Diário Caipira-133

Hoje foi dia de festa do lagostim, ou melhor, da nossa versão da festa do lagostim adaptada aos tempos de corona. Temos uma tradição desde 2017 de celebrar a festa do lagostim com alguns casais de amigos que tem crianças na mesma faixa etária das nossas crianças.

Sempre celebramos a festa do lagostim ao nosso modo por dois motivos: como o lagostim da festa é servido inteiro a gente tem que descascar o bicho. Imagine o trampo que é descascar lagostim e comer. Agora imagine isso ao mesmo tempo que tu tem de dar comida as crias. Também por causa das crianças fica proibido o consumo exagerado de bebida e não rolam “snaps”.

Devido ao corona não pudemos encontrar o mesmo número de amigos que normalmente faziam parte da “nossa festa”. É um pouco triste pois eu gostaria de rever todo mundo. A cada ano que se passava aumentava o número de crianças e a mesa tinha de ficar mais comprida. Dessa vez o efeito foi contrário… nem fizemos a celebração lá em casa, pois queríamos um local ao ar livre.

O tempo colaborou, lutamos para comer 20g de carne de lagostim e pão com queijo e salada. Vou esperar que no ano que vem possamos fazer a festa do lagostim como era antes.

PS.: eu nem gosto de lagostim. Mas sempre como na festa do lagostim só por causa do ritual de sentar e ficar preparando um sanduba de lagostim enquanto todo mundo conversa e fica quebrando as cascas do bicho.

PS2. Cascas de lagostim fedem violentamente. Minha dica é (se você mora em uma casa) enterrar no quintal ou congelar até o dia em que o lixeiro passa. A gente fez a besteira de jogar o trem no lixo depois da festa em 2017 e já no dia seguinte a lata de lixo fedia terrivelmente. Também tivemos a infelicidade de que alguém jogasse uma parte dos restos na lata de lixo errada… Essa lata era recolhida a cada duas semanas pelo serviço de coleta de lixo. Mas bastaram cinco dias para que o fedor fosse insuportável: tive que abrir a lata, revirar o lixo e enterrar os restos de lagostim que já estavam em decomposição.

Diário Caipira-132

Hoje estava conversando com uma amiga querida na hora do almoço sobre como a nossa sociedade é, ao mesmo tempo, fascinante e escrota.

Já imaginou daqui a três mil anos, nossos descendentes (ou mais provavelmente, a forma de vida superior que existirá na Terra) desenterrando resquícios da nossa civilização e analisando: “os povos desse período chamavam-se a si mesmos de Homo Sapiens Sapiens e imaginavam estar vivendo tempo modernos. Mas sua inteligência era limitada e eles destruíram tudo ao seu redor e não fica muito bem claro porquê”.

“Os humanos desse período acreditavam que havia espécimes mais ou menos superiores. Essa classificação se dava por meio de conceitos primitivos como cor, sexo biológico ou orientação sexual. Normalmente o homem hetero cis branco estava no topo da pirâmide.”

Não parece que descrevemos uma sociedade parcamente desenvolvida?

Diário Caipira-131

Eis que a minha bolsa vai tomando forma. Agora só me faltam dois quadrinhos e posso colocar as alças.

Estou tão dentro dessa onda de crochê que convenci meus colegas de trabalho a entrar num projeto de crochê coletivo.

Como diria uma amiga querida, estou virada em uma “Testemunha do Crochê”. Daqui a pouco vou sair batendo de porta e porta nos domingos de manhã perguntando as pessoas se elas sabem crochetar um “granny square”, se já tentaram, se tem noções da maravilha que se pode alcançar por meio de crochetar quadrinhos. Às pessoas me olharão boquiabertas e tentarão gentilmente me mandar embora e eu vou insistir com frases tipo: ninguém jamais de ensinou a segurar a agulha corretamente…

E aí, já fez crochê hoje?

Diário Caipira-130

Tivemos curso na segunda feira, no trabalho. Sempre que temos essas capacitações “perdemos” algum tempo falando das metas traçadas pelo município de Gotemburgo. Digo perder porque essas metas são bem difusas.

Um exemplo: umas das metas é que a cidade de Gotemburgo será um empregador que trata bem seus funcionários e que tem uma política de RH que faz com a possibilidade de trabalhar para a cidade seja muito atraente. É, mas não é: nossa capacitação foi num local micro e dava a impressão que sentamos no colo uns dos outros. Eu imagino porque a gente vai para o outro lado da cidade sentar numa mini sala quando todo mundo deveria estar tendo capacitação online.

E não é que eu goste de encontros online. Prefiro ter uma capacitação presencial. Mas nas condições atuais, e considerando que a cidade de Gotemburgo trata bem seus empregados… 8h numa mini sala menor do que aquelas que temos disponíveis onde trabalho…

Às vezes não dá pra entender.

Diário Caipira-126

Uma das coisas mais suecas que eu conheço e que já ando ficando enjoada é Bamse. Ele foi o primeiro gibi que os meninos tiveram contato e é simplesmente sucesso. Ao menos uma vez por dia tem que rolar um Bamse, e se a gente sai de carro para longas viagens escuta os episódios disponíveis no Spotify.

