Eu não nasci para hemmafru

É sempre bom começar um post falando do tempo, já que esse é um dos assuntos mais badalados do momento depois que as tempestades de neve sacudiram o leste sueco – Stockholm fica no leste, por exemplo. Para ver fotos lindas da cara do inverno sueco dos lados de lá clique aqui e aqui ou, essa é a cara da minha vizinhança (aqui não há 15 cm de neve acumulada, apesar de tudo estar branco).

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Acho muito lindo tudo branco. Mas no centro não é mais assim. Hoje fizeram cerca de -15 C durante o dia e não nevou (a previsão era de -18 C). Por causa do sal deixado no asfalto a neve derrete e vira uma lama de gelo triturado cinza. Um treco meio nojento, que gruda nos sapatos dos transeuntes e vai tornando o branco cinza em toda a parte. E a neve derrete, a temperatura cai, tudo vira gelo e todo mundo vai rebolando pelas ruas, numa dança nada sensual pelo equilíbrio. Não sei como é que esse povo não aprende a dançar!

E o trânsito parou em todo o centro hoje…

Mas eu não vou reclamar do frio e da neve. Tô achando até bonitinho – vamos ver por quanto tempo dura a animação pois como disse a Nara, o inverno é longo… e eu dentro de casa sou feliz!

Como tenho uns horários de trabalho meio doidos tenho tempo para fuçar na internet e também para me incomodar com as teias de aranha da casa. Isso mesmo, na Suécia também existem aquelas aranhas de pernas compridas e finas que fazem teias enormes pelos cantos. Quando eu vejo isso (às vezes) eu me transformo na poderosa hemmafru (dona de casa, em sueco) e decido que é hora da faxina. A animação persiste até eu entrar na cozinha: minha cozinha de seis metros é muito pequena para o tanto de refeições que eu quero fazer, e o resultado é sempre meleca.

Outra, que eu sou do tipo que começa a fazer uma coisa e lembra de fazer outra no meio, larga o que estava fazendo para não esquecer o que lembrou; começa o que lembrou, termina ou não, porque se eu lembrar que preciso daquilo também ou eu anoto ou eu faço, e às vezes eu pego um papel para anotar mas depois esqueço de ler o que anotei ou lembro de alguma coisa que deveria fazer e largo o papel… acho que já ficou confuso. Vamos ao exemplo prático.

Limpei (todo) o banheiro e peguei o aspirador de pó. Decidi tirar o pó primeiro e então achei bananas meio velhas, decidi fazer um bolo de banana. Levei as bananas para cozinha, organizei algumas coisas na cozinha, voltei para o aspirador. Achei roupas que ainda não guardei desde a última visita a lavanderia (que eu não vou contar quando foi). Guardei (algumas). Percebi que não havia tirado todo o pó. Voltei ao aspirador, e assim que tudo estava pronto comecei a calda para o bolo, descasquei e cortei as bananas e daí… não tem ovos.

Eu poderia fazer o bolo sem ovos, afinal, eu já fiz e não é o fim do mundo. Mas sei lá porquê, eu fiquei encucada. Se o vizinho estivesse em casa eu bateria lá e pediria “ovos emprestados”… coisa de cidade pequena, eu acho. A gente tem um vizinho super gente boa (amigo de infância do Joel) que até me deu uma colher de chá quando esqueci minhas chaves não sei onde e fiquei trancada fora do apartamento por quase 6 horas. Se fosse no Brasil eu não hesitaria em sair rumo ao vizinho mais próximo (mesmo que fosse desconhecido) e toc toc: “Oi vizinhx, é que eu comecei a fazer um bolo e percebi que não tenho ovos, será que eu poderia emprestar dois ovos?”. Mas e se o vizinho não tá em casa, e só a irmã dele abre a porta eu ia morrer de vergonha. Lá estão as bananas no caramelo, a massa pela metade, o forno pré aquecendo. Desligo tudo, visto a roupa de blindagem contra o frio e vou até o “torget” (uma pracinha com comércio) que fica a 10 minutos de casa comprar ovos.

