Um dia na Suécia

Eu recebo comentários em ondas, provavelmente devido ao fato de escrever bem menos. Mas volta e meia aparece gente que manda comentários em posts antigos do blog com perguntas que não tem nada a ver com o conteúdo do referido post (deixando bem na cara que não leu nada do que estava aí) e a maioria dessas pessoas repete a mesma pergunta (seria um eco?): como é a vida na Suécia?

Recebi o mesmo questionamento esses dias na página do face. Eu ia responder o de sempre: pessoa, esse é o link do meu blog, essas abobrinhas aqui descrevem mais ou menos a vida na Suécia. Mas aí tive a ideia genial de desvendar os segredos da vida na Suécia contando como é um dia comum da minha vida – já que eu não ando com tempo de fazer algo mais informativo e concreto.

Algumas singularidades para situar os desavisados e os futuros leitores desse post: estou trabalhando “meio período”; o que significa que passo bastante tempo em casa. Mas vamos lá!

Um dia de trabalho na Suécia…

Acordo as 5h. Tomo um café, normalmente com pausa para amamentar a cria. Pego as minhas bolsas (passo 24h no trampo) e saio para o ponto às 5h55. Pego um bonde para a estação central. Se o café foi para o saco porque eu amamentei a cria compro um café. Pego um trem para Falköping. Caminho para o trabalho cerca de 20 minutos (não é longe, é só a preguiça mesmo). Começo a trabalhar às 9h. Saio as 9h30 do dia seguinte, normalmente ganho uma carona até a estação porque a galera tem dó de me deixar caminhar com as minhas bolsas  (uma delas cheia de leite). Pego o trem para Göteborg. Chego na estação e tomo o primeiro bonde que passar para casa. Chego a tempo do almoço.
Eventualmente passo pegar o Ben na casa dos padrinhos ou de algum amigo – caso o Joel tenha uma reunião de trabalho importante. Depois do almoço a rotina segue como num dia em que eu não fui trabalhar.

Um dia em casa na Suécia

Acordo assim que o Benjamin acordar (entre 6h e 7h30, depende da “sorte”). Tomamos café e aí vamos fazer as tarefas de casa ou um passeio. Pode ser uma caminhada, gosto muito de sair caminhar com o Ben… deixo ele escolher o caminho e parar o quanto quiser para juntar todo tipo se coisa e tentar por na boca, ou ir para um balanço, essas coisas. Nesse caso voltamos e comemos uma fruta. Depois brincamos ou fazemos limpeza e aí almoço. Almoço pede uma siesta e com sorte depois da comida tem a soneca do Benjamin, quando ele acordar o Joel vai estar chegando. A gente empacota um lanche e sai para trabalhar com a reforma da casa. Volta quando anoitece, faz uma janta, bota a cria para dormir e assiste as notícias/uma série/ou um filme dependendo da hora, do cansaço ou do tesão. Normalmente vou dormir às 22h30.

A rotina em um final de semana ou dia de semana para mim não varia muito. Como eu trabalho em forma de plantão então procuro aproveitar “as folgas” já que trabalho finais de semana também. A principal diferença é que se estou em casa em um sábado normalmente passamos o dia na reforma da casa. Domingos é dia de ver a família então normalmente rola um passeio para os sogros, ou alguma das cunhadas.

Como estamos vivendo um tempo especial com a reforma da casa temos encontrado os amigos apenas de vez em quando, numa rapidinha no anoitecer ou quando eu saio sozinha com o Ben e passo o dia fora. Normalmente fazemos isso quando o Joel tem reuniões depois do trabalho. Eventuais escapadinhas para um jantar ou cinema estão descartadas no momento por conta do cansaço mesmo.

Eu não sei como funciona no Brasil depois que você tem filhos, mas aqui ter uma criança te dá automaticamente um upgrade para o time dos pais. Dificilmente você vai se encontrar com os amigos que não tem crianças. Primeiro porque essa galera ainda sai para beber e fazer festa em uma sexta feira – o que sinceramente não está na minha lista de prioridades – ou se promove um jantar deixa claro que o evento é para adultos. Isso me dá muita preguiça. Fiquei antisocial com a maternidade e o Joel, se deixasse, passaria o dia e a noite na reforma.

É isso aí. Essa é a minha vida na Suécia.

Tá sentindo falta do glamour? Pois eu não.

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Saudades

Na semana antes do meu casamento a minha sogra avisou que haveriam dois convidados surpresa para a festa. Adivinhem qual foi o meu pensamento?

Sim, a primeira coisa que passou pela minha cabeça é que essa maravilhosa família sueca que me acolheu havia feito uma vaquinha para trazer meus irmãos – a Gio e o Jorge – para o casório. É claro que a minha sogra percebeu de uma vez como as minhas expectativas pararam em um trilhão, então ela mais que rapidamente explicou que era uma surpresa pequena e que os convidados não vinham do exterior.

