Saudades

Eu tenho saudades de escrever aqui. Agora ainda mais, quando não sei porquê meu teclado ficou doido e até me deu um ç. Posso escrever criança, lambança e poupança; realizações, felicitações e paparico e bico de pato, assim sem mais. Haha.
Miguel chegou e nós tivemos dois meses muito intensos mas tranquilos. Quem é mãe sabe como é que são essas coisas todas do pós parto, mas eu estava preparada dessa vez e com a minha mãe a tiracolo o puerpério foi fichinha. Sabe como é, mãe sabe das coisas, sabe até mesmo cuidar de outra mãe (que queira esse tipo de ajuda, que fique bem claro). Minha mãe voltou para o Brasil e Murph veio morar com a gente. Simplesmente…
Foi um festival de todas as gripes e viroses (diarréias em geral) que se possa imaginar. Eu ficava doente e aí os meninos ficavam doentes ou eles (um de cada vez ou os dois juntos) e depois eu… e assim foram fevereiro, março e abril. Eu quase ganhei um cartão fidelidade do hospital (#exagerada). Nunca imaginei que um inverno pudesse ser tão comprido… e aí que já se vão seis anos de Suécia e eu não sabia que o inverno podia ser esta merda. Pra você que curte um friozinho e sonha com a neve, só um recadinho: é lindo, mas é letal. É frio que não acaba mais e tudo que você queria é uma semana de sol e calor, uma semana para você botar os colchẽs para fora e abrir todas as janelas da casa para ver se arejando a coisa melhora.
Mas e daí que passou. Amém.
A semana de sol e calor já veio e já foi embora. Eu não botei os colchões para fora mas estou esperando que Gotemburgo me dê ao menos mais uma semana de sol e calor esse ano.
Falando nisso, achei bonito que algumas pessoas me escreveram perguntando se vou parar de postar, já que eu parei de postar, se me entendem. Eu não sei… o engraçado é que ainda recebo perguntas por email a respeito da vida na Suécia. Mas devem haver outros blogs mais atualizados não?
Enfim, essas perguntas que recebo soam super bizarras justo quando a gente está passando por essas situações especiais da vida… tipo, isso que comentei acima, essa sensação de que o inverno nunca acaba… aí uma pessoa me manda um email (fazia uma cara que não recebia perguntas via email, só via facebook) se Gotemburgo dá praia. Eu lendo o email, resfriada com uma puta dor de garganta, meu coral de duas vozes recitando ´´a Tosse´´ numa sonata que poderia ser de Bethoven, chuva lá fora e 4 graus C…
Gotemburgo dá praia. Mas é bom usar neopreno de manga longa.

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Mais sobre o inverno

Faz um tempo que não posto nada da série de dicas de sueco. Na verdade, tenho que voltar a ler esses velhos posts que escrevi quando comecei a estudar e sabia apenas que isso era assim e aquilo assado, porque agora sei que há o frito também e posso acrescentar… pequenos detalhes, grandes diferenças. Estou envolvida com muitas coisas agora e por isso vou deixar apenas algumas palavrinhas sobre o inverno.

Há algum tempo atrás postei as estações do ano, então se alguém se lembra inverno é vinter (en ord, por isso vintern quando definido; e invernos vintrar  – plural definido: vintrarna). O inverno sueco é razoavelmente quente se comparado a de outros países em posição geográfica semelhante no globo terrestre por causa de correntes marítimas quentes vindas do Atlântico que batem aqui no lado oeste do país. Apesar disso, as temperaturas no norte podem atingir os -40 graus C, e todo o país pode ficar branquinho por causa da neve (snö, snön) e geada (frost, frosten).

Eu digo que pode porque aqui, por exemplo, não nevou muito não e sempre que aconteceu foi bem tranquilo (verbo nevar: att snöa. Está nevando = det snöar), nada de um metro de neve nas portas e nada de tempestade de neve com vento. Houve dias muito frios em que as árvores estavam cobertas de uma fina camada e gelo – e isso é lindo, apesar de sinistro. Até choveu agora durante o inverno (eu acho isso chato pacas) porque as temperaturas variaram bastante, tivemos aqueles dias com menos 18 graus mas também há dias com 5. E então chove. A chuva lava a neve, mas como ainda é frio e a temperatura cai muito a noite, tudo vira gelo (is, isen).

