Diário Caipira-70

Eu gosto de escrever no WordPress. Me dá um pouquinho de nostalgia lá do início do blog, quando eu ainda estava no Brasil estudando sueco. Pá, parece que foi uma vida atrás…

Não sei como é que a galera que muda pra cá com a família se arranja. Porque não se trata apenas da adaptação de uma pessoa mas de três ou quatro. São uma série de contextos novos. E agora com as empresas mandando uma série de funcionários embora há o perigo de terem que erguer acampamento e… sei lá! Como é que se volta para o Brasil se as fronteiras estão fechadas?

Muita coisa mudou no meu trabalho e eu não vejo a hora de as coisas voltarem a algum tipo de normalidade. Porque esse normal de agora não me apetece.

Seria pedir demais?

Diário Caipira – 15

1. Minhas flores sobreviveram ao vento, à neve e à geada. Estamos cultivando novas mudas em caixas de leite à beira da janela. Também plantamos batatas.

2. Certas vezes me sinto extremamente eficiente e inteligente no meu trabalho. Hoje foi um dia desses.

3. Você já brincou de pega-pega com alguém via telefone? Funciona assim: a pessoa te manda um SMS e/ou te liga e deixa mensagem de voz dizendo que precisa falar com você. Você liga e a pessoa não responde, e você envia SMS e/ou deixa mensagem de voz dizendo “oi fulano, vi/ouvi sua mensagem e por isso te liguei, blá blá blá…” e aí tudo começa de novo, com a pessoa te ligando quando você não pode atender e você ligando de volta só pra cair na caixa… infinitamente. É muito divertido – só que não.

4. Há apenas cinquenta leitos de UTI vagos na região de Estocolmo. Além disso hoje o Socialatyrelsen fez uma advertência às pessoas com MS, transtornos psiquiátricos ou problemas de obesidade entre outras doenças confirmando que elas estão entre às condições pré existentes que podem fazer com que o indivíduo desenvolva o SARS-covid.

5. Acho chato que a pessoa ligue dizendo que precisa entrar em contato e depois apenas não responda quando a gente liga de volta.

6. 1400 pessoas morreram de corona desde que o vírus chegou a Suécia em 31 de janeiro. Já são mais de mil leitos de UTI ocupados por doentes.

7. E poderia também adiantar o assunto tipo: oi Maria queria falar sobre tals… Mas deixa só o “preciso falar contigo… me liga assim que puder”.

8. É realmente relaxante cultivar plantas. Ver as sementinhas explodindo em vida dá esperança e paz.

9. O problema é que sou curiosa. Aí fico imaginando o que será que fulano queria comigo? Vai que era importante? Muito importante? Questão de vida ou morte?

10. Tudo tem seu tempo. Pensem nas plantas. Boa noite.

Um dia na Suécia

Eu recebo comentários em ondas, provavelmente devido ao fato de escrever bem menos. Mas volta e meia aparece gente que manda comentários em posts antigos do blog com perguntas que não tem nada a ver com o conteúdo do referido post (deixando bem na cara que não leu nada do que estava aí) e a maioria dessas pessoas repete a mesma pergunta (seria um eco?): como é a vida na Suécia?

Recebi o mesmo questionamento esses dias na página do face. Eu ia responder o de sempre: pessoa, esse é o link do meu blog, essas abobrinhas aqui descrevem mais ou menos a vida na Suécia. Mas aí tive a ideia genial de desvendar os segredos da vida na Suécia contando como é um dia comum da minha vida – já que eu não ando com tempo de fazer algo mais informativo e concreto.

Algumas singularidades para situar os desavisados e os futuros leitores desse post: estou trabalhando “meio período”; o que significa que passo bastante tempo em casa. Mas vamos lá!

Um dia de trabalho na Suécia…

Acordo as 5h. Tomo um café, normalmente com pausa para amamentar a cria. Pego as minhas bolsas (passo 24h no trampo) e saio para o ponto às 5h55. Pego um bonde para a estação central. Se o café foi para o saco porque eu amamentei a cria compro um café. Pego um trem para Falköping. Caminho para o trabalho cerca de 20 minutos (não é longe, é só a preguiça mesmo). Começo a trabalhar às 9h. Saio as 9h30 do dia seguinte, normalmente ganho uma carona até a estação porque a galera tem dó de me deixar caminhar com as minhas bolsas  (uma delas cheia de leite). Pego o trem para Göteborg. Chego na estação e tomo o primeiro bonde que passar para casa. Chego a tempo do almoço.
Eventualmente passo pegar o Ben na casa dos padrinhos ou de algum amigo – caso o Joel tenha uma reunião de trabalho importante. Depois do almoço a rotina segue como num dia em que eu não fui trabalhar.

Um dia em casa na Suécia

Acordo assim que o Benjamin acordar (entre 6h e 7h30, depende da “sorte”). Tomamos café e aí vamos fazer as tarefas de casa ou um passeio. Pode ser uma caminhada, gosto muito de sair caminhar com o Ben… deixo ele escolher o caminho e parar o quanto quiser para juntar todo tipo se coisa e tentar por na boca, ou ir para um balanço, essas coisas. Nesse caso voltamos e comemos uma fruta. Depois brincamos ou fazemos limpeza e aí almoço. Almoço pede uma siesta e com sorte depois da comida tem a soneca do Benjamin, quando ele acordar o Joel vai estar chegando. A gente empacota um lanche e sai para trabalhar com a reforma da casa. Volta quando anoitece, faz uma janta, bota a cria para dormir e assiste as notícias/uma série/ou um filme dependendo da hora, do cansaço ou do tesão. Normalmente vou dormir às 22h30.

A rotina em um final de semana ou dia de semana para mim não varia muito. Como eu trabalho em forma de plantão então procuro aproveitar “as folgas” já que trabalho finais de semana também. A principal diferença é que se estou em casa em um sábado normalmente passamos o dia na reforma da casa. Domingos é dia de ver a família então normalmente rola um passeio para os sogros, ou alguma das cunhadas.

Como estamos vivendo um tempo especial com a reforma da casa temos encontrado os amigos apenas de vez em quando, numa rapidinha no anoitecer ou quando eu saio sozinha com o Ben e passo o dia fora. Normalmente fazemos isso quando o Joel tem reuniões depois do trabalho. Eventuais escapadinhas para um jantar ou cinema estão descartadas no momento por conta do cansaço mesmo.

Eu não sei como funciona no Brasil depois que você tem filhos, mas aqui ter uma criança te dá automaticamente um upgrade para o time dos pais. Dificilmente você vai se encontrar com os amigos que não tem crianças. Primeiro porque essa galera ainda sai para beber e fazer festa em uma sexta feira – o que sinceramente não está na minha lista de prioridades – ou se promove um jantar deixa claro que o evento é para adultos. Isso me dá muita preguiça. Fiquei antisocial com a maternidade e o Joel, se deixasse, passaria o dia e a noite na reforma.

É isso aí. Essa é a minha vida na Suécia.

Tá sentindo falta do glamour? Pois eu não.

Amamentação no trabalho

Tô de férias e vou tentar escrever algumas coisas que comecei há muito tempo, nunca terminei e nunca publiquei. Há uma grande chance de este ser o único post em meses de novo, há tempos o blog deixou de ser uma prioridade. Pra falar a verdade, prioridade na minha vida tem sido Benjamin, depois ele de novo e em terceiro vem o Ben. Nada que a galera por aqui não tenha notado.

