Saudades

Eu tenho saudades de escrever aqui. Agora ainda mais, quando não sei porquê meu teclado ficou doido e até me deu um ç. Posso escrever criança, lambança e poupança; realizações, felicitações e paparico e bico de pato, assim sem mais. Haha.
Miguel chegou e nós tivemos dois meses muito intensos mas tranquilos. Quem é mãe sabe como é que são essas coisas todas do pós parto, mas eu estava preparada dessa vez e com a minha mãe a tiracolo o puerpério foi fichinha. Sabe como é, mãe sabe das coisas, sabe até mesmo cuidar de outra mãe (que queira esse tipo de ajuda, que fique bem claro). Minha mãe voltou para o Brasil e Murph veio morar com a gente. Simplesmente…
Foi um festival de todas as gripes e viroses (diarréias em geral) que se possa imaginar. Eu ficava doente e aí os meninos ficavam doentes ou eles (um de cada vez ou os dois juntos) e depois eu… e assim foram fevereiro, março e abril. Eu quase ganhei um cartão fidelidade do hospital (#exagerada). Nunca imaginei que um inverno pudesse ser tão comprido… e aí que já se vão seis anos de Suécia e eu não sabia que o inverno podia ser esta merda. Pra você que curte um friozinho e sonha com a neve, só um recadinho: é lindo, mas é letal. É frio que não acaba mais e tudo que você queria é uma semana de sol e calor, uma semana para você botar os colchẽs para fora e abrir todas as janelas da casa para ver se arejando a coisa melhora.
Mas e daí que passou. Amém.
A semana de sol e calor já veio e já foi embora. Eu não botei os colchões para fora mas estou esperando que Gotemburgo me dê ao menos mais uma semana de sol e calor esse ano.
Falando nisso, achei bonito que algumas pessoas me escreveram perguntando se vou parar de postar, já que eu parei de postar, se me entendem. Eu não sei… o engraçado é que ainda recebo perguntas por email a respeito da vida na Suécia. Mas devem haver outros blogs mais atualizados não?
Enfim, essas perguntas que recebo soam super bizarras justo quando a gente está passando por essas situações especiais da vida… tipo, isso que comentei acima, essa sensação de que o inverno nunca acaba… aí uma pessoa me manda um email (fazia uma cara que não recebia perguntas via email, só via facebook) se Gotemburgo dá praia. Eu lendo o email, resfriada com uma puta dor de garganta, meu coral de duas vozes recitando ´´a Tosse´´ numa sonata que poderia ser de Bethoven, chuva lá fora e 4 graus C…
Gotemburgo dá praia. Mas é bom usar neopreno de manga longa.

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Estática

Sabe quando você passa um pente de plástico numa blusa de lã? Ou nem me lembro como é que você faz, só lembro que a fricção cria eletricidade estática. E a gente que vive empacotado (no bom sentido) – com múltiplos casacos, touca, cachecol, meia e tals – sofre disso: você tira a luva e de repente ouve aquele tec! e um pequeno choque nos dedos. Sem falar que os cabelos ficam meio arrepiados… #exagero

Viver sob múltiplas camadas de roupa faz com que a gente viva criando eletricidade estática por meio da fricção entre os muitos casacos, camadas e também devido ao tira e põe de roupas e acessórios de inverno. Assim que a eletricidade acumulada tem oportunidade de pular fora sou surpreendida. Não acontecia tanto no início do inverno, mas agora…

Pra ter uma ideia levei no mínimo uns cinco choquinhos só hoje, é mole? Levei um susto a cada vez que encostava os dedos ou a pele em um pedaço de metal ou precisamente, a cada vez que encostei no carro/porta do carro. Às vezes basta encostar em outra pessoa. Hoje, em casa, um daqueles tecs! estourou bem na hora que o Joel me deu um selinho – mas esse nem foi devido a eletricidade estática e sim pura paixão… ♥

Acho que chega né? Cortei o dedo e por isso o post é curto…

Mais sobre o inverno

Faz um tempo que não posto nada da série de dicas de sueco. Na verdade, tenho que voltar a ler esses velhos posts que escrevi quando comecei a estudar e sabia apenas que isso era assim e aquilo assado, porque agora sei que há o frito também e posso acrescentar… pequenos detalhes, grandes diferenças. Estou envolvida com muitas coisas agora e por isso vou deixar apenas algumas palavrinhas sobre o inverno.