O principal problema dessa lambança toda – neva, chove, derrete a neve, cai a temperatura, congela tudo – é que se formam camadas e mais camadas de gelo – por vezes aparentes e por vezes nem tanto – que são um convite e tanto para escorregar. Agora imagine a mesma situação para os motoristas: apesar do sal que é jogado nas principais estradas, em alguns pontos ainda há gelo e é preciso cuidado redobrado nas curvas.

O lado divertido do gelo é poder andar de kälke (mas isso eu fiz apenas em Oslo) , patinar (åka skridskor), esquiar (åka skidår)… Ainda não esquiei e não tenho ideia se vou experimentar. É muito caro: há que se alugar os esquis, viajar para algum lugar ao norte onde há pista, emprestar ou alugar roupas adequadas… e tudo isso para cair na neve e passar frio. Claro que também é muito divertido, mas eu ainda estou aprendendo a perder o medo do frio e do gelo e a viver uma vida normal, apesar disso tudo. Oh, que saudades de por um vestido de algodão e havaianas!

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Falando em perder o medo, caminhei de novo no Mjörn – um lago enorme, com 55 km quadrados. Eu tenho muito medo de lagos congelados, eu não posso ver pessoas estúpidas caminhando no gelo recém formado (como a Vânia mostra aqui) ou indo muito longe lago adentro com crianças. Ainda que eu saiba que há uma boa camada de gelo sobre o lago, assim que eu vejo alguém com crianças eu começo a ficar nervosa e uma série de imagens de tragédia vem a minha cabeça. Ridículo, eu sei, mas tem muita gente sem noção que sai com as crianças para o gelo ainda que saibam que não é 100% seguro. Em todo o caso, o Mjörn está (va, talvez seja maior ou menor agora) com uma camada entre 15 e 20 cm de gelo e então a gente saiu para caminhar. Acho que caminhamos algo como 200 ou 300 metros lago adentro. E havia muita gente patinando, muitas pessoas andando de spark e outras pessoas que assim como nós, caminhavam sobre o lago congelado. Alguns cobrem toda a extensão do lago de patins – é um pouco difícil porque o lago não tem uma superfície de gelo regular como nas pistas, e havia uma turma reformando um barco/casa que esta no meio do lago desde 2011 – durante o inverno também, pasmem.

Apesar do inverno mais frio sinto que me adaptei as baixas temperaturas. Ou isso ou aprendi, finalmente, a me vestir… talvez um pouco dos dois. O fato é que no ano passado apesar de não estar tão frio como agora eu usava muito mais roupas – tanto dentro de casa como fora, tinha a constante impressão que um fio de vento safado subia a minha bunda e vinha fazer minha espinha dorsal de parque de diversões. Sempre estava tremendo – apesar de ter minha super jaqueta de inverno… Dica de sueco: use a palavra inverno combinada com as diferentes peças de inverno para se referir a jaquetas e sapatos, assim como use o adjetivo gordo para dizer que é um casaco, meias, jaqueta grossa/o – vinter jacka, vinter skor, vinter byxor, tjock tröja, tjocka strumpor… Jag har en varm och tjock vinter jacka, men inte någon vinter byxor (Eu tenho uma jaqueta de inverno quente e grossa, mas não uma calça de inverno).

No mais, tudo no mesmo… em breve mostro para vocês como ficaram os convites do casamento.

Tchau!

Glögg!

glöggEssa não é a onomatopeia sueca para engolir, o nosso glug! glug! ou glup! glup!. Glögg é uma espécie de quentão sueco tradicionalmente consumido no período do Natal. Essa bebida não é feita apenas a base de vinho – na Suécia o “quentão” pode ser feito a base de cachaça (leia-se vodka – hahahaha. Brincadeira, na verdade eles usam brännvin, um tipo de graspa) ou svagdricka (um tipo de cerveja ruim), vinho fraco ou um tipo de saft; assim como também existe o glögg sem álcool.

Ontem fomos a casa de amigos que promoveram uma brincadeira: uma prova de glöggs acompanhado de um quiz. Assim fiquei por dentro tanto da história do glögg (que a partir de agora chamarei de quentão sueco) como de algumas curiosidades.

