E se fosse você?

Não é de hoje que ouço gente afirmar que a Europa está indo para o buraco por causa da imigração em massa de muçulmanos, africanos e “ciganos” – gente que não tem olhos azuis, é preguiçosa, quer viver a custa dos benefícios do governo e não contribui em nada para preservar o modo de vida “mais do que lindo” do velho mundo. Na Suécia, já ouvi muitos brasileiros e brasileiras afirmarem inclusive que odeiam ter que pagar impostos por para  “sustentar” essa gente.

Gente que buscou e ou busca a vida na Suécia pelos mesmos motivos que tanta gente (das quais recebo emails diariamente): qualidade de vida. É engraçado que, pela lógica do senso comum, esses estrangeiros vem mamar as tetas do governo e vão destruir o impecável sistema social sueco. Talvez eu esteja sendo ousada demais, mas qual é a diferença entre uma brasileira que muda para a Suécia e casa com um sueco e esses refugiados?

Legalmente, os refugiados recebem do sistema social sueco todo o tipo de apoio que uma pessoa em condições de miserabilidade de nacionalidade sueca receberia, com a diferença de que enquanto tem um status de refugiado sem visto permanente recebem menos bolsas do governo. Muitas brasileiras me dizem que a licença maternidade sueca é um sonho (e eu acho isso maravilhoso, que as brasileiras anseiem por esse modelo) e  que gostariam de usufruir desse direito. A maioria de nós, quando mudamos, viemos formar família e botar filho no mundo para usufruir desse sistema sueco  bom. Mas eu escuto com tristeza vindo da boca de muitas compatriotas que “essas somalianas mudam para cá só para ter filho e viver do social”.

Já repeti inúmeras vezes aqui o quanto é difícil conseguir emprego aqui. Conheço gente experta, com inglês, educação, anos de experiência, que mora aqui há tempos e não conseguiu emprego. Gente bem resolvida, que corre atrás mas ainda está trabalhando de tapa buracos. Se você não tem o domínio da língua tem que aprender, mas se você não sabe nem ler e escrever, acho que o caminho é um pouco mais longo.

Mas ninguém pensa nisso. Ninguém pensa que essas mulheres vieram muitas vezes de países onde o papel da mulher é ser mãe. Onde garotas não precisam e não devem estudar. Onde quem desafia essa lógica é punida com tiro na cabeça ou o estupro. Enquanto nós mudamos para a Suécia em busca do conforto ao lado de um companheiro sueco, aquelas mulheres fogem de realidades de intensa opressão. Apesar disso, assim que elas se sentem seguras em um lugar em que qualquer mulher do mundo gostaria de ter filhos, esse direito lhes é negado porque elas estão sobrecarrergando o sistema.

Eu também vim para cá sobrecarregar o sistema. Eu também recebo bolsa do governo para criar meu filho e provavelmente vou parir mais. Eu também pago imposto mas diferente de outras mães, não me importo que ele seja usado para apoiar o sonho de pessoas que até ontem não tinham nada. Se as somalianas, afegãs, iraquianas, “ciganas”, curdas, sírias ou qualquer mãe refugiada que vem parar aqui aproveita para ter crianças eu acho que está mais do que certo. E eu vou apóia las a continuar a ter o direito de ter quantos filhos quiserem.

Simplesmente porque eu não sei porquê eu nasci no Brasil, naquela família de mãe costureira e pai pedreiro. Não sei como é que se dá essa distribuição da cegonha. E se por um acaso eu tivesse nascido na Somália? Ou Afeganistão? Esse blog não seria sobre como se apaixonei por um homem lindo, vivi uma história de amor de cinema e casei num dia fantástico de verão. Esse blog (se eu pudesse escrever) seria sobre como eu tive que fugir da minha cidade porque meu marido sumiu e meus filhos estavam em perigo. Provavelmente minha história teria passagens assim:

“Minha casa foi destruída por uma bomba. Eu consegui fugir com minha família  e me esconder dos soldados que estavam matando aqueles que sobreviveram do ataque aéreo.”

“Eu tive que caminhar vários dias e noites sobre as montanhas, para cruzar as fronteiras longe dos postos de guardas. Não havia comida, apenas pão e água. Eu quase não tinha força para continuar”

“Nós fugimos pelo deserto do Saara. Foram duas semanas sentados na caçamba de uma pick up. Os atravessadores nos disseram para segurar firme, se alguém caísse da caçamba eles não parariam e não voltariam. Éramos muitos! A pick up atolava na areia o tempo inteiro, tínhamos que descer para empurrar. Depois tínhamos que voltar a subir muito rápido, pois eles apenas continuavam a dirigir”.