Bamse foi criado no fim da década de 60 por Rune Andreasson, sendo lancado primeiro como filme em preto e branco assim como série dentro de outro gibi. A história gira em torno de um urso marrom que fica super forte sempre que come o mel especial preparado pela sua avó. Todas as aventuras do urso trazem alguma mensagem educativa. Eu particularmente gosto muito da edição “O livro do amigo” do Bamse onde os personagens falam sobre bullying e sobre como ser um bom amigo.

Bamse tem como melhores amigos um coelho branco – Lille Skutt – que vive assustado e uma tartaruga – Skalman – que é inventor e sempre dorme nos momentos mais improváveis. Apesar de ser o Bamse quem tem força nem sempre é ele quem resolve os problemas. O urso, por ser o mais forte de todos, não bate em ninguém e sempre tenta ficar amigo com os antagonistas. O personagem Vargen – que como o próprio nome já diz é um lobo preto – se torna amigo do Bamse e deixa a vida de crimes (roubar doces) para trás.

O Bamse tem uma família de quatro crianças, sendo a menor delas uma ursa com deficiência. Não fica claro qual o tipo de deficiência dela, às vezes o desenho dela sugere que ela possa ser uma ursinha com síndrome de Down, outras vezes parece que ela pode ser uma ursa dentro do espectro autista. É Skalman quem percebe que Brumma é diferente e que ela precisa de outro tipo de apoio do que as outras crianças que aparecem na história.

Bamse faz parte da vida dos suecos há tanto tempo que meu sogro lia Bamse quando criança, depois meu marido e agora meus filhos também. Há quem critique a história e diga que ela é propaganda comunista (porque sempre se repete que todo mundo é igual, tem os mesmo direitos e o Bamse não se aproveita de ninguém apesar de ser mais forte…); mas eu não entendo muito bem porquê.

Do mesmo jeito que não entendo como é que os pequenos não podem passar um dia sem!

Diário Caipira-124

Autoflagelação do século XXI:

“Use a ponta macio do palito de teste e introduza na garganta, tão fundo que o seu reflexo de vômito dispare. Esfregue o palito de teste nessa região da garganta por pelo menos cinco segundos. Em seguida, introduza o palito no nariz (com cuidado para não empurrar muito fundo) o suficiente para disparar seu reflexo de espirro. Esfregue o palito da parte interna do nariz por no mínimo 10 e no máximo 20 segundos. Cuspa saliva no tubo, mergulhe o palito de teste na saliva e feche o tubo, tendo o cuidado de mante-lo em pé.”

Parece um capítulo de um livro de terror né? É a orientação de como fazer o PCR em casa.

Diário Caipira-123

Se eu leio as notícias a respeito do corona no Brasil fico pensando o que será que pensam as pessoas que estão cumprindo isolamento há seis meses…?Eu vejo no meu feed das redes sociais todo mundo pedindo e insistindo para que todos aqueles que podem fiquem em casa… mas pelas notícias vejo vídeos e fotos onde parece que a pandemia acabou. Ao mesmo tempo, outras notícias dizem exatamente o contrário. Parece extremamente contraditório.

Enquanto isso, na Suécia, chegamos ao total de quase 85mil casos confirmados e também quase 5900 mortes. A faixa etária mais atingida (segundo a testagem) é de pessoas entre 50-59 anos. Homens morrem mais do que mulheres e quase que a totalidade daqueles que vieram a óbito por causa do Covid tinham mais de 70 anos (5.194 das 5.835 mortes). Desde o dia 18 de agosto as mortes provocadas por corona tem ficado abaixo de 5 por dia.

Apesar disso, a recomendação é manter distância, evitar aglomerações e ficar em casa caso haja qualquer suspeita de doença. Sabemos que temos o inverno pela frente e que Espanha e Itália já vem sentindo uma segunda onda e estão aplicando novas medidas de contenção. A gente também sabe que há bastante gente que já esqueceu a pandemia e que não segue as recomendações. Os cinemas reabriram a semana passada (ou retrasada?). A vida segue certa normalidade (o que é normal?) mas tudo está diferente.

Parece que vivemos em dimensões diferentes do mesmo mundo simultaneamente.

*Fonte das estatísticas: Folkhälsomyndigheten

Diário Caipira-122

Já que todo mundo está meio pestiado, passamos o dia em casa fazendo nada. Ou melhor, muita coisa. Entre elas, tive que disputar com a gata as peças do meu quebra cabeça.

Ela apenas se deita no meio. Daquilo que eu estiver montando… não importa qual parte do desenho seja, ela vai para o ponto exato que eu decidir montar. Eu tirei ela de cima do que já havia montado, bagunçando tudo. Tive que montar novamente. Coloquei um tampo em cima, ela achou graça e passou a “desenterrar” as peças e morder. Por fim, tive que esconder o quebra cabeça.

Ao menos agora as crianças passaram a achar o quebra cabeça interessante. Por causa da gata.