Os inventores do quentão foram os gregos e eu nem entendi direito essa afinal, na minha ideia na Grécia só existe verão (e depois eu reclamo quando me perguntam se fui eu que ensinei o Joel a falar espanhol…). As primeiras receitas de quentão continham basicamente vinho e temperos (canela, gengibre, cravo, mel…).  O termo glögg foi utilizado na Suécia pela primeira vez em 1609 e foi originado a partir de um verbo antigo att glögda (esquentar) porque o pessoal esquentava o vinho.

Atualmente bebem-se cerca de 5 milhões de litros de quentão sueco no período do Natal mas, diferentemente de nós, os suecos compram o seu quentão diretamente no Sytembolaget (a loja de bebidas alcoólicas). Os amigos que nos convidaram para o glöggprov fizeram seu próprio quentão em casa de forma artesanal, usando alguns temperos, svagdricka e beterraba. O resultado ficou interessante mas pessoalmente, ainda prefiro o quentão brasileiro – não que seja muito melhor, mas é que já estou acostumada.

Beber quentão sueco faz parte das tradições de Natal. A primeira vez que experimentei o pessoal esquentou o quentão e depois adicionaram uvas passas e nozes. O quentão sueco é tão doce quanto o nosso – menos o caseiro dos nossos amigos que estava bem forte – e eu acho engraçado que o quentão é servido acompanhado das guloseimas doces de Natal como as famosas pepparkakor. (Nunca viu uma pepparkaka? Imagem aqui). Doce com doce…

Falando em “doce que te quero doce” experimentamos um quentão de lakrits – aquele doce feito de anis que às vezes leva sal e é uma das manias nacionais – e eu curti bastante; apesar de parecer super forte, alcoolicamente falandoNa Suécia o quentão é temperado de várias formas e a cada ano é lançado um “sabor do ano”. 2012 foi o ano de uma frutinha japonesa, o yuzu, que é uma espécie de “bär” (aqueles frutinhas azedas que dão no “mato” como framboesa) realmente azeda. O sabor do ano do quentão sueco ano passado foi café (???) e em 2010, açafrão.

O quentão é realmente popular nos países europeus e pode ser encontrado em praticamente todos os países; mas claro que a receita tem, apesar de contar com o mesmo princípio, características especiais de cada localidade – como o caso do glögg. Então, algumas curiosidades: na Alemanha o quentão é chamado de glüwein; nos países ingleses mulled wine; na França e Suiça vin chaud; na Itália vin brulé; na Romênia vin fiert; na Sérbia kuvano vino; Eslovênia kuhano vino; Polônia, grzane wino; Eslováquia varené vino; na Rússia: глинтвейн (a pronúncia é muito simples: se lê exatamente como se escreve); República Tcheca svařené víno; e por fim, forralt bor na Ungria (fonte: Wikipédia).

Decorou? Qual é o quentão que você já provou? Preferidos?

Hahahaha… Quem tiver uma receita secreta e quiser partilhar seja bem vindo. Acho que ano que vem também vou entrar nessa de tentar fazer meu glögg caseiro… ou não!

Eu não nasci para hemmafru

É sempre bom começar um post falando do tempo, já que esse é um dos assuntos mais badalados do momento depois que as tempestades de neve sacudiram o leste sueco – Stockholm fica no leste, por exemplo. Para ver fotos lindas da cara do inverno sueco dos lados de lá clique aqui e aqui ou, essa é a cara da minha vizinhança (aqui não há 15 cm de neve acumulada, apesar de tudo estar branco).

DSC05506

Acho muito lindo tudo branco. Mas no centro não é mais assim. Hoje fizeram cerca de -15 C durante o dia e não nevou (a previsão era de -18 C). Por causa do sal deixado no asfalto a neve derrete e vira uma lama de gelo triturado cinza. Um treco meio nojento, que gruda nos sapatos dos transeuntes e vai tornando o branco cinza em toda a parte. E a neve derrete, a temperatura cai, tudo vira gelo e todo mundo vai rebolando pelas ruas, numa dança nada sensual pelo equilíbrio. Não sei como é que esse povo não aprende a dançar!

E o trânsito parou em todo o centro hoje…

Mas eu não vou reclamar do frio e da neve. Tô achando até bonitinho – vamos ver por quanto tempo dura a animação pois como disse a Nara, o inverno é longo… e eu dentro de casa sou feliz!