Sou uma mãe galinha muito apegada. Essa semana chorei muito por causa da foto do menino sírio afogado na praia… a forma como ele estava deitado, aquela inocência gritante tão explícita no rosto das crianças quando dormem. Por um lado ele é tão parecido com o Benjamin! Ele dorme com a “bunda virada para a lua” naquela mesma posição, com a enorme diferença que ele está envolto por um mar de cobertas em uma cama macia. E o Benjamin vai acordar…

Pensei muito em tanto perrengue que a gente passa como mãe e resolvi contar um pouco da minha experiência em voltar para o trabalho e continuar amamentando. Primeiro, eu queria voltar para o meu trabalho e isso é um privilégio: ter um trabalho que a gente gosta e paga bem, no qual os horários de trabalho são compatíveis com a criação de filhos não é uma realidade e sim uma exceção. E dois: tenho o privilégio de contar com o fato de que o Benjamin tem um pai que se comporta como tal e não foge das responsabilidades. Eu já disse aqui que acho que nós mulheres temos que aprender a deixar os pais serem pais, mas não quero dizer com isso que toda mulher tem que trabalhar e largar a cria com o marido. Tem ótimos exemplos aqui de mães que não trabalham mas dividem a responsabilidade da criação dos filhos com o marido, se você quiser umas dicas passe no blog da Débora por exemplo (mulher de fases), ela fala bastante sobre os meninos dela e dá pra ver nas entrelinhas como o senhor marido sempre está participando.

Ao ponto… voltei ao trabalho quando Ben tinha oito meses. Minha pretensão de mãe hippie é amamentar forever até que o Benjamin desmame sozinho mas eu tive muito medo de que ele fosse largar o peito quando eu comecei a trabalhar. Então se você está na mesma situação eu digo: calma! Canalize a preocupação para traçar um plano de como é que você vai resolver a ordenha do leite no trabalho.  No meu caso levei para o trabalho uma bomba de tirar leite, comprei uma pequena bolsa térmica e potes de vidro de 150ml. Eu li em algum lugar que deveriam ser de vidro para facilitar a limpeza e esterilização, mas as tampas não devem ser de metal. Enfim, não é necessário comprar potes especiais, eu fiz isso porque tenho condições, mas a maioria dos potes de conserva funcionam muito bem para o mesmo fim. No caso da bolsa térmica é meio importante porque eu passo quase três horas no trânsito até em casa (há, pensa que é só noBrasil que a galera leva três horas até o trampo? Prazer, meu nome é Maria e eu moro na Suécia) então não dá pra só tacar o leite numa bolsa e de boas. Eu recomendo realmente investir numa malinha dessas.

Benjamin é tipo um bezerro e ta mamando toda a hora que me vê. Eu fiquei muito encucada antes de me separar dele. Foi um sofrimento! Eu não tinha idéia de como seria minha produção de leite longe dele. Eu trabalho em regime de plantão, tenho dois plantões de 24h por semana. Então contando as 3h para ir e mais 3h para voltar seriam 30h separados. Eu não sabia quanto vezes precisaria ordenhar também. Armazenamento não seria problema porque temos uma cozinha para o pessoal no trabalho, e a ideia foi sempre ordenhar e congelar o leite.

Eu nunca cheguei a pedir permissão para minha chefe. Talvez porque ela seja mulher, talvez porque eu sempre entendi isso como um direito meu e ponto. Da mesma forma eu comuniquei minha colega de trabalho na época e perguntei a ela se ela tinha alguma observação, ao que ela respondeu com um “é claro que não! Meu Deus é óbvio que você pode e deve ordenhar leite para seu bebê. Não tem nenhum problema. A gente dá um jeito!”

E foi aí que o problema começou.

Minha colega, apesar de mulher, apesar de dizer que não era problema algum e de afirmar que a gente daria um jeito começou a me atazanar de todas as formas possíveis. Eu percebi que eu precisava ordenhar com um intervalo de 6h para não ficar com os seios explodindo de leite, e que também precisava de cerca de 30 minutos para não machucar os seios (se você usa a bomba a todo vapor os bico dos seios podem ficar bem doloridos, machucados até) mas a criatura sensível lá fazia de tudo para me atrapalhar. Precisava de mim no exato minuto que eu colocava as minhas mãos na bomba de leite, e se eu conseguia fugir e começar a ordenha ela ficava gritando, batendo na porta e perguntando quando eu estaria pronta. Cheguei a ficar horas com os seios tão cheios que empedravam, e tinha tanto stress durante a ordenha que o leite não saia todo. Aí quando voltava para casa sofria um  dia inteiro até que o Benjamin sugasse todos os “caroços de leite”. Havia dias em que eu ficava com marcas azuis nos seios.

Depois de um mês e meio sofrendo na mão da maluca fizemos um rodízio de pessoal e comecei a trabalhar com uma pessoa sensata. Depois disso nunca mais tive problemas com a ordenha por causa da insensibilidade de um colega de trabalho. Há dias mais corridos em que eu não consigo fazer a ordenha direito, mas é por causa do fluxo de trabalho mesmo e, para minha sorte, agora já não é preciso ordenhar com essa frequência de 6h de intervalo, oito ou nove horas funcionam bem.

Acho que o corpo muda, a amamentação muda conforme a criança cresce e a gente se acostumou a essa rotina, tanto eu como Benjamin. Sempre que chego em casa após um dia de trabalho Benjamin gosta de tirar o atraso e mamar muito então eu também já aprendi que não posso fazer planos para assim que chegar em casa. Sempre tenho que reservar ao menos uma hora para nós, comer bem e beber muito líquido.

Gostaria de deixar algumas dicas práticas mas o que me vem a mente é que cada situação é especial. De modo geral, tente se preparar psicologicamente de forma positiva. Sempre dá um frio na barriga mas tanto a mãe como a criança tem capacidade de se adaptar à diversas situações diferentes. Segundo, tente traçar um plano, analisando o que você precisa para realizar a ordenha, se há possibilidade de armanezar o leite no local de trabalho etc. Terceiro, tente ser um pouco cara de pau com seu chefe. Infelizmente, sei que a maioria das mulheres tem condições muito precárias de trabalho, mas não peça permissão para fazer a ordenha, apresente uma proposta de como fazer da ordenha parte do seu dia mostrando que isso é importante para seu desempenho no trabalho. Não dá para trabalhar bem com peitos explodindo de leite. Tente mostrar ao seu chefe as implicações positivas disso. E na medida do possível ignore colegas insensíveis.

É difícil. Tenho consciência de que mesmo eu contando com muitas facilidades passei por momentos de desânimo e me questionei se conseguiria continuar e se valia a pena. Até agora valeu. Mas eu acredito que a amamentação é mais do que alimentar uma criança, amamentação é parte da relação mãe e filho e para funcionar os dois tem que estar bem. Se a mãe está sofrendo muito com a amamentação precisa de ajuda, de apoio, talvez de um novo plano ou porque não, talvez seja o momento de parar. Na minha balança o lado da satisfação sempre pesou mais do que o lado do sofrimento.

Desejo boa sorte a todas mães que trabalham e amamentam.

Preconceito? Imagina…

O país mais acolhedor do mundo é o Brasil.

Só que não.

Na verdade, o Brasil é um país excelente no que se refere a acolher turistas. Tá certo que existem casos e mais casos de turistas que foram roubados e juram nunca mais voltar para o Brasil. Mas isso passa. Morre em questão de dias. Afinal, o Brasil é o país mais simpático do mundo.

