A beleza da vida

Hoje passei o dia de cama. É muito comum que crianças pequenas peguem ao menos uma virose durante o inverno. Desde que o Benjamin começou na “escolinha” já passamos por duas: na semana passada Joel e Benjamin e nesse fim de semana eu.

Dizem que o mês de fevereiro é ainda mais propício para essas viroses e a maioria dos pais passam esse mês se revezando no cuidado dos filhos, uma vez que é proibido deixar a criança doente na escola.

Primeiro eu fiquei bem desanimada. O Benjamin mal começou e já perdemos dois finais de semana na cama, secando vômito e comendo mal. Isso tudo que ainda posso contar com a ajuda dos meus pais que vieram dar uma espiada no que é inverno de verdade.

Minha mãe (que também está de cama) brincou que agora ela tinha experimentado o inverno sueco em sua plenitude: chuva, frio, temperaturas negativas, vestir em camadas, neve, escuridão e… virose. Não faltou nada. Eu tive que rir e concordar.

Enquanto eu estava deitada com meus ais meu pai pegou o violão e começou a entreter o Benjamin com músicas infantis. Meu pai não toca violão, mas ficou brincando com as cordas e em pouco tempo Ben estava rindo, pulando e rodopiando pela sala. Ficou dançando ao som do sapo que não lava o pé e não deixava que meu pai parasse. Eu fiquei assistindo aquilo tudo já com saudades. A gente vive mais ou menos correndo atrás de perfeição, queremos fazer o que fizermos do “jeito certo” mas na maioria das vezes isso não passa de vaidade. Meu pai tocando violão sem saber, Benjamin desfrutando, rindo e eu deitada na rede com uma puta dor nas juntas… mas mesmo assim meu corpo se encheu de paz e calor contagiante devido a alegria e pureza do meu filho. Eu gostaria de poder ter congelado aquele momento para sempre e então pensei em escrever ainda que eu saiba que as palavras não alcançarão o meu propósito.

É só que a beleza da vida é para ser vivida. E eu estou muito agradecida de ter a oportunidade de perceber isso, ainda que eu esteja tão cansada que só queira dormir.

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Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #20

Férias! Oh, eu esperei tanto por elas… e apesar de dizer que o blog não está de férias ele acabou ficando em último plano nas últimas duas semanas. Mas aconteceu tanta coisa e eu trabalhei todos os dias até a última sexta… não vou prometer que vou deixar aqui fotos e que vou contar as histórias dos dias que já passaram porque… não vou.

Hoje só quero dividir com vocês uma coisa que achei muito inteligente que li na introdução do livro de Anika Österbeg, uma autobiografia sobre a vida da sueca que após ser presa nos EUA passou 28 anos em uma penitenciária sem conseguir ser transferida para a Suécia. Não sei todos os detalhes da história, sei apenas que ela foi presa porque, sendo usuária de drogas, estava junto com o namorado quando ele cometeu um assassinato. Enfim, ela diz que cada uma de nossas ações são como água a derramar-se no oceano de nossas vidas, nunca saberemos a intensidade de suas ondas mas é certo que teremos de lidar com elas para muito tempo…

Essa frase me tocou bastante porque eu acredito na força de uma escolha: se eu não houvesse levantado a minha bunda dos degraus do ginásio para falar com o Joel há tipo dois anos e meio atrás eu não teria este blog, por exemplo. Da mesma forma são apenas alguns segundos para decidir deixar a raiva explodir antes de vomitar nossas verdades em cima de outra pessoa, porque afinal, ela precisa ouvir ou precisa aprender. Puts, às vezes eu mordo a minha língua e isso me faz tão feliz que é quase inacreditável. Só porque eu quero ser humilde e não impor a minha vontade para os outros não significa que isso seja fácil, às vezes fico imensamente frustrada porque as coisas não vão do meio jeito. Mas daí também cabe uma simples escolha: ficar estupidamente irritada porque não tenho o controle da situação todo o tempo ou apenas relaxar um pouquinho e viver!

Hoje eu tenho a consciência de que muito tempo antes da minha vida tomar essa virada tão grande eu decidi ser feliz. Decidi caminhar mesmo que com passos lentos para construir algo grande na minha vida. E eu consegui. E agora eu não tô falando de morar na Suécia, isso eu já disse muitas vezes que é a mesma coisa que morar em qualquer lugar. Eu to falando do amor e dos laços, da rede de amigos que conquistei: eu me sinto muito mais perto da minha família, sinto que consegui pessoas especiais para uma vida inteira (Luuuuu, Angela, Maira) e um amor para toda vida.

Não porque eu decidi ser grande e importante, mas só porque decidi ser feliz.

E sou!

