E a manifestação…?

Na semana passada contei a história do meu envolvimento na organização da manifestação ou demonstração que aconteceria em Göteborg em apoio às inúmeras manifestações que estão acontecendo no Brasil. Naquele post também partilhei as minhas dúvidas e neuras com essa coisa toda de protestar e da necessidade ou não de entender pelo quê ou porquê o Brasil está protestando – até mesmo porquê se o objetivo é daqui apoiar o povo de lá… o que justamente queremos reforçar? Em todo o caso, a manifestação saiu ontem/hoje (27 de junho) na praça em frente a prefeitura de Göteborg, ou simplesmente, em um local com muito movimento. Momentos após o fim da demonstração já tinha fotos no portal do GP (Göteborg Posten), o jornal de maior circulação aqui de Göteborg.

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Olha eu lá no meio, ao lado da Priscila.

Apesar de eu ser uma das administradoras da página do evento, fui só mais uma na “multidão” ali; e isso me deixou um pouco mais tranquila. Tenho que confessar que passei a semana inteira com muita preguiça só de pensar que teria a manifestação hoje, e que tentei várias vezes convencer a Sebastiana a cancelar o evento por causa de… sei lá, dessa indecisão toda e falta de noção de algumas das pessoas que queriam dar os contornos da coisa. Eu não acho que seja uma pessoa iluminada – e isso ficou bem claro quando na segunda feira passada, por exemplo, sentamos eu, Sebastiana, o Sebastião e o Tonho para discutir uma possível programação para a manifestação. Cada um ali tinha ideias super diferentes e passamos duas horas somente discutindo as possíveis diferentes causas da “nossa” causa, e apesar de eu não saber bem porquê, me senti bastante burra nesse encontro. Discordamos muito de forma construtiva e o fato de encontrar gente que é mais inteligente do que eu me deu esperança de que a demostração pudesse ter algum sentido especial, ao final.

*Por gente mais inteligente do que eu entendo as pessoas que não desperdiçam o precioso tempo de suas vidas batendo boca com donas de clubes, ops, eu quis dizer associações que não tem a Rainha Sílvia como presidente honorária.

Quando eu fugi da reunião da segunda-feira, cheguei em casa e ainda uma vez disse ao Joel que se eu não tivesse começado toda essa história de demonstração em apoio aos manifestantes no Brasil eu nem iria participar do evento. Todo o gás que adquiri para o meu balão ao trocar ideias com aquele povo interessante da reunião sumiu depois de ver mais atualizações escrotas no facebook e testemunhos de gente que ficou desapontado ao participar de manifestações no Brasil. E porque as pessoas estão tão desapontadas? Porque foi apresentada uma causa geral e óbvia que guia a massa enquanto gente que entende que é ncessário disciplinar mulheres e crianças no tapa marcha ao lado de gente que acredita que a violência em qualquer forma tem que acabar; e gente que tem orgulho de ter uma presidente mulher tem que ouvir gritos de “fora Dilma” porque tem muita gente com raiva do PT; homossexuais marchando ao lado de gente que acha que o Feliciano teve realmente uma inspiração divina ao instituir o projeto da cura gay… Uma confusão só. É claro que somos diferentes, que somos milhões de mundos mas realmente estamos todos juntos contra a corrupção ou somos um bando de “Maria vai com a outras”? Se tem tanta gente assim indignado com a corrupção porque esse projeto aqui ainda não recebeu 1,6 milhões de assinaturas?

Em Göteborg fomos talvez 150 pessoas e não foi diferente, cada um tinha a sua bandeira. E foi sim um pouco esquisito porque cantamos tanto “caminhando e cantando e seguindo a canção” como “eu te amo meu Brasil” durante o evento. Pra quem não entendeu do que eu tô falando eu explico: as duas músicas foram muito famosas no tempo da ditadura, uma por representar os movimentos de resistência ao regime militar e outra por representar o movimento “Brasil, ame-o ou deixe-o” que foi propagado pelos militares. Adivinha qual das duas o povo cantou com mais vontade? Eu podia até dar um desconto porque “eu te amo meu Brasil” é bem mais fácil por se tratar de uma marchinha… mas será que dá?

