Pré Natal na Suécia #03

É interessante perceber como o interesse pelo blog diminuiu brutalmente depois que anunciei a minha gravidez. Acho que o público do blog vai mudar e, enquanto isso, eu também vou ter que me decidir sobre o que é que vou continuar – ou não – escrevendo.

Há algum tempo atrás compartilhei as minhas primeiras impressões sobre o pré-natal na Suécia (post aqui e aqui). Como mãe de primeira viagem, estrangeira e etc e tal me senti bastante insegura. Além disso, o lance de ser atendida por uma enfermeira obstetra (aprendi o nome correto da profissional) ao invés do médico me deixou bastante confusa. Mas quando eu estive no Brasil fui a uma consulta com o médico e percebi que também saí do consultório apreensiva. O que me levou a concluir que meu causo é apreensão mesmo e não qualquer outra coisa (todo mundo já sabia, menos eu).

Depois da viagem ao Brasil encontrei com a enfermeira obstetra três vezes. A partir da 35a semana de gestação as consultas ficam mais frequentes. Na última delas fiquei sabendo que o bebê já está encaixado. Lindo né? E ela fez um exame manual, sem ultrassom. Essas enfermeiras são treinadas de modo que elas sabem identificar a posição do bebê por meio do toque e massagem na barriga da gestante. Em caso de dúvida aí sim o ultrassom será marcado.

Identificar a posição do bebê na semana 35 ou 36 de gestação é procedimento de rotina aqui. Normalmente a criança “encaixa” mais ou menos nesse período. Às vezes o bebê pode “virar” até no último minuto antes do parto. Mas aqui o procedimento é o seguinte: se durante esse exame a enfermeira obstetra identificar que a criança está sentada a grávida fará um acompanhamento semanal até a semana 37 para ver se o bebê encaixa. Caso isso não ocorra é marcado um procedimento durante a semana 38 em que, com a ajuda de algumas drogas que deixam o útero maleável, um profissional obstetra ajuda a criança a posicionar-se de cabeça para baixo. Umas das suecas que eu conheço passou por esse procedimento. Segundo ela, a mulher fica deitada em uma maca com a cabeça levemente mais baixa que o resto do corpo. A equipe de trabalho aplica a “droga” e você se sente meio anestesiada, com o corpo formigando. Um tanto tonta também. Então a enfermeira obstetra faz uma massagem na sua barriga, e fica massageando até que de repente usa um movimento mais seco para “virar” o bebê. Isso dói e é fácil ficar enjoada (não sei se por causa da droga ou por causa do procedimento). Durante todo o retetê o bem estar da mãe e criança estão sendo controlados por aqueles aparelhinhos e seus bips. Tudo isso dura menos do que 20 minutos mas o procedimento todo leva basicamente um dia pois é feito ultrassom antes e depois da intervenção e, além disso, tanto a droga aplicada quanto o movimento de massagem podem desencadear o parto, então eles ficam com a mulher sobre observação (e é também por causa disso que esse trem não é feito antes da semana 38 de gestação).

Eu não vou ter que fazer nada disso e fiquei com um sentimento de satisfação gigante quando a minha parteira me disse que ele estava de cabeça para baixo e bem encaixado. É claro que o bebê pode virar e resolver sentar no último minuto, mas é de praxe que a mulher seja submetida a um ultrassom quando chegar a maternidade (se houver suspeita de que o bebê está sentado). Nesse caso não sei se eles apenas “viram” a criança ou se rola a cesária. Só sei que parto pélvico não rola por aqui.

Durante essa fase da reta final é comum que os pais sejam convidados a participar de uma série de cursinhos. Como a gente estava no Brasil (e eu acho que minha parteira me esqueceu) não vamos participar do curso de pais – que é tipo um curso sobre parto e sobre os primeiros dias com o bebê. Eu tive uma aula particular sobre amamentação – isso porquê eu suspeito que minha parteira ficou com dor na consciência após perceber que nos esqueceu – do contrário iríamos eu e o Joel também participar de um curso para pais que é sobre amamentação. O que fizemos juntos foi uma aula de apresentação da maternidade, onde uma enfermeira obstetra muito engraçada falou sobre o parto, explicando tintim por tintim todos os procedimentos disponíveis no hospital, como é o quarto, como funciona o atendimento, o que os pais tem direito e  bla bla bla.