Faço o bolo e começo a preparar uma comidinha. O Joel chega e o pessoal do Arbetsfömedlingen me liga para um “bate papo rápido”. Fico animada porque eu estou procurando ajuda para conseguir o trabalho como assistente social, mas logo de cara ela já avisa que não pode me ajudar nem com isso e menos ainda com aquilo e fica se desculpando e descrevendo todas as coisas que ela não pode fazer por 20 minutos. Eu me irrito, não entendo bem o que a mulher tá querendo lá do outro lado do telefone, repetindo palavras que eu não sei o significado, tudo lá na cozinha pela metade e eu com fome, com raiva e quase chorando. Pergunto para ela porque eu não posso ter uma entrevista com ela para a gente tratar de todos os detalhes frente a frente – para mim é bem mais fácil entender sueco olhando na cara da pessoa – e ela me responde que não trabalha em tempo integral e tem mais de 400 pessoas – como eu – para gerenciar. Que compromisso dessa instituição não? Eu fico puta, falo para ela que não “tô entendendo meu”, será que não podemos mesmo marcar uma entrevista?, sim claro mas só no final de janeiro – fazer o quê? – a conversa acaba e nada mudou; a receita pela metade já esfriou, tudo tem que ser recomeçado e eu sem tesão nenhum.

O Joel fez o que podia para ajudar mas no fim, a receita ficou um lixo e a cozinha tá uma meleca, e depois da conversa com o A fiquei sem nenhum tesão de arrumar. Toda a confusão faz parecer que não adianta nada eu limpara a casa… sem falar que eu esqueci de tirar as teias de aranha.

Eu não nasci para ser hemmafru

Coma comida ecológica!

Lancei um “ridículos” no meu bicho papão da solidão e transformei ele no Chacrinha. Rachei de rir, ele morreu de vergonha e fugiu. E como “quem não se comunica se estrumbica” tratei de dar um olá para todos os meus conhecidos suecos. Vou trabalhar mais a relação com esse povo, afinal, eu já sei que eles são “difíceis”, se eu ficar só reclamando nada vai mudar.

Falando nisso encontrei a Karolina ontem no mercado e fique morrendo de remorso. Na bem da verdade, foi ela que me encontrou, me deu um super abraço e me fez dar umas boas risadas. Eu realmente posso considerar ela minha amiga, e ela é SUECA. Pra você ver que tristeza é um sentimento traiçoeiro por demais… eu me fazendo de dodói, agora preciso morder a minha língua: eu tenho uma amiga sueca gente, e fui EU que esqueci dela.

A Karolina é enfermeira e vai casar em agosto com um dos melhores amigos do Joel. A gente tava fazendo um daqueles papos furados quando ela disse que tava morrendo de vontade de chips, e eu disse que nunca tenho vontade de comer essas coisas industrializadas, só comida ecológica e o que faz bem ao coração. Claro que ela riu (comedidamente, mas riu) e entrou na brincadeira, porque precisava de umas dicas para ser mais saudável.

O inverso seria mais sensato, uma vez que ela é vegetariana. Não que eu esteja a fim de me torna vego, mas eu tenho que admitir que os vegetarianos comem melhor, ou que, no mínimo, são mais criativos na hora de fazer compras e preparar um prato. Aprendi muito depois que mudei para a Suécia (e tive de me abdicar de comer a mesma quantidade de carne que comia antes) sobre alimentação, principalmente porque todo mundo busca um cardápio mais balanceado.

Hoje vamos ter o tal debate na aula. Há, eu realmente recebi um e-mail ontem as 10 e tantas da noite com o seguinte recado: “amanhã antes da aula nos encontramos e decidimos o que vamos falar.”… vá???!!!!!! Antes da aula quando? Tipo 5 minutos antes da aula? Odeio fazer trabalho em grupo, que palhaçada isso!

Fiz uns apontamentos, pesquisei uma série de sites sobre comida orgânica/ecológica e descobri uma série de coisas interessantes. Há uma tendência de que consumidores que optam pela comida ecológica (segundo o Bláblánomequenãolembroblá Institute da Suécia – um órgão que publica estudos sobre o que os suecos compram e etc) optam por um leque muito mais variado de produtos do que os que não compram comida ecológica. Concordo com isso: antes de entrar nessa a minha dieta sempre foi feijão com arroz e carne e salada. Gosto muito de macarrão, mas sempre que fiz macarrão foram duas modalidades: macarrão alho e óleo – para os dias de preguiça – e macarrão a carbonara (molho de tomate e carne moída); muitas vezes com feijão, mas sem salada. E salada sempre foi uma salada, de preferência alface ou tomate que é rapidinho por demais.