Só que não.

Se você não é um turista europeu ou estadunidense, ou melhor, se você não for um turista branco cheio de grana, você será tratado como um turista qualquer. Afinal, pra quem serve um turista se ele não for o cara cheio de grana que vai deixar muito dinheiro no Brasil?

Eu to generalizando, eu sei.

Mas é foda. Sim é foda, não é triste, é foda. É foda abrir o navegador e ver mais gente compartilhando o quanto é que os médicos brasileiros estão sendo mesquinhos e infantis na forma de tratar os médicos cubanos.

Provavelmente, eu não devia meter a colher porque eu nunca trabalhei na área de saúde. E tá certo. Eu nunca trabalhei na área de saúde, mas eu já usei o sistema de saúde brasileiro, tanto o particular como o privado e sabem, não há lá tantas diferenças.

Não me lembro de uma só vez que eu tenha pago uma consulta no Brasil e que eu não tenha esperado para ser atendida. Sempre uma desculpa: é que o “doutor” teve uma chamada de emergência, então, nos desculpe, você não pode ser atendida no horário em que marcou. Ou seja, todo mundo pode esperar pelo médico, todo mundo DEVE esperar pelo médico, no sistema público de saúde ou não, porque ele é o senhor doutor.

Esse é um argumento emocional que não vale de quase nada. É só um choramingo igual a de praticamente duzentos milhões de pessoas que vivem no Brasil. Então passa.

O que eu quero dizer mesmo é que eu sei o quanto é chato você ter que provar para todo mundo que você é qualificado. Sim, porque a situação pela qual os médicos cubanos estão passando no Brasil não é diferente da situação da maioria dos expatriados que estão trabalhando ou tentando trabalhar fora do Brasil, não é diferente da minha situação atual. Mas o quê? Tá chorando de barriga cheia, menina, afinal, tu tá na boa, nos estrangeiro… acabou de voltar da Grécia.

Eu não entendo essa mania, essa merda que incutiram na cabeça do povo, que viver na Europa é bom pra caralhoooo (sim, esse é um post com muitos palavrões, eu sinto falta também de falar palavrão em português), então você tem que ficar apenas feliz e contente de viver na Europa. Se estiverem fudendo com você, se estiverem te tratando com preconceito porque você não tem um diploma europeu, que se dane minha filha, “tu tá nas Europa”.

Isso cansa.

Mas dizer que eu sofro algum tipo de discriminação aqui que eu já não sentisse no Brasil – ou que eu mesmo reproduzisse – é mentira. A exceção do campo de negócios e de tecnologia (que eu acredito sejam mais abertos porque eles querem simplesmente pessoas inteligentes e audaciosas, corajosas); os demais campos de trabalho são extremamente fechados. A gente fica olhando uns e outros com desconfiança, brigando para sermos reconhecidos e para construirmos um status semelhantes aos dos médicos. Exatamente isso, no fundo no fundo, todo mundo gostaria que a sua profissão tivesse o mesmo status quo que a dos senhores de branco.

E por que não? Por que algumas profissões são tão absolutamente invejadas e veneradas enquanto outras, sei lá, ficam como em segundo plano?

Porque somos humanos, e gostamos de nos gavar. A gente sempre quer ter alguém olhando lá de baixo. Se não for a empregada doméstica, tem que ser o mecânico, ou o professor (sim, infelizmente, professor já foi uma categoria profissional com status quo, mas isso foi no tempo das fadas), o gari.

Eu, como assistente social, fico puta da cara se me compararem a um conselheiro tutelar, e fico puta da cara porque minhas palavras e meus relatórios tem menos peso do que os mandatos de um senhor promotor. É um ciclo parecido com o da cadeia alimentar, onde os menores, no mínimo, tem que mostrar respeito aos maiores se quiserem continuar respirando.

Sim, deixemos as nossas máscaras caírem: somos preconceituosos. Brasileiro tem horror a gente negra, porque o símbolo do Brasil é um corpo moreno, não negro; brasileiro tem horror a gente pobre, porque estamos cansados de ser um país de terceiro mundo, então eu quero fugir daqui, sair dessa zona. Brasileiro tem muito mais orgulho do seu sangue branco do que muito alemão nazista. Eu quero viver no glamour europeu porque lá todo mundo tem uma vida boa, porque lá a diferença de classes é menor e não importa se você é formado nisso ou naquilo, a diferença salarial é pequena. Imagina que até mesmo uma faxineira tem uma vida boa lá! Eu ficaria contente de limpar banheiros por um salário assim mas, meu Deus do céu! Eu não vou pagar um absurdo desses para uma “tatinha” cuidar das minhas crianças, ou para uma Dona Maria esfregar o chão em que eu piso. É um absurdo que o governo queira dar privilégios a classe serviçal.

É um absurdo que o sistema de saúde seja poluído de médicos negros que a gente nem sabe se tem qualificação.

Mas essa é outra história não é mesmo?

Não, isso é hipocrisia. E nem é velada, é escancarada: a gente não quer morar no Brasil porque é fora do Brasil que está a vida boa. Só que a sociedade brasileira é um reflexo dos nossos desejos: a gente quer ter acesso a tecnologia como nos países de primeiro mundo, a gente quer ter salários de primeiro mundo, mas a gente quer perpetuar o modelo colonial, em que os senhores de branco, os engravatados, o pessoal que trabalha em escritórios continua tendo a possibilidade de ter seus escravos. E onde todo mundo que não está tão mal na fita assim, e que tem uma profissão intermediária, sonha chegar lá no status quo dos grandões, só para ter seus próprios escravos.

Enquanto isso não acontece, a gente, dessas profissões intermediárias (ou ao menos alguns de nós) não estão nem aí se precisarmos nos comportar como os cachorrinhos dos grandões, seja no Brasil ou aqui na Europa. Afinal, se a gente ficar nas proximidades da mesa, quem sabe nos sobrem algumas migalhas.

É foda ter que ficar provando que você é qualificado. Mas a gente só pensa nisso quando tá queimando na própria pele. E é por isso que me irrita ver o comportamento dos médicos brasileiros.

Eu não sou cachorra não. Nem gostaria de ser, ainda que eu fosse um cachorro de madame. Não quero ser tratada como alguém que veio de um país em desenvolvimento, quero ser tratada como uma pessoa. Acho estupidez, mesquinharia, rabugice e burrice tratar os médicos cubanos como cachorros que vieram pra pegar os restos da mesa dos senhores médicos brasileiros, só porque eles são negros e cubanos.

Sabe o que é mais chato de tudo isso? A Suécia é um país fechado. Suecos tem fama de ser um povo, no máximo, gentil. Gentil, mas frio, fechado, organizado. E são tão organizados que não importa de que lugar do mundo que você veio, se a sua formação não tá dentro dos parâmetros suecos, você pode vir do Reino Unido, não tem choro e nem vela, o jeito é voltar para os bancos universitários e estudar até que esteja no nível que é exigido. Ao menos eu sei que o tratamento que me é dispensado até esse momento não é diferente do tratamento que é dispensado a qualquer outro estrangeiro, vindo ele do primeiro velho mundo ou não. Mas no Brasil…

Bom, pelo menos Brasil é o país mais simpático do mundo. Está de braços abertos como o Cristo Redentor, não é mesmo?

Só que não.

Leia antes de perguntar #03

Pra tentar retomar a rotina, vou responder a pergunta da Paola a respeito do mercado de trabalho na Suécia (e outras coisiquinhas que vou responder no e-mail) porque assim como ela, outras pessoas me escrevem perguntando como é que anda o mercado de trabalho na Suécia em geral ou em específico (dentro de uma categoria profissional).