O princípio democrático seria justamente o ato de aceitar que nem todo mundo pensa como eu, mas por que será que a gente fica com um gosto estranho na boca quando vê gente defendendo merdas por aí? Ou pessoas que se comportam durante uma manifestação exatamente como crianças do fundamental durante um ato cívico da semana da pátria? Eu vou cantar o hino nacional mais alto e mais forte porque eu sei e eu posso, depois eu vou puxar o refrão “eu sou brasileiro com muito orgulho e muito amor” e por fim eu vou embora e já no caminho de casa vou dando uns likes para postagens a favor da redução da maioridade penal, ou pior, vou dar likes para aquela postagem que diz que quem recebe o Bolsa Família deve perder o título de eleitor.

Mas tá valendo, eu to numa foto no jornal e o pessoal da organização (o comitê do povo inteligente – SST) elaborou um discurso muito bom (fiquei realmente orgulhosa). Apesar disso ainda não vi nenhuma das imagens que me mostre feliz por ter estado lá. Eu me senti meio com vergonha, isso sim, e dá para ver na minha cara.

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Clique na imagem para ver a minha cara de quem perdeu o fio da meada. Ah, e tem uma menina fazendo uma das típicas “pose de perfil para o face” bem do lado do cara com o cartaz “Brasil tamo junto”.

Como eu não sou mentirosa vou compartilhar a foto em que estou mais feliz: essa segurando a faixa que pintei com “fora Feliciano” que dividi com a Mineira Abaixo de Zero Priscila. A pose ficou bacana e não é que parecemos irmãs?

Vieram me perguntar o que era estado laico - e não é de estranhar que não saibam, afinal, não existe no Brasil.

Vieram me perguntar o que era estado laico – e não é de estranhar que não saibam, afinal, não existe no Brasil.

PS.: Bem típico de mim, fazer um ps 15 minutos depois de publicar o post. Muitos suecos me perguntam porque tem tanta gente manifestando no Brasil uma vez que o país tem crescido tanto e anda bem na “fita” do mundo econômico. Aí eu digo que bom, tem o Feliciano, o foro priveligiado, o Renan, os gastos exorbitantes com parlamentares numa república em que representantes eleitos conservam os mesmo privilégios oferecidas a nobreza numa monarquia (pensando bem, a nobreza no Brasil – e eu duvido que em qualquer outro lugar do mundo – jamais foi tão rica quanto o são nossos parlamentares…), a má distribuicão do imposto de renda, a precária infraestrutura do país, a escassez de escolas/universidades, o descaso com a saúde, as desigualdades sociais, o não reconhecimento dos direitos das mulheres e dos homossexuais… tudo isso é motivo para sair as ruas. Eu fico imaginando o que outros brasileiros respondem e ah, hoje um sueco me respondeu que a gente devia pensar seriamente em eleger um presidente como Hugo Chavez para o Brasil. Se alguém espalhar mesmo essa ideia entre os manifestantes as manifestacões acabam amanhã porque o Brasil ainda tem medo do fantasma do comunismo e vê o a esquerda como socialista que tem um pacto com o bicho papão. Daí é bom avisar a todos os babas ovos que vivem admirando a Suécia: sabem porque a Suécia é um dos países com melhores níveis de igualdade do mundo? Ela tem um governo de esquerda.

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De como (não) organizar uma manifestação

Sumi, mas por uma causa nobre: estou ajudando a organizar uma manifestação de apoio aos manifestantes aqui em Göteborg.