Como tenho uns horários de trabalho meio doidos tenho tempo para fuçar na internet e também para me incomodar com as teias de aranha da casa. Isso mesmo, na Suécia também existem aquelas aranhas de pernas compridas e finas que fazem teias enormes pelos cantos. Quando eu vejo isso (às vezes) eu me transformo na poderosa hemmafru (dona de casa, em sueco) e decido que é hora da faxina. A animação persiste até eu entrar na cozinha: minha cozinha de seis metros é muito pequena para o tanto de refeições que eu quero fazer, e o resultado é sempre meleca.

Outra, que eu sou do tipo que começa a fazer uma coisa e lembra de fazer outra no meio, larga o que estava fazendo para não esquecer o que lembrou; começa o que lembrou, termina ou não, porque se eu lembrar que preciso daquilo também ou eu anoto ou eu faço, e às vezes eu pego um papel para anotar mas depois esqueço de ler o que anotei ou lembro de alguma coisa que deveria fazer e largo o papel… acho que já ficou confuso. Vamos ao exemplo prático.

Limpei (todo) o banheiro e peguei o aspirador de pó. Decidi tirar o pó primeiro e então achei bananas meio velhas, decidi fazer um bolo de banana. Levei as bananas para cozinha, organizei algumas coisas na cozinha, voltei para o aspirador. Achei roupas que ainda não guardei desde a última visita a lavanderia (que eu não vou contar quando foi). Guardei (algumas). Percebi que não havia tirado todo o pó. Voltei ao aspirador, e assim que tudo estava pronto comecei a calda para o bolo, descasquei e cortei as bananas e daí… não tem ovos.

Eu poderia fazer o bolo sem ovos, afinal, eu já fiz e não é o fim do mundo. Mas sei lá porquê, eu fiquei encucada. Se o vizinho estivesse em casa eu bateria lá e pediria “ovos emprestados”… coisa de cidade pequena, eu acho. A gente tem um vizinho super gente boa (amigo de infância do Joel) que até me deu uma colher de chá quando esqueci minhas chaves não sei onde e fiquei trancada fora do apartamento por quase 6 horas. Se fosse no Brasil eu não hesitaria em sair rumo ao vizinho mais próximo (mesmo que fosse desconhecido) e toc toc: “Oi vizinhx, é que eu comecei a fazer um bolo e percebi que não tenho ovos, será que eu poderia emprestar dois ovos?”. Mas e se o vizinho não tá em casa, e só a irmã dele abre a porta eu ia morrer de vergonha. Lá estão as bananas no caramelo, a massa pela metade, o forno pré aquecendo. Desligo tudo, visto a roupa de blindagem contra o frio e vou até o “torget” (uma pracinha com comércio) que fica a 10 minutos de casa comprar ovos.

Faço o bolo e começo a preparar uma comidinha. O Joel chega e o pessoal do Arbetsfömedlingen me liga para um “bate papo rápido”. Fico animada porque eu estou procurando ajuda para conseguir o trabalho como assistente social, mas logo de cara ela já avisa que não pode me ajudar nem com isso e menos ainda com aquilo e fica se desculpando e descrevendo todas as coisas que ela não pode fazer por 20 minutos. Eu me irrito, não entendo bem o que a mulher tá querendo lá do outro lado do telefone, repetindo palavras que eu não sei o significado, tudo lá na cozinha pela metade e eu com fome, com raiva e quase chorando. Pergunto para ela porque eu não posso ter uma entrevista com ela para a gente tratar de todos os detalhes frente a frente – para mim é bem mais fácil entender sueco olhando na cara da pessoa – e ela me responde que não trabalha em tempo integral e tem mais de 400 pessoas – como eu – para gerenciar. Que compromisso dessa instituição não? Eu fico puta, falo para ela que não “tô entendendo meu”, será que não podemos mesmo marcar uma entrevista?, sim claro mas só no final de janeiro – fazer o quê? – a conversa acaba e nada mudou; a receita pela metade já esfriou, tudo tem que ser recomeçado e eu sem tesão nenhum.

O Joel fez o que podia para ajudar mas no fim, a receita ficou um lixo e a cozinha tá uma meleca, e depois da conversa com o A fiquei sem nenhum tesão de arrumar. Toda a confusão faz parecer que não adianta nada eu limpara a casa… sem falar que eu esqueci de tirar as teias de aranha.

Eu não nasci para ser hemmafru

Amanhã: Brasil!