“Eu estava num barco para a Itália. Havia muita gente no barco. Era noite e ninguém sabia se realmente estávamos indo para o lugar certo. Quando nós avistamos a costa ficamos tão felizes! Mas aí algo errado aconteceu, e o barco começou a afundar. Eu nadei, nadei e nadei muito… vi pessoas morrendo do meu lado. Mães que gritavam pelos filhos que sumiam. Eu usei tudo o que pude para chegar a praia. Então desmaiei. Passei vários dias sem saber quem eu era e o que havia acontecido.”

“Eles (os atravessadores) me deixaram numa floresta com um pouco de pão. Me mandaram esperar uma semana que alguém viria me buscar. Eu tinha tanto medo! Não sabia se ficava ou se partia… se realmente podia acreditar que eles iriam voltar.”

Poderia ser eu. Mas eu nasci no país do carnaval e do futebol que muitos odeiam. Sim, o Brasil também é um lugar violento e eu felizmente não provei desse fel. Ainda assim, isso não me dá o direito de esbravejar minha falta de empatia pelo próximo que está ameaçando minha zona de conforto.

Já ouvi dizer que o preconceito tem crescido muito contra os haitianos que invandiram o Brasil. É uma pena. Pena porquê eles enxergam a beleza e a oportunidade em um país onde “os filhos que não fogem a luta” decidiram gastar seu tempo na internet para xingar o governo e reclamar por ter nascido no país do carnaval. É uma pena que a entrada de estrangeiros pobres no Brasil tenha derrubado a velha lenda do quanto acolhedor o Brasil é.

Enquanto todo mundo reclama da praga que os estrangeiros representam aqui e lá, eu apenas me pergunto: e se fosse eu?

E se fosse você?

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Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia II

No fim do ano eu percebi um tanto quanto feliz que “algumas verdades sobre a imigração para a Suécia” foi o post mais popular do ano de 2013. Não sei se o pessoal acabou acessando o post porque, afinal, parece que todo mundo vem para cá querendo saber como requerer o visto ou se foi curiosidade mesmo. Em todo o caso, convido os leitores que não visitaram o link do primeiro post no ano passado a fazerem e vou deixar com vocês uma versão número dois para o tema.

A questão dos refugiados na Suécia – assim como na Europa inteira – vem dando o que falar. Com a crise na Síria ano passado estima-se que cerca de um milhão de pessoas deixaram o país. A maioria desses refugiados se volta para a Europa. E a Europa vem se fechando para eles. Na Suíça foi feito há pouco um referendo popular consultando a população a respeito da imigração para o país – não só de refugiados mas também – e a população deixou claro que quer que isso acabe.

Assim como os suíços, há muitos suecos preocupados com a questão do impacto que a chegada dos refugiados “em massa” causa para o país. Essa “massa” não é tão grande quanto as notícias querem fazer acreditar e, na verdade, os gastos com esse pessoal não é tão exorbitante. Na minha opinião o problema não é o governo investir em integração e sim como o governo está investindo.

Em todo o caso, há enormes mau-entendidos ao redor de toda essa situação e também uma forte rede de boatos. E aqui na Suécia também existe esse tipo de gente que fica compartilhando qualquer tipo de notícia (principalmente na internet) antes de saber se é verdade. Mas existe esse outro tipo de gente curiosa (como eu) que vai sempre ficar fuçando atrás de estatísticas e essas outras coisas meio bobas.

E fuçando e fuçando encontrei uma lista no site do Migrationsverket (em sueco) sobre os mitos mais comuns sobre imigração (na Suécia). Cada ponto da lista é enorme por isso escolhi alguns deles para compartilhar hoje. Quem sabe num futuro eu compartilhe mais coisas.

“Nenhum país acolhe tantas crianças e adolescentes refugiados como a Suécia”

Sim, é verdade: a Suécia é a campeã no acolhimento de crianças e adolescentes refugiados. (A palavra em sueco é uma só para designar tanto crianças como adolescentes refugiados: ensamkommande  barn). 

A tabela abaixo mostra os cincos países europeus que acolheram o maior número de crianças/adolescentes refugiados durante os anos de 2010-2012;nos quais a Suécia ocupa o primeiro lugar.

A maioria das crianças/adolescentes que procuraram por asilo na Suécia durante esse períodos vieram do Afeganistão e Somália. 93% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram do Afeganistão e 97% dos pedidos de asilo (de crianças e adolescentes) que vieram da Somália foram aprovados.