Eu sei que tudo isso está muito confuso, agora o pessoal de Sampa conseguiu que a tarifa do transporte coletivo continue com o mesmo preço, tem um monte de gente compartilhando informações sem noção na internet – desde o impeachement da Dilma até apoio ao vandalismo e uso de violência pela polícia e contra a polícia – mas eu espero que o pessoal acerte o foco e que não pare por aí. Enquanto isso…

Nem sei quem começou um trem pela internet (facebook) chamado Democracia não tem Fronteiras. Primeiramente o movimento era para dizer não ao uso da violência policial utilizada para o “controle” das manifestações (principalmente) em São Paulo. É fato que a polícia já havia descido o cacete em vários manifestantes em diferentes cidades pelos país – manifestantes que foram as ruas tanto pela redução de tarifas do transporte público como por outras causas – mas quando aconteceu na Avenida Paulista o negócio explodiu. E, é claro, apareceu na mídia no exterior.

As primeiras informações foram de apenas algumas linhas, em sua maioria, distorcidas. Os atos de vandalismo ganharam muito mais foco do que a causa da manifestação, que, em alguns jornais europeus, foi destacada como “Caos nas ruas da maior cidade brasileira por causa de €0,07”. Aí o Democracia não tem Fronteiras “seria” um canal ou um meio para esclarecer a real situação para o mundo. Seria.

A coisa toda virou uma zona, eu acho. Entrei muito rápido nessa – coisa de quem não tem maturidade e nem experiência de militância – mas, enfim, acho melhor quebrar a cara de uma vez, já que me queimei, e aprender. Mas pah! Que trem enrolado…

Entrei de gaiata no domingo, depois de levar uma tesourada do pessoal de Stockholm. Eu estava literalmente dormindo enquanto tudo aconteceu no Brasil, e foi só no sábado, depois das 14h quando acordei, é que comecei a ler os relatos sobre as manifestações de Sampa. Já estava ligada em alguns detalhes da história do movimento (que começou em POA) mas fiquei abismada como tudo tomou uma dimensão colossal em São Paulo. E aí aquele lance de apoio no exterior combinadas com minhas chorumelas da madrugada e aquele papo mole de mudar o mundo me levaram a (por impulso) decidir me envolver.

Veja como é rápido entrar numa furada: eu (para o pessoal de Stockholm) – quero ajudar; eles – aham, legal, vem pra cá; eu não posso na terça… não teria sido interessante fazer o evento no domingo, daí o povo de G poderia apoiar…?; (brava) olha, entenda o seguinte, a gente não pode mudar tudo por causa de algumas pessoas! pegue as rédeas e organize VOCÊ mesma alguma coisa em G… E eu (burra né?): legal eu topo!

Uma das gurias de Göteborg percebeu o clima e comentou que estava interessada em ajudar. Começamos a conversar inbox e antes de a gente saber se realmente outra pessoa já estava organizando algum encontro em Göteborg criamos o evento e começamos a chamar gente. Mas já tinha uma manifestação agendada pelo Förening Brasil Sverige (aquele clube brasileiro do qual eu falo em algum post num passado distante).

Me fudi.

Entramos sem querer numa briga louca que deve ser muito mais antiga do que meus dois anos de Suécia e que já deu muita dor de cabeça. Quando entrei em contato com a dona do clube, ops, com a presidente da associação, começamos a relação com o pé esquerdo pois ela me tesourou legal (estava em férias e TODO o mundo ficou ligando e incomodando. Eu também – olha o que a precipitação faz)… depois dessa eu fiquei na defensiva o tempo todo com ela e era dois três pra criar faísca. Gente, foi tanta confusão que não tá na história da carochinha! Dava uma novela das 9 da Globo… até a Rainha Silvia entrou no meio da discussão por ser presidente honorária do “clube de brasileiros” de Stockholm.

Vixxx Maria…

Na segunda feira comecei a desanimar (depois de apenas 24h de “militância”) e comecei a me questionar se isso valia a pena. Afinal, pelo que estávamos lutando? Pra fazer propagando do Förening Brasil Sverige de Göteborg? (aqui a rainha Silvia não é presidente honorária…) Por causa de uma página de internet (o Democracia sem Fronteiras)? Pra ficar na mídia? Só porque eu tô com uma vontade babaca de salvar o mundo? É pra massagear meu ego?