Há algum tempo atrás eu publiquei o post “eles sonhavam com um trabalho na Suécia…” e acredito que é importante que todo mundo que está de olho em um visto de trabalho na terra dos vikings leia o post e esteja ciente de que a coisa aqui não anda tão colorida. A crise européia continua e a movimentação de pessoas dentro das fronteiras do velho mundo também. Além disso, assim como muitos brasileiros, muitos europeus veem a Suécia e os outros países escandinavos como sociedades mais organizadas e iguais e querem mudar para cá ainda que o país deles não esteja em “crise”; e eles tem, como eu já repeti muitas vezes, algumas vantagens em relação ao pessoal que não tem cidadania européia.

Falando nisso, peço licença para abrir um parênteses: algumas pessoas escrevem perguntando se o fato de eles terem cidadania italiana, alemã ou qualquer outra cidadania européia ajuda na hora de conseguir um emprego. Sinceramente, eu não sei, e chuto que isso depende do que você está procurando e qual a visão do empregador/empresa a respeito disso. Talvez você tenha cidadania européia e esse seja o empurrãozinho que faltava para eles se decidirem por você ao invés de um nativo. Ou não. Talvez o fato de você ter cidadania européia não significa nada por que você não se encaixa no perfil que eles querem e pronto.

O Arbetsfömedllingen – sim, o famoso A, aquele com quem eu vivo me frustrando – tem uma ferramenta no site chamada yrkeskompassen (bússola profissional, numa tradução livre) pela qual você pode realizar uma pesquisa para descobrir o quanto é que a sua área está saturada ou não de profissionais, baseada num gráfico que mostra o quanto difícil é encontrar emprego dentro de uma determinada região. Bom, desde janeiro eu to procurando emprego como assistente social e nem fui convocada para uma entrevista. Contando que nos meses de junho e julho eu não procurei nenhuma vaga, digamos que após 4 meses de busca ativa de emprego eu só recebi nãos. Agora eu vou mostrar para vocês o que é que diz o yrkeskompassen a respeito da profissão assistente social:

No gráfico, as áreas mais claras representam a menor concorrência, e as áreas escuras, maior. Göteborg se localiza dentro da área laranja no segundo gráfico.

No gráfico, as áreas mais claras representam a menor concorrência, e as áreas escuras, maior. Göteborg se localiza dentro da área laranja no segundo gráfico.

Meu termo de pesquisa foi “socionom” (pessoa que tem graduação em Serviço Social na Suécia tem esse título) e eu escolhi a categoria socialsekreterare (assistente social) uma vez que a pesquisa também mostra resultados para o cargo de kurator (profissional do serviço social que trabalha nas escolas, hospitais e outras instituições).

Segundo a bússola do A, o nível de concorrência dentro da minha profissão na minha região é médio (e eu estou procurando trabalho há meses). Claro que essa não é uma ferramenta com 100% de garantia, mas serve para se ter uma ideia. Além disso, a ferramenta nos dá algumas informações complementares como: o número de assistentes sociais/curadoras desempregadas nas regiões de Västra Götaland (Göteborg) e Halland (Halmstad) é baixo; a concorrência dentro da profissão tem crescido; o número de vagas de trabalho em aberto não tem sofrido uma mudança significativa nos últimos anos.

Além disso, na mesma página da ferramenta de busca é possível dar uma espiada no yrkesprognos (prognose profissional) que serve para dar uma ideia de como o mercado pode estar daqui a um ano ou mais, segundo as expectativas atuais. Para o meu caso (assistente social) a coisa não muda muito, e eles explicam que o fato se dá devido à profissão estar intimamente ligada aos aparatos do Estado.

Infelizmente, o yrkeskompassen não mostra qual são os grupos onde o desemprego (segundo a profissão) é maior, mas o SCB sim. Segundo o SCB (statistiska centralbyrån), estrangeiros podem levar até 7 anos para conseguir um emprego dentro da área em que eles são formados/graduados. Há sempre exceções, como por exemplo, a Fernanda que mora em Helsinborg e que após 2 anos e tra-lá-lá na Suécia conseguiu um emprego dentro da área dela (leia mais aqui). Acho importante frisar também que eu moro na Suécia, tenho visto e falo (porcamente) a língua. Quem está de fora tem de providenciar o visto e aprender a língua, então eu repito: acho mais fácil tentar vagas dentro de empresas, onde você precisa inglês, como vagas de liderança/gerência ou, ainda, dentro das áreas de tecnologia e informação.

E o que tudo isso tem a ver com a pergunta da Paola? Ora bolas, eu não tenho todas as informações pertinentes a Suécia só porque moro aqui mas eu sei onde encontrar e estou contando para vocês. Obviamente, o site se apresenta todo em sueco mas, com a ajuda do Google translator dá para ter uma boa ideia daquilo que você quer.

Só vou dar um exemplo: joguei no GT a palavra enfermeira.

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Depois vou no yrkeskompassen (acessando o link que deixei acima ou a página do A – http://www.arbestsförmdlingen.se – no rodapé da página [bem abaixo] existe a opção arbetssökande e nessa lista você clica em Jobbet och framtiden) e digito a palavra que consegui.

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Ele me deu vários resultados, afinal, enfermeira podem ter diversas especializações. Nesse caso, é só procurar algo que tenha “grund” no meio, pois grund significa base ou indica o geral. E… voilá!

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Pronto. Clicando sobre o mapa ele mostra os resultados para cada região. Agora é só usar o GT de novo. O mercado de trabalho para enfermeiras na Suécia parece muito bom; mas eu sempre ouço elas reclamarem no rádio dos baixos salários e da falta de reconhecimento da profissão. O mundo não é perfeito.

Divirtam-se!

Viva o dia dos trabalhadores!

Um viva a todos os trabalhadores! Vivaaaaaa!!!!

Eu bem que queria escrever que eu consegui emprego como assistente social e que por isso estou muito feliz. Mas eu não consegui e continuo feliz igual pois ultimamente eu tenho ganho tanto que não tem como reclamar, nem ficar triste. O negócio é continuar tentando… um hora eu bato na porta certa.

O último post uma guria deixou um comentário no blog pedindo emprego. Não é comum o povo deixar comentários pedindo emprego, às vezes o pessoal deixa coments perguntando o que é preciso fazer para conseguir um trabalho na Suécia, outros perguntam como está o mercado de trabalho sueco. Eu sei muito pouco sobre isso e, na verdade, tudo o que eu sei está baseado na minha experiência como imigrante na Suécia e nas histórias que outras imigrantes me contaram. Mas a coisa está meio difícil por aqui, eu acho. Tenho amigos suecos que perderam seus empregos. Gente que tinha vikariat – trabalho de substituto, como eu – e que agora não tem nada. Gente que perdeu o emprego porque a empresa em que trabalhava fechou – e isso em diversas áreas. Gente que mudou de emprego porque sabia que a empresa em que trabalhava estava prestes a demitir (muita) gente. Gente que teve de mudar de cidade porque a empresa diminuiu o pessoal aqui e ali, fizeram remanejamento para manter o pessoal mais antigo e quem teve a graça de continuar no emprego tem a desgraça de procurar casa/apartamento novo nesse caos que é a fila do aluguel na Suécia.