Eu perdi metade da aula porque estava no trabalho e justo naquele dia meu trem atrasou. De toda forma, Joel estava lá e disse que a primeira parte foi mais ou menos uma repetição do que já estamos aprendendo no curso de parto natural (que é particular e já já explico). Duas coisas que não são legais sobre o parto aqui na Suécia: 1. eu não sei aonde vou parir – quando o trabalho de parto começar eu tenho que ligar para a central de partos e eles me dirão se há vagas no hospital mais próximo da minha casa e, em caso negativo, nós teremos que optar por outro hospital fora de Göteborg*; 2. a parteira ou melhor, enfermeira obstetra que me acompanhará no parto não é a mesma que fez meu pré natal. Na verdade, os hospitais tem suas próprias equipes e quem atende as parturientes são as equipes de plantão. O lado positivo disso é que as equipes devem contar com profissionais que tem diversas habilidades, entre elas até acupunturistas. Chique né? Ao menos na teoria as enfermeiras obstetras aqui incentivam as parturientes a utilizarem práticas alternativas para diminuir a dor e a tensão na hora do parto. Na prática eu sei que às vezes o carro entra na frente dos bois, em especial em épocas como essa em que todo mundo quer tirar férias. Sim, a temporada de férias na Suécia vai de junho a agosto e isso significa que se eu pegar uma equipe completa no hospital terei ganhado na mega.

Pois bem, além disso há banheiras disponíveis no hospital – para um banho quente, não perguntei se é possível parir na água (claro que é, mas não sei como é que a gente faz esse requerimento); cada quarto tem seu chuveiro – caso a mulher prefira o banho quente; bolas de pilates; gás do riso e acupuntura (além dos demais anestésicos de praxe); e… esqueci. Pá é tanta coisa que a gente fica meio tonto de informação. Só sei que cada quarto de parto é super equipado com tudo que é necessário para que o trem se transforme numa sala cirúrgica em dois três se necessário, sendo que a mulher tem o direito de ter consigo o/a parceiro/a e uma doula durante todo o trabalho de parto. De forma geral, há muita liberdade e se você quiser ficar andando para lá e para cá pode, assim como se você só quiser ficar deitada na cama olhando o teto pode também.

Uma coisa que achei engraçada é que na listinha que eles nos dão para ajudar a fazer a mala da maternidade estão entre os itens indispensáveis telefone celular, máquina fotográfica e uma lista de músicas que você goste (segundo a parteira palestrante, às vezes a equipe sofre muito com listas que são uma verdadeira rave ou um show de hard rock… fazer o quê?). Além disso eles encorajam o/a parceiro/a a levar um livro e comida para si mesmo. E chocolate e chips para a parturiente! Não é proibido comer durante o trabalho de parto mas a parteira comentou que a maioria das mulheres fica tão nervosa que não consegue comer. Aí ela recomendou bater uma marmita de pedreiro assim que sentir que o trabalho de parto começou.

Enfim… estava falando do curso de parto natural: iniciamos o curso em a abril, logo após chegarmos do Brasil. Seriam quatro encontros para trabalhar respiração, tirar dúvidas sobre o processo do parto, para aprender a relaxar, para que o Joel aprendesse macetes de massagem, enfim, técnicas para ter um parto mais feliz. E tudo isso na faixa, já que é uma amiga da mãe do Joel que nos estava fazendo esse favor. No dia do segundo encontro, a mulher quebra o braço e com fratura praticamente exposta (só não rasgou a carne mas o braço virou um U). Moral da história: ficamos sem o curso de pais lá do posto de saúde e provavelmente ficaremos sem o curso de parto natural, uma vez que a senhora lá teve que fazer uma cirurgia, coitada.

Apesar disso, me sinto bem relax com relação ao parto. Eu infeliz ou felizmente não sou daquelas que pira o cabeção. Na verdade, sou relaxada demais: enquanto tem grávida que fica escutando música clássica desde o quinto mês de gestação para incentivar o desenvolvimento da cria (ao contrário, dia desses eu e Joel estávamos ouvindo hip hop!) eu nem estou lendo para o Benjamin. Ok, eu fiz isso algumas vezes. Mas não fiz yoga para grávidas, tirei uma foto da barriga a cada mês, fiz um diário de gestação ou coisas do tipo. Estou vivendo normal… acho que estou tentando aproveitar porque sei que logo logo minha vida vira de pernas para o ar.