Pra piorar, na segunda a noite comecei a perceber um monte de publicações estranhas no facebook: o movimento era contra a Copa; não, era contra a corrupção; não, era por causa da violência policial; não, era porque a gente tem que usar o vandalismo para chamar a atenção; é contra a PEC 37; é pelo impeachment da Dilma…

Só pra constar, não apóio o impeachment. Que ideia de jerico! Tem que ter é uma reforma política no Brasil, isso sim, e não adianta tirar a presidente enquanto os partidos continuarem fazendo lobby com empresas e panelinha para defender projetos para o próprio umbigo.

Continuando… na terça pela manhã leio o texto da Lola e fico pensando na picuinha toda que estava girando por trás da organização da manifestação aqui em Göteborg – que é minha culpa também, uma vez que sou “administradora do evento” e que nem sei ao certo como; no meu cansaço depois de “36h de militância” e precipitação… foi aí que eu comecei a entrar em contato com a Sebastiana e comecei a ter um pouco mais de juízo. A guria que tinha começado o evento comigo cansou da confusão e decidiu ficar nos bastidores, mas a Sebastiana naturalmente foi tomando as rédeas pois estava com muito mais foco do que nós, direcionando o grupo para o que realmente era importante.

O protesto em Göteborg sai na próxima semana, e parece que agora o trem tomou jeito. E eu também. To refletindo muito sobre toda essa coisa do “povo acordou”, principalmente depois que eu, que não me considero tão tapada assim, ter conseguido fazer tanta burrice em dois dias. Eu to bem preocupada, como muita gente, para o quê é que o povo acordou, que bandeira hastear, que direção tomar, por onde começar… ainda que em Göteborg tenhamos definido que o principal foco da manifestação seja mostrar aos suecos o porquê dos brasileiros estarem nas ruas e de demonstrar indignação contra a PEC 37, a coisa fica meio vaga quando a gente vê que os brasileiros estão nas ruas por causa de tantos motivos diferentes e poderiam se mobilizar por mais tantos ainda, pois além da questão da PEC 37, das irregularidades nas obras da Copa, da violência do Estado contra o cidadão, tem o Estatuto do Nascituro, a “cura gay”, o ato médico, o salário dos professores, o sucateamento das universidades… a lista é enorme.

E ontem a noite eu vi pela primeira vez aquele vídeo da Legião Anonymous tentando centrar o movimento em torno de cinco causas (as quais eu acho que são importantes) mas não tô entendendo qual o papel dos anonymous nisso tudo. E me dá um medinho gente que se esconde atrás de máscaras – sim, eles são hackers que serão presos se mostrarem o rosto, mas porque não encomendaram o vídeo de um grupo de estudantes?

É certo que a minha família mora no Brasil e que eu gostaria muito de ajudar a mudar as coisas para que eles vivam num país rico de verdade – sabe aquela história, o Brasil é rico mas a riqueza do Brasil não é bem distribuída… mas acabei de aprender que precipitação é um mau negócio.

Pra quem tá acordando, como eu, fica a dica: lave a cara antes de se meter.

Gregos e troianos

Neva em Göteborg, finalmente! Está frio pacas mas eu me junto ao coro de alguns milhões de suecos que amam a neve porque, graças a ela, tudo fica mais claro, mas bonito, mais branco, mais gostoso. No dezembro passado choveu, choveu e choveu apenas e o resultado foi que tivemos dias interminavelmente escuros e cinzas, dá uma depressão que vou lhes contar!