Isso mesmo: amanhã estou chegando ao Brasil e estou tão ansiosa que sei lá o que eu faço comigo mesma (quem acompanha o blog sabe que essa coisa de não saber o que fazer comigo mesma é meio frequente, então… significa que eu vivo muitas emoções, todo o tempo – =P hahaahaha!). Decidi deixar registrado um status de como deixo a Suécia.

Fonte aqui

Essa semana a temperatura caiu de novo, ficamos na marca dos 5 graus em Göteborg e desde ontem parou de chover. Sim, pois há cerca de duas semanas atrás tivemos geada e muito frio (aqui quando a geada chega ela não some de um dia para o outro, como é o comum lá pras bandas donde vim), tanto que me obriguei a tirar meu super casaco vermelho de inverno do guarda roupa. Mas aposentei o bichim em seguida pois começou a chover diariamente (sim, choveu todos os dias nas últimas duas semanas até ontem) e as temperaturas subiram. Ontem, nevou em Stockholm mas eu não vi geada de novo.

Hoje fui a escola fazer uma prova (quase dormi em cima dela então nada de ganhar um A) e ontem foi meu último dia de trabalho antes da viagem. Saí de casa desprevenida e sentia meus dedos congelando enquanto eu empurrava a cadeiras de rodas do Zé e o Zé pela cidade, abaixo de chuva de pedra. Não, não somos masoquistas, é só que precisamos andar uns 50 metros até o ponto do bonde, e a chuva de pedra na Suécia parece mais chuva de feijão; são pedrinhas miudinhas caindo, nada comparado ao que acontece no Brasil.

Coisas que acontecem na vida de um assistente pessoal: o Zé queria fumar e saímos ao ar fresco para ele poder pitar o cigarrinho dele e daí uma senhora chega na minha frente, faz uma pose de espanto e choque e dispara o sermão do “como é que VOCÊ faz isso com ELE? Você não percebe que ele é doente? Meu Deus, meu  Deus…” Olha para mim com o olhar mais desaprovador da face da terra e vai embora. O Zé ri, eu suspiro. Já nem explico que a escolha é dele, que se fosse por mim ninguém no mundo fumaria… A ironia do destino é que uns minutos depois (quando ele já havia acabado o cigarrinho) chega um senhor e “Parabéns! Seu trabalho é lindo!”… é… Obrigado, tipo.

E eu preciso de sol. Não tenho nenhuma ambição de ficar morena não, preciso só e simplesmente de sol! Chove, chove e chove em Göteborg (parou ontem) e agora os dias começaram realmente a ficar escuros. Eu tenho uma lembrança forte com relação ao ano passado, e esse ano eu tenho a mesma impressão: não é que os dias comecem a ficar mais e mais escuros lentamente, é que em uma semana de repente o sol para de nascer as 7h da matina e só dá as caras as 8h. Esse fim de semana é Hallowen na Suécia e os relógios serão atrasados em uma hora para o horário de inverno… ainda assim,  continuará escuro.

Fico ainda mais feliz ao pensar que deixo a Suécia escura e fria para ir ao Brasil (tomara que não chova!) quente e ensolarado. Vai ter o aniversário do meu irmão mais lindo e Arrancadão de Tratores, sem falar que vou comer todas as gostosuras que minha mãe faz, e churrasco, e tirar os colos atrasados com meu pai, e andar a cavalo, e visitar o trabalho novo da minha irmã, e…

Acho que o blog vai estar meio abandonado viu… vou ter tanto o que fazer, e serão só três semanas!

Vi ses då och då!

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #11

O SAS começou e a minha indisciplina, somada a decisão de ir para a academia ao menos 3 vezes na semana são as minhas desculpas esfarrapadas para a ausência de posts. Inspiração e assunto não faltam, muito menos tempo, mas  minha capacidade inata de gastar muito tempo filosofando sobre a cabeça de um alfinete torna tudo um pouco mais complexo.

Uma das coisas que tem me deixado bem feliz esses dias é que meu pai e mãe estão usando a internet agora, e isso facilita e muito a comunicação. Agora a gente não precisa falar 5 minutos e desligar. Melhor para mim, pior para eles  porque tem que ficar dentro de casa naquele calorzão absurdo que anda fazendo no sul do Brasil – que continua recebendo poucas visitas da Senhora Chuva!