Há algum tempo atrás postei as estações do ano, então se alguém se lembra inverno é vinter (en ord, por isso vintern quando definido; e invernos vintrar  – plural definido: vintrarna). O inverno sueco é razoavelmente quente se comparado a de outros países em posição geográfica semelhante no globo terrestre por causa de correntes marítimas quentes vindas do Atlântico que batem aqui no lado oeste do país. Apesar disso, as temperaturas no norte podem atingir os -40 graus C, e todo o país pode ficar branquinho por causa da neve (snö, snön) e geada (frost, frosten).

Eu digo que pode porque aqui, por exemplo, não nevou muito não e sempre que aconteceu foi bem tranquilo (verbo nevar: att snöa. Está nevando = det snöar), nada de um metro de neve nas portas e nada de tempestade de neve com vento. Houve dias muito frios em que as árvores estavam cobertas de uma fina camada e gelo – e isso é lindo, apesar de sinistro. Até choveu agora durante o inverno (eu acho isso chato pacas) porque as temperaturas variaram bastante, tivemos aqueles dias com menos 18 graus mas também há dias com 5. E então chove. A chuva lava a neve, mas como ainda é frio e a temperatura cai muito a noite, tudo vira gelo (is, isen).

O principal problema dessa lambança toda – neva, chove, derrete a neve, cai a temperatura, congela tudo – é que se formam camadas e mais camadas de gelo – por vezes aparentes e por vezes nem tanto – que são um convite e tanto para escorregar. Agora imagine a mesma situação para os motoristas: apesar do sal que é jogado nas principais estradas, em alguns pontos ainda há gelo e é preciso cuidado redobrado nas curvas.

O lado divertido do gelo é poder andar de kälke (mas isso eu fiz apenas em Oslo) , patinar (åka skridskor), esquiar (åka skidår)… Ainda não esquiei e não tenho ideia se vou experimentar. É muito caro: há que se alugar os esquis, viajar para algum lugar ao norte onde há pista, emprestar ou alugar roupas adequadas… e tudo isso para cair na neve e passar frio. Claro que também é muito divertido, mas eu ainda estou aprendendo a perder o medo do frio e do gelo e a viver uma vida normal, apesar disso tudo. Oh, que saudades de por um vestido de algodão e havaianas!

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Isso é um spark. Ou, isso sou eu (de vermelho) tentando levar o Joel num spark sobre o Mjörn.

Falando em perder o medo, caminhei de novo no Mjörn – um lago enorme, com 55 km quadrados. Eu tenho muito medo de lagos congelados, eu não posso ver pessoas estúpidas caminhando no gelo recém formado (como a Vânia mostra aqui) ou indo muito longe lago adentro com crianças. Ainda que eu saiba que há uma boa camada de gelo sobre o lago, assim que eu vejo alguém com crianças eu começo a ficar nervosa e uma série de imagens de tragédia vem a minha cabeça. Ridículo, eu sei, mas tem muita gente sem noção que sai com as crianças para o gelo ainda que saibam que não é 100% seguro. Em todo o caso, o Mjörn está (va, talvez seja maior ou menor agora) com uma camada entre 15 e 20 cm de gelo e então a gente saiu para caminhar. Acho que caminhamos algo como 200 ou 300 metros lago adentro. E havia muita gente patinando, muitas pessoas andando de spark e outras pessoas que assim como nós, caminhavam sobre o lago congelado. Alguns cobrem toda a extensão do lago de patins – é um pouco difícil porque o lago não tem uma superfície de gelo regular como nas pistas, e havia uma turma reformando um barco/casa que esta no meio do lago desde 2011 – durante o inverno também, pasmem.

Apesar do inverno mais frio sinto que me adaptei as baixas temperaturas. Ou isso ou aprendi, finalmente, a me vestir… talvez um pouco dos dois. O fato é que no ano passado apesar de não estar tão frio como agora eu usava muito mais roupas – tanto dentro de casa como fora, tinha a constante impressão que um fio de vento safado subia a minha bunda e vinha fazer minha espinha dorsal de parque de diversões. Sempre estava tremendo – apesar de ter minha super jaqueta de inverno… Dica de sueco: use a palavra inverno combinada com as diferentes peças de inverno para se referir a jaquetas e sapatos, assim como use o adjetivo gordo para dizer que é um casaco, meias, jaqueta grossa/o – vinter jacka, vinter skor, vinter byxor, tjock tröja, tjocka strumpor… Jag har en varm och tjock vinter jacka, men inte någon vinter byxor (Eu tenho uma jaqueta de inverno quente e grossa, mas não uma calça de inverno).