Diário Caipira-120

Setembro é o mês de combate ao suicídio. Ainda me choca saber que muitas pessoas acreditam que na Suécia há uma alta taxa de suicídio porque a maioria dos suecos é ateu (60% ainda fazem parte da Igreja Sueca e, estatisticamente, a população sueca é mais agnóstica do que ateia). Eu li isso no SCB, mas já não sei se os dados são atuais.

O que é muito atual quando o assunto é suicídio é tabu. São muitos, aliás: falar sobre suicídio vai acabar incentivando as pessoas a tirarem a própria vida; gente que diz que quer morrer só quer chamar atenção; gente que não dá valor a própria vida tem falta de Deus; gente que está por baixo só precisa se esforçar; gente que tira a própria vida é ingrata e egoísta…

Queria falar sobre um em especial: falar sobre suicídio. Se alguém te confessar que a vida anda pesada (e está, essa pandemia está quebrando as pernas geral) e que já pensou em suicídio, não diga a pessoa pra tentar ver o lado bom das coisas. Sabe, quando a gente chega lá naquele ponto em que começa a pensar na morte como algo a desejar (e não a evitar), significa que algo não está funcionando. E não é que ficamos bobos. É que alguma coisa cria uma deficiencia no cérebro que nos impede de curtir, sentir satisfação, ver o lado luminoso das coisas. Esse papo tipo “ah, mas pensa nos seus filhos, cachorro, periquito, papagaio,.casa, carro, viagem, blá blá blá etc etc” talvez funcione uma vez. Depois vai servir apenas pra alimentar a fogueira da angústia onde a gente vai se cobrar por não conseguir ficar feliz. Afinal, é só querer…

Se alguém lhe disse que pensa em se matar pergunte a pessoa se ela já fez um plano de como seria. Se a pessoa lhe diz que não pode haver tempo para tentar entrar em ação aos poucos. Se a pessoa lhe contar com detalhes como faria para se matar não perca tempo.

Fale com o posto de saúde ou até mesmo chame a emergência.

Ättestupan

O palavrão aí em cima define o local onde, segundo alguns mitos, havia um precipício do qual os idosos se jogavam ou eram jogados para encontrar a morte (lembram da família dinossauro?). De acordo com esse mesmos mitos, a tradição tomava lugar quando o idoso já não podia se sustentar sozinho ou não podia contribuir para o sustento da comunidade à qual pertencia.

Quando visitamos o morro do Chapéu em Halmstad no verão havia a informação que, segundo a cultura popular local, Viserhatt fora um desses “precipícios do suicídio/assassinato” de idosos. Entretanto, de acordo com historiadores suecos não foram encontradas provas de que essa tradição realmente existiu na Suécia, ainda mais porque essa suposta tradição teria existido até por volta do século V.

Ainda assim, a expressão “ättestupan” é utilizada como metáfora para criticar quando alguma política de proteção à terceira idade não funciona. Um exemplo atual foi quando a estratégia sueca de combate ao Covid fracassou em relação à proteção dos idosos que vivem em asilos. Já se sabia que o vírus era mais perigoso para os idosos, e a forma como o vírus se propagou nos asilos suecos foi criticada duramente.

Parece que a prática existia e existe, ainda que ninguém seja jogado de um princípio… ao menos não literalmente.

Diário Caipira-cento e alguma coisa

Eu vou ter que parar de enumerar os posts porque nunca me lembro o número do último que escrevi.

Hoje estava fazendo panquecas e refletindo como a vida da gente muda em certas coisas quando a gente mergulha em uma outra cultura: panquecas, no Brasil, eram feitas para serem recheadas com carne, depois cobertas com muito queijo e molho… aqui, panquecas são recheadas de chantilly e alguma geleia. Mesmo assim podem ser um almoço, sozinhas.

Lembro quando me sugeriram isso pela primeira vez: comer panquecas para o almoço num café na cidade. E a minha deceção ao receber um prato com duas panquecas, chantilly e geleia ao lado.

O mais interessante é que hoje, enquanto fazia as panquecas na frigideira, minha mãe perguntou se eu iria rechear com carne ou a gente comeria à sueca. Ri comigo mesma. Depois de 10 anos aqui, panquecas “à moda sueca” são apenas panquecas. E tenho certeza que se eu dissesse aos meus filhos “vamos rechear panqueca com molho de carne moída?”; eles responderiam em uníssono:

– Eca!

Memórias de um Caracol-15

Tínhamos a esperança de sair de trailer uma última vez antes do verão ir embora, no entanto, pelo jeito vai ficar para a próxima primavera.

É incrível como o tempo mudou de cara na última semana e se travestiu de outono: o vento está frio e, principalmente, o sol indo embora mais cedo. Como disse no último post, apesar de as temperaturas estarem mais ou menos iguais aquelas que enfrentamos na primavera quando estávamos saindo acampar, a sensação agora é de que queremos nos recolher.

Sentamos pra desenhar hoje e os meninos me presentearam com esse belo retrato do nosso verão. Já dá saudades…