No total foram concedidos 1 974 vistos de asilo para crianças e adolescentes refugiados na Suécia em 2012, o que representa um percentual de quase 70% dos pedidos (ou seja, mais de 30% dos pedidos foi negado).

2012 2011 2010
Sverige 3 578 Sverige 2 657 Sverige 2 393
Tyskland 2 096 Storbritannien 1 277 Storbritannien 1 364
Belgien 1 001 Belgien 860 Belgien 1 081
Norge 964 Norge 858 Norge 892
Storbritannien* 728 Tyskland 667 Nederländerna 701
Crianças somalianas refugiadas no Quênia.  Fonte: Terra

Crianças somalianas refugiadas no Quênia.
Fonte: Terra

“As crianças/adolescentes que buscam asilo são na verdade adultos…”

A maioria dos jovens que procuram asilo na Suécia é  composta por meninos entre 15 e 17 anos. Nos últimos oito anos tem crescido o número de crianças/adolescentes que pedem asilo de cerca de 300 para 3 578 (2012). E eles vem principalmente do Afeganistão e Somália.

Independente do refugiado ser um jovem ou adulto eles terão que provar porque precisam de asilo. Se ficar comprovado que uma pessoa precisa de proteção a idade não tem qualquer significado.

Entretanto, a idade faz toda a diferença se uma pessoa será exilada. Para que o departamento de imigração possa emitir uma ordem de saída do país é necessário que exista algum responsável pela criança/adolescente em seu país de origem. Isso significa que, ou os pais, ou um parente ou uma instituição social deve acolher essa criança/adolescente. Se isso não for possível a Suécia é obrigada a acolher esse refugiado por conta da impossibilidade de se encontrar outro responsável por ele/ela.

A idade do solicitante também assume significado no caso dessa pessoa ter um registro por ter viajado/estado ilegalmente na Europa. Uma pessoa adulta irá responder ao acordo de Dublin. Para a criança adolescente isso só será possível se ele/ela já houver procurado por asilo em outro país da Europa (com exceção da Grécia).

A idade tem enorme significado na forma de tratamento que as crianças/adolescentes (que esperam pela aprovação do asilo) tem na Suécia. Criança e adolescentes que vêm sozinhas recebem uma outra espécie de apoio, que inclui tutores, abrigos, e convivência com outros adolescentes/crianças (do mesmo país de origem).

É da responsabilidade do solicitante comprovar que sua identidade é verdadeira. E isto pode ser feito por meio de diversas formas de documentos de identidade. Muitas crianças/adolescentes não possuem um documento de identidade oficial porque em seus países não existe um sistema sério de identificação social. Isso significa que muitos deles passam por grandes problemas caso a imigração sueca questione a veracidade dos documentos apresentados.

O responsável pelo caso no departamento de imigração é quem vai analisar se a idade do requerente é verdadeira. Isto pode ser feito por meio de entrevitas ou, em casos extremos, avaliação médica. Esta última não é obrigatória.

Cerca de 5% dos processos em que a idade do requerente é questionada resultam na correção da idade informada. Essa alteração não é judicial e como tanto, não pode ser contestada.

Eu gostaria de acrescentar uma questão: a grande maioria dos adolescentes que procuram asilo na Suécia não estão apenas fugindo da guerra e sim da família e de uma possível condenação a morte. Em 78 países do mundo, assumir-se gay implica uma série de complicações, porque a homossexualidade é tratada como crime. A Somália é um dos mais duro deles (ao lado da Arábia Saudita e mais três países na África) onde assumir-se homossexual leva a pena de morte. E se no Brasil – onde a homossexualidade “não é crime” – homossexuais são espancados, estuprados e assassinados diariamente, o que não imaginar em um país onde esse tipo de prática não é apenas liberada por lei, mas esperada.  Não é a toa que o maior número de adolescentes que buscam refúgio na Suécia são meninos entre 15 e 17 anos.

A Suécia não é vista apenas como um paraíso de igualdade pelos brasileiros, é visto como um paraíso de igualdade por toda a comunidade homossexual do planeta. Apesar disso, a comunidade HBTQ sueca anda muito desapontada com o departamento de imigração. Uma série de homossexuais (tanto adolescentes, quanto adultos) que solicitaram asilo político no país foram enviados de volta ao seu país de origem. Alguns deles caíram em um limbo pois a família não quer aceitá-los de volta (eles são uma vergonha) mas eles tiveram seu retorno a Suécia negado. Crescem o número de organizações não governamentais que apoiam, abrigam e  escondem esses refugiados enquanto lutam na justiça pelo direito de que mais homossexuais recebam asilo na Suécia.