Ainda assim, eu esperei até o último minuto que – tanto meus irmãos como mais umas pessoas especiais – aparecessem de surpresa. Sei lá, sabe essas coisas bestas de filme? Sim, eu esperei. Esperei ver eles na igreja. Mas eles não estavam lá.

Desde o dia do casamento eu sinto muito mais falta deles do que o normal. Eu tenho cá essa saudade que não passa, e coisas bestas me fazem lembrar de momentos gostosos que passamos juntos, ou, em outros casos, coisas que eu gostaria de fazer com eles.

Passei a viagem toda na Grécia fazendo planos infalíveis.

Mas ainda não posso ir ao Brasil.

Então eu fecho os olhos e vivo na minha cabeça esses momentos que eu sei que foram reais e que agora são lembranças especiais. Eu faço de conta que posso fazer isso amanhã e daí fica um pouco menos pesado. Eu sei que faz quase um ano, a minha vida está se ajeitando e tenho encontrado muita gente legal, mas vocês são insubstituíveis! E estão fazendo falta…

Eu não ficar nominando, não precisa.

Eu tenho saudades…

E… essa é a rotina sueca (?)

Sabe aquela música: todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã me sorri um sorriso sensual e me beija com boca de maçã? Não é assim que funciona comigo! Como meu trabalho é extra – digamos assim – eu nunca sei a que horas eu  vou começar meu dia: posso acordar 6, 7  ou 8 horas… …porque eu sou extremamente preguiçosa para estabelecer um horário que funcione para todos os dias [acordar todos os dias 7 horas, por exemplo] e organizar um pouco a minha vida antes do trabalho.

O resultado disso é que quando chego em casa eu quero escrever no blog, escrever para os meus amigos, escrever sueco, escutar sueco, escutar alguma música legal para relaxar, comer – e isso significa fazer comida, tomar banho, organizar meu mundo; enfim. E?

Não funciona. Um, que eu sou indisciplinada. Dois, que eu acho muito chato passar o dia inteiro longe de casa e assim que chegar se enfiar no computador e ficar na internet, sem conversar com o Joel ou o pessoal do coletivo. Eu preciso do meu mundo virtual só para dizer olá para meus amigos, e quando eu vejo no meu e-mail que não tem nenhum com o assunto Oi! [qualquer título que não seja de piadas ou correntes] eu logo desligo o computador.

Então a coisa está assim: acordar, tomar café, tomar o trem, trabalhar, tomar o trem de volta, fazer o que dá tempo e coragem, dormir. Eu já comentei no blog que o almoço aqui é depois do  dia de trabalho, chama middag e acontece entre às 16h e 20h – mais ou menos. Tem lava-louça e isso é fabuloso!, mas não dispensa do serviço de organizar a cozinha… Mas enfim, o chato disso tudo é que às vezes quando eu vou dormir eu penso que não fiz nada.

Claro que fiz. Estudo no trem quando eu vou para o trabalho, e às vezes quando volto também. Consigo escrever ao menos 3 vezes por semana no blog. Respondo todos os e-mails de amigos. E principalmente, cultivo com muito afinco minha relação com meu amoreco e todos os novos amigos. Mas a sensação ainda persiste, e eu fico pensando que merda que é essa que incutem na nossa cabeça que a gente realmente acredita que deve ser quase que uma máquina na vida pública, profissional e privada!

Em todos os seminários de assistência social que eu fui lembro que quando se falava de família o palestrante insistia na questão de desmitificação do conceito de “família margarina” – na qual a mulher, principalmente, está sempre linda e maravilhosa mesmo cumprindo dupla jornada de trabalho e cuidando dos filhos. Penso que a gente deve ir ainda mais longe, lembrar que o dia só tem 24 horas e que nesse período a gente precisa, principalmente, alimentar a alma e o corpo: comer coisas gostosas, fazer algum exercício, namorar, gastar tempo com gente feliz e com coisas para encher a mente de coisa boa – livros, música, filmes…

Trabalhar faz parte, porque afinal todo mundo precisa de dinheiro. Mas o tempo que você despende dormindo é quase tão ou mais importante do que o tempo que você está acordado – ou zumbizando! Será que a gente vive de verdade quando acorda direto no modo operando, toma café, sai para o trabalho, trabalha, volta do trabalho, faz coisinhas, dorme, acorda, sai para o trabalho…? E porque enfim eu to pensando em acordar mais cedo todo o dia?

Passei quase três meses na casa me sentindo deslocada porque não trabalhava, e agora não sei se saí do ritmo ou o quê, mas me parece tão sem noção às vezes [sempre] todo esse esforço. Ok, não era meu sonho ser diarista, mas é o que está para mim no momento e me ajuda a ter meu dindim. E na bem da verdade, eu não sei se quero voltar a ser assistente social.

De repente, eu to crescida e não sei o que eu quero ser quando crescer. Mas será que alguma vez eu soube?