Mas como não há jeito de agradar a gregos e troianos nem bem o primeiro dia de neve teve fim iniciaram-se os rosários de reclamações: é caos no trânsito, caos nos hospitais, caos, caos, caos nas manchetes do jornais… Se o mundo não acabar em 21 de dezembro (e sabemos que não vai), as previsões indicam que morreremos de frio – é, depois de dois dias nevando o frio já passa a ser tenebroso e a neve nunca acabará! Os ônibus atrasam, os spårvagns (abrasileirei o termo) param, ninguém mais vai andar de bicicleta (todo mundo vai usar os ônibus e spårvagns que atrasam e por isso ficam ainda mais cheios); é difícil pacas empurrar a cadeira de rodas do Zé…

Tudo começou com uma virada do tempo na sexta (já estava nevando em outras partes da Suécia desde a semana passada), quando as temperaturas ficaram abaixo de zero a primeira vez neste outono; despencando para -10 graus C no domingo. Nevou ontem, nevou hoje e espero que neve amanhã – eu ainda acho lindo. E se daqui a uma semana eu estiver reclamando do frio isso não importa porque agora mesmo estou feliz e satisfeita!

E está oficialmente aberta a temporada do ano em que todo mundo esquece luvas, toucas e cachecóis dentro do spårvagan/ônibus/perde por aí, que passamos calor dentro das lojas, que escorregamos por todos os lados em que pisamos e que o número de fraturas em idosos, crianças e desavisados cresce tanto que tem apenas o céu como limite! Escorreguei hoje e quase caí (me segurei na cadeira do Zé) e ontem quase que congelei meus dedinhos pois acreditei ter esquecido minhas luvas no spårvagn!

Parece bobo isso mas pense na maratona: primeiro você coloca um enorme cachecol ao redor do pescoço, uma touca (do tipo justinha para segurar as orelhas – sim, se você não usa touca as orelhas podem congelar e cair e você nem vai perceber) e luvas para que os dedos não congelem; fecha o casaco até em cima e sai de casa. Chega no ônibus/spårvagn e é quente e sufocante ficar com tudo (5 minutos são suficientes); você tira a touca e as luvas e enfia dentro da bolsa enquanto abre o casaco e desata um pouco o cachecol. Um ponto antes do destino refaz a operação veste tudo mais uma vez. Ou seja, isso nunca funciona porque ninguém faz isso um ponto antes daquele em que vai descer!

Eu ia deixar umas fotos, mas… não consigo editar de um jeito que me deixe feliz… e a ferramenta de inserção de mídia no blog já mudou de novo – justo quando eu tinha aprendido!

Fica para a próxima!

É verão em Göteborg!!!!

To muito feliz: essa semana fez sol e “calor” todos os dias; ainda que o sol tenha aparecido apenas durante algumas horas do dia, ou só dando uma espiadinha no meio das nuvens – pelo menos não choveu. Há um clima especial no ar!

Verão na Suécia é igual a férias. Férias é igual a muitas atrações na cidade e uma multidão nas ruas do centro. Da multidão das ruas do centro eu curto apenas uma coisa que eu chamo carinhosamente de “Torre de Babel”: turistas e mais turistas se acotevelando com suas máquinas fotográficas e sacolas de compras cheias de lembranças (a maioria delas, alces) de Gotemburgo, falando e gritando atrás de suas crianças em uma série de línguas totalmente estranhas para mim. Posso identificar turistas alemães (escutei muito na minha vila no Paraná – obviamente que aqui é diferente… mas dá para entender que É alemão); os ingleses, italianos e orientais – claro que os últimos é devido a fisionomia, e não a língua, que posso identificar…

Logo que mudei para Göteborg percebi que havia uma falha nos númeoros dos spårvagnar (trens elétricos, bondes) da cidade, pois os mesmo são numerados entre 1 e 13, e o número 12 não existe. Não existe e existe: o número 12 é um trem especial, extremamente antigo, que roda pela cidade somente nos períodos em que o Liseberg está aberto (entre abril e setembro, se não me engano, e no período do Natal). O Liseberg é o maior parque de diversões da Escandinávia, e atrai realmente muita gente para cá. Ano passado me vi muitas vezes em apuros porque o pessoal me parava nas ruas e dizia: “Ursäkta mig, vilken spårvagnen kommer till Liseberg?” (com licença, qual o trem para o Liseberg?) Eu eu só… então né? Às vezes eu dizia um “Inte svenska” (não sueco – que pode significar de forma simples tanto o “eu não sou sueco” como “eu não falo sueco”), ou só “Fyra och två” (quatro e dois). Mandei muita gente para o lado errado, afinal eu nunca expliquei para qual direção do número quatro ou dois o pessoal devia embarcar!  Já com o número 12…

