Brasil, meu Brasil brasileiro

Tô em casa.

E sim, eu sei que a minha casa fica na Suécia. E que a minha vida é na Suécia agora. Tanto, que já em Paris quando eu estava prestes a embarcar no voo para Sampa senti que tudo estava diferente. E na verdade, senti um pouco horrorizada que a coisa que mais estava diferente era eu mesma.

Suequizei demais os últimos meses. Para meu próprio horror estava me sentindo incomodada com tanta gente falando alto, e falando merda. Esse povo nunca fala com coisa… pensei. E aquela impaciência típica de brasileiro que nunca faz o que está no protocolo: não espera o avião taxiar para começar aquela busca desenfreada pelas malas; não obedece nenhum sinal de apertar os cintos; fica gritando com o conhecido que não sei porquê foi parar cinco filas de banco mais atrás (ô fulano,  você viu a oferta de não sei o quê lá na Duty Free?).

Que merda. Que vergonha. Não dos outros, de mim mesma. Vivo chateada porquê todo mundo fica diminuindo brasileiro o tempo inteiro, por causa da fama de bagunceiro, por causa da fama de preguiçoso, por causa da fama de gente que não quer nada com nada. E lá bem no fundo me senti com a mesma impressão. É tipo um choque cultural ao contrário. Que feio.

Foi só quando desembarquei de verdade é que relaxei. Demorei quase doze horas dentro de um avião e precisei de doses de brasileirice o voo todo para conseguir jogar fora o meu eu sueco. Estava esperando um aeroporto caótico (por causa do carnaval) mas a coisa estava tranquila (e posso dizer isso porque já passei por Guarulhos em um dia 03 de janeiro). E tanta gente feliz! Apesar de estarem trabalhando durante o carnaval. É um contraste absurdo: sair de um inverno cinza na Suécia em que todo mundo anda de cara amarrada e desembarcar num país em que até a polícia federal fica fazendo troça… aff, como é bom!

Fiquei fazendo uma série de comparações. Já trabalhei com suecos em feriados importantes como o Midsommar. Definitivamente, trabalhar em feriado na Suécia é igual a trabalhar com substitutos (quem tem trampo integral cai fora pra aproveitar) ou gente meio de carra amarrada. Quem trabalha feliz nesse dia trabalha feliz só porquê recebe quase o dobro do salário por hora. E mesmo assim, o que acontece é que os suecos que trabalham em feriado falam mais ou menos “que eu não queria trabalhar, mas alguém precisa trabalhar e eu vou receber o bônus”. Sorriso amarelo. Eu fiquei me perguntando se os faxineiros que trabalham no aeroporto em Guarulhos, por exemplo, recebem o dobro do salário por hora por trabalhar em dia de carnaval. Estavam bem felizes, em todo o caso. Vai ver que eles recebem né?

E eu tomo um susto quando a guria do check in da Tam me olha e me diz meio zangada: “senhora? senhora? a senhora está grávida? por favor dirija-se a fila preferencial”. Aí é que eu percebi que o tom de voz dela não era para mim, mas era para lembrar aos outros que eu devia passar primeiro. Passei cinco meses e meio grávida na Suécia e as poucas pessoas “estranhas” que ousaram enxergar a minha barriga foram estrangeiros. Já aqui todo mundo enxerga que eu tô grávida. Gente que eu nunca vi na vida me olha e me sorri, e me deseja felicidade. “Parabéns pelo bebê” é uma constante. No guichê da companhia aérea. Na recepção do hotel. Na fila do mercado. Fui tomar um sorvete e uma mulher ao meu lado me disse que eu estava uma grávida linda. Assim do nada, ela não me perguntou: você está grávida? Ela só disse: você está muito linda grávida… sabe o que é? E eu: um menino (eu não tinha contado ainda Aparecida!). E ela: ahhh parabéns! Eu quero muito ter um menino!

E na minha cidade em que todo mundo sabe da vida de todo mundo parece que o pessoal não tá muito interessado na minha vida não. Hahahaha! Ao menos muita gente não sabia ainda. “Oi Maria! Passeando na casa dos pais! E esperando um suiçinho!!! Parabéns!”. Sim, eles ainda acham que eu moro na Suíça. Mas eu já nem explico mais. Porque se eu explico que eu moro mesmo é na Suécia a pergunta seguinte ainda é se eu já sei falar alemão. Sorriso amarelo. “Quase… tô aprendendo!”.

Nesses dois dias passados em casa já me sinto mais eu mesma. Já fiz papo furado com mais gente do que fiz o inverno inteiro na Suécia. Já falei da Copa do Mundo, do governo e da falta/excesso de chuva. De mudar para fora do país. De como a vida aqui é boa (puxa como é bom encontrar gente satisfeita com a vida que tem!!!). De livros. De poeira. Terra vermelha. Da calma da cidade. Da falta do que fazer. Do excesso do que fazer. De vida nova. De gravidez (com muita gente). De morte. De comida. De energia solar. Piadas (fiquei pensando: nunca ouço piadas na Suécia!).