Mas esse tipo de informação não é tão explorada pela mídia quanto os altos custos da imigração para o país. Uma pena. Em um tempo em que quase tudo pode cruzar as fronteiras de qualquer país de forma rápida e rasteira – é só pensar no dinheiro: quanto tempo demora para que uma quantia de dinheiro seja transferida da China para o Brasil? Segundos? – o ser humano ainda tem que ficar preso as fronteiras imaginárias dos países desse mundo que se intitula uma “aldeia”.

E soa tão falso quanta a propaganda da Tim: Viver sem fronteiras. Quem?

Algumas verdades sobre a imigração para a Suécia

Ao longo do tempo escrever no blog tem me ajudado a manter meu português vivo e ainda melhorar a minha relação com o dicionário: só por escrever o título hoje fiquei na dúvida entre emigrar e imigrar… como é que se escreve? Na verdade, os dois termos existem e se você quer descobrir porque usei imigração leia a resposta aqui.

A questão do número de refugiados que chega a Suécia anualmente – dentre outros imigrantes – dá muito pano para manga. No censo comum correm as histórias cabeludas a respeito dos imigrantes que vivem as custas do governo e dos recursos que – não fossem esses famigerados [ironia!] – seriam destinados a aposentadoria dos trabalhadores suecos. No último post até usei uma delas – ironicamente – como exemplo, mas depois fiquei com um peso na consciência porque não sei se todo mundo que lê entende… Não porque os leitores sejam burros mas porque é difícil enxergar os erros naquilo que escrevemos; achei melhor declarar isso abertamente e trazer alguns dados estatísticos.

A Suécia tem uma central de estatísticas tipo como o IBGE no Brasil – com a diferença que a maioria das estatísticas é/são/estão atualizadas. É bom pensar que a população sueca é de pouco menos que 10 milhões de pessoas, e então teoricamente é mais fácil para um país com menos variantes (ou, não sei que palavra usar) manter os dados atualizados. Essa central é muito fácil de acessar e de encontrar o que se procura, até eu que sou meia boca no sueco consigo encontrar o que quero lá. Algumas estatísticas e pesquisas são disponibilizadas também em inglês.

Além disso, no ano passado também foi lançada uma cartilha sobre as expectativas de vida, crescimento da população, morte, nascimento e etc, e que traz alguns dados muito interessantes tanto sobre a emigração sueca quanto da imigração para a Suécia. Com base nos dados dessa cartilha e desse artigo, como de algumas tabelinhas facilmente encontráveis no site da Migrationsverket, deixo algum dados oficiais sobre os imigrantes que tem cara e/ou coragem de se estabelecer por aqui.

blog 1

Imigração e emigração 1850-2010 (Cartilha Demográfica 2012)

Um pouco de história: no século 19 a Suécia era tão pobre que todo mundo queria mudar para os EUA. Se der uma olhadinha no gráfico, entre 1880 e 1890  a emigração chegou a registrar cerca de 50 mil saídas por ano. Estima-se que cerca de um milhão de suecos tentaram mudar para os EUA naquela época das vacas magras. Depois da crise lá na terra do Tio Sam (quebra da bolsa em 1929)  os suecos pararam com a peregrinação.Foi em 2011 que o contingente de emigrantes suecos superou, pela primeira vez, a debandada em massa dos séc 19: 51 179 suecos mudaram para outros países em 2011, e esse número foi maior do que no ano de 1887 – ano da maior debandada de suecos até então.

Lá pela década de 40 o maior contingente de imigrantes que se estabeleceram na Suécia era de finlandeses, e nas décadas seguintes os vizinhos escandinavos ainda eram os caras que mais comummente estacionavam por aqui. Essa imigração tinha como principal força motora a indústria sueca, muito forte e especialmente atrativa para quem quisesse trabalhar. A partir do fim da década de 80 e início dos 90 os iranianos começaram a aparecer na fita (Guerra Irã-Iraque), mas não foram eles os primeiros refugiados a adentrar a Suécia, uma vez que muitos latinos (principalmente chilenos, bolivianos e colombianos) haviam se mudado para cá fugindo das ditaduras na década de 70.

Em meados da década de 90 (96 e adiante) começa a imigração de povos do leste europeu para a Suécia. O país – como membro da União Européia – não tem o direito de barrar ou deportar cidadãos de outros países membros da UE – a menos que o pessoal venha para cá e pratique crimes – e os mesmos podem estacionar por aqui e tentar a sorte de um emprego.