Há uma agenda especial para a cidade durante o verão. Ontem tivemos o show da Madonna no Ullevi (moderno estádio de futebol de Gotemburgo) e tenho certeza que vocês encontrarão um post com fotos e detalhes sobre isso lá no Diário de uma Teimosa. Eu não sou fã da Madonna e não sei o que os fãs acharam da apresentação dela, mas espero que tenha valido o valor do ingresso… não é exatamente isso que o pessoal do jornal Göteborg Posten pensa: além do show não ter a venda de ingressos esgotados (foram disponibilizados cerca de 70 mil ingressos mas  40 mil pessoas assistiram o show de Madonna… só?????) eles foram negativamente críticos a respeito, e deram para ela nota 2 (numa escala de 0-5). A turnê da Madonna na Escandinávia já recebeu críticas negativas depois da apresentação dela na Dinamarca (na segunda- feira), e acho que o mar não está para peixe para a caravana da cantora pois um dos caminhões que levava o equipamento de som para o show da diva pop tombou próximo a Göteborg na terça (a carga estava avaliada entre 3,5 e 5 milhões de reais!)…

O que bombou mesmo no Ullevi foi a venda antecipada de ingressos para o jogo entre   Barcelona e Manchester United que acontece em agosto. Em apenas 50 minutos todos os ingressos para o jogo estavam esgotados! Mas quem não está dentro não precisa ficar triste porque tem muito esporte rolando de graça durante o verão gotemburguês…

Por exemplo, a Partille Cup acabou de começar. Segundo os organizadores esse é o maior torneio de times (de clubes) do mundo, e eu não to falando de futebol (afinal aqui em Götebog também tem disso, mas é essa é outra história, é a Gothia Cup): a cidade está literalmente poluída de adolescentes fanáticos por handebol. A competição vai até sábado e cada vez que entro no ônibus ou trem encontro um time diferente… é tão legal, todo mundo suado, animado, os mais novos (categoria 10 anos) colados no treinador/equipe, os mais velhos (entre 18 e 20) fazendo de tudo para dar uma escapada… Queria encontrar uma delegação brasileira, segundo a página do campeonato há 18 clubes brasileiros na competição (informações: http://www.partillecup.com/). A Vânia foi lá na concentração em Heden e deixou um post com fotos muito legal a esse respeito (aqui).

Eu queria postar umas fotos aqui no blog, mas to com um problema com a camera digital. Sei que tudo fica mais legal e colorido – mais interessante também – com uma fotinhas, mas por enquanto vai tudo no preto e branco. Quando resolver o treco faço um post especial com fotos da cidade durante o verão!

Hoje o jornal trouxe uma curiosidade incrível: o clima da cidade de Göteborg varia tanto de região para região que há locais com uma média de 130 dias de sol por ano, enquanto outros tem apenas 108. A diferença é de quase um mês de sol! Segundo a reportagem, o lado mais ensolarado da cidade é o das ilhas, e o menos ensolarado… fica pras bandas da onde eu moro!!! Quero mudar, já!

Falando nisso, chega de ter a bunda no sofá por hoje. Fui pedalar!

Diários de bicicleta

Três palavras para definir Göteborg: chuva, frio e reformas. Reforma de tudo: prédios antigos, dentro do shopping, nas ruas, nos trilhos de trem. A cidade de Gotemburgo (Göteborg é o nome sueco, Gothenburg o nome em inglês) não economiza com asfalto, rodovias, ferrovias, ciclovia, calçadas e tudo o mais: há placas e mais placas espalhadas por toda a cidade – que está cheia de máquinas, buracos e homens trabalhando para todos os lados – com dizeres como “Reforma dos trilhos em Gamlestan. Prazo de entrega: agosto de 2012”.