Num domingo de sol

Num domingo de sol

*Sobre os hospitais: Göteborg tem dois, o Salhgrenska Universitetet e o Östra Sjukhuset, mas há um terceiro que fica na cidade vizinha (que é colada em Göteborg) chamado Mönldal Sjukhuset que faz parte desse grupo. A maternidade do Salhgrenska foi fechada há alguns anos então, no caso só há dois hospitais com maternidade em Gotis. No caso deles estarem lotados, temos a opção de nos locomovermos para Trollhätan ou Varberg, ambas a cerca de 1h de carro daqui.

Dedinhos cruzados…

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Pré Natal na Suécia – II

Como eu citei no início do post anterior, segundo o pessoal dos movimentos pelo parto humanizado no Brasil (favor não confundir parto humanizado com parto em casa), a Suécia é um dos países modelo número um em parto humanizado no mundo, justamente por causa da questão das enfermeiras parteiras.

Acho que uma das vantagens de fazer o pré natal com uma parteira é que a gente se sente a vontade. A parteira que  está fazendo meu acompanhamento é muito simpática e tranquila e não foi a mesma que me receitou aquele anticoncepcional ruim e isso foi muito importante para mim. O que eu acho que foi mais negativo é o fato de que há um protocolo meio rígido a ser seguido, fazendo com que as consultas de uma hora pareçam ter apenas cinco minutos. Eu nunca tive oportunidade de ter aquela conversa que eu achava que teria com a parteira, na qual eu poderia botar para fora as minhas dúvidas – que eram muitas.

Mas eu não acho que seja uma falha pessoal da parteira e sim da forma como o sistema de saúde na Suécia é construído. A Su comentou por aqui uma vez que o sistema na Suécia não trabalha a medicina preventiva, e simplesmente isso faz uma enorme diferença.

Além disso, não sei porquê achei que a questão seria mais específica, como quando vamos à ginecologista no Brasil mesmo ou como aconteceu no dia do ultrassom bônus, no qual a médica me examinou para ver se tudo estava bem. É importante ressaltar também que as parteiras não tem essa formação ginecológica; quem faz isso por aqui continua sendo o médico. Por isso eu senti que a minha primeira consulta era mais para preencher uma ficha de cadastro: nome completo, peso, altura, data da última menstruação, falar um pouco sobre a dieta recomendada, coleta de sangue para exames, informação sobre o exame de urina, sobre o ultrassom (que só acontece cerca de dez semanas depois), mais info sobre diversos exames que o casal tem acesso (pagando ou gratuitamente) durante a gestação, info sobre possíveis sintomas de aborto espontâneo, info diversas e vixx Maria, nosso tempo está acabando… você tem alguma dúvida? E eu né… tenho muitas! Ao que ela me respondeu que era natural, que eu devia procurar alguns fóruns de mães ou que eu deveria ligar para o serviço de saúde 24h (1177) se eu me sentisse mal.

Sinceramente, alguém pode me dizer o que acontece na primeira consulta pré natal no Brasil?

Em todo o caso, saí do primeiro encontro frustrada. Troquei umas figurinhas com as amigas, desabafei, liguei para minha mãe e perguntei para ela como eram os acompanhamentos pré natal na década de 70, quando ela engravidou pela primeira vez. Parece exagero, mas é assim que eu me senti, mandada direto no túnel do tempo para um lugar onde você não tem os recursos que existem no mundo inteiro – apesar de viver em um país de primeiro mundo.

Eu tenho plena consciência de que o sistema não é ruim – não estou sendo irônica – basta analisar os indicadores de qualidade. Mesmo no Brasil, entre 1990 e 2010 a mortalidade materna caiu 51% e é claro que este é um reflexo da implantação do SUS, mas também do trabalho da Pastoral da Criança. A maioria das mulheres que trabalham na Pastoral são pessoas tão simples quanto aquelas que são atendidas mas esse é um trabalho que dá tão bons resultados que foi “exportado” para mais 19 países no mundo. Ainda assim, 56 mulheres de cada 100 mil morrem anualmente no Brasil em decorrência da gravidez/parto contra apenas 4 mortes a cada 100 mil na Suécia (dados da ONU 2010).

Não há como discutir com números. Mas há como reclamar da falta de calor daqui – e por isso é que já comentei no primeiro post que eu encaro como mais uma questão de choque cultural. Além disso, devido ao meu azar em topar com enfermeiras mais do que ranzinzas eu não me sinto bem vinda nos postos de saúde ou emergências. Sim, eu estou levando isso para o lado pessoal mas já comentei por aqui que o entendimento geral – na sociedade – é de que os árabes e somalianos estragam o sistema porque eles vivem correndo para lá sem motivos – o que irrita o pessoal. Ora bolas, eu sou brasileira, mas já me perguntaram se eu sou curda, ou iraniana (será o nariz? hahaha) e provavelmente o pessoal do sistema de saúde não pensa que são somente os árabes e somalianos que estragam as coisas, para eles qualquer estrangeiro está lá porque não entende seu papel na sociedade e não sabe que posto de saúde e emergência não é local para se passear. Eu já ouvi outros brasileiros criticarem “esses refugiados” e eu quero fazer um apelo: acorda gente! Vocês só estão fazendo a coisa pior para nós mesmos! Ou vocês acham que o pessoal vai perguntar a nacionalidade no atendimento da emergência?