Em Göteborg é a Volvo que serve como termômetro – quando a Volvo está contratando, a situação está boa; mas se a Volvo está demitindo, o trem está feio. A Volvo demitiu um monte de gente no fim do ano passado e até agora a coisa não mudou; não demitiram mais gente, mas também não estão contratando pessoal. Eu sei que eles até estavam trabalhando em escalas diferenciadas – por exemplo, apenas 4 dias por semana e com os períodos noturnos em recesso, mas atualmente não sei qual é a situação – em abril só pensei na minha casa.

O fim de tudo isso é: gente, eu gostaria muito de ajudar e de poder colocar aqui no blog um link que levaria cada um que está atrás de emprego ao seu emprego dos sonhos. Mas esse link não existe. Desde janeiro eu procuro emprego como assistente social, já mandei currículos mil, recebi alguns feedbacks – muito poucos, mas nem sombra do emprego. Agora estou correndo atrás de um estágio… quem sabe se eu entro como estagiária em algum lugar consigo romper a barreira da “estrangeira com diploma do Brasil” que não sabe nada do Serviço Social europeu. E é verdade, eu não sei nada do Serviço Social europeu, mas venho de um país que está lutando duro contra a fome e a miséria – ainda – e a situação européia atual não está tão distante assim da realidade brasileira. (Eu sempre discuto com o Joel quando ele diz que o Brasil está quase como a Europa porque eu acho que ele não sabe muito do Brasil e não entende que no Brasil existe miséria de verdade. No fim das contas, quem não entende nada SOU EU que não vi ainda – ou melhor vi, mas não caiu a ficha – que é a situação européia que caiu tanto que faz com que o Brasil não esteja realmente longe…). Será que os modelos brasileiros realmente não servem para nada dentro da sociedade européia em crise?*

Em todo o caso é isso que posso aconselhar: tanto quem é português e está querendo mudar para a Suécia como quem é brasileiro e está em busca de um emprego aqui (me refiro aos brasileirxs que já moram aqui e já tem personnummer) é que entrem no site do Arbestförmedlingen (digite o que você procura nesse quadro aí onde se vê “Sök jobb i platsbanken“) porque eles tem um banco enorme de empregos. Brasileiros residentes na Suécia façam cadastro no Arbetsfömedlingen e encham muito o saco de sua pessoa de contato lá dentro, mandem e-mails e liguem dizendo que querem muito um emprego. Eu descobri recentemente que quando somos extremamente chatos e ligamos e ligamos, mandamos e-mails e imploramos eles se mexem. Um pouquinho, mas se mexem. E abram a mente o mais que puderem… comecem com coisas simples porque assim vocês podem conseguir pessoas de referência aqui na Suécia, e na Suécia, Quem Indica é um fator extremamente importante. Não entre nessa de “se eu começar como faxineira eles sempre vão querer me dar emprego na faxina” porque – apesar de ser verdade – quem escolhe o emprego que quer é você e não o Arbetsförmdlingen. Se você quer um emprego como assistente social e começa faxinando pode conseguir um dinheirinho extra só para ser feliz e de quebra consegue uma referência.

A verdade é que só existe uma maneira de conseguir emprego aqui: correndo muito atrás. Está estudando sueco? Fale com um studievägledare no Vuxenutbildning (Komvux) e explique para ele as suas ambições na Suécia, peça dicas de como chegar lá. As melhores dicas sobre emprego eu consegui com a studievägledare da Göteborgs Universitetet, e não via Arbertsförmdelingen. E eu repito: faça alguma coisa para ficar conhecido; uma pratik (estágio) ou trabalho voluntário, arrume outra coisa numa empresa (de preferência de suecos). Assim quando você for bater lá na porta de quem você quer que seja o seu futuro chefe você pode dizer que trabalhou para o Svensson e quando o Eriksson ligar para o Svensson e ele disser que você trabalha bem eles podem pensar mais do que seriamente em te dar uma chance (quem me deu essa dica nem foi o Arbets, tampouco, foi uma brazueca muito sabida!).

Eu sei que ando sumida e que não respondi os últimos coments (shame on me!); não que eu precise dar satisfação é só que eu ando realmente me divertindo com a casa. Espero poder organizar essa bagunça essa semana – me refiro ao blog, e não mais a casa!

Segurem as pontas que eu volto já!

*Não acredito que modelos existam para serem copiados e em sociedade é exatamente como na moda: o modelo 38 comprado numa butique não cabe perfeitamente em todos os “corpos”. É muito melhor quando se tem uma costureira a mão para ajustar o modelo ao corpo. E é nisso que eu acredito, eu sou a “costureira social” que tem experiência com alguns tipos de modelos. Nem sempre alguém que pode costurar bonitas camisas sabe costurar bonitos vestidos, mas nada impede de aprender não é mesmo? Até aprender a fazer os bonitos vestidos eu preciso praticar, mas isso não significa que minha experiência com camisas não me sirva. Afinal, o trench coach é o vestido camisa mais chique do mundo… quem disse que não dá para combinar uma coisa e outra?

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #25

Não consigo mais colocar na cabeça nem uma só palavra do livro do BBiC que estive lendo. Minha mente está louca e meus pensamentos correm feito ninfas as vésperas de um solstício de verão. Nada do que leio fica gravado na cuca… dilemas do mundo moderno? Excesso de informação? Não acredito…

Deixei de trabalhar com o Zé em tempo integral para me dedicar um pouco a caça do trabalho como assistente social e aos preparativos do casamento. Quem acha que isso é meio estranho é porque não casou ainda: passei uns par de dias formulando o convite (que mesmo assim ficou super simples) e mais uns dois, três dias atrás do endereço de todo mundo. Na segunda mandei uma leva dos convites, a segunda leva vai na semana que vem e ainda separamos dos amigos mais chegados que moram em Göteborg para que sejam entregues em mãos.

Recebi o resultado do meu pedido de visto permanente e aquela carteirinha tão fabulosa acaba de chegar na minha porta. Eita coisa besta viu? Mandei a papelada em dezembro e em janeiro recebemos em casa um formulário com 4 perguntas bem idiotas (de assinalar com x) que deveria ser respondido por ambos. Mas as perguntas, no caso, eram direcionadas apenas ao Joel: você realmente conhece a Maria Helena? Você mora com ela? Quer continuar esse relacionamento? e a outra questão eu nem lembro, mas acho que era a única aberta do tipo quais os planos para o futuro? As três primeiras perguntas vinham com a opção “sim” e “não”, e “se não, por quê?”. No fim os dois assinamos a tal entrevista. Menos mal, nem precisei comparecer ao Migrationsverket para aquele outro tipo de entrevista ridícula a qual minha amiga foi submetida (e perguntaram a ela em qual lado da cama ela dormia…oO). O que interessa é que agora tenho meu permanent upphålstillstånd.

Essa semana tive um encontro inspirador com uma studievägledare (orientadora vocacional) a respeito das minhas ambições com relação ao Serviço Social na Suécia. Fiquei feliz e muito puta da cara ao mesmo tempo porque ela me confirmou o que eu já descobri faz um mês: para entrar na universidade na Suécia você precisa que o seu diploma do ensino médio seja válido por aqui e o fato de ter um diploma universitário (válido ou não) não conta muito a menos que você queira se candidatar a vagas abertas em cursos extras da grade do Serviço Social. Quando visitei a Vuxutbildningen para conversar a respeito da minha educação na Suécia eles me disseram que tendo o diploma reconhecido eu poderia entrar na Universidade. Ponto. Mas não é bem assim… para entrar na universidade é necessário Sueco nível 2, Matemática nível 2, Estudos Sociais nível 1 e Inglês nível 1. Eu posso pegar o meu certificado de Ensino Médio e tentar validar meus conhecimentos em matemática e inglês – é muito difícil que não sejam correspondentes – o que infelizmente é muito difícil de acontecer em relação aos Estudos Sociais, uma vez que no Brasil não estudamos a sociedade sueca.