Na verdade, pra os lados de onde eu moro os trens elétricos pararam de circular desde 17 de junho justamente por causa das reformas entre Gamlestan e Angered. Pra ir para a cidade ou para ir para o mercado agora eu preciso tomar ônibus, o que me custa o dobro do tempo tanto porque o ônibus vai mais lento, quanto porque o ônibus percorre um caminho mais longo e quanto porque os ônibus não circulam com a mesma frequência do trem.

Vamos assim até agosto (mesmo) e por isso tenho usado a magrela: até o mercado são 10 minutos e até Gamlestan são 30. O lado positivo: nunca chego suada porque moro no morro e tanto para o lado do mercado (Angered) quanto para o lado da cidade (Gamlestan) vou só na banguela. Já para voltar… precisa coragem viu?

Ainda tô aprendendo a usar a bike aqui e apesar de a cidade ter ciclovias muito boas e bem sinalizadas no primeiro dia com a magrela rumo ao desconhecido me perdi: a ciclovia acabou e fiquei sem entender se deveria seguir a estrada mesmo ou o quê… fiz uma volta enorme e depois achei a estrada de novo. No caminho de volta para casa percebi que a ciclovia está interrompida apenas cerca de 300m; coisa que será resolvida em pouco tempo: Gotemburgo (assim como a maioria das cidades suecas) tem projetos para melhorar as ciclovias como forma de incentivar os cidadãos a usarem mais a bicicleta. Ainda que com algumas falhas, pedalar mesmo sem saber o caminho é realmente muito seguro: a cada cruzamento existem placas (às vezes  um pouco escondidas) orientando que o centro fica pra lá, o bairro tal para lá também mas o bairro X é para cá.

Outra coisa é que aqui todo mundo que sai de bike sai buzinando para todo o lado: existem marcas no caminho que apontam qual o lado dos pedestres e qual o lado dos ciclistas; invadiu o povo não tem dó e usa e abusa da buzina. Eu ainda sou meio insegura, às vezes quase paro a bicicleta para esperar alguém passar – acho meio desagradável aquele “tlim-tlim” constante.

Preciso providenciar três coisas para minha vida de ciclista ficar melhor: um bom  conjunto de calça e jaqueta a prova de vento e água (chove e chove aqui…); um banco melhor para a magrela e uma luz – que funciona a base do dínamo (se eu fosse sueca adicionaria a lista um capacete e um colete amarelo daqueles reflexivos!). Agora temos luz do dia até as 00 – isso mesmo, meia noite! Ontem voltando do trabalho as 22h ainda podia ver uma pontinha do sol que não tinha se escondido no horizonte – mas a partir de agora a luz vai diminuir e diminuir até que em dezembro a noite vai cair a partir das 15h.

Mas daí vai estar nevando (talvez) e o trem vai estar funcionando de novo – ainda bem!!

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #01

Não está sendo fácil atualizar o blog essas duas últimas semanas. Isso pode soar como desculpa, e é em certa medida, mas a questão é minha desorganização… já que idéias não faltam e tenho vivido uma série de coisas “novas” que eu quero compartilhar com os meus queridos leitores – hahahaha que esquisito escrever isso! Não parece aquelas coisas de programas antigos de rádio e Tv? Pensando em todas as coisas inéditas que tenho experimentado – e não – decidi inaugurar uma nova categoria com o nome de “Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca”. Porque simplesmente toda a experiência é subjetiva e alguma coisa que eu sinto como super pode parecer imensamente aborrecida a outrem…

Eis uma caipira em frente ao Posseidon, estátua famosa situada no fim da Aveny.

Deixando o blá blá, e como esse é um post de introdução, vou contar um pouquinho da minha cidade: Göteborg em sueco (fala mais ou menos como Iótebóri – engraçado não?), Gothemburg em inglês, alemão e neerlandês – que língua é essa? – e Gotemburgo para nós brazucas. Göteborg é a segunda maior cidade sueca, com o maior porto marítimo do país, cerca de meio milhão de habitantes ou 900 mil, se contar toda a área metropolitana. A Suécia tem cerca de 9 milhões de habitantes, o que significa que praticamente 10% da população sueca vive aqui.