Conheço duas mulheres que tiveram complicações durante a gravidez e foram tratadas com descaso pelos profissionais de saúde daqui. Uma delas perdeu o bebê e uma das trompas por causa de uma gravidez que se desenvolvia fora da útero e foi duramente criticada (até chamada de mentirosa) por enfermeiras que disseram na cara dela que estava exagerando, não era nada – enquanto ela tinha dor e sangramento constante. Outra quase morreu no parto porque, apesar de apresentar todos os sintomas de pré eclâmpsia, o pessoal ficou com cara de paisagem e não deu importância porque ela estava fazendo drama – foi necessária a intervenção de uma terceira pessoa para que ela não se transformasse em um número de estatística. Elas não são suecas e sofreram as consequências de um sistema que parte do princípio que todo estrangeiro faz fita e exagera demais. Se não bastasse isso, nós mesmos ajudamos a fortificar o preconceito falando que é tudo culpa dos refugiados. Mais uma vez: quem é que acha que o pessoal vai perguntar a nacionalidade em uma emergência ou no posto de saúde?

Fechando a sessão desabafo, acho importante reforçar a questão do choque cultural. Pra quem achou que isso era uma coisa que vinha de uma vez só, tá super enganado. Eu me sinto super perdida, no meio de estranhos que não comemoram o fato de uma vida estar surgindo e cercada de enfermeiras ranzinzas que acham que estou de fita. E ainda carrego aquela falsa sensação de que talvez no Brasil seria melhor, simplesmente porque o pré natal é com o médico. Incrível como a gente continua endeusando os nossos “doutores”.

Eu não dei trégua para minha parteira, liguei para ela, dei um jeito de conversar um pouco e no nosso segundo encontro já me sentia mais tranquila. Mas eu também segui os conselhos dela e gastei muito tempo dividindo minhas dúvidas com amigas, tanto as que não são mães ainda – obrigada por me emprestarem seus ouvidos; assim como caí na carne da Cíntia, do blog Minha Aquarela. Nada melhor do que encontrar alguém que curte falar sobre suas experiências na montanha russa da vida materna para poder fazer um longo papo furado. Além disso, a Cíntia me indicou uma porrada de blogs maternos – eis aí o porque de eu não comentar mais ninguém, estou consumindo tudo que posso a respeito de gravidez e mães de primeira viagem. E mais uma vez, eu amo o cara que inventou o skype!

São realizados dois controles pela parteira antes do ultrassom, ou seja, antes da 18a semana. Como eu descobri minha gravidez cedo, esses dois encontros já se foram há tempos. Enquanto meu ultrassom não chega, também não vou ver a parteira – a menos que eu apresente algum sinal estranho. E isso é bárbaro demais: como é que eu vou saber? Para mim tudo é novo e estranho agora. É lindo, mas super estranho. Mulheres grávidas não estão doentes (é bom ser relembrada Manoel) mas eu fui contaminada pelo medo absurdo que as pessoas tem aqui de que a gravidez talvez não vai vingar, que a primeira gestação é comum acabar em aborto. E se eu precisar de atendimento de emergência não vai ser minha parteira legal me esperando com sua simpatia e tranquilidade, e sim qualquer outra enfermeira bruxa pronta para me acusar de que estou exagerando, devia ter tomado alvedon e ficado em casa.

Fiquei mais aliviada quando completei a 12a semana mas ainda assim, eu queria muito estar “em casa” agora e me sentir mais envolvida por um clima mais leve e de felicidade em torno da gestação. Definitivamente, quando se trata de saúde, eu não me sinto bem vinda aqui.

Só por Deus mesmo.

Pré Natal na Suécia – I

Fonte: Google

Fonte: Google

Desde que mudei para cá sempre ouvi dois extremos a respeito de ter filhos na Suécia: há aquelas pessoas que dizem que não podiam ter imaginado um atendimento melhor, assim como há aquelas que reclamam de tudo (tudo mesmo) relacionado ao acompanhamento da mulher e do bebê, principalmente na hora do parto.