Eu poderia ter estudado Samhällkunskap ao mesmo tempo em que estudava o SAS, afinal eu tinha aula uma vez por semana, não iria doer nem um pouco ter aula duas vezes por semana… mas eu nem sabia que eu precisaria dessa merda disciplina também. O lado positivo é que como estudei muita sociologia na faculdade eu talvez possa compensar daí. Dedinhos cruzados.

E pra quê todo o papo de universidade se eu tô com o diploma na mão? Porque para todos os efeitos por meio da universidade posso estagiar e daí meus problemas com relação a) não tenho experiência na Suécia e b) não conheço o sistema social sueco estariam resolvidos. Fiquei muito feliz porque ela (a orientadora vocacional) mais uma vez afirmou que meu curso foi aprovado em  100% e que não preciso complementar, que esse complementação seria só uma forma mesmo de tornar meu currículo mais atraente. Sinceramente, foi a melhor orientação que já recebi nesses meus quase dois anos de Suécia, ela foi clara, tranquila, me mostrou os caminhos possíveis, questionou minhas ideias formadas, plantou outras, assinalou as dificuldades e também os impossíveis que posso encontrar. Saí de lá de espírito renovado e com o telefone para contato de mais alguns locais de trabalho, como substituta (timvikarie) o que acho que será perfeito para começar – e mais fácil de conseguir.

Fácil e fácil porque para cada 5 anúncios de vagas com trabalho social, 4 pedem carteira de habilitação. Não deu nega, já fiz a inscrição pelo site do körkortportalen (portal da carteira de habilitação) e vou gastar um tanto das minhas economias com isso. Afinal de contas, eu to meio devarde e me dá um nervoso ficar esperando um e-mail ou telefone pra entrevista que nem sei pra que lado que me pego. Liguei e tentar vender meu peixe por telefone, mas ainda é muito desconfortável conversa em sueco pelo telefone, e já cansei de conversar com secretárias eletrônicas.

Essa é mais uma das razões pela qual a minha leitura do BBiC não vai para frente: eu lembro que tenho que entrar em contato com fulano e ligo, mas o fulano saiu e eu me programo para ligar mais tarde. Volto para o texto e já perdi o fio da meada, retomo a leitura de algumas páginas para me achar e quando o negócio engata percebo que meu telefone mudou de cores e já corro para ver se é e-mail… estou neurótica.

Sorte que tenho um super viking me ajudando ♥… Ainda assim, ficarei off por um tempo.

Há dias assim

Eu sou uma pessoa muito besta de coração mole. Talvez a afirmação soe um tanto quanto idiota quando em uma grande parte dos posts aqui do blog eu pareço mais uma velha ranzinza e mal humorada. Mas tudo vai da forma como a gente lê… muitas vezes as palavras deitadas “no papel” não podem transmitir aquilo que realmente sentimos, somente uma impressão.

Sim, mas eu tava falando do meu coração mole e do quanto eu sou doce (durante uns milésimos de segundo) e o papo chegou até aqui por causa do meu trabalho: quando eu comecei a trabalhar como assistente pessoal um dos coordenadores perguntou para mim o que eu achava mais difícil e eu respondi muito rápido que era discutir com o sujeito que eu cuido, o Zé. Ele me disse que “assistente pessoal não tem que ser amigo, tem que ser profissional. Nós estamos muito perto do usuário, é uma proximidade que não é habitual (no caso da cultura sueca) e por isso é fácil confundir essa proximidade com uma amizade”.

Tenho que admitir que fiquei um pouco chocada, não pelo que ele tinha dito mas porque eu não queria dar a impressão de que é penoso argumentar com o usuário, ainda que para mim seja, devido a essa questão da “proximidade” no trabalho. O que eu pensava quando tivemos essa conversa era que meu sueco era tão pobre que era difícil argumentar com o cidadão quando eu precisava dizer não diante de uma coisa que ele queria fazer e que seria perigosa para ele; mas a verdade é que existe o outro lado também.

Você está ao lado do usuário – que é também o seu patrão – em situações tão bizarras e íntimas que às vezes nem pessoas que tem uma relação muito próxima – como por exemplo um casamento ou mesmo irmãos – viveram juntos. É simplesmente um desafio gigantesco estar tão perto de alguém – duas, três vezes na semana – e simplesmente ser profissional. Ao menos para mim; eu ainda não aprendi a fazer isso.

Eu penso que essa coisa entre o assistente pessoal e o usuário seja mais ou menos como uma relação entre mãe e filhos, ao menos para as pessoas de coração mole como o meu. Subimos seis lances de escadas carregando o Zé, eu e mais um assistente, para ele descer os tobogãs de um clube. Cada vez que estivemos a caminho eu ficava rezando para Deus mandar um anjo colocar cola na minhas mãos e não deixar o Zé – molhado – escorregar. Depois dos primeiros lances de escada a minha oração já era para a escada se tornasse rolante, e de preferência, com super velocidade para cima, pois os meu braços começavam a tremer… mas assim que sentávamos o cidadão no topo do tobogã e ele começava a gritar de entusiasmo, tudo sumia: a preocupação de ele escorregar das mãos, a sensação de que meus braços iam cair do corpo, a quase irritação por não ter um elevador para o tal tobogã (imagine se tivesse como seria difícil para o pessoal do clube domar a criançada), os seis lances de escada…

Sei lá quantas dez vezes subimos aquelas escadas, às vezes rumo a outro tobogã dois lances de escada acima, com as crianças impacientes querendo passar na frente do tiozinho que tava sendo carregado. Suei, tremi, quase pedi pinico, meus braços tão super cansados hoje mas o que eu sinto é uma imensa satisfação devido aqueles míseros gritos de felicidade que rolavam em alguns segundos.

Não penso que eu e o Zé sejamos amigos, mas o tipo de relação entre assistente pessoal e usuário está – ao menos para mim – bem longe de ser puramente profissional. A pessoa para qual trabalhamos não é apenas um chefe, é especial por motivos além do óbvio da deficiência que carrega. E a proximidade a que o assistente está submetido, o usuário e a família dele também estão. Acabamos por ser mexidos e por mexer, só e simplesmente porque há dias que são assim… daquele jeito que a vida de qualquer um é.

***

Quero deixar como indicação um filme muito interessante que mostra um pouco o que é ser assistente pessoal e que assisti na semana passada. A produção é francesa e é mais ou menos assim o meu trabalho, com exceção que na França só tem assistência pessoal quem pode pagar por ela e que aqui na Suécia ela é para todo cidadão sueco que precise.

Trailer do filme em português aqui.

Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca #02

A falta de novas postagens não é devida a falta de tempo, ou de que estou atolada na minha bagunça – como de costume. Eu poderia fazer uma lista de desculpas com coisas e coisas que soariam mais ou menos aceitáveis – afinal eu não ganho pago para escrever, não tenho que dar satisfação da minha falta de vontade, a não ser para mim mesma. Então é só isso mesmo, desânimo. Grande, e em certos momentos, perturbador. Eu nem lembro onde eu ouvi que a palavra desânimo tem origem grega e que significa “sem alma” (anima significa alma em grego). Faz sentido que tudo pareça pesado e triste e irritante.