Eu fico pasma quando eu penso que saí de uma cidade de 3 mil habitantes para uma cidade 300 vezes maior. Mas Göteborg é uma cidade linda, muito limpa na maioria dos bairros que eu visitei e extremamente tranquila para o porte. Tem congestionamento, mas eu não tenho carro e não sofro com isso – gente é fantástico andar de spårvagn (=trem elétrico ou bonde) lá pelas 4 horas da tarde, e ver todo o povo dentro dos carros andando a menos de 10km por hora enquanto a gente só passa… A criminalidade é baixa, a cidade não parece um amontoado de arranha céus, o comércio não funciona 24horas por dia, tem um céu azul lindo – quando temos sol, tem muitos parques e áreas arborizadas, tem um canal e rio no meio da cidade que fica à beira do mar (é né, tem o porto!), os bairros são distantes e espalhados…

Eu amo a cidade.

Järntorget

Uma vista do lado de lá da Aveny!

Mas eu moro em um bairro que fica “fora de Göteborg” – 14 minutos de spårvagn, chamado Angered. Esse bairro foi construído pelo “governo” na década 60 ou 70 (fonte Joel Abrahamsson) e como era barato morar aqui o governo mesmo foi depositando os estrangeiros que chegavam na cidade (porque principalmente refugiados tem ajuda do governo, uma espécie de bolsa família, que paga o apartamento também). Angered tem uma série de sub-bairros, e eu moro em um com cerca de 7500 pessoas – mais do que na minha antiga cidade!! Hahahaha…

Hammarkullen – morro do martelo – é extremamente diferente do resto de Göteborg: o estilo das casas, a “cor” das pessoas, o movimento, a limpeza das ruas, o estilo das lojas… como aqui vive uma grande concentração de somális, existe barbearia que apenas “homens” podem frequentar e  salão de beleza para as mulheres, por exemplo. Eu vejo muçulmanos todos os dias. E tem lojinhas árabes. E o melhor kebab – mais barato também – de Göteborg.

Hammarkullen - meu bairro...

Carolina e eu!

Apesar de Hammarkullen estar há cerca de 20km do centro de Göteborg é muito prático ir para lá. Eu sempre gostei de tomar o spårvagn para dar uma volta por lá, só para caminhar e olhar o movimeto – gente de cidade pequena, sabe como é, adora um movimento! A impressão mais forte que tenho é que vim parar no meio de uma aldeia global: tem gente de todas as tribos, raças, credos, religiões… eu encontro angolanos e portugueses no trem, já topei com brasileiros no mercado – aquela coisa do oi! eu ouvi você falar português… você é brasileiro? – ouço espanhol todo os dias, ou árabe; eu vejo uma jovem mãe com milhares de tatuagens e piercings pelo corpo passeando com a criança pelo parque; eu vejo punks ou aquele tipo que parece rock’n’roll ao extremo – todo de preto, com botas estilo militar e acessórios de correntes do tipo que você usaria  para prender um pitbull; pessoas tocando violão ou algo do gênero por alguns trocados; idosos andando de mãos dadas; idosos sozinhos; um carinha com cabelo black power ou uma mocinha careca ou de moicano…

No começo eu fique um tanto quanto assustada e/ou mais ou menos assim como criança, apontando o dedo para tudo e enlouquecendo o Joel com perguntas e com olha! Você viu o povo que saiu do Matrix entrar no spårvagn? Pode cachorro no trem? Como funciona? Blá blá blá… eu gostaria de dizer que já acostumei, que é lugar comum, mas felizmente eu acho que não…

A única coisa que não vi por aqui é outro caipira. Aliás, dessa leva de gente só vejo eu mesma todo dia no espelho, ou no vidro do trem quando me sinto maravilhada por qualquer coisa mais ou menos normal que me é tão singular por causa de onde cresci…