Eu nunca tive filho no Brasil, minha irmã teve crianças a long time ago e eu não acompanhei de perto as gestações das pessoas mais próximas que tiveram bebê nos meus últimos anos no Brasil. Além disso, já fazem quase três anos desde que eu deixei a minha terra e, por todo o tempo em que lá morei, nunca havia ouvido falar em violência obstétrica, por exemplo. Se você quer saber mais sobre esse tipo de violência, pode assistir ao documentário “A dor além do parto” – disponível no You Tube.

Daí que, mudando para a Suécia, me deparo descobrindo essa questão (da violência obstétrica no Brasil) e com ela vem a informação de que a Suécia é um dos países modelos em pré natal e parto humanizado no mundo (leia esse texto aqui). Bom, acho que a maioria das mulheres que participa de comunidades de brasileiros na Suécia não sabe ou não concorda com essa informação e eu, bem, ainda estou bem no início dessa minha jornada como grávida e futura mãe, por isso não sei bem ao certo o que pensar. Em todo o caso, pelo que conheço do sistema no Brasil, o sistema de pré natal é muito diferente aqui na Suécia. Só para deixar claro, a minha intenção não é estabelecer um juízo de valor (quem é melhor, a Suécia ou o Brasil) porque definitivamente, eu não tive filho no Brasil e por isso não posso comparar uma e outra experiência. Além disso, acho que a experiência de ser mãe no Brasil deve ser muito diferente lá no Amazonas do que é em São Paulo, na rede particular ou pública de saúde, com todos os prós e contras com que cada situação envolve.

Aos fatos: a Suécia tem um centro de atendimento de saúde da mulher chamado Mödervårdcentralen. Esses centros contam com uma espécie de enfermeira parteira, que tem o título de barnmorska (eu digo barnmoça por brincadeira, fica bem próximo a pronúncia do nome correto) que faz o acompanhamento de mulheres nos casos de planejamento familiar, exames relacionados a saúde da mulher, pré natal e pós natal (não sei exatamente até quantos meses da vida do bebê). Eu vou chamá-las aqui simplesmente de parteiras, mas é importante lembrar que o conceito de parteira na Suécia não é o mesmo daquele das parteiras das regiões menos favorecidas do Brasil. Não que eu ache que aquelas mulheres parteiras do interior sejam menos do que as parteiras suecas,  só que é importante informar que ser parteira na Suécia é uma profissão que exige formação universitária (enfermagem+especialização).

Quando eu descobri que estava grávida liguei para esse centro de saúde da mulher (vou abreviar para CSM) para marcar um encontro com a parteira. Tive que esperar três semanas porque a primeira “consulta” não é realizada antes que a mulher complete a 8a semana. Eu sou péssima com essa coisa de contar as semanas, até hoje me embanano toda, só sei que eu fiquei super ansiosa. Eu queria encontrar alguém, falar com uma pessoa entendida do assunto, contar a minha felicidade, meus medos, trocar figurinhas sobre qualquer coisa. Me senti super no vácuo. Acho que é esse excitamento de mãe de primeira viagem, mas eu sei lá… nesse momento eu comecei a sentir um choque cultural muito grande porque eu queria muito ir ao médico e tirar essas dúvidas, falar sobre meu bebê e me sentir tranquilizada a respeito de coisas bobas que passam pela cabeça da gente.

É claro que na Suécia também há a opção do atendimento na rede privada de saúde. É um pouco complicado de entender, porque o atendimento público de saúde na Suécia também é privado, ao menos, os postos de saúde normais são: você paga uma taxa para ir ao médico. Não é o valor da consulta integral (que seriam 300 coroas no caso de clínico geral, no mínimo 700 coroas quando um especialista), mas a consulta não é gratuita. No caso dos CSM as consultas são gratuitas e eu não sei explicar se eles são totalmente subvencionados, totalmente públicos, ou se é pelo fato de que os CSM públicos não contam com médicos mas sim uma equipe formada por parteiras, enfermeiras, psicólogas e assistentes sociais. Em todo o caso, há CSM privados. A diferença: você paga, e eles contam com um médico e aparelho de ultrassom.