E daí porque colocar isso em Pequenas Grandes Coisas da Minha Vida Sueca? Justamente porque eu li em alguns outros blogs várias pessoas falando do quanto “cool” parece aos outros (digo os outros brasileiros) quando a gente muda para fora do país, principalmente Europa e USA. Viramos gente chique, importante, que mora nos “estrengeiro”. Pessoas absolutamente felizes de conto de fadas que viajam, se dão bem acima de tudo e que mesmo quando tem um trabalho ruim tem grandes salários e estão por cima da carne seca.

É verdade que meu salário de Marinete é maior do que o que eu recebia no Brasil. E? É tão frustante quando as pessoas pensam que a vida se resume a quanto você percebe por mês como… trabalhador. Não, eu definitivamente não estou reclamando, apenas gostaria de deixar todas as coisas muitíssimo claras porque, apesar de tudo, tem gente que acredita no conto do vigário.

Conheci uma moça que está morando aqui cerca de dois meses. Ela veio da Bahia, foi auxiliar de enfermagem em uma fábrica no Brasil. A fábrica fechou, estava um pouco difícil para ela encontrar trabalho e aí, apareceu uma amiga. “Vamos comigo para a Europa, lá você vai se dar bem”. E ela veio, está aqui, sem visto, sem trabalho e sem… o que mais eu poderia dizer?

Eu tenho Joel aqui e a família dele me ajudando e dando apoio todo o tempo. Eu posso estudar sueco porque tenho permissão de residir aqui e isso me ajuda a ter um emprego (se você não vem para cá com contrato de trabalho assinado, não importa o nível do seu inglês). Falo de trabalho porque é importante para mim, mas existem muitas moças que mudam para ser esposas de um sueco – nada contra, acho que elas fazem muita coisa sendo somente esposas. Minha mãe foi esposa a vida inteira e não conheço ninguém que tenha trabalhado mais do que ela – e para isso também é importante o visto: é sua garantia de atendimento de saúde, na escola para as crianças, para o transporte, para ser livre. E as pessoas que vem com contrato de trabalho então tem tudo isso.

Mas se você não tem visto por conta de um trabalho ou visto por laço familiar, por que sair do Brasil e se aventurar como “preto” na Europa/USA? Para tentar a sorte? Sei que cada um faz da vida o que quiser, mas quem tem uma formação no Brasil tem mais chances de conseguir um emprego lá, por mais difícil que a coisa seja, do que aqui – sem documentação, sem poder aprender a língua numa escola.

Eu sou feliz, e muito, e não quero dar uma de “pobre menina rica, olha ela reclamando de barriga cheia”. Mas depois de encontrar a Fulana aqui, eu fiquei pensando que caraca!, ainda tem realmente gente que acredita que estamos num conto de fadas? A vida é igual em qualquer lugar do mundo, seja no Brasil, na Europa ou na Nova Zelândia. Todo mundo tem que ralar, tudo tem que ser conquistado!

E sabem qual a coisa mais engraçada disso tudo? O Brasil aqui está sendo noticiado cada vez mais como a terra das oportunidades – mostraram no jornal essa semana que 1200 sueco se mudaram para o Brasil. E todo mundo aposta que vai ser para lá que os portugueses e espanhóis vão tentar correr, devido a crise.

Não quero criticar ninguém. Não acho burrice mudar – eu fiz isso, sei os meus motivos, e tem muitas brasileiras como eu, que encontraram marido e mudaram para cá, ou pessoas com contrato de trabalho, estudando e ou o quê. Mas o que eu gostaria de sublinhar é que todas essas opções que eu citei vem com uma espécie de suporte – financeiro, social e familiar – além do visto e essa é uma diferença grande, que só quem já saiu sabe!

A vida por aqui é exatamente como aí. Mas a diferença pode ser desestimulante e esmagadora se você está sozinho.

E… essa é a rotina sueca (?)

Sabe aquela música: todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às seis horas da manhã me sorri um sorriso sensual e me beija com boca de maçã? Não é assim que funciona comigo! Como meu trabalho é extra – digamos assim – eu nunca sei a que horas eu  vou começar meu dia: posso acordar 6, 7  ou 8 horas… …porque eu sou extremamente preguiçosa para estabelecer um horário que funcione para todos os dias [acordar todos os dias 7 horas, por exemplo] e organizar um pouco a minha vida antes do trabalho.

O resultado disso é que quando chego em casa eu quero escrever no blog, escrever para os meus amigos, escrever sueco, escutar sueco, escutar alguma música legal para relaxar, comer – e isso significa fazer comida, tomar banho, organizar meu mundo; enfim. E?

Não funciona. Um, que eu sou indisciplinada. Dois, que eu acho muito chato passar o dia inteiro longe de casa e assim que chegar se enfiar no computador e ficar na internet, sem conversar com o Joel ou o pessoal do coletivo. Eu preciso do meu mundo virtual só para dizer olá para meus amigos, e quando eu vejo no meu e-mail que não tem nenhum com o assunto Oi! [qualquer título que não seja de piadas ou correntes] eu logo desligo o computador.

Então a coisa está assim: acordar, tomar café, tomar o trem, trabalhar, tomar o trem de volta, fazer o que dá tempo e coragem, dormir. Eu já comentei no blog que o almoço aqui é depois do  dia de trabalho, chama middag e acontece entre às 16h e 20h – mais ou menos. Tem lava-louça e isso é fabuloso!, mas não dispensa do serviço de organizar a cozinha… Mas enfim, o chato disso tudo é que às vezes quando eu vou dormir eu penso que não fiz nada.

Claro que fiz. Estudo no trem quando eu vou para o trabalho, e às vezes quando volto também. Consigo escrever ao menos 3 vezes por semana no blog. Respondo todos os e-mails de amigos. E principalmente, cultivo com muito afinco minha relação com meu amoreco e todos os novos amigos. Mas a sensação ainda persiste, e eu fico pensando que merda que é essa que incutem na nossa cabeça que a gente realmente acredita que deve ser quase que uma máquina na vida pública, profissional e privada!

Em todos os seminários de assistência social que eu fui lembro que quando se falava de família o palestrante insistia na questão de desmitificação do conceito de “família margarina” – na qual a mulher, principalmente, está sempre linda e maravilhosa mesmo cumprindo dupla jornada de trabalho e cuidando dos filhos. Penso que a gente deve ir ainda mais longe, lembrar que o dia só tem 24 horas e que nesse período a gente precisa, principalmente, alimentar a alma e o corpo: comer coisas gostosas, fazer algum exercício, namorar, gastar tempo com gente feliz e com coisas para encher a mente de coisa boa – livros, música, filmes…

Trabalhar faz parte, porque afinal todo mundo precisa de dinheiro. Mas o tempo que você despende dormindo é quase tão ou mais importante do que o tempo que você está acordado – ou zumbizando! Será que a gente vive de verdade quando acorda direto no modo operando, toma café, sai para o trabalho, trabalha, volta do trabalho, faz coisinhas, dorme, acorda, sai para o trabalho…? E porque enfim eu to pensando em acordar mais cedo todo o dia?

Passei quase três meses na casa me sentindo deslocada porque não trabalhava, e agora não sei se saí do ritmo ou o quê, mas me parece tão sem noção às vezes [sempre] todo esse esforço. Ok, não era meu sonho ser diarista, mas é o que está para mim no momento e me ajuda a ter meu dindim. E na bem da verdade, eu não sei se quero voltar a ser assistente social.