O boom da imigração se deu depois de 2006 quando a lei de imigração sueca mudou – e facilitou principalmente os pedidos de asilo – fazendo com que um grande contingente de iraquianos, seguidos de perto dos afegãos e somalianos, desembarcassem no país. Somada a essa mudança a crise européia trouxe muitos mais europeus para a Suécia – e dessa vez eles não vinham apenas do leste.

Pessoalmente, a insatisfação sueca está apontada para o lado errado: iraquianos e afegãos vieram parar aqui por causa da guerra em seus países. Guerra essa em que o maior ator era: EUA. Lembram da caça aos terroristas após a quedas das Torres Gêmeas? Osama Bin Laden era afegão. E a ocupação do Iraque? Sim, Sadam Hussein era um monstro, Bin Laden um louco e os EUA não estavam sozinhos nessa. Mas a crise de 2008 também foi desembocada por causa de grandes empresas e bancos que vivem de especulação e que estavam (e estão) nos EUA, e ainda fazem a mesma coisa. A bolha econômica que estourou em todo o mundo deixou grandes estragos na economia americana, eu sei, mas eles ainda não fizeram – e muito dificilmente vão fazer – alguma coisa para que a história não se repita mais uma vez.

Ok, já declarei que não sou simpatizante do Tio Sam e para ser justa já vou sublinhar também que a Suécia é um dos maiores fabricantes de armas do mundo e que é aí, nesse caroço, que a Somália entra no meio do angu. Para vender armas o país deve assinar uma série de tratados internacionais e uma das regras é: acolher refugiados. Será que pagar um bidrag e apartamento (para alguns milhares) é muito quando o país está diretamente envolvido na destruição da vida de milhões?  Não obstante, essas questões ficam muitas vezes de fora da discussão que abrange o grande problema da não integração de imigrantes – especialmente os refugiados – na Suécia.

Voltando aos dados: em 2011, a cada cinco imigrantes que se estabeleceram na Suécia um era o sueco filho pródigo, aquele tipo que mudou para algum canto do mundo e decidiu voltar (20615 pessoas). Em segundo lugar estavam os iraquianos (4469 pessoas), seguidos de perto dos poloneses (4403 pessoas). Os somalianos – aqueles que o senso comum afirma que servem só para sugar o sistema – vieram com uma pequena caravana de 3082 pessoas, ficando atrás dos dinamarqueses (3196). Sabiam que as regras de imigração para a Dinamarca são tão rígidas que muitos dinamarqueses mudam para a Suécia apenas para conseguir viver com seus parceiros estrangeiros? E tem gente que adoraria que a Suécia adotasse o modelo dinamarquês – sem nem piscar.

A Migrationsverket mostra que, em 2012, 36526 pessoas pediram asilo na Suécia e que, dentre essas, 12576 permissões de residência foram concedidas, enquanto 12991 foram negadas e 105 ainda esperam a decisão (dos que sobraram, 6158 não foram julgados pela Suécia porque concernem ao Regulamento de Dublin e os demais foram cancelados pelo próprio requerente – 4803). No mesmo período foram concedidos 16543 permissões para trabalhar na Suécia – sendo que dentre essas estão incluídas 1203 permissões para estudar, 121 vistos por laços familiares e 188 refugiados, que tiveram pedidos de asilo negado mas obtiveram, por fim, permissão de trabalho.

Se pudéssemos simplificar as contas dessa forma: por ano entram na Suécia 14088 (refugiados, mais estudantes, mais pedidos por laço familiar) pessoas que não trabalham e 15031 pessoas para trabalhar; podemos concluir que para cada estrangeiro que não trabalha há um trabalhando e um plus de 943 pessoas que só contribuem para o estado sueco. Nessa minha conta maluca o estado sueco ainda sai ganhando apesar de pagar as contas de algumas famílias.

Pena que nem tudo é tão simples, que quem vem para ficar nem sempre consegue ser independente antes da média de sete anos de residência; que nem todos que ficam querem aprender a língua; que nem todos conseguem, apesar do esforço, alcançar o trabalho que gostariam; que nem todos que vem para trabalhar vão ficar aqui a vida inteira… Pessoalmente depois de ver todos esses números ficou meio óbvio que toda essa briga por causa de meia dúzia de (milhares de) refugiados é uma bola de neve gerada pelo senso comum e pelo medo daquilo que não conhecemos.

Pois, não fica mais fácil quando temos um bode expiatório? Ainda mais se for alguém mais fraco…