Conversamos aqui em casa sobre isso, sobre talvez migrar para um CSM privado. Em teoria, é melhor. Mas eu não estou certa, só ouvi uma pessoa falando sobre isso e é claro que ela falou maravilhas; mas não é todo mundo que tem coragem de reconhecer que trocou merda por bosta (ainda mais quando paga). Pra mim, atendimento particular no Brasil nunca foi aquele “ohhh, que maravilha!”. Depois, eu acho errado pagar por um serviço que deve ser gratuito afinal, eu pago impostos nesse país, não vou pagar duplamente por algo que eu considero já ter pago. Assim fica meio fácil o governo recolher impostos mas oferecer um serviço meia boca, já que ninguém usa. Eu acho melhor usar e ajudar a fortalecer e melhorar o sistema que é para todos.

Mas voltando a questão do ultrassom… por meio dos CSM públicos você tem direito a apenas um ultrassom durante a gravidez, na 18a semana. A não ser que a mulher apresente algum tipo de complicação, dor ou suspeita com relação a gestação, não serão feitos outros exames de ultrassom durante a gravidez. Nem mesmo próximo ao parto, se a parteira tiver certeza que a criança está de ponta cabeça e encaixada eles não fazem ultrassom. Já nas clínicas particulares é diferente: a mãe pode pedir ultrassom sempre que estiver preocupada e quiser checar o bebê (e mais uma vez, você paga por isso).

Quando a minha parteira me informou essa questão do ultrassom eu fiquei meio preocupada. Não sou a favor de ultrassom em 3D, e penso mesmo que ficar espiando a criança o tempo inteiro é uma coisa desnecessária, mas tanto no início da gravidez quanto no término acho que não seria demais não. Além disso, a parteira me disse que o ultrassom faz mal a criança e eu fui pesquisar na internet mas não achei nada. É claro que eu não estou dizendo que ela – que estudou quase cinco anos para chegar onde chegou – está de conversa mole comigo, mas eu se for comparar com o caso do meu anticoncepcional então, o que é que é para mim pensar? Tipo, eu estava tomando um anticoncepcional recomendado pela parteira que é potencialmente perigoso (tá até no google). Todo medicamento é, mas ela não me disse que eu podia ter os efeitos colaterais que eu tive. E então ela me diz que ultrassom faz mal a criança, e o único estudo que comprova que ultrassom tem efeito colateral foi realizado na Inglaterra e mostra que criança expostas longamente ao ultrassom tendem a nascer canhotas. Algum problema em ser canhoto? Países como Alemanha (que também são primeiro mundo) oferecem mais de um ultrassom durante a gestação.

Eu acabei por fazer um ultrassom porque tive aquela crise renal. Foi um bônus, e eu tenho que admitir que fiquei muito mais tranquila depois de ver o meu bebê lá, mesmo que por poucos segundos, e ouvir a médica dizer que meu útero estava bonitinho e que não havia nada de errado – pelo menos não até aquele momento. O fato de o ultrassom ser realizado durante a 18a semana de gestação tem um propósito bem claro: o médico vai checar a fundo o desenvolvimento da criança, tanto o interno, quanto o externo. Nessa altura da gestação a maioria dos órgãos já está formada e só falta mesmo se fortalecer, como é o caso dos pulmões. O coração já bate desde a segunda/terceira semana de vida. Nessa fase é possível identificar algum tipo de má formação dos órgãos, ossos, coluna, etc.

Algumas pessoas entendem que esse ultrassom é um fator decisivo para o interrompimento da gestação, afinal, a mãe pode solicitar a permissão para abortar depois da 18a semana se identificar alguma má formação no feto. Nessa mesma semana, mães com mais de 35 anos podem realizar gratuitamente testes cromossômicos no bebê, do tipo que apresentam a possibilidade da criança ter Síndrome de Down por exemplo. Eu recebi um panfleto explicativo durante a minha primeira conversa com a barnmorska com informações sobre o procedimento, sobre o significado dos resultados e com alguns links para que os pais pudessem ler mais sobre “o que significa ter uma criança deficiente”. Apesar de não ter 35 anos eu posso realizar os mesmos exames mediante o pagamento de uma taxa de 1500 coroas, mas eu decidi deixar para lá. Depois de trabalhar por quase dois anos com uma criança deficiente eu sei muito bem o que isso significa, e também sei que não seria motivo suficiente para que eu decidisse abortar. No fim, essa é uma informação que não me interessa; e eu vou fazer apenas o ultrassom mesmo, lá na 18a semana.

Até lá, fico aqui ainda meio que roendo as unhas. Não por falta de ultrassom, mas porque acho que falta apoio mesmo.

Tenho mais o que falar sobre o pré natal na Suécia, apenas decidi dividir a informação em vários  posts porque afinal, é tanto!