115

O tempo virou e hoje soprava um ventinho daquele jeito que nos lembra que em breve nos despedirimos da época clara e quente do ano.

Queria levar as crianças pra fora, para darem uma volta de bicicleta e respirar ar puro. O mais velho só me ignorou lindamente, dizendo que hoje estava frio e ele ia ficar dentro de casa. Eu pensei com meus botões: ah tá, em maio num dia desses (18°C) tu estava se esbaldando na água gelada do lago!?? O pequeno ainda estava naquela fase de que ficar com os pais é legal, então notamos casaco saímos, pegamos a bike sem pedal dele e quando íamos sair uma nuvem negra daquelas bem gordas tapou o sol.

Escureceu. O piá jogou a magrela de lado e voltou pra dentro. Vai chover!!!

Me resignei pois ontem o tempo estava realmente desse jeito. Fazia um sol lindo, estava razoavelmente quente, chegava uma senhora nuvem gorda de chuva que desabava… chuva grossa, como em dia de verão no Brasil.

Não seria nada mal ter um clima mais temperado na Suécia. Porém, como se não bastasse todos os problemas advindos do aquecimento global, tenho certeza de uma coisa: baratas. Se for botar na balança, bem conversadinho: um verão mais longo e pra equilibrar, baratas; eu não tenho dúvidas: quero os verões gelados de volta.

Diário Caipira-114

Esses dias estava falando sobre aqueles carros/caminhões que passam na rua vendendo fruta-picolé-panelas-vassouras-gás-e tudo o mais que você já viu ou ouviu… afinal esses vendedores ambulantes ainda existem… existem??

O carro do picolé era um bem particular. Sempre vinha com aquela gravação que era feita pra cidade grande: “chega mais senhora, chega mais senhor, atenção criançada! É o carro do picolé passando na sua rua! Tem picolé de leite, picolé de limão, picolé disso, daquilo e daquilo outro! São doze picolés por apenas (sei lá quantos) reais! O carro passa e não volta mais”… mas voltava. Afinal, a cidade onde eu morava tinha uma avenida de umas 12 quadras talvez? Duas ruas perpendiculares a avenida… e um bairro mais na ponta, com umas ruas mais estreitas. O carro do picolé voltava, várias vezes, durante o dia inteiro. “O carro passa e não volta mais…” mas dali uma hora passava de novo. E de novo. E de novo. Quando não tinha a gravação tinha um megafone e alguém que ficava falando um monte no microfone e a gente só ia adivinhando “zzzzzzzzzz xiii docizzzzz” (abacaxi docinho).

Fiquei pensando nisso e na ansiedade que esses vendedores ambulantes criavam em mim. “O carro passa e não volta mais”… repetidos cem vezes e eu acreditando mesmo sabendo que passaria de novo. Amanhã vou participar de uma reunião online e me dá essa ansiedade, essa coisa de querer correr atrás do carro que passa e não volta mais, ainda que eu saiba que basta esperar, que o carro passa de novo sim, eu quero ir atrás do carro agora.

Eu quero ir atrás daqueles encontros presenciais, quando eu via gente de verdade, com carne e osso. Mas eu nem posso pegar o transporte coletivo porque estou resfriada de novo, o nariz parecendo vela e denunciando a minha falta de imunidade (apesar do pólen e do própolis que eu comprei de tanto a minha mãe insistir). Eu fico ansiosa pensando em cada encontro que não fui, em cada carro que eu acreditei que passaria de novo, mas já realmente… talvez não volta mais.

Eu quero picolé de fruta, doze por apenas sei lá quantos reais. Só que aqui o carro não passa…

Diário Caipira-110

A semana que vem vai fazer um ano desde que temos a nossa gata, Mia. Nós adotamos ela de um abrigo de animais que resgata principalmente gatos e coelhos.