E lembrei de um texto não sei de onde, que não sei quando li, que falava de como a gente ainda vê o Brasil com um país de selvagens que precisam ser civilizados. Acho que não há forma melhor de definir esse “choque” que eu senti no contato com a minha própria cultura do que esse pensamento. Eu vivo num mundo “civilizado” ao extremo. Politicamente correto – o que é bom. Eu sou a favor do politicamente correto – principalmente o quesito respeito as minorias. Mas não é disso que eu tô falando. O civilizado é o jeito meio robótico que todo mundo vive no lado de lá. As pessoas respeitam a fila. Ninguém fala alto. Os cachorros não ladram. Quase não há lixo pelas ruas (há sempre muito lixo pelas ruas assim que o inverno acaba, mas no geral, as ruas são muito mais limpas do que são as ruas brasileiras). Não há cidades transbordando de gente. E aí o transporte coletivo funciona. E não há engarrafamentos enormes. Ninguém “foge” as suas responsabilidades. Ninguém caga fora do pinico. Tudo funciona com a precisão de um relógio suíço. Mas eu moro na Suécia ok? Só para deixar claro…

Será que quando conseguirmos civilizar os selvagens brasileiros, não vamos sentir falta de toda essa “zona”?

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Uma Caipira em Oslo

Parece que minha vida é só passear ultimamente e sim, por um lado, acabei de voltar de Portugal e já dei uma esticadinha para Oslo. De certa forma acho meio esquisito escrever para falar de viagens, mas estou aprendendo a fazer isso melhor e até achando legal. Não que dê mais popularidade ao blog – na verdade, os posts sobre coisas normais do dia a dia é que são mais populares – mas acredito que tem muita gente que gosta de ler sobre esse tema, então aproveito o gancho para recomendar a leitura sobre uma viagem a Madeira (aqui e aqui), e outra a Londres (com início aqui).

O pulinho que demos até Oslo não teve nada a ver com turismo ou o tipo de viagem que fizemos até Portugal. Não porque Oslo fique apenas a três horas e meia de ônibus de Göteborg, mas porque fomos rever amigos. Aqui na Suécia é um tanto comum o pessoal passar um ano ou dois trabalhando na Noruega – ou pequenos períodos a cada ano, dois anos – porque a língua é parecida, suecos são bem vindos e bem vistos (como excelentes trabalhadores) na Noruega e porque lá a coroa é mais forte.

Pra quem não sabia, na Escandinávia (Suécia, Noruega, Dinamarca – Finlândia pode estar dentro ou não, depende a fonte) a moeda não é o Euro, mas a coroa: coroa dinamarquesa, coroa norueguesa e coroa sueca.  Dentre as três a mais forte é a coroa norueguesa.

Por coincidência, uma série de amigos do Joel vive em Oslo agora (estão até em campanha para que mudemos) e a gente resolveu dar um pulo até lá para dar uma espiada no ambiente. A primeira impressão é que de alguma forma continuamos na Suécia, acho que Oslo é uma cidade que lembra Göteborg, por exemplo. Claro que a língua, apesar de ser semelhante na escrita, soa muito diferente e, o mais impactante de tudo: pensem em um país caro… pensaram? Então, agora pensem em Oslo como um lugar muito, muito mais caro! A Noruega é considerada o país com melhor qualidade de vida do mundo, mas o custo de vida lá é sinistro.

(Nós não vamos mudar para Oslo).

Então no sábado experimentei uma coisa muito legal pela primeira vez na minha vida: andar de trenó. Hahaha! Claro, senão não teria porque escrever esse post! Pegamos o trem (trikken, em norueguês) número 1 em direção a Frognerseteren e andamos até o fim da linha (cerca de 25 minutos saindo de Majorstuen) onde há uma pista que desce a montanha. O melhor de tudo é que a pista termina ao lado de uma das estações do trem número 1 (Midtstuen), então é só por o trenó embaixo do braço e pegar o trem montanha acima de novo!

Antes da descida...

Antes da descida…

Existem vários tipos de trenós e esse com o qual descemos tem o nome de kälke. No alto da montanha há uma estrutura para o pessoal que vai lá para se divertir, com cafés, banheiros, e lojas onde você pode alugar um “kälke” para o dia. O problema é chegar até lá a primeira vez pois o caminho é lotado de gente que sai para esquiar, assim como outras pessoas que já alugaram/trouxeram seus próprios trenós, crianças e cachorros para descer a montanha; e as trilhas, tantos para pedestres como para os demais é a mesma! Uma confusão que nos valeu muitas gargalhadas pois a pista estava um sabão: nevou, as temperaturas subiram, desceram, subiram, desceram; a neve derretou, virou gelo, nevou por cima… resultado: todo mundo caiu ao menos uma vez! Fora as milhares de vezes que escorreguei e me recuperei no último minuto… voltei para casa com dor nos músculos pelo esforço de me equilibrar – assim como pelo esforço de guiar o trenó, o que não é nada fácil.