No mais, tudo no mesmo… em breve mostro para vocês como ficaram os convites do casamento.

Tchau!

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #03

Eu quase morri de rir quando descobri que a palavra sueca para estar arrepiado é gåshud [e você pronuncia gozruid] que remete à pele do ganso depenado. Ou à pele de uma ave depenada – porque enfim, a pele da galinha, do ganso, do pato, do marreco, enfim, das aves todas devem ser daquele jeito sem penas… ou não? Posso dizer que tenho certeza que é assim com frangos, porque quando a gente mora em cidade pequena sempre tem frango da colônia (=sítio= chácara= pequena fazenda) para vender no mercado, e a minha mãe mesmo matou frango em casa.

Em todo caso eu penso que isso não seria engraçado para pessoas que nunca viram uma ave depenada. Não sei se o povo sueco chega a ver isso de fato [aves depenadas] mas quem mora por aqui sabe que bicho é o que não falta: a cidade é cheia de gaivotas prontas para roubar seu Mac Lanche Feliz, e porque tem “mato” para todo lado é extremamente fácil ver veadinhos ou esquilos atravessando a estrada. Na casa dos pais do Joel – que moram 50km de Göteborg – às vezes os veados estão no quintal!

Que lindo né?

Nem tanto. No verão, quando tem luz praticamente 24h por dia, ninguém vai ser surpreendido por um veadinho despreocupado atravessando a estrada. Ok, pode ser mas se vocês bem lembram eu disse no blog que suecos são ultra preocupados com segurança e dirigem sempre dentro do limite de velocidade – que nas estradas secundárias é de, no máximo, 90km/h – e nesse jeito lagom de ser dá para evitar o acidente. Já no inverno…

Hoje a gente estava na casa do avô do Joel de carro e quando voltamos – cerca de 19h – já estava bem escurinho e chovendo, e a gente viu muito rápido dois veados atravessando a estrada cerca de 100m talvez à nossa frente! Já imaginou o estrago que causa um bichinho desses no carro? E no caso de um alce então?

O alce é o animal símbolo da Suécia e puxa, eu acho que é maior do que um cavalo. Não é tão comum aparecer em qualquer lugar como os veados e esquilos, mas sim, em alguns casos eles aparecem do nada cruzando as estradas. Porque os suecos gostam de mato, tem muito mato ao redor dos lagos, tem muitos lagos grandes e pequenos – o que facilita com que os alces acabem se perdendo das reservas – afinal animais não lêem aquelas placas territoriais. Já houve até o caso de aparecer um casal deles no Posseidon – no centro centro de Göteborg.

A caça é permitida em algumas regiões e o Joel disse que a carne – de alce – é muito saborosa. Mas ninguém pode sair dando tiro nos bichos fora das zonas de caça, e isso significa que simplesmente não rola um tipo de controle populacional desses [veados e alces] próximo aos centros urbanos. Durante o inverno passado o governo permitiu a caça de lobos porque eles estavam literalmente invadindo as cidades, o que causou a maior polêmica.

Também não acho legal essa coisa de ficar atirando contra os animais, mas o que fazer então? Se alguém fecha os animais em cercados, está colocando os bichos na prisão. Se atirar contra é assassinato. Mas e quem mora no norte, não tem luz praticamente durante um mês, vai viver com os lobos uivando na porta de casa? Com chuva e escuridão, é quase impossível ver os animais próximos das estradas, e no caso de atropelar um alce, o motorista e passageiro da frente também correm risco de vida.

Problemas a parte, dizem a boca pequena que a questão não é de toda má e que também rola a solução: se você bater o carro mas de alguma forma provar que foi por causa de um alce, o seguro cobre completamente.

Quem disse que é só no Brasil que se dá um jeitinho?

PS.: O Joel comentou que a Volvo é uma de duas empresas que fazem testes de colisão contra alces! HahahAHHaahahA!