Demorou oito anos pra convencer o marido que a gente podia ter um gatinho de estimação (porque ele não queria nadar em pelos de gato e nem queria pelos de gato na comida dele). Eu estava certa: escolhemos uma gata que solta poucos pelos (a maior parte do ano) e que não deixa as roupas da gente mais peludas do que ela própria. A pessoa que mais perde cabelos nessa casa ainda sou eu.

Por ironia do destino a gata era super tímida no início e só queria ficar com… o Joel. Eu e os meninos pagamos um dobrado para ganhar a confiança dela. Vai ver que é uma coisa típica de gatos, mas ela sabia que já tinha conquistado a gente e só foi charmosa com o Joel.

Como a gente mora em uma casa perto de um bosque optamos por deixar ela livre pra entrar e sair a hora que quiser. É claro que tem a preocupação com carros (o tráfego aqui em frente é muito intenso para o meu gosto), o texugo e comida envenenada; mas essa última acho mais difícil já que a maioria dos vizinho tem gatos soltos também.

Como ela era um gato de rua já nos presenteou com um camundongo, passarinho e hoje, um lagarto-cobra. Quase caí das pernas quando entrei na sala e dei com ela “brincando com a comida”. Os meninos adoraram a oportunidade de ver o bichinho, mas ficam muito bravos com a gata cada vez ela entra em casa com um bicho na boca.

Foi amor a primeira vista

Diário Caipira-109

Toda a vez que fico em casa me dá vontade de doar uma porrada de coisas. Eu vou dando o que não uso mais, vendo alguma coisa que tenha valor, mas a maior parte acabo empurrando com a barriga. Aí que a casa está virada de pernas para o ar porque eu começo a organização mas não termino.

Eu domino a arte de procrastinar como ninguém. O que contribui para que a gente fique preso ao caos. Joel diz que é pura física, que entropia explica a bagunça. Eu acho que se trata de biologia mesmo, quatro espécimes humanos que tem diferentes formas de se organizar e desorganizar.

Um dia vou ser minimalista. Quem sabe a bagunça é mini aí também?

Diário Caipira-107

Ainda temos mirtilos apenas alguns metros da porta. Ainda há framboesas no quintal. O verão e suas frutas que eu adoro.

Já que eu posto pouca foto de comida…

O verão e suas cores que eu amo. De certo modo, a natureza nos lembra que tudo é ciclo, tudo passa. Nós passaremos… mas as cores do pôr do sol continuarão as mesmas.

Diário Caipira-106

Hoje pela manhã meu café da manhã foi interrompido por outra atração no céu: um balão de gás. A gente costumava ver vários deles durante o verão mas, à exceção de uma vez há uns três anos quando um balão voava tão baixo que parecia que ia cair em cima da nossa casa; nunca tínhamos visto um assim tão pertinho.

Falando das coisas que são um tanto incomuns de se ver por aqui parei para dar uma prosa com a vizinha. A gente sempre conversa no verão, aquele papo por cima da cerca (oi, tudo bem? Ah! Estão de férias? Como tuas crianças cresceram; etc) e hoje ela estava por ali e eu parei para a prosa do mês. Papo vai e vem, estávamos falando de gatos e cachorros e eu contei a ela que vimos um texugo no lote do outro vizinho. Esse bicho tem a fama de ser mau humorado e de morder forte e atacar crianças. Como a gente tem gata e eles uma cachorrinha que vive fugindo, achei por bem comentar.

A vizinha então me contou que quando eles se mudaram para essa casa costumavam ver um texugo no mesmo local que nós vimos. E que achavam que eles tinham desaparecido da nossa região já que faziam tempos que essa toca em específico estava desabitada. E acrescentou que viu uma cobra saindo do nosso quintal para o deles, com cerca de um metro e meio. Ela já tinha dito isso para o Joel. Mas ele não acreditou muito na história… uma cobra desse tamanho morando no meio das framboesas e dos rododendros? Tudo bem que há bastante “mato” no nosso quintal que definitivamente não é um jardim desenhado e “clean”. Mas enfim…

Cobra, esquilo, alce, veados, lebres e um texugo… acho que logo poderemos abrir um zoo.