Animada para descer pela primeira vez!

Animada para descer pela primeira vez!

Eu procurei algumas informações sobre a pista na internet, como qual é o comprimento e etc, mas não encontrei nada. A descida toma em média 15 minutos, o suficiente para congelar os meus dedos – não estava com luvas apropriadas – e para molhar a bunda – não tenho calças a prova de água.

Eu era a última... sempre!

Eu era a última… sempre!

O trenó pega uma velocidade muito louca e eu não aprendi a controlar ele. Por certo, os pés ficam apoiados nas pontas dianteiras do aparato e para virar a esquerda faz-se pressão com o pé direito enquanto relaxa o esquerdo… e vice versa. Que louco não? Parece aquelas aulas de esportes olímpicos dos antigos desenhos do Pateta. Com o gelo o trenó desliza bastante para os lados, assim durante a primeira vez que desci andei mais devagar freando bastante – freio de pé, como nos Flintstones. Cheguei por último todas as vezes mas eu queria aprender a dirigir o trem – tem carteira para trenó? Na segunda rodada desci mais rápido, mas fui atropelada e atropelei um homem – com a criança dele pode? Na terceira fui mais confiante, um pouco mais cautelosa – pra não atropelar ninguém – mas desci mais rápido, pulei muito e dei um cavalo de pau.  Sorte que eu tinha um elmo – ainda que ridículo!

Parece coisa de criança mas é super legal e como comentei, a montanha estava cheia de gente descendo e cheia de gente animada entupindo o trem e gargalhando com suas gafes de descida…

Super recomendo!

*****

Aluguel do trenó de madeira: 80sek sem capacete; 100 sek com capacete

Aluguel do trenó de metal: 125sek com capacete; 150sek para devolver no final da descida.

Uma Caipira em Portugal – Fátima e arredores

Pensei que conseguiria escrever o post já no início da semana mas nem. Todo mundo que tem blog e que não bloga todos os dias gostaria de fazer isso e eu não sou exceção. Escrevi um pouquinho por pouquinho e foi bom porque assim pude organizar um pouco melhor as ideias.

Eu queria conhecer Fátima há muito tempo, acho que desde que a Gisele mudou-se para Algarve eu pensava em visitar a ela e de quebra dar uma esticada para Fátima. Outros carnavais aqueles… sem Joel, sem Suécia, só sonhos de universitárias recém formadas. Sim, a Gi foi minha colega de facul, uma pessoa super especial. Bons tempos aqueles da faculdade – e não… Formadas, cada uma tomou seu rumo e ela casou-se, mudou para Portugal – eu sempre prometendo visitar… ela voltou para o Brasil em novembro e eu fui pisar nas terras lusitanas um mês depois.

Quando os tios do Joel nos convidaram para viajar com eles nos disseram que gostariam de ir a Portugal e perguntaram se nós tínhamos ambição de conhecer algo por lá, e eu falei de Fátima… mas eu não pensei que eles teriam vontade de visitar um Santuário Mariano; afinal, não é esse o modelo de família protestante a que eu estava acostumada – ou que meus preconceitos aceitassem que exista. Eles acharam o maior barato e incluíram Fátima no passeio para minha grandessíssima surpresa.

Não posso me descrever como uma pessoa devota mas eu vivi dentro da igreja toda a minha adolescência e carrego uma herança muito forte dessa fase da minha vida – de aspectos tanto positivos como negativos. A padroeira da cidade em que cresci é Nossa Senhora de Fátima e ainda sou uma pessoa que acredita na força da oração e da fé, como também acredito no poder de intercessão da Virgem Maria. Esse não é um blog de evangelização e o objetivo é falar da viagem, mas fica meio estranho dizer que fui a Fátima e adorei a experiência sem explicar porquê. Foi maravilhoso ir a Fátima porque vivi uma maravilhosa experiência espiritual.

Mas antes disso, comecemos do começo!

Saímos de Lisboa no domingo (de carro) e seguimos em direção a Porto de Mós – “município” em que nos hospedamos – pela rodovia que passa próximo a Santarém. A estrada era muito boa e até que achei que o pedágio não estava tão salgado (foram 3,75€ pagos em cada praça – duas – em que passamos), afinal, quem viaja nas estradas no Paraná está acostumado a deixar um absurdo nas praças de pedágio da 277. Paramos em Santarém para dar uma espiada no túmulo de Pedro Álvares Cabral – sim, para quem percebeu, fomos ver muitos mortinhos durante esse passeio – que está dentro da Igreja da Graça de Santarém.