Lar doce lar

A lei de Murph impera: to gripada. No mais, tudo vai de vento em popa no Brasil. Na real, não com muito vento não, tá super abafado e seco, não tem chovido por essas bandas e a previsão do tempo na televisão só mostra mais e mais chuva para o povo que já tá debaixo dágua, lá em Minas e no Rio.

Apesar do quadro de desoloção – a soja tá morta e o milho não produziu nada – to bem feliz e não me importo um tiquinho com a falta de chuva. To suando e feliz. Tem um solaço que me queimou o nariz no primeiro dia e eu nem; até fiquei com aquela marca horrível de regata só de sair para comprar calcinhas. Mas nada diminui meu entusiasmo: to usando chapéu e ou guarda chuva quando to na rua (não estou branca, estou quase transparente), além de quilos de protetor solar. Me sinto apenas um tiquinho egoísta, mas é mesmo apenas um tiquinho.

Tem uma coisa que tira meu entusiamo: televisão. Céus, sorte que consegui instalar a internet aqui em casa porque BBB (como eles chegaram a décima segunda edição dessa merda?) é para dar náuses em Gandhi.

Com exceção dessa grande merda, ah! como a vida é boa. Amigos e família perto. Calor. A caipirada saindo na rua com carro velho e som ligado no último volume. Cerveja gelada – gelada mesmo, de trincar os dentes. E churrasco… céus, como é bom comer carne…

To feliz até com os pernilongos… será que dura três semanas?

Na Suécia também tem São Silvestre!

Sim!! É amanhã e acontece aqui em Göteborg! Hahahaha foi tão legal quando eu vi a placa: o trem número dois terá o caminho desviado amanhã entre 12h e 13h30min por causa da corrida de Silvestre (Sylvesterlopet); e eu ãhnn?? Achei até um site com as informações do evento, no qual eu infelizmente não consegui descobrir há quanto tempo acontece e tals.

Essa semana estou mais do que feliz. Só porque a vida é boa. E porque tem promoção na cidade! Hahahaha!! Mulheres… mas aqui realmente vale a pena aproveitar as promoções de mellandags (os dias entre Natal e Ano Novo) e do Midsommar: tudo fica metade do preço – às vezes menos. Comprei um casaqueto mui lindo (para a primavera) por uma pechincha. No mais, é meio louco ir para a cidade nesses dias porque é um verdadeiro formigueiro! Mas é legal, nem que seja só para “olhar o movimento” – coisa de caipira.

Amanhã é dia de festa e vamos virar o ano na casa do Moisés – depois todo mundo sai para algum lugar dançar. Passei no Systembolaget (na Suécia a venda de bebidas é controlada e você não encontra nada no mercado com teor de álcool superior a 3,5%) hoje e enfrentei uma fila quilométrica para garantir o brinde afinal,  amanhã eu trabalho até as  seis… bom também!

Fiz minha retrospectiva 2011 e sinceramente, o ano foi fantástico: janeiro o Joel foi para o Brasil e recebi o visto de residência (= permissão de mudar para a Suécia); em fevereiro fomos para a praia; março foi meu aníver, sempre é especial; abril mudei para as bandas de cá; maio comecei SFI; julho foi aníver do Joel e consegui trabalho; setembro terminei a primeira parte do SFI; e novembro/dezembro… terminei SFI, consegui o bônus, mudei de apartamento, ganhei a viagem para o Brasil e o maior do ano: fiquei noivaaaaaa!

Amadureci muito como pessoa, acredito que sempre aprendemos quando deixamos a zona de conforto, quando tentamos algo novo, quando queremos e aceitamos a mudança… gosto muito de Göteborg e ultimamente me pego pensando em sueco! Allt är ditt fel, Joel!

(Abre parênteses para ser melosa e romântica… esse ano eu tava conversando com um amigo que me disse que a vida é sempre melhor quando encontramos uma pessoa com a qual compartilhar as batalhas, derrotas e vitórias; quando encontramos alguém para somar. Fiquei pensando que sempre que nos apaixonamos por alguém acabamos nos questionando: será essa a pessoa certa? Às vezes, não fica muito claro, mas eu entendi que a melhor forma de descobrir é por meio dessa pergunta: essa pessoa está com você para somar? Eu sou tão feliz, me sinto tão segura e amada ao lado do Joel, e percebo que é simplesmente porque temos isso: nós estamos juntos, NÃO somos um, mas sim dois que se somam, crescem, aprendem um com o outro e tem liberdade, inclusive, para mudar. Amo você Joel…)

Planos para 2012? Ser feliz, cuidar de mim, ser feliz, curtir a vida, ser feliz, valorizar as coisas pequenas, ser feliz, valorizar as coisas simples, ser feliz, estudar, ser feliz, amar, ser feliz, trabalhar, ser feliz… agradecer a Deus!