De repente, eu to crescida e não sei o que eu quero ser quando crescer. Mas será que alguma vez eu soube?

Alô! Alô! Terezinha! Quem não se comunica…

… se estrumbica!

Disse Chacrinha na década de 80 e um milhão de filósofos antes dele. Infelizmente, apesar de tanta gente dizer e repetir mais do mesmo, o ser humano é apegado em adivinhação, sobretudo quando tem uma relação especial com alguém – melhor amigo, namorado/marido sofre! – porque esse alguém TEM O DEVER de saber o que você quer. E o que você gosta. Ou ainda, como você se sente. Eu mesmo vivo tropeçando nessa triste mania de pensar que os outros sabem o que eu quero e como, e por causa disso e de coisas que li aqui, aqui e aqui resolvi escrever o post.

Tem um mês que eu to no trabalho e quase que ao mesmo tempo começou também no serviço de limpeza uma moça sueca. Eu tava muito animada com isso, afinal de contas o português rola solto o dia inteiro no trampo e a presença dela obriga todo mundo a arranhar um “suequês”… até que a gente limpou a primeira casa juntas. Caos total! Ela não fazia as coisas certas e a gente tinha que refazer tudo, e no fim quando ela terminava o trabalho “dela” ficava olhando a gente trabalhar.

Primeiro que o povo sueco não tem uma cultura de limpeza, não como no Brasil. Seja por causa do feminismo, ou por causa da escuridão, ou porque os bárbaros não tem medo de bactérias e viking que é viking dormiria no chão, ou porque a terra não é vermelha, ou porque nem tomar banho direito eles tomam, ou porque ninguém quer perder tempo com limpeza, ou… As casas normalmente estão desorganizadas num estilo lagom e tudo o que já foi branco é bege, tem umas poeirinhas pelos cantos e muita sujeira embaixo do tapete. Ninguém dá muita pelota pra isso porque eles priorizam o tempo com lazeres como leitura, música, comer, ou ficar olhando para o próprio umbigo. No verão eu entendo, todo mundo quer um lugar ao sol (quando ele dá os ares da graça). Mas no inverno quando as pessoas estão em casa também não tem dessas de ficar esfregando chão, parede, sei lá. Pensando bem, no inverno eu também não gostaria de fazer limpeza.

Segundo: a gente trabalha normalmente em duas ou três pessoas por casa. Ninguém tem um trabalho específico, mas as tarefas são divididas porque dessa forma ninguém tropeça em ninguém. Então normalmente alguém fica com a cozinha, o segundo com o banheiro e se há um terceiro ele vai com o aspirador de pó pela casa toda, tendo que limpar o chão (att mopa, ou mopar) com aquela vassoura mole e água e sabão com cheiro de nada e que não faz espuma. Mas quem termina vai ajudar os outros, porque cada casa deve estar limpa em um determinado tempo que varia entre 1 e 2 horas.

Eu não sou a rainha da limpeza e já comentei no post passado que sou lenta. Mas eu não fico parada olhando os outros trabalhar e por isso me irritava sobremaneira a guria ficar ali, pensando na morte da bezerra enquanto a gente corria contra o tempo. Que cara de pau!

Mas hoje eu entendi o que acontecia: choque cultural. Desde o primeiro dia que eu comecei, assim que eu terminava a minha tarefa eu ia procurar outra coisa o que fazer – quando eu terminava primeiro, o que demorou bastante e não aconteceu no primeiro dia – e isso significa muitas vezes fazer a mesma coisa que um outro está fazendo. Por exemplo: todas as portas devem ser limpas, todos os móveis e quadros recebem uma visitinha do senhor espanador, e isso duas pessoas podem fazer ao mesmo tempo porque há muitas portas em uma casa, muitos quadros, muitos móveis, muitos… tem o que fazer; enfim. Foi justamente enquanto eu limpava um sofá hoje que ela olhou para mim espantada e disse: você não precisa fazer isso porque outra pessoa está fazendo. Esse foi o momento do insight: ela não faz porque não sabe que deve fazer. Expliquei para ela que todo mundo ajuda, e que assim a gente trabalha melhor, e adivinha? Ela entrou no clima e agora trabalha como nós.

Eu poderia ter criado caso com ela, afinal tudo apontava para a postura típica do ‘eu vou fazer o que me cabe e vocês que se lasquem’. Enfim, nem foi nada disso, foi apenas falha de comunicação: ela já vem de uma cultura em que ninguém se importa com pó, em que todo mundo é muito consciente do “seu papel” e da “sua responsabilidade” – não tem dessa de ficar esperando por outros; e se cada um faz o seu bem feito o resultado final é pró – e a equipe inteira fala português quase que todo o tempo. E eu já tinha apelidado de dois de paus! Aqui no blog mesmo to sempre repetindo que é difícil de ler o que está nas entrelinhas do sueco mas não tinha me dado conta que para ela poderia acontecer o mesmo, porque como todo mundo fala português na equipe tudo estava absolutamente claro para mim. Para mim.

Esse tipo de situação é tão comum: fulano pensa um “isso” e ciclano pensa que sabe o que “isso” é, mas ninguém fala nada e todo mundo fica aguardando a osmose de pensamentos, que na real só acontece em filme. Pois é, filmes nem são reais. O resultado disso é: conflito.

Eu tenho paúra daquele tipo de pessoa que se acha o tal e fica dando “dicas”: quer uma coisa específica, mas nunca fala, e fica na expectativa de que você adivinhe. Sabe o que acontece? Primeiro, nada; depois, briga. E a acusação típica: você não se importa comigo! Não pensa no que é importante para mim! Só que isso não rola! Não entre pessoas saudáveis: de que forma vou viver a minha vida se preciso me colocar o tempo inteiro no lugar de outra pessoa? Eu já tenho bastante o que avaliar – minhas escolhas, sonhos, se vale a pena isso ou aquilo – vou ficar obstruindo a minha mente pensando e planejando a felicidade alheia?! Não.

Eu sei que é fácil cair nessa e to fazendo um exercício de falar o que eu quero. Não fico fazendo suspense dos meus desejos, nem antes do meu aniversário. Sabe aquele tipo: ahh, ninguém lembrou meu aniversário… Eu gosto de encher o saco de todo mundo e já falo bem antes o que eu quero de presente. Falando nisso, ano que vem quero uma semana na praia. No nordeste. Do Brasil. Podem começar a vaquinha – =P.

Acho que o principal responsável por essa mudança positiva na minha vida é/foi o Joel, só e simplesmente porque eu sempre tive que falar muito claro com ele sobre as minhas expectativas, meus desejos, meus sonhos. Ele fala português fluente, mas não é por isso que ele vai entender minha alma. Eu precisei mostrar. E valeu a pena.

Ah mas não tem surpresa assim. Se eu tenho que falar sempre o que quero, pedir tudo… Quem não chora não mama. Eu prefiro ter surpresas boas, e do tipo tranquilas quando eu recebo exatamente aquilo que eu imaginava e falei, do que receber alguma coisa do tipo: putz, não era isso que eu queria… Faça a experiência: fale na lata o que você quer. O resultado pode ser conseguir ou não, mas aposto que é bem mais provável a primeira alternativa. Do contrário… espere até alguém adivinhar. Mas sente confortavelmente. E não adianta ficar bravo.

Alô! Alô! Terezinha! Quem não se comunica…