Falando em tempo, vivi minha primeira experiência – que vou chamar de extrema – de contato com o frio: saí na noite de sábado com o Joel para dar uma voltinha de 10 minutos quando os termômetros marcavam MENOS DEZOITO GRAUS!! Não que eu quisesse, mas depois de o Joel muito insitir – e de aguçar a minha curiosidade com uma história de que o gelo “canta”, vesti todas as roupas térmicas disponíveis na casa da mãe dele e fui. A sensação é de que os dedos vão virar picolé se você não se cuidar…

A respeito do gelo cantante, é realmente impressionante. Os pais do Joel moram perto do lago Mjörn – que tem 55 quilômetros quadrados – e que está coberto por uma nata de gelo. Como o frio chegou mais tarde esse ano, não é seguro caminhar sobre o lago – apesar de ter muita gente fazendo isso – porque o gelo não se forma de modo uniforme e não há como saber se a espessura é maior do que 10 cm – o recomendado para que uma pessoa não seja engolida por uma rachadura. A temperatura caiu tanto no fim de semana que fez com que o gelo trabalhasse, e o ruído do gelo se formando e deformando é alto: como o som que ecoa quando batemos em um cano de ferro, seguido de agudos e “kraks” de possíveis rachaduras… Show, mas eu nem precisei chegar perto do lago para ouvir, e na verdade, não teria coragem de ficar sobre o gelo com toda essa “movimentação”.

O Mjörn no verão...

O Mjörn no inverno... com o Joel em pé mais ou menos no mesmo lugar onde antes estava o atracadouro para os barcos!

No domingo nevou e as temperaturas voltaram a subir. Foi a primeira vez que teve um dia de neve inteiro desde que eu cheguei, e eu posso dizer que é mais do bonita; a neve não cai, ela flutua em direção ao chão, e pode mudar de curso a qualquer momento: vai para os lados, em diagonal e até mesmo para cima. Muito lindo mesmo e acho que a melhor forma de descrever é mysigt, esse adjetivo danado que significa tudo de bom e gostoso…

E o SAS… não sei ainda, tenho esperança de que seja intenso, difícil e bom. Quem não lembra ou não sabe, o SAS é o curso de sueco como segunda língua (svenska som andra språket) para quem quer aprender o sueco de nível avançado. Gostei do SFI, mas toda a gramática do sueco que aprendi até agora fiz sozinha ou com as orientações da Gunnel. Espero aprender isso no SAS e se não for, daí sei lá, faço um curso universitário.

Quem sabe não me matriculo em um curso de etimologia da língua sueca e aproveito para usar ainda mais a minha capacidade de filosofar?

E a neve… sumiu!!

HahahAhAHHaha… todo mundo me perguntando se eu to anciosa para que neve e eu: NÃOOOOOO! Esse tem sido o outono mais quente da Suécia desde os anos 1800, e eu to achando simplesmente fantástico.

Tá bom que Göteborg é a cidade que chove, e chove, e chove, mas a temperatura tem variado dos zero aos 10 graus C. E você deve estar pensando: ihhhh, ela virou sueca! Mas não é isso – ainda. Na verdade eu nunca vou me equiparar aos e às vikings, mas eu me sinto bem mais confortável em relação ao frio do que no início; se bem que o quadro ainda é o seguinte: enquanto eu vou com minha grande e quente jaqueta vermelha para todo lado (mais toca e luvas, duas meias nos pés e um sapato bem quente), as suecas andam de meia calça fio 20, botinhas e bolerinho de couro.

Elas usam touca e cachecol, mas eu simplesmente fico sem palavras… elas não tem frio nas canelas ou são acostumadas a passar frio? É que quando a gente entra em lojas e nos trens e ônibus tudo está aquecido. Mas a chuva e o vento são frios pra caralhooooo! E, para mim, 1oo metros com vento super gelado na cara podem parecer mil.

Mas tá bom, tá bom demais porque as temperaturas esperadas para dezembro são de graus negativos – ano passado começou a nevar em outubro. Não sei se vai rolar… tá realmente “quente” para o período, e o povo clama pela neve, o pessoal quer neve no Natal. Primeiro porque é bonito (dizem) e segundo porque quando começar a nevar não vai mais parecer tão escuro.

Se for para dissipar a escuridão, eu também quero! Mas tem como ter um pacote de neve sem muito frio?

=]