Feliz ano novo!!!

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…

No Brasil eu tive a assinatura da revista Seleções por quase dois anos. Sempre gostei muito daquelas matérias de histórias fantásticas da vida real e sobre felicidade. Em uma delas, uma pesquisa havia questionado um número X de pessoas sobre qual era a época mais feliz de sua vida em diferentes períodos dela. O resultado em todas as enquetes foi que maioria das pessoas disseram não estar tão felizes atualmente; que tinham sido muito felizes em certo tempo atrás; que cultivavam a esperança de ter mais felicidade no futuro.

Penso que a discussão sobre felicidade é lugar comum, mas você já percebeu que é exatamente isso? As pessoas sempre acham que estavam mais felizes há um ano atrás – por exemplo – do que hoje, e que vão estar melhores no futuro. Mas daqui a um ano dirão o mesmo!!

Essa semana eu estava puta da cara, um pouco triste. Afinal nem tudo são flores, eu passo bastante tempo sozinha, até chorei… eu choro quando tenho vontade. Não gosto: a cara da gente fica horrível, olhos inchados, o nariz escorrendo, que coisa nojenta! Mas eu aprendi com a Angela isso, botar para fora, chorar quando se tem vontade de chorar!! E eu me achei no direito: tem todo aquele blá blá blá de choque cultural, mudança de tempo e espaço, o clima muitas vezes não ajuda (estamos no verão, julho, o mês mais quente do ano: chove e faz entre 15 e 17 graus C), todo mundo está de férias viajando e eu to na casa, as partições públicas (leia-se Arbetsförmedlingen) não ajudam, to estudando sueco quase que todo o tempo sozinha… poxa, tadinha d’eu né?

Eu sou meio Pollyanna às vezes, quem lê o blog sabe, mas não porque eu brinque de contente e sim porque eu sou feliz. Posso estar frustrada, chateada e puta da cara com um monte de coisas, mas eu sou feliz! Simplesmente porque ser feliz é uma escolha. Hoje eu li um blog de uma brasileira que foi para os EUA e ela deixou umas palavras que eu vou copiar (com a maior cara de pau):

Às vezes temos a tendência de achar que a felicidade virá naturalmente.Não é não gente, ela precisa ser cultivada. Às vezes esperamos pelo momento perfeito com a visita perfeita para fazer aquela  sobremesa, para mudar o cabelo, para usar aquele vestido que não sai do guarda-roupa, pelo dia perfeito em que não estaremos cansados demais  para namorar o(a) esposo(a) na cama , pelo o corpo sarado para só então poder usar um biquíni ,pela conta bancária gorda para poder casar, etc…Em suma, passamos a vida esperando por um ideal que não virá até nós.
Na nossa realidade tudo trabalha contra nós:
o trânsito, o atraso, o estresse, a data de entrega de certo material, filas longas de banco, a doença,o almoço que tem que está pronto em cinco minutos, o problema do cliente chato, a criança que não pára de chorar,a burocracia de um país, etc… Essa é a verdade, gente.
O senhor tempo não vai esperar que as condições favoreçam para que sejamos felizes. O tempo de viver bem e feliz é agora. Dê fim as desculpas, dê fim a negação, dê fim a justificativas sem causa.Faça diferente.O amanhã não é garantido a seu ninguém.

 

Cada tempo traz a sua dificuldade, e agora é um período complicado para mim: não poder me expressar em sueco e não ter um trabalho são coisas difíceis e parecem tão grandes, mas eu sou feliz. Quando eu arrumar um trabalho vou ter dificuldades no trabalho – todo mundo tem, mas vou ser feliz. Eu nunca vou deixar de aprender sueco, e ainda quando conseguir me expressar não vou deixar de ser estrangeira. Mas vou estar feliz.

Eu sinto uma saudade enorme de meus amigos. Mas eu me sinto imensamente feliz por ter vivido tantos momentos fantásticos que me fazem pensar nessas pessoas de forma especial! Hoje por exemplo é aniversário da minha irmã (Gio parabéns!!)  e nós estamos milhares de quilômetros longe, mas assim é a vida! Eu posso escolher lamentar pelo resto do mês que foi aniversário da minha irmã e eu não estava lá para comer o bolo ou posso cantar parabéns para ela e mandar um vídeo!

Eu escolho o quanto perto ou longe vou estar, legal ou chata posso ser, o quanto posso amar. É verdade: amor é escolha, perdão é escolha, respeito é escolha, porque felicidade seria diferente?

A vida é aquilo que a gente trabalha para ser. É aquilo que a gente pinta!

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida…

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo…

[…]

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá…