Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #27

Algumas atualizações rápidas e rasteiras.

Devido aos milhares de nove pedidos para que eu não feche o blog agora, vou continuar postando meus blá blá blás e desabafos da madrugada, ao menos, for a while. Eu realmente não gosto dessa coisa de blogar pela metade e é assim que me sinto ultimamente: não consigo terminar alguns rascunhos de há muito tempo, teve gente que me pediu mais dicas para estudar sueco, não respondo os coments. Ultimamente me sinto fazendo muita coisa pela metade e isso prova que estou abraçando mais do que posso dar conta. E meu tempo voa! Preciso no mínimo de duas horas para cada post. Och det är mitt fel – a culpa é minha. Eu gostaria de ser uma pessoa  que não cobra tanto de si mesma e que simplesmente posta uma foto do cachorro e voilá! bloguei. Antes que alguém fique brabo, não tenho nada contra gente que posta três linhas e acho mesmo é que essas pessoas é que são felizes. É que eu não consigo, primeiro porque não sei tirar fotos decentes e segundo, não me dou essa liberdade. Comecei o post dizendo que seriam atualizações rápidas e rasteiras mas dá uma olhada para esse parágrafo?

Falando em gente que está a caça de dicas de sueco, deem uma passada no blog da Rúbia – Carioca da Clara Suecando. Quem quiser uns áudios de sueco deixe um comentário com o nome do usuário da conta do Drop Box que eu compartilho; é o melhor que posso fazer por enquanto.

E falando em estudar, recebi a resposta sobre a minha candidatura para o mestrado e começo a estudar em agosto. Inglês. Como eu já suspeitava, meu inglês foi considerado insuficiente – não há o que chorar, é verdade; e antes que eu alcance o nível Engelska 6 posso esquecer a universidade. Sinceramente, me deu quase um alívio: eu realmente não tô afim de cursar universidade agora, ainda me sinto muito insegura com meu sueco e sendo assim, com sueco mais ou menos e inglês mais ou menos eu só sofreria. A gente já recebe muita merda nessa vida de graça, eu não preciso adicionar umas pitadas a mais, obrigada. E aproveitando o ensejo e para evitar futuras surpresas vou estudar o SAS 3 também. Espero que… nem vou esperar nada.

Depois de muita enrolação faço o segundo curso obrigatório para a carteira de habilitação semana que vem. Pra quem queria fazer a carteira em um mês e começou em março… tá longe ainda. Mas estou estudando o livro teórico – körkorts… alguma coisa. E nessas horas é que dá para perceber o quanto meu vocabulário em sueco é pequeno; pá… são muitas palavras que eu não tenho a menor ideia do que significam. Tenho que ler mais e ouvir mais rádio.

Agora tenho um carro no meu nome porque o seguro é mais barato. Estatisticamente, mulheres são muito mais cuidadosas no trânsito do que os homens, apesar de que comprovadamente eles são melhores na hora de estacionar.

Continuamos trabalhando a todo o vapor com a casa e quase todo dia vem gente ajudar. Uma das coisas que me deu medo quando o Joel disse que queria mudar para o “campo” foi que a gente ficaria isolado. É verdade que alguns amigos que víamos antes agora a gente não vê com tanta frequência, mas de outro lado a casa está sempre cheia. Cheia de gente e cheia de coisas a fazer. E esse é um dos pontos em que tenho que aprender a relaxar…

Cuidar de uma casa de quase 100 metros quadrados não é mesmo que cuidar de um apê de quarenta. Parece que eu nunca consigo terminar de limpar a casa – e sim, agora estou falando igualzinho a minha mãe. Ainda mais com reforma e com tanta gente que vai e vem, que entra e sai, tem dias que eu simplesmente me pergunto de onde vem tanto pó se nesse país chove quase todo dia?

Ok, eu não vou reclamar do clima não porque apesar de frio – as temperaturas estão na média dos 15 graus C – os dias estão ensolarados e se não venta dá para se esbaldar no sol de camiseta. E os dias estão super claros, com luz do sol até quase meia noite e o dia começando a despontar as 2h30m, 3h da matina. Isso dá um pique de deixar tudo bonito: tirar as teias de aranha, plantar flores, trocar as cortinas…

Me empolguei tanto que até fiz aqueles cartões de clientes tanto no Ikea como na Class Olsson. E uma lista! Que será providenciada aos poucos afinal, não há salário que aguente quando se é substituto.

Falando em emprego… conversei com minha handläggare sobre a nossa relação por cartas. Ela me disse apenas que está seguindo o protocolo e… cara, eu tenho muita dó de todo mundo que está inscrito no A. Se o protocolo deles é desse nível, não é de se estranhar que muito poucos estrangeiros tenham emprego. E aquele relatório que ela disse que eu teria que enviar, eu entendi tudo errado e recebi outra bronca sutil – mas até fiquei feliz, porque dessa vez a bronca veio por e-mail. Em todo o caso, dá para perceber porque eu e o A fazemos uma dupla de sucesso: eles com um protocolo super moderno e eu que não entendo nada. Tenho até amanhã para enviar um novo relatório… adivinha? Nem comecei.

Parei de tomar anticoncepcional porquê mais uma vez descobri que o anticoncepcional que estou tomando é uma bomba: troquei um anticoncepcional que me fez ficar com o rosto manchado por outro que pode me dar trombose. Quem quiser ler mais sobre isso é só usar o Google e as palavras chave Yaz e trombose. 27 mulheres canadenses morreram e há indícios de que o anticoncepcional que elas usavam (Yaz) pode ser  a causa da morte – por tabela. Entre os efeitos colaterais dos anticoncepcionais da marca Bayer (Yaz e Yasmim) há o alerta sobre trombose, sendo que a vigilância sanitária – tanto nos EUA como na Europa – já vinha alertando sobre esse “detalhe” desde 2011. O que me assusta é que mesmo que as agências de controle emitam os alertas os medicamentos continuem sejam receitados.

Mas eu to bem e a vida continua, semana que vem tem Midsommar e logo logo meus pais estão aqui! Com minha irmã mais nova a tiracolo. Eu me caso mês que vem e quase nem posso acreditar que o tempo passou tão rápido. Ainda nem decidimos por completo o menu do dia porque o chef do local da festa é tão enrolado quanto eu. Nem escolhemos o bolo…

E tipo, já falei que estou com torciolo de novo? A segunda vez no último mês…

 

Eles sonhavam com um trabalho na Suécia…

Felizmente, eu não sou a única semi-empregada sonhando com um emprego no reino de Carl XVI Gustav. Infelizmente, eu também não sou a única batendo em portas que não estão para mim no momento. Mas, eu já reclamei que chega no post de ontem, aqui eu quero mesmo é deixar um alerta para todo o povo que acha que vir para a Suécia e conseguir um trabalho não deve ser tão difícil assim.

A reportagem abaixo eu tirei do jornal Metro – que convenhamos, não é lá o tal jornal mas traz sempre algumas curiosidades. Hoje eles publicaram um pequeno “report” a respeito dos sem tetos da Suécia que, em sua maioria, são estrangeiros. Pessoas que vieram, principalmente, em busca do sonho do emprego que nunca se concretizou.

Antes de publicar o texto só preciso sublinhar que a reportagem trata exclusivamente dos sem teto que são cidadãos europeus. E como eu já falei aqui cidadãos europeus tem algumas vantagens no que se refere a caça de emprego na Suécia, entre elas o direito de mudar para a Suécia e viver no país por três meses mesmo sem ter emprego. Durante esses três meses eles tem alguns poucos direitos como cidadãos europeus, depois desses três meses se eles ainda não tem emprego passam a ter direito nenhum – uma espécie de convite discreto para que eles voltem para casa. O que nem sempre acontece. Cidadãos brasileiros não tem direito de viverem na Suécia SEM VISTO a não ser como turistas. Ou seja, cidadãos brasileiros tem os mesmos 90 dias que um cidadão europeu, com a diferença que:  não contam com nenhum tipo de direito a não ser os direitos de um turista; se forem pegos trabalhando – por exemplo – sem visto serão mandados embora, ao contrário dos cidadãos europeus que assim que conseguirem um emprego só vão lá e regularizam a situação (e mesmo se não conseguirem nada dentro de três meses nunca podem ser mandados embora – a menos que seja provado que eles estão envolvidos em atividades ilícitas). Se você, como cidadão brasileiro, vier para cá a passeio e “milagrosamente” conseguir um emprego tem que voltar para casa e esperar que o seu visto de trabalho seja aprovado lá no Brasil antes de mudar para cá. Ou seja, blá blá blá, não pense que mudar para a Suécia sem visto seja algum negócio.

Foto: Scanpix. Fonte: metro.se

Foto: Scanpix. Fonte: metro.se

Flyytar till hemlöshet för chans till jobb i Sverige (link para reportagem original)

Vivendo nas ruas por apostar em um emprego na Suécia

Imigrantes da EU são vistos com mais freqüência nas ruas pedindo aos transeuntes algum dinheiro. Pela primeira vez foi feito um levantamento para mostrar que a grande maioria desses migrantes não são sem-teto em seus países de origem – mas eles vêm parar aqui devido a esperança de emprego.

Em 2011 verificou-se que o número de pessoas sem-teto dormindo nas ruas da Suécia havia diminuído, de acordo com uma pesquisa nacional. Mas esta pesquisa não incluía os imigrantes europeus desabrigados; apesar das pessoas que trabalham com sem-teto terem percebido o aumento desse público nos últimos anos. Portanto, o governo deu as entidade de assistência social a missão de complementar a pesquisa nacional por meio da inclusão do número de cidadãos europeus sem-teto na Suécia.

– A razão pela qual isso não havia sido feito antes é porque muitos não têm personnunmmer (número social sueco). Portanto, não é possível afirmar que não tenhamos contado o mesmo cidadão várias vezes, o que pode resultar numa pesquisa sem sentido, diz a coordenadora do projeto de pesquisa Annika Remaeus.

(Parenteses! Há: o sistema de identificação sueco é tão bom que exclui qualquer outra hipótese. Tipo, seria tão difícil assim identificar o cidadão pela data de nascimento? Nesse caso o sem teto nem precisa deixar o nome – alguns tem mania de perseguição, acreditam que realmente tem gente na cola deles e que qualquer informação significaria a morte! E depois, qualquer tipo de pesquisa está sujeita a falhas. Cada desculpa…)

A pesquisa, que é a primeira do gênero na Suécia, identificou 370 cidadãos da EU desabrigados no país, sendo que cerca da metade dormem ao ar livre. Oitenta por cento deles são do sexo masculino e a maioria deles não eram sem-teto quando viajaram para a Suécia. A razão pela qual eles vêm parar aqui é a busca de um emprego, determina o mapeamento.

– Em comparação com, por exemplo, a Espanha, apresentamos maiores possibilidades de emprego. Ao contrário do sem-teto com cidadania sueca (nota minha: em sua maioria dependentes químicos ou doentes mentais) este grupo encontra-se fisicamente num melhor estado de saúde. Poucos são alcoólatras ou viciados em drogas, diz Annika Remaeus.

A razão pela qual nós estamos vendo mais imigrantes nos últimos anos, de acordo com  Annika Remaeus, é a crise econômica que atingiu alguns países da Europa. Desde então, houve um aumento da mobilidade dos cidadãos que saem do seu país de origem e buscam sustento em outros países. É uma tese que é apoiada pela pesquisa que mostra que os migrantes geralmente não estão sem-teto na Suécia há mais de um ano.

– Se eles não conseguem obter qualquer oferta (de emprego) aqui, eles vão continuar a busca em outro lugar.

A edição impressa traz alguns depoimentos:

Meu sonho era mudar para a Suécia desde há muito tempo. Você sabe, a gente ouve dizer que esse é um país lindo e rico. Agora eu estou aqui e eu quase choro.” (Carlos, 33, do Peru/Espanha).

“Eu não posso acreditar que esta é a mesma Suécia sobre a qual eu ouvi no Equador e depois na Espanha. Eu acreditei que havia empregos por todos os lados.” (Roberto, 41 anos, do Equador/Espanha).

“Meus pais me mandaram para cá. Eu preciso arranjar dinheiro para os remédios do meu pai e para pagar a energia elétrica.” (Ernö, 20 anos, eslovaco que estudou apenas 6 anos mas sonha ser médico).

“Eu estou aqui para ajudar os meus pais. Somos seis irmãos e eu sou o mais velho. Minha mãe e meu pai estão velhos e doentes.” (Karl, 21 anos, eslovaco que contou ser maltratado na Suécia. Um casal haveria cuspido nele enquanto declarava que era uma pena que Hitler não havia acabado com todos os ciganos nas câmeras de gás.)

Os depoimentos foram tirados do documento “Hemlösa Kartläggning” (Mapeamento dos Sem Teto) que é o fruto da pesquisa realizada pelo Socialstyrelsen (digamos, o ministério que controla a política de assistência social) sueco. Quem tem curiosidade de acessar o documento original é só clicar aqui – em sueco, claro.

Eu também percebi no meu trabalho que há um grande número de não suecos sem teto na Suécia. Hoje mesmo apareceram alguns me perguntando em espanhol se eu era mexicana, ou de algum lugar da América Latina. E eles contam suas histórias… que no fundo são as mesmas dos depoimentos aí de cima.

Já dizia o velho ditado: nem tudo que reluz é ouro.

Observação: eu não sou tradutora oficial e meu texto provavelmente contém erros. O que eu posso afirmar é que o texto traduzido é fiel a ideia e aos dados apresentados no original.

O Arbetsförmedlingen e eu

Eu tenho sérios problemas com a agência de empregos sueca.

E não, não sou só eu: somos eu e todos os estrangeiros, somado a todos os suecos desempregados. Atualmente, cerca de 445 mil pessoas (ou 8,7% da população sueca) entre 15 e 74 anos está desempregada, segundo dados do SCB. Segundo “O Globo”, no Brasil a taxa está em 5,8% da população economicamente ativa.

Obviamente, no Brasil de quase 200 milhões de habitantes 5,8% significa que muito mais pessoas estão desempregadas do que os 445mil na Suécia. Mesmo assim, estamos num país de primeiro mundo que tem uma agência de empregos de merda. Se a agência de empregos sueca funcionasse como as demais instituições suecas… o desemprego aqui seria perto de zero. Mas taí o problema né, porque o A não funciona.

Eu to inscrita na agência desde que recebi meu personnummer, em algum dia do passado longíquo de abril de 2011. Desde o primeiro dia que me cadastrei o meu objetivo foi um emprego como assistente social; mesmo quando eu não falava mais do que oi e tchau em sueco, eu expliquei para eles que queria ser assistente social na Suécia. Eles me apresentaram uma série de programas e incentivos que nunca foram usados – comigo – e eu saí de lá achando que teria uma parceria. Que não existe.

É importante deixar um parêntese, apenas para clarear as coisas: eu sou desorganizada sim, em muitos aspectos, e ver uma pilha de roupa para passar ou para guardar me enche de preguiça, mas eu não tô sentada esperando que o A resolva a minha vida para mim não, eu corro atrás do que eu quero: eu trabalho mesmo que não seja o trabalho que eu sonhei. Enquanto estou lá melhoro meu sueco e o mais importante de tudo, adiciono contatos porque aqui na Suécia é super importante ter um QI (quem indica) alto e variado.

Se você quer parceria com o Arbestförmedlingen tem que sentar na porta deles: ligar lá, mandar e-mail ou encher o saco do seu handläggare diariamente. E nisso, há, nisso infelizmente eu sou uma porta. Quer fazer algo por mim?, ótimo, faça. Não quer fazer?, no problems, eu não me importo; sou maior de 18 e consigo me virar muito bem, obrigada. Agora… sério mesmo, se o seu trabalho seria me ajudar… como dizem os suecos: hallllååå? É realmente necessário que eu te lembre disso todos os dias?

Minha primeira handläggare eu vi uma vez e… nunca mais. Nem por telefone, nem por e-mail. Eu sempre recebia uma daquelas mensagens automáticas: fulana não está no escritório hoje, ela volta tal horas. Ela está de férias, volta em agosto. Ela está doente, talvez nunca mais volte. Meus e-mails ficaram no vácuo eterno. Aí trocaram meu contato lá dentro e… ela me tratava como uma débil mental, fa-lan-do co-mi-go pau-sa-da-men-te e (pausa para respirar) sem-pre per-gun-tan-do se eu es-ta-va en-ten-den-do a-pós ca-da sen-ten-ça – hänger du med, eller? Eu nunca entendi. Falar com ela era um tormento pois se eu fizesse qualquer pergunta ela começava uma explicação do tipo: no príncipio, Deus criou o céu e a terra, e viu que era bom. E falando comigo pausadamente. E perguntando se eu estava entendendo, ela explicava toda a história da criação sem nunca responder as minhas perguntas. Adivinha se eu tinha saco para perguntar mais uma vez?

Sem contar que tudo ela precisava perguntar a outra pessoa, porque ela não tinha a informação. Em janeiro decidi deixar meu emprego de 40% – aquele com o Zé, duas vezes na semana – e ficar só com meu viakariat – substituta, pra trabalhar quando há vagas. Informei isso a handläggare e ela começou a discutir comigo as minhas razões. Cara, me deu nos nervos. Me perguntou duzentas vezes porque eu não queria continuar como assistente pessoal. E o fato de eu ter um diploma de assistente social? Esqueça. Para ela, eu tinha um emprego como assistente pessoal e devia ficar feliz.

Gente, eu fui muito feliz no meu emprego de assistente pessoal. Sério. Eu ainda trabalho com isso e mesmo que existam aqueles momentos de limpar a bunda do cliente (é isso mesmo!), é um trabalho legal. Eu sempre pergunto para o pessoal que está mudando para cá e entra em contato comigo para chorar as pitangas porque é difícil arrumar emprego: você gosta de trabalhar com pessoas? Tem saco e estômago para virar quase alguém da família de outro alguém e seguir um monte de regrinhas (que a primeira vista, parecem bem bestas)? Procure um emprego como assistente pessoal (personlig assistent). Ainda mais agora, durante o verão, chovem vagas. Se você não sabe o que é, assista o filme Intouchables (em português, Os intocáveis – trailer aqui). E é sempre bom deixar claro que eu to falando isso para quem mora na Suécia e tem visto, e não para quem está procurando uma forma de mudar para cá.

A questão é que é muito difícil conseguir um emprego de 40h semanais como assistente pessoal. Você pode ter até 80% (32h por semana, mais ou menos) se você tiver sorte, mas é mais provável que você consiga 20h por semana. Nada mal para quem estuda não é? Mas eu já acabei o meu tempo de estudante. Eu até trabalhei com duas pessoas ao mesmo tempo – com o Zé e o Zezinho – com um deles eu tinha 17h por semana e o outro eu tinha cerca de 15h; sendo que eu ainda aparecia todas as vezes que me chamavam extra. Mas sério… funciona por um tempo. Como assistente pessoal você terá que abrir mão das suas noites e dos finais de semana, e como eu afirmo sempre, é ótimo: você consegue contatos (QI) suecos e melhora o sueco, mas não vai funcionar para sempre.

Depois de muito discutir com minha handläggare número 2 ela passou a bola para outra pessoa. Pá, a primeira conversa com a handläggare número 3 me deixou nas nuvens: ela respondeu, não me tratou como uma criança de 4 anos e pasmem, respondeu a todas as minhas perguntas. Me disse que a gente faria um plano para mim conseguir o meu sonhado emprego. Gente, eu fui às nuvens!

Fiquei esperando o contato dela que nunca chegou. Pra piorar, mandei um e-mail para ela com o endereço errado (mea culpa) e ela nunca recebeu. Depois de duas semanas recebo umas cartas atrasadas do A e numa delas havia um horário para entrevista, aquele tal em que a gente faria o plano para alcançar o emprego dos meus sonhos. Liguei e ela não respondeu e lá fui mandar o e-mail… e fui aí que percebi que eu havia escrito o nome dela errado e que ela nunca havia recebido minha mensagem com as informações do meu endereço novo entre outras coisas.

Pedi desculpas e tals e; ela nunca responde e-mails. E nunca está no escritório. É como a handläggare número um. E me manda cartas. Eu não entendo, de verdade, o que ela tem na cabeça. Um e-mail não custa nada e é enviado no mesmo instante. Uma carta custa o papel, a impressão, o envelope e o selo e demora um dia para chegar as minha mãos, no mínimo! É super romântico enviar cartas, eu acho, mas eu não to afim de uma relação íntima com o A. Eu quero algo mais efetivo, e talvez, só talvez, eu tenho uma vaga ideia de que e-mails são mais efetivos, mais baratos e ainda por cima, ajudam a preservar o meio ambiente!

Recebi um pacotão dela pelo correio há, o que, um mês atrás: ela imprimiu todas as vagas disponíveis para o cargo de assistente social na região (sim, todas aquelas que estão no Platsbanken, que por acaso, eu sei acessar) e me enviou. Por correio. Umas 40 páginas. É gente, tem muita vaga para assistente social aberta. Todas aquelas vagas que ela imprimiu e me mandou eu vi. Todas elas eu acessei. E todas que não exigem mais do que Socionomexamen eu já havia buscado, antes mesmo de ela me mandar os impressos. Mas foi legal da parte dela me enviar. Só não foi legal para o meio ambiente, pois no momento em que eu entendi que ela só havia impresso direto da página do A, todas as 40 e poucas folhas foram para o lixo.

Entrei em contato, expliquei que eu me viro bem com internet, que foi super atencioso da parte dela, mas desnecessário, mandar os impressos. Ela não respondeu. Enviei mais dois e-mails e no último, você recebe meus e-mails? E ela: sim, eu entro em contato. Adivinha como?

Recebi mais uma chamada para entrevista, por carta, mais uma que chegou o dia depois que eu deveria ter comparecido a entrevista. Aí recebi essa semana uma cartinha dizendo que se eu não compareço a entrevista, o A não pode me ajudar a procurar emprego. Sério mesmo? Se eu receber a cartinha no meu e-mail, ao invés do correio, antes da data da entrevista, quem sabe eu possa comparecer a ela. Agora eu tenho que mandar um relatório mensal contando cada emprego eu procurei, de que forma, se eu liguei para os empregadores e questionei o sistema de seleção, blá blá blá.

E tem mais: sabem por quê eu sentei aqui e vomitei mais de 1500 palavrinhas? Porque hoje pela manhã me liga um tal de Sr. Empregador dizendo que tinha uma empresa de assistência e que queria marcar uma entrevista comigo porque o A tinha me recomendado. Empresa de assistência? Uipiiiiiiiiii!!! E o A me recomendou!!! Inacreditável!!! Depois de tanta palhaçada não é que de vez em quando eles dão uma dentro??? Fique tão eufórica que esqueci de perguntar o nome. E o cara me dizendo que o número de brukare‘s deles tinham aumentado (brukare=pessoa com deficiência na linguagem das empresas de assistência pessoal) e eu entendi como missbrukare (pessoa com dependência química). Eu já estava preparando o meu discurso do “eu não tenho experiência com dependetes químicos mas eu aprendo rápido” quando eu finalmente entendi que ele não queria uma assistente social, que o que ele quer é uma assistente pessoal.

Murchei. Tipo, murchei muito. Eu tenho um emprego como assistente pessoal, eu não preciso de mais um. Eu tenho dois empregos como vikarie, eu não preciso de mais um. Eu quero ajuda para conseguir uma vaga como socialsekreterare, e não como personlig assistent. Eu tenho um Socionomexamen, será que é tão difícil entender?

E porque eu não mando o A as favas? Porque antes de eu completar três anos na Suécia eles podem pagar até 80% do meu salário, se eu conseguir alguém que queira me dar um emprego – integral ou não – isso pode ser atrativo e quem sabe até decisivo. Mas para ter acesso a essa “facilidade” eu preciso estar inscrita lá, mantendo um relacionamento bem bonito com minha handläggare por meio de cartas. Sério. Acho que vou mandar meus relatórios pelo correio. Mas vou imprimir nos dois lados do papel, assim ajuda um pouquinho na preservação do meio ambiente.

Se o Arbetsförmedlingen não fosse uma instituição de merda, o desemprego na Suécia seria zero.

Viva o dia dos trabalhadores!

Um viva a todos os trabalhadores! Vivaaaaaa!!!!

Eu bem que queria escrever que eu consegui emprego como assistente social e que por isso estou muito feliz. Mas eu não consegui e continuo feliz igual pois ultimamente eu tenho ganho tanto que não tem como reclamar, nem ficar triste. O negócio é continuar tentando… um hora eu bato na porta certa.

O último post uma guria deixou um comentário no blog pedindo emprego. Não é comum o povo deixar comentários pedindo emprego, às vezes o pessoal deixa coments perguntando o que é preciso fazer para conseguir um trabalho na Suécia, outros perguntam como está o mercado de trabalho sueco. Eu sei muito pouco sobre isso e, na verdade, tudo o que eu sei está baseado na minha experiência como imigrante na Suécia e nas histórias que outras imigrantes me contaram. Mas a coisa está meio difícil por aqui, eu acho. Tenho amigos suecos que perderam seus empregos. Gente que tinha vikariat – trabalho de substituto, como eu – e que agora não tem nada. Gente que perdeu o emprego porque a empresa em que trabalhava fechou – e isso em diversas áreas. Gente que mudou de emprego porque sabia que a empresa em que trabalhava estava prestes a demitir (muita) gente. Gente que teve de mudar de cidade porque a empresa diminuiu o pessoal aqui e ali, fizeram remanejamento para manter o pessoal mais antigo e quem teve a graça de continuar no emprego tem a desgraça de procurar casa/apartamento novo nesse caos que é a fila do aluguel na Suécia.

Em Göteborg é a Volvo que serve como termômetro – quando a Volvo está contratando, a situação está boa; mas se a Volvo está demitindo, o trem está feio. A Volvo demitiu um monte de gente no fim do ano passado e até agora a coisa não mudou; não demitiram mais gente, mas também não estão contratando pessoal. Eu sei que eles até estavam trabalhando em escalas diferenciadas – por exemplo, apenas 4 dias por semana e com os períodos noturnos em recesso, mas atualmente não sei qual é a situação – em abril só pensei na minha casa.

O fim de tudo isso é: gente, eu gostaria muito de ajudar e de poder colocar aqui no blog um link que levaria cada um que está atrás de emprego ao seu emprego dos sonhos. Mas esse link não existe. Desde janeiro eu procuro emprego como assistente social, já mandei currículos mil, recebi alguns feedbacks – muito poucos, mas nem sombra do emprego. Agora estou correndo atrás de um estágio… quem sabe se eu entro como estagiária em algum lugar consigo romper a barreira da “estrangeira com diploma do Brasil” que não sabe nada do Serviço Social europeu. E é verdade, eu não sei nada do Serviço Social europeu, mas venho de um país que está lutando duro contra a fome e a miséria – ainda – e a situação européia atual não está tão distante assim da realidade brasileira. (Eu sempre discuto com o Joel quando ele diz que o Brasil está quase como a Europa porque eu acho que ele não sabe muito do Brasil e não entende que no Brasil existe miséria de verdade. No fim das contas, quem não entende nada SOU EU que não vi ainda – ou melhor vi, mas não caiu a ficha – que é a situação européia que caiu tanto que faz com que o Brasil não esteja realmente longe…). Será que os modelos brasileiros realmente não servem para nada dentro da sociedade européia em crise?*

Em todo o caso é isso que posso aconselhar: tanto quem é português e está querendo mudar para a Suécia como quem é brasileiro e está em busca de um emprego aqui (me refiro aos brasileirxs que já moram aqui e já tem personnummer) é que entrem no site do Arbestförmedlingen (digite o que você procura nesse quadro aí onde se vê “Sök jobb i platsbanken“) porque eles tem um banco enorme de empregos. Brasileiros residentes na Suécia façam cadastro no Arbetsfömedlingen e encham muito o saco de sua pessoa de contato lá dentro, mandem e-mails e liguem dizendo que querem muito um emprego. Eu descobri recentemente que quando somos extremamente chatos e ligamos e ligamos, mandamos e-mails e imploramos eles se mexem. Um pouquinho, mas se mexem. E abram a mente o mais que puderem… comecem com coisas simples porque assim vocês podem conseguir pessoas de referência aqui na Suécia, e na Suécia, Quem Indica é um fator extremamente importante. Não entre nessa de “se eu começar como faxineira eles sempre vão querer me dar emprego na faxina” porque – apesar de ser verdade – quem escolhe o emprego que quer é você e não o Arbetsförmdlingen. Se você quer um emprego como assistente social e começa faxinando pode conseguir um dinheirinho extra só para ser feliz e de quebra consegue uma referência.

A verdade é que só existe uma maneira de conseguir emprego aqui: correndo muito atrás. Está estudando sueco? Fale com um studievägledare no Vuxenutbildning (Komvux) e explique para ele as suas ambições na Suécia, peça dicas de como chegar lá. As melhores dicas sobre emprego eu consegui com a studievägledare da Göteborgs Universitetet, e não via Arbertsförmdelingen. E eu repito: faça alguma coisa para ficar conhecido; uma pratik (estágio) ou trabalho voluntário, arrume outra coisa numa empresa (de preferência de suecos). Assim quando você for bater lá na porta de quem você quer que seja o seu futuro chefe você pode dizer que trabalhou para o Svensson e quando o Eriksson ligar para o Svensson e ele disser que você trabalha bem eles podem pensar mais do que seriamente em te dar uma chance (quem me deu essa dica nem foi o Arbets, tampouco, foi uma brazueca muito sabida!).

Eu sei que ando sumida e que não respondi os últimos coments (shame on me!); não que eu precise dar satisfação é só que eu ando realmente me divertindo com a casa. Espero poder organizar essa bagunça essa semana – me refiro ao blog, e não mais a casa!

Segurem as pontas que eu volto já!

*Não acredito que modelos existam para serem copiados e em sociedade é exatamente como na moda: o modelo 38 comprado numa butique não cabe perfeitamente em todos os “corpos”. É muito melhor quando se tem uma costureira a mão para ajustar o modelo ao corpo. E é nisso que eu acredito, eu sou a “costureira social” que tem experiência com alguns tipos de modelos. Nem sempre alguém que pode costurar bonitas camisas sabe costurar bonitos vestidos, mas nada impede de aprender não é mesmo? Até aprender a fazer os bonitos vestidos eu preciso praticar, mas isso não significa que minha experiência com camisas não me sirva. Afinal, o trench coach é o vestido camisa mais chique do mundo… quem disse que não dá para combinar uma coisa e outra?

Feliz Páscoa!

Páscoa na Suécia e eu… trabalhei!

Ultimamente eu vivo um dia após o outro e nem me dou conta da diferença. Ou na verdade, sim: meus dias são separados entre as semanas em que tenho o fim de semana livre e a semana em que tenho que trabalhar todo o fim de semana. Isso é mal, é muito mal. Não porque eu trabalhe demais – eu costumo trabalhar apenas algumas horas por dia durante a semana (em média 3 horas por dia) e cerca de oito horas no fim de semana – mas porque eu trabalho ao contrário: noites e fins de semana.

Eu tenho sábado e domingo apenas de 14 em 14 dias e infelizmente esse fim de semana foi ainda mais excêntrico porque trabalhei extra na sexta… Sexta feira santa sempre foi dia de silêncio e meditação na casa dos meus pais – e por trabalhar em prefeitura mesmo quando morei sozinha gastei a Páscoa em família. Daí sexta era dia de ir à igreja participar da adoração e da missa da paixão às três horas da tarde. Nem se varria a casa no dia da paixão, nem se ouvia música ou assistia TV. E agora eu trabalhei (nos últimos dois anos) na sexta feira santa.

O problema nem é que tenho medo de ir para o inferno por causa disso, o problema é eu perceber o quanto me cobro por coisas assim, tradições que estão morrendo – e eu nem sei se o fato de elas estarem morreno é bom ou ruim. Me senti super mal por trabalhar na sexta feira santa, como se senti mal por trabalhar no Natal. É como se houvesse alguém no meu ombro dizendo que isso não vale a pena e é errado – e pode ser tanto o ego como  qualquer outra figura representativa do consciente/inconsciente pessoal ou coletivo.

Se eu estivesse com o tempo livre provavelmente não iria para a adoração na igreja, não sei se participaria de uma missa da paixão – nem sei qual o costume que os luteranos suecos tem ao celebrar a Páscoa (e olha que vou me tornar luterana sueca, de certa forma); não sei se guardaria silêncio e meditaria sobre o calvário de Cristo e sua ressurreição… Apenas tenho certeza de que me sentiria mais feliz em não trabalhar em “dias santos”.

Essa escolha não está ao meu alcance agora e por isso tudo fica meio assim: eu sabia que não passaria a Páscoa em casa, eu sabia que trabalharia com horários meio estranhos, eu não gosto de conciliar longas horas de trabalho com outras atividades no mesmo dia e por isso mesmo eu sabia que não faria outra coisa durante a Páscoa que não fosse trabalhar. Então, não decorei a casa com penas e galhos secos (tipo, a cultura sueca é diferente. Quer saber como  funciona a Páscoa sueca: leia aqui), não comprei chocolate (ganhei quilos no meu aniversário), não fui a missa, não participei de nenhuma adoração e nem vi o dito cujo do feriado.

Conclusão: eu preciso de outro emprego.

Ontem o horário de verão começou e somado à estranheza do fato de que passei a Páscoa trabalhando veio aquela coisa de se estranhar com o relógio. Estava na hora porque tínhamos sol brilhando as 5 da matina, agora temos luz até as oito da noite – já. Nem vou reclamar porque Gotemburgo bateu em março o recorde de dias ensolarados para o mês, foi lindo e espero que continue assim! Daqui uns dias o sol vai estar de novo brilhando as 5 da matina mas eu prefiro assim, que venham muitos dias ensolarados!

E agora que já chorei as pitangas e falei do tempo: Feliz Páscoa!

Trabalhar ou não, eis a questão…

Quem escreve em um blog as três da manhã? Mães de recém nascidos e a Nara… bom, eu acredito lembrar de pelo menos uma vez ter lido algo que ela postou na madrugada. Na verdade, acredito que há gente que escreva no meio da noite, acredito até mesmo que existam aqueles que varam a noite na internet, mas para mim isso é novidade.

Meu trabalho novo é responsável por essa blogagem não convencional. Ou, talvez, aquilo que vai se tornar mais um dos meus trabalhos aqui na Suécia. Seria o 4º emprego diferente em menos de dois anos… primeiro eu não falava sueco e trabalhei como faxineira, aí aprendi um pouco e comecei com o Zé (que não “fala” exatamente, então eu não precisava de fluência); e em seguida foi a vez do Zezinho, que é autista (ele fala, mas eu não preciso um vocabulário muito grande)… Agora a coisa começou a ficar séria.

Ainda não sou assistente social. O que estou fazendo agora é definido como behandling assistans e eu sou, naturalmente, uma behandling assistent ou simplesmente a pessoa que trabalha em um abrigo e acolhe e/ou cuida de pessoas. Eu não lembro qual é o termo utilizado dentro do SUAS no Brasil para este tipo de trabalho e, na verdade, a essa hora da madrugada eu não tenho cabeça nem para lembrar disso e tão pouco vontade de “googlar” o termo. Att behandla significa cuidar/tratar e o termo behandling é utilizado para designar um tipo de tratamento – tanto dentro da área de saúde como fora dela.

A conversa que tive com a studievägledare sobre as minhas ambições acadêmicas na Suécia fez com que eu ficasse literalmente sem dormir. Ela me encorajou a procurar um trabalho como vikarie (substituta) em algum canto da enorme rede social de Göteborg a fim de conseguir alguma experiência e por meio da oportunidade aprender um pouco mais sobre o sistema de assistência social sueco (ao menos da cidade de Göteborg). Dentre as três opções disponíveis naquele momento, duas jamais atenderam ao telefone.

Já quando eu liguei para o pessoal que trabalha com os sem tetos da cidade alguém atendeu e eu agarrei a chance com ambas as mãos, o que fez a Dona Rosa (a responsável pelo abrigo) ficar bem admirada. Não que eu a tenha impressionado com o meu sueco mas o caso é que disparei a história da minha vida de uma vez só pelo telefone sem dizer o meu nome e sem dizer que eu morava em Göteborg. Apesar da gafe ela riu e marcamos uma entrevista.

Se eu disser que tinha alguma ideia da onde estava amarrando o meu burro estaria mentindo: eu sabia que era um boende (abrigo – somente nesse caso na minha tradução livre) mas não sabia ao certo para quem e para quê, qual seria o meu papel. Ela me disse já por telefone algo como “somos um grande abrigo e precisamos de gente para trabalhar a noite com as pessoas sem teto”.  E é isso… trabalho em um grande abrigo que abriga três grupos distintos de usuários: imigrantes, sem teto e semi sem teto (se é que esse termo existe). O último é constituído de um grupo de pessoas que está em transição – perdeu tudo que tinha e não sabe para onde vai. Alguns deles vão se tornar sem tetos, outros vão conseguir de volta alguma estabilidade . Só para constar: estabilidade é um termo muito estreito para ser aplicado nesse caso e eu não to muito feliz em utilizar ele aqui.

Quando a D. Rosa começou a me explicar as peculiaridades do trabalho fiquei assustada. Alguns dos usuários têm doença mental, outros fazem uso de drogas ou álcool. Eu deveria trabalhar usando um pequeno alarme próximo ao corpo, o qual eu passo disparar em caso de me sentir ameaçada. E o mais difícil: ficar acordada a noite toda (começo as 21h30min e saio as 8h da matina). Como eu não sabia o que fazer ao certo decidi experimentar e então eu alcancei a oportunidade de trabalhar por duas noites (seguidas) com o pessoal que já faz o trabalho há anos, numa espécie de introdução da qual tanto eu como eles podem decidir se foi bem sucedida ou não.

Por fim, cá estou eu experimentado passar a noite em claro para atender pessoas sem teto. O meu papel é acolher pessoas que estiveram em contato com o sistema social e por algum motivo querem (ou precisam de) uma noite tranquila em uma cama. Elas recebem um quarto (o abrigo fica em um velho hotel), comida (jantar e café da manhã), a possibilidade de tomar banho e lavar roupas, assim como acesso a novas roupas (usadas). Eu não preciso fazer nenhum espécie de abordagem individual – do tipo chegar no usuário e submetê-lo a uma entrevista; quem quer conta quem é e para onde vai e quem não quer, come e dorme. O departamento em que estou é quase que uma casa de passagem, em teoria os usuários não deveriam/poderiam voltar ou passar uma temporada por aqui mas, com base no que vi/ouvi a noite passada e hoje, muitos deles são velhos conhecidos.

A primeira impressão é que gostei do trabalho e, principalmente, dos colegas que já encontrei – ri demais e apesar do relógio voltar para trás entre as 3h e 5h da matina, no mais vai sem muito problemas afinal, eles tem muito o que dividir e eu quero muito escutar mas… não sei se tenho peito para continuar com isso. Sinceramente, meu medo foi substituído por algum sentimento entre a compaixão e a empatia, e isso é tanto bom como ruim. O problema maior está em passar a noite em claro e virar de ponta cabeça a minha vida. Se eu continuo nessa vou ficar longe de duas coisas que fazem minha vida repleta de sentido, em primeiro lugar o Joel – trocamos apenas algumas palavras tanto na segunda como na terça e amanhã… vou dormir durante o dia outra vez! – e em segundo lugar, a minha cama.

Tudo  que tenho ouvido aqui nesses dois dias me deixou entusiasmada mas também dividida; feliz e triste. De certa forma, não há muitas diferenças entre a realidade do trabalho social (que eu conheço) no Brasil com o daqui – eu vou explicar isso em outra hora, mas me refiro sobretudo as frustrações e expectativas com relação a esse trabalho e a possibilidade de tratamento de pessoas com dependência química. Por outro, parece que ser assistente social que trabalha com pessoas sem teto não é um caso fácil – sem falar que de forma nenhuma assistente social passa por uma moça boazinha que ajuda as pessoas; não na Suécia.

No fim, guardo uma certeza: a studievägledare tinha razão.

Ano novo…

Quando um ano termina e outro começa a gente tem o costume de fazer promessas de ano novo ou apenas de fazer uma lista de desejos para o ano vindouro. Não deixei nenhuma lista com a, b, c ano passado e penso tampouco fazer isso agora entretanto, vou compartilhar meu desejo número um para o ano de 2013.

Eu vou casar esse ano. Gente que doido isso! É maravilhoso. Lindo. Espetacular e… ridiculamente caro. Já me disseram que eu tenho que relaxar, que é só uma vez na vida (e sim, eu entendo porque as pessoas deveriam se casar apenas uma vez na vida e também porquê muitas delas resolvem nunca mais casar outra vez quando por acaso se divorciam: é lindo mas é carooooo!). Meus pais vem para o casório e vão ficar uns dias conosco e meu desejo número um para o ano de 2013 tem a ver com tudo isso, não apenas que o casamento seja uma festa bonita e gostosa como também que meus pais passem um tempo super legal junto com a gente.

Isso me deixa um pouco ansiosa com relação ao meu desejo número dois para o ano de 2013: quero meu emprego como assistente social. Já comecei a ler o conjunto de leis sociais suecas – edição comentada (600 e trá-lá-lá-lá páginas das quais li 10, reli, entendi 2 parágrafos por página… mas eu vou pegar no tranco) e já mandei uns currículos, mas acho que preciso mesmo de um tempo para me familiarizar com termos e com o geral de cada lei para não parecer uma porta na entrevista.

Preciso abrir um parêntese: a Fernanda – do blog Aprendendo a Viver na Suécia – mudou para cá mais ou menos no mesmo período que eu, ela conseguiu a validação do diploma dela (de pedagoga) algum tempo antes do meu, e ela conseguiu emprego agora, depois de lutar uns bons três meses. Isso me enche de esperança! Deixo o relato dela aqui – que contêm ótimas dicas para quem está procurando emprego no geral (e não só na Suécia): Proletária novamente.

Parêntese dois: dizem que o Arbetsförmedlingen oferece aos estrangeiros que tem uma profissão – indiferente se esta é resultado de graduação universitária ou não – um curso de sueco profissional. Não é este o nome do curso, mas eu estou chamando assim porque o objetivo desse curso de sueco em particular seria de auxiliar o estrangeiro a aprender termos e expressões relacionados a sua profissão. Pra variar, não tem para mim: são poucas as assistentes sociais que caem de paraquedas na Suécia e se eu quisesse ter uma espécie de curso geral de sueco profissional (para adquirir uma linguagem mais formal) teria que ir para uma cidade lá nos confins do norte sueco. Sem falar que eu só poderia me candidatar a vaga e aceitar que talvez eu não seria selecionada.

Pra terminar, eu me pergunto porque eu tenho um relacionamento tão ruim com o Arbetsförmedligen: uma handleggare que não tem tempo para mim, cursos que eu não posso frequentar ou que não existem na minha área, programas nos quais eu não me encaixo porque trabalho demais ou de menos – sim, porque você não pode se registrar para isso ou aquilo se você não tem ao menos algum trabalho em vista… Aquele curso (o de sueco profissional) faria um bem absurdo tanto para mim quanto para o meu currículo!! No fim das contas, acho que entendi tudo errado e misturei as bolas legal, me enchi de expectativas com coisas que nunca foram para mim e que não existem, porque, sinceramente, não pode ser perseguição – e se fosse, por que eu?

Voltando ao foco, se eu conseguir o emprego provavelmente não terei férias em menos de um ano… eu me pergunto se as coisas se “casariam”. Não estou sofrendo por causa disso, mas avaliando: meus pais virão e é a primeira vez que eles vão ficar longe de casa e tirar férias de verdade, quero que seja especial para eles… será que consigo conciliar o trabalho novo, preparativos do casório e ser uma boa anfitriã para meus pais? Nem é certo que eu tenha algum trabalho até a chegada deles… mas talvez seria interessante eu procurar alguma coisa de 50% para começar… se bem que eu quero trabalhar 100%… ou continuar assistente pessoal até eles irem embora e usar o meio tempo para me aprofundar no meu livrinho de legislação social sueca… quem sabe frequentar um curso de sociologia e história da sociedade sueca… tantas ideias!

Ano novo, dilemas novos!

*****

Enquanto isso, minha irmã mais velha achou o sapato de casamento perfeito para mim – o que faria minha irmã mais nova ter um ataque!

dois um

Todo dia ela faz tudo sempre igual…

…me sacode as seis horas da manhã,
me sorri um sorriso sensual e me beija com boca de maçã!
 

Eu gostaria muito que essa fosse a melodia da minha vida, ao menos de segunda a sexta – com exceção da parte das seis horas da manhã porque, convenhamos: com frio e chuva tem coisa melhor do que ficar na cama e dormir até cansar de ficar deitado?

Entrei numa rotina meio louca (de novo) porque vamos viajar e três semanas de Brasil significam três semanas sem ganhar dinheiro. Não fiquei mais capitalista depois que mudei e nem to pensando apenas em grana, mas como eu trabalho por hora recebo as férias antecipadas (ou não, eu decidi guardá-las para quando eu quiser sacar a grana, ou seja, para pagar as despesas do casório). Trabalhar por hora significa uma maior flexibilidade – eu posso sair agora sem perder o trampo e sem maiores problemas do que organizar minha agenda de forma que as pessoas com quem eu trabalho não fiquem na mão enquanto eu saio… mas eu não tenho “férias pagas”, aquela coisa que me foi tão natural nos meus 5 anos de prefeitura.

Eu não tenho saudade do meu trabalho na prefeitura, fico feliz pelo tempo que passei lá e por tudo que aprendi, mas trabalhar no governo brasileiro exige um estômago de avestruz, daqueles que digerem qualquer coisa como pedra, sapos, lagartos e merdas metida goela abaixo. E me acreditem, há muito o que ser engolido quando se é assistente social em início de carreira (em qualquer profissão em início de carreira há, eu acredito, mas não posso afirmar com segurança a não ser com relação a minha própria experiência). Mas enfim, sinto falta da rotina: acordar as tals horas e sair para o trabalho, terminar as x horas e voltar para casa tendo o fim de semana livre, isso é definitivamente uma coisinha que me faz pensar…

Por exemplo, na quinta trabalhei 5 horas em um trampo e 4 horas no outro (com intervalo de 3 horas entre cada), trabalhei 8 horas na sexta (isso é bom) mas 10 horas no sábado (começando as sete da manhã, o que significou acordar as 5 porque horário de ônibus e trem no fim de semana é diferenciado), e mais 8 horas no domingo (de novo começando as sete…). Hoje trabalho 4 horas (entre 16 e 20h30), amanhã 9 horas, na quarta seis horas e quinta… aff, cansei de explicar.

Todo esse papo deve fazer (ao menos) com que algumas pessoas tenham dó de mim e pensem puxa que confusão! Tadinha dela não? O blog dela é tão legal e ela é tão esforçada… Outras vão pensar que aff, isso não é nada: eu morava em São Paulo e pegava 6 ônibus diferentes para chegar ao trabalho, trabalhava como um cão o dia todo e tinha que pegar os mesmos 6 ônibus para voltar para casa, ganhando uma ninharia por mês…

Não quero que ninguém tenha dó de mim. Só penso que seja importante (sempre quero frisar isso no blog) que morar fora do Brasil significa ralar também. Ganhamos um bom salário? Sim. O transporte funciona melhor e é mais limpo e tranquilo? Sim. Vivemos com mais segurança? Ao menos em Göteborg, sim. Não sou uma mártir, definitivamente, e quem escolheu trabalhar fui eu, quem me candidatou a esse tipo de trabalho fui eu e é isso que eu faço todos os dias (inclusive sábado e domingo) quando eu não estou na escola ou sorrindo lá de uma linda fotinha tirada de Algero… caracas, isso foi em julho!

Recebo e-mails de gente que me pergunta como conseguir um emprego/trabalho na Suécia e eu não sei o que dizer, mas ter inglês fluente (ao menos) é um bom ponto de partida (afinal…). Preparar um bom CV, assim como você faria no Brasil. O que você faria para ter um bom trabalho no Brasil? Estudaria? Acho natural que as pessoas tenham o sonho de conhecer o mundo, mudar para os países que a gente assiste nas reportagens de tv e que tem uma sociedade tão distinta e interessante. Ganhar mais dinheiro (não há nenhum problema com isso) e viajar mais… mas, pelo menos no Brasil em que eu cresci isso não é assim tão impossível, a questão é aplicar energia no que você quer. Não é impossível conquistar um bom emprego no Brasil e desfrutar do dindim. A principal diferença é que no Brasil aprendemos a emprestar dinheiro primeiro (para a casa, o carro ou uma viagem), trabalhar e pagar depois. Aqui o povo aprende a trabalhar e guardar dinheiro (para a casa, o carro ou a viagem) e aproveitar o bem escolhido depois.

Eu tive que entrar nessa bonitinha também. Eu quero ir para o Brasil, muito bem, então eu tenho que saber quanto custa a passagem e quanto custa morar lá durante o tempo em que ficarei. Tenho que trabalhar, guardar o dindim para passagem, para a estadia no Brasil (mesmo ficando na casa dos pais…) e para o período pós Brasil, quando eu não vou ganhar salário porque eu não trabalhei 3 semanas. Se o meu trabalho é meio louco com horários esquisitos, tenho duas opções: melhorar meu CV para conseguir coisa melhor ou melhorar meu CV para conseguir coisa melhor. Estudar (melhorar o inglês e o sueco), adquirir experiência e boas referências.

Se você que tá lendo o post quer trabalhar na Suécia, na Europa ou simplesmente fora do Brasil, comece fazendo com que seu CV seja atraente. Seja um expert naquilo que você faz… Papo de palestra motivacional? Talvez! Mas sendo ou não a realidade é que esse é o primeiro passo para conseguir um trabalho em qualquer lugar, dentro ou fora do Brasil. E tenha um pé de meia.

Afinal, trabalho aqui é trabalho assim como em qualquer lugar do mundo. E acabou o meu recreio…

Emagrecer é preciso #02

To super desanimada. Sim: isso significa que meu programa de exercícios já foi por água abaixo. Na verdade, o mundo não acabou, nada está perdido para sempre, mas desde a quarta-feira da semana passada não levantei mais nem um pesinho, não fui mais caminhar, não treinei mais flexões, nem os polichinelos!

Cheguei a conclusão de que estou com um sério problema de baixa estima. Nunca na minha vida me incomodei tanto com meu “excesso de peso”, e eu realmente entrei no pique e trabalhei firme e forte. Mas eu não consegui descobrir se é uma desculpa ou se é realmente um agravante a questão dos meus horários de trabalho. Com o Zé eu tenho uma agenda fixa, trabalho todo dia assim e dia assado toda a semana. Já com o Zezinho (o menino autista) eu sou substituta, aí acontece por exemplo coisas meio loucas como esse fim de semana (ou desde quinta-feira) quando uma moça adoeceu e eu cai dentro da agenda. Resultado: trabalhei quinta, sexta, sábado, domingo, segunda, hoje e vou trabalhar todos os dias dessa semana até o domingo.

A verdade é que os patrões me ligam e perguntam se eu quero trabalhar e que eu tenho liberdade para dizer não – por ser apenas substituta – eu tenho outra coisa para fazer. O problema é que quando ninguém está doente eu trabalho só dois dias por semana… então é melhor dizer “sim, eu estou disponível!” do que esperar até que o próximo assistente fique doente! Daí eu estrago minha rotina…

Me sinto exausta porque se eu passo 8 horas no trabalho isso significam 10 horas fora de casa. Nessas dez horas eu posso estar em super atividade ou quase que dormindo. Explico: se eu tô com o Zé e ele tá na cidade podemos estar para lá e para cá olhando coisas em lojas; se eu to com o Zezinho e ele está disposto estou brincando o tempo inteiro. Mas às vezes o Zé quer só assistir um filme, e eu vou sentar ao lado dele (mesmo que eu tenha assistido ao mesmo filme 20 vezes), ou às vezes o Zezinho vai querer só que eu leia um livro (lembro de uma noite que passei uma hora e meia lendo para ele duas histórias diferentes e ao fim ele sempre pedia para que eu repetisse… só parei porque meu turno acabou!). Sem contar toda a questão do esforço físico: vestir, despir, corrigir a postura, mudar de posição uma pessoa adulta é pesado pacas… quero qualquer coisa que esteja incluída dentro da opção descansar quando meu turno acaba. E isso não incluem exercícios físicos.

Eu tenho tentado me alimentar melhor e por isso tenho sempre frutas na bolsa. Infelizmente eu não sei explicar mas tenho uma carência louca por coisas salgadas (alguém aí já viu fruta salgada? me conte o nome), e daí posso comer o que quiser doce que ainda chegarei em casa louca por um prato de macarrão com molho de tomate. Sorte que na minha lista de prioridades estão também um banho quente e a minha cama. Por preguiça não faço o tal macarrão, como qualquer coisa (salgada) e vou para internet/banho/cama.

E como mal. Pensando no tal prato de macarrão que eu teria de cozinhar em casa nesses dias eu sempre como porcaria. E por porcaria leia-se Mac Donalds. Obviamente esse foi um costume que adquiri aqui na Suécia pois na minha cidade no Brasil não tinha nenhum Mac Donalds. E mesmo que a gente comesse x salada ao menos uma vez por semana acho que não era tão gorduroso e tão junk como ir a esses restaurantes fast food. Mas depois de comer duas ou três variedades de frutas e ainda sentir o estômago vazio lá estou eu parada a espera do próximo trem que chega em 10 minutos pensando: quanto tempo demora para entrar na fila do Mac Donalds e pedir um Mac Feast? Voltei a tomar coca-cola… até quando compro um kebab peço uma coca-cola para acompanhar.

Alguém vai dizer que eu posso acordar mais cedo para me exercitar. Desculpe alguém, mas eu sou boa de cama e eu preciso desfrutar de ao menos 8 horas bem dormidas de sono. Ou isso ou sou uma lesada no dia seguinte – além de ficar de mau humor. Não é legal trabalhar com pessoas mal humorada.

Ainda bem que tenho aquelas semanas em que trabalho apenas dois dias. Então faço exercícios e cuido melhor de mim mesma. Pior que assim fica difícil ver algum resultado.

E eu definitivamente não to feliz com meu corpo.

Há dias assim

Eu sou uma pessoa muito besta de coração mole. Talvez a afirmação soe um tanto quanto idiota quando em uma grande parte dos posts aqui do blog eu pareço mais uma velha ranzinza e mal humorada. Mas tudo vai da forma como a gente lê… muitas vezes as palavras deitadas “no papel” não podem transmitir aquilo que realmente sentimos, somente uma impressão.

Sim, mas eu tava falando do meu coração mole e do quanto eu sou doce (durante uns milésimos de segundo) e o papo chegou até aqui por causa do meu trabalho: quando eu comecei a trabalhar como assistente pessoal um dos coordenadores perguntou para mim o que eu achava mais difícil e eu respondi muito rápido que era discutir com o sujeito que eu cuido, o Zé. Ele me disse que “assistente pessoal não tem que ser amigo, tem que ser profissional. Nós estamos muito perto do usuário, é uma proximidade que não é habitual (no caso da cultura sueca) e por isso é fácil confundir essa proximidade com uma amizade”.

Tenho que admitir que fiquei um pouco chocada, não pelo que ele tinha dito mas porque eu não queria dar a impressão de que é penoso argumentar com o usuário, ainda que para mim seja, devido a essa questão da “proximidade” no trabalho. O que eu pensava quando tivemos essa conversa era que meu sueco era tão pobre que era difícil argumentar com o cidadão quando eu precisava dizer não diante de uma coisa que ele queria fazer e que seria perigosa para ele; mas a verdade é que existe o outro lado também.

Você está ao lado do usuário – que é também o seu patrão – em situações tão bizarras e íntimas que às vezes nem pessoas que tem uma relação muito próxima – como por exemplo um casamento ou mesmo irmãos – viveram juntos. É simplesmente um desafio gigantesco estar tão perto de alguém – duas, três vezes na semana – e simplesmente ser profissional. Ao menos para mim; eu ainda não aprendi a fazer isso.

Eu penso que essa coisa entre o assistente pessoal e o usuário seja mais ou menos como uma relação entre mãe e filhos, ao menos para as pessoas de coração mole como o meu. Subimos seis lances de escadas carregando o Zé, eu e mais um assistente, para ele descer os tobogãs de um clube. Cada vez que estivemos a caminho eu ficava rezando para Deus mandar um anjo colocar cola na minhas mãos e não deixar o Zé – molhado – escorregar. Depois dos primeiros lances de escada a minha oração já era para a escada se tornasse rolante, e de preferência, com super velocidade para cima, pois os meu braços começavam a tremer… mas assim que sentávamos o cidadão no topo do tobogã e ele começava a gritar de entusiasmo, tudo sumia: a preocupação de ele escorregar das mãos, a sensação de que meus braços iam cair do corpo, a quase irritação por não ter um elevador para o tal tobogã (imagine se tivesse como seria difícil para o pessoal do clube domar a criançada), os seis lances de escada…

Sei lá quantas dez vezes subimos aquelas escadas, às vezes rumo a outro tobogã dois lances de escada acima, com as crianças impacientes querendo passar na frente do tiozinho que tava sendo carregado. Suei, tremi, quase pedi pinico, meus braços tão super cansados hoje mas o que eu sinto é uma imensa satisfação devido aqueles míseros gritos de felicidade que rolavam em alguns segundos.

Não penso que eu e o Zé sejamos amigos, mas o tipo de relação entre assistente pessoal e usuário está – ao menos para mim – bem longe de ser puramente profissional. A pessoa para qual trabalhamos não é apenas um chefe, é especial por motivos além do óbvio da deficiência que carrega. E a proximidade a que o assistente está submetido, o usuário e a família dele também estão. Acabamos por ser mexidos e por mexer, só e simplesmente porque há dias que são assim… daquele jeito que a vida de qualquer um é.

***

Quero deixar como indicação um filme muito interessante que mostra um pouco o que é ser assistente pessoal e que assisti na semana passada. A produção é francesa e é mais ou menos assim o meu trabalho, com exceção que na França só tem assistência pessoal quem pode pagar por ela e que aqui na Suécia ela é para todo cidadão sueco que precise.

Trailer do filme em português aqui.

Formatura Sueca

Uma das primeiras coisas que você percebe em toda casa sueca é uma foto (como essa aqui ao lado) do próprio dono da casa ou dos filhos no dia da formatura de ensino médio, ou Studenten Dag em sueco.

O ensino médio sueco é chamado de Gymnasiet e também tem três anos de duração. A diferença é que os suecos tem no mínimo 18 anos quando tem o seu Studenten Dag: um dia marcado por muita festa – a começar por um café da manhã com champagne.