Sim, meu lema na cozinha sempre foi “por que complicar se não precisa”? Sou preguiçosa e feliz na hora de cozinhar também, e no meu caso isso pode ter mudado não porque comecei a comer comida ecológica mas porquê conheci o Joel; ele adora preparar um prato caprichado. Depois que eu introduzi o molho de tomate para o macarrão aqui em casa ele até decidiu fazer molho de tomate caseiro – sim, ele passou horas cozinhando tomates e testando esse e aquele tempero. Parece coisa de filme porque ele vai para a cozinha e solta um jazz; parece um chef cortando coisas e misturando e… eu olhando claro, pra aprender. =P

Mas sobre a comida ecológica: não há nenhum estudo científico que comprove que a comida orgânica/ecológica é melhor para a saúde do que a comida convencional. Entretanto uma pesquisa feita nos EUA em 2002 aponta que os primeiros apresentaram em média 13% de resíduos de substâncias químicas nas amostras enquanto os alimentos convencionais apresentaram em média 71%. Não precisa ser gênio para saber – e eu não concordo que seja senso comum acreditar – que resíduos de pesticidas e herbicidas prejudicam a saúde. Além disso, eu sou caipira bem, vi com esses olhos que um dia a terra há de comer… hahahaha. Brincadeira. Como eu morei no interior eu sei de muitas pessoas que se intoxicavam com “veneno de lavoura”. Se o alimento convencional não faz mal para quem come ainda faz muito mal para quem o produz.

A Universidade de Uppsala fez um estudo apontando que o problema dos orgânicos/ecológicos é que a produção desse tipo de produto não pode atingir uma grande escala. As perdas nas lavouras de orgânicos sempre são mais acentuadas do que nas convencionais que por utilizarem todo o leque disponível de “idas” (pesticidas, herbicidas, inseticidas…) e sementes transgênicas produzem mais. Segundo esse apontamento, se a humanidade escolher a produção orgânica condenará a fome milhões… Eita discursinho capitalista viu? Segunda a FAO jogamos fora cerca de 1/3 de tudo o que produzimos, seja por causa de transporte e armazenamento inadequado ou porque os alimentos que perdem a aparência viçosa perdem também seu valor comercial.

É fato que os alimentos orgânicos/ecológicos tem uma vida mais longa do que os alimentos convencionais – principalmente no caso dos hortifruti – uma vez que os convencionais tem mais água e por isso parecem murchar e adquirem a aparência de “velhos” muito mais rapidamente do que os orgânicos/ecológicos.  Consumidores habituados a comprar orgânicos compram alimentos mais maduros porque sabem que eles não vão estar podres no dia seguinte. Ainda segundo a FAO, na Europa até 115kg de comida são jogados fora por ano (per capita) contra 11kg na África. Na América Latina as perdas no processo de transporte/armazenamento chegam a 40% da safra anual. Acho que podemos muito bem passar sem transgênicos e os “idas” se aprendermos a utilizar, transportar e armazenar melhor os alimentos.

Foi por isso que o programa Fome Zero ficou tão famoso no mundo. Tem muita gente que acredita que Fome Zero era só um nome bonito para o Bolsa Família, e que fora disso muito pouco se fez. Ledo engano e falta de informação, para variar. O Fome Zero tem uma série de parceiros – entre eles o “Alimente-se bem com um Real” do Sebrae (não to certa que era do Sebrae mesmo, mas é um dos Ss) e os programas de apoio a Agricultura Familiar. É muito mais fácil para um pequeno produtor rural ser um produtor orgânico do que convencional: ele não precisa botar a cabeça a prêmio no banco anualmente para financiar a compra dos grãos e “idas”, além do que o objetivo da cultura orgânica é a qualidade e não apenas quantidade. Por isso mesmo em 2009 82% dos agricultores paranaenses que cultivavam orgânicos/ecológicos eram agricultores familiares.

Essas e outras coisas encontrei garimpando sites (em português ainda, claro) na internet sobre o mercado de produtos orgânicos no mundo – que cresce cerca de 8% ao ano. Escrevi um monte de tópicozinhos em sueco e daqui a pouco vamos ver se eu consigo falar na frente de todo o mundo sem gaguejar.

Pelo menos aqui no blog consegui convencer alguém?

Haha…