Completar 18 anos é um marco muito grande na vida de todo sueco: com 18 anos espera-se que você termine a escola (tenha seu Studenten Dag) e se mude da casa dos seus pais para dar início a vida adulta. Nem todo mundo muda de casa imediatamente após os 18 e os pais não costumam “expulsar” os filhos depois disso, mas então toda e qualquer regalia paga pelo pais é cortada, para que o jovem trabalhe e pague o que precisa por si mesmo. A partir dos 18 anos os suecos não são mais barrados em alguns bares (alguns não permitem a entrada de menores de 20 anos, e não permitir a entrada significa que há um guarda pedindo documento de identidade para qualquer pessoa que aparente ser de “menor”) além de obterem permissão de comprar cigarros e bebidas no Systembolaget.

Fonte: Amanda Astrid (blog)

Uma das características marcantes da formatura sueca é esse quepe que me lembra um uniforme da marinha. Na verdade, os meninos parecem mesmo oficiais, porque todo mundo usa terno no dia da formatura. As meninas também usam o quepe e um vestido branco – a maioria delas. Como estamos vivendo a época das formaturas, é muito comum encontrar garotas e garotos no trem com seu traje de formando. Quem contou uma experiência bem interessante com relação a um Studenten Dag foi a Nara do blog Moda Escandinava. Quem quiser conferir mais detalhes e fotos pode clicar aqui.

Fonte: Samntha Ericsson (blog)

A formatura propriamente dita acontece pela manhã (quase meio dia) e depois dela os formandos são recepcionados pelos pais, que esperam pelo filhotes com uma foto do formando quando bebê. Além disso o pessoal entrega ao formando flores e um monte de badulaques que serão pendurados no pescoço. Depois os formandos costumam desfilar num carro aberto, caminhão ou qualquer coisa pela cidade, cantando, gritando, apitando e fazendo todo o barulho possível.

Algumas famílias de formandos organizam e oferecem uma recepção para alguns convidados. Esse ano eu participei de uma delas e o que as pessoas fazem é sentar, conversar e comer. O formando pode receber os amigos na recepção ou pode fazer parte do grupo de amigos que fica pulando de recepção em recepção. Normalmente o pessoal encerra a noite com muita bebida e festa longe da família em alguma boate da cidade.

Parece meio absurdo o tamanho da importância dessa festa, mas por aqui tem muita gente que não cursa a universidade depois do ensino médio. Segundo o Instituto de Pesquisas Sueco, um em cada três estudantes não completam o ensino médio em 3 anos e por esse motivo quase 50% dos alunos (em algumas kommunas) desistem do curso. O que não significa que esses jovens nunca terminarão o ensino médio, mas tem muita gente que por não poder participar da festa decide por fazer um tipo de supletivo – o Komvux.

Como eu já comentei por aqui o ensino médio sueco pode ser profissionalizante. Em Göteborg é muito comum que os jovens façam um ensino médio técnico em mecânica de automóveis – afinal de contas, a Volvo Caminhões e a Volvo Carros tem indústria por aqui; e mesmo quem não opta por esse tipo de curso durante o ensino médio pode frequentar diversos cursos profissionalizante pós ensino médio, os chamados yrkesutbildning.

Mas e daí como é que tem tanta gente “rica” morando na Suécia? Como é que o pessoal aqui nem estuda e tem tanto dinheiro? Porque a distribuição de renda no país é mais uniforme. Só por curiosidade: quem trabalha na Volvo (carros) na linha de montagem (precisa apenas ensino médio completo) tempo integral tem o mesmo salário de uma enfermeira ou assistente social (universitário completo).

Aí faz muito sentido uma formatura com pompa e circunstância!

De Assistente SOCIAL para Assistente PESSOAL

O assunto de hoje é trabalho!! Mas primeiro: estou experimentando o novo tema do blog e gostaria que o pessoal deixasse nos coments um “o que estou achando desse novo visual”. Ainda gosto mais do tema antigo mas ao mesmo tempo acho que esse aqui é mais simples tanto no que diz respeito a navegação quanto no que diz respeito a facilidade de acesso e de visualização dos posts. Digam se ficou mais fácil comentar também!

Så där… (então é assim) em julho do ano passado eu consegui o meu primeiro emprego aqui na Suécia – que foi como Marinete (faxineira) – e quase que na mesma semana (acho que apenas um 3 ou 4 dias depois) consegui fazer um teste como assistente pessoal, no que eu tenho trabalhado até hoje. Às vezes quando alguém me pergunta o que eu to fazendo aqui eu digo “Sou assistente pessoal” e o fulano já responde “Que bom, tá trabalhando na sua área então…“; e simplesmente não: assistente SOCIAL (socialsekreterare em sueco) é uma coisa, e assistente PESSOAL (personlig assistent em sueco) é outra. .

Talvez essa confusão tenha a ver com o fato de que a Suécia não fica na Suíça mas mesmo assim ainda me perguntam se o chocolate aqui é bom e se eu já falo alemão… Primeiro que para ser assistente social (tanto no Brasil quanto na Suécia) é preciso obter um diploma de bacharel em Serviço Social – no Brasil – ou de Socionom – na Suécia. Para ser assistente pessoal não é necessário um curso universitário mas sim paciência e vontade de trabalhar com pessoas doentes, idosas e com deficiência (física e/ou mental) – ou seja, assistente PESSOAL está mais para a área de saúde.

Cursei a universidade durante 4 anos e obtive meu diploma de Serviço Social, tendo trabalhado durante 5 anos como assistente social de prefeitura. Assistente social definitivamente não cuida de pessoas, assistente social é para auxiliar indivíduos em situação de vulnerabilidade e risco social a ter conhecimento e acesso aos seus direitos tendo como objetivo maior a superação da situação de vulnerabilidade/risco. Mais ou menos grego, não? Certo, vamos focar somente no fato de que assistente social não cuida de pessoas e que não trabalha individualmente.

Assistente pessoal é só simplesmente alguém para cuidar de uma pessoa. O assistente pessoal vai estar ao lado de um indivíduo e ajudar ele/ela a realizar as tarefas do dia-a-dia: fazer comida, comer/beber, organizar a casa, ir ao supermercado, tomar um ônibus, ir ao banheiro, tomar banho, se vestir, tomar remédios na hora e quantidade certa.  O trabalho que um assistente pessoal vai desenvolver depende somente do grau de dependência da pessoa com quem ele trabalha (que recebe o nome de brukare): algumas pessoas recebem assistência de apenas algumas horas por dia, enquanto outros dependem de assistentes 24 horas.

Não penso que seja difícil ser um assistente pessoal na Suécia. Para conseguir um trabalho como este basta falar sueco e ser simpático (consegui meu trampo mais por ser simpático do que por dominar a língua =). Além disso, existe uma rede de organizações que trabalham em benefício do brukare, assim quando este precisa de órteses e próteses; ir ao dentista, médico ou psicólogo; trocar a cadeira de rodas ou consertar o óculos basta ligar para a pessoa responsável e tudo será arranjado. Uma dessas organizações é o Hjälpmedelcentralen (centro de aparalhos de ajuda – mais ou menos), que trabalha com as cadeiras de rodas (rullstol), lampadas de laser (peklampa) que são utilizados pelos deficientes que não podem falar e usam a linguagem “Bliss” e com o “lyften” (um aparelho que parece um guincho utilizado para auxiliar os assistentes a mover o brukare da cama para a cadeira de rodas, por exemplo, de forma que não é necessário ser forte e carregar um indivíduo que não pode se sustentar nas próprias pernas), entre outras coisas.

Ainda que o brukare seja muito doente e extremamente dependente sua assistência será garantida pelo governo. O atendimento a saúde não é gratuito na Suécia, mas as consultas tem um preço acessível a todos e se você tem algum tipo de doença ou o quê que te leva a gastar mais de mil coroas por ano com o atendimento de saúde você recebe o dinheiro de volta por meio do imposto de renda; ou por meio de um cartão chamado “frikort” deixa de pagar pelas consultas a partir do momento em que o cartão mostra que a marca de mil coroas foi alcançada. Existem taxis especiais para usuários de cadeiras  de rodas (färdtjänst), e esse tipo de taxi tem um preço fixo e  bem menor do que os demais. Ainda, os assistentes pessoais não são pagos pelo usuário, e sim pelo INSS sueco (Försäkringskassan).

Eu já enviei os meus documentos da graduação na universidade traduzidos para a Högskoleverket e só estou esperando a resposta deles para tentar conseguir o meu diploma como assistente social por aqui. Para isso, preciso também terminar o SAS 2, o que vai acontecer talvez em dezembro desse ano. Então, não há pressa em obter a resposta da Högskoleverket, pelo menos ainda não.

Fica talvez para o ano que vem voltar a ser assistente SOCIAL e deixar de ser assistente PESSOAL…