Túmulo de Cabral

Túmulo de Cabral

Eu estava mais afim de pegar a estrada A8 que passaria por Óbidos do que visitar o túmulo de Cabral até encontrar um post muito interessante na internet: Pedro Álvares Cabral: três túmulos para um homem só, que vocês já podem imaginar do que se trata. Resumindo: Cabral caiu em desgraça perante o Rei Dom Manuel de Portugal e foi banido da corte; o que fez ele mudar-se para Santarém – onde não há nenhum registro sobre a vida dele até sua morte (1520). Foi enterrado e mais tarde transladado para o mesmo túmulo da esposa, no qual havia apenas a menção de seus ossos. Zé fini… até que um historiador brasileiro foi a Portugal e quase criou uma crise internacional ao afirmar que ninguém dava pelota para o túmulo de Cabral. Abriram o túmulo em 1882 e encontraram 3 ossadas (provavelmente Cabral, a mulher e um filho) e mais o esqueleto de uma cabra! Na época não havia uma maneira de confirmar que aqueles eram realmente os restos mortais do navegador mas, em todo o caso, fez-se um túmulo bonitinho em honra ao descobridor do Brasil. Só que mais de uma cidade afirma ter os restos mortais de Cabral e… bom, quem sabe?

Meu modelo favorito e ao fundo a Igreja da Graça; à esquerda a Casa Brasil.

Meu modelo favorito e ao fundo a Igreja da Graça; à esquerda a Casa Brasil.

Logo ao lado da Igreja da Graça está a Casa Brasil e acredita-se que foi lá que Pedro morou. Dentro da casa não há nada muito interessante, apesar de que é uma surpresa entrar dentro daquela construção e perceber que era realmente grande por dentro. Por fora ta meio esbagaçada e não há dentro da casa nada que lembre o séc XVI. Se é verdade que os portugueses não deram pelota para Cabral não sei mas senti falta de alguma coisa a mais no interior do imóvel (onde havia uma exposição de arte moderna, na verdade). Seria difícil tentar montar uma casa com móveis que pertenceram a um Zé Ninguém (quem brigava com o rei estava condenado a isso) e acho pouco provável que alguém tenha guardado pertences de Cabral mas seria legal entrar na casa e vê-la decorada com móveis que remontassem a época.

Depois de comer um bocadinho, paramos também nas muralhas da cidade de Santarém. A vista do alto da muralha é fantástica, mas eu mesma não tirei fotos do lado de “fora”, apenas do lado de dentro. Esses personagens vocês já conhecem…

O amor... ah! O amor!

O amor… ah! O amor!

Cortamos para oeste em direção a Óbidos mas… havia uma feira ou não sei o que na cidade que estava lo-ta-da. Não havia onde estacionar para dar um passeio a pé e entrar na cidade com carro alugado era pedir para ter problemas; por isso ficamos apenas com a vista de longe…

Óbidos - de longe...

Óbidos – de longe…

De lá continuamos rumo a Porto de Mós por uma via secundária, uma estrada mais estreita (sem pedágios) e com uma vista mais bonita. Demos uma última parada em Alcobaça para dar uma espiada em um mosteiro e depois, direto para nosso hotel/pousada que ficava na localidade de Livramento.

Ali conheci a Dona Maria do Céu – a dona da pousada muito papuda e simpática – e roubei mexericas  ou “clementiner“; como se diz em sueco. Também ali me dei conta de que havia extraviado o adaptador para o carregador da bateria da máquina fotográfica, e a bateria com menos da metade da carga… E no outro dia iríamos a Fátima! Pá, às vezes me irrito comigo mesma.

Visitamos primeiro o mosteiro de Batalha que fica na cidade de Batalha – cerca de 15 km da pousada – mais um monumento histórico, mais túmulos de reis portugueses. Fica estupidamente claro que os tempos de glória portuguesa já se foram. Triste, eu acho. Corrupção faz muito mal para todo mundo e eu imagino o que seria do Reino Portugal se alguma vez na história seus monarcas tivessem pensado em melhores formas de investir tanto dinheiro. Batalha começou a ser construído no séc XIV e nunca foi terminado. O mosteiro foi um marco importante – assim como o quase vizinho Alcobaça – naquele tempo em que os cristãos tiraram as terras portuguesas das mãos dos mouros. Quem iniciou a construção foi Dom João I e mais sete reis viveram até que, em 1517, Dom Manuel decidiu empenhar todos seus esforços e recursos em Lisboa para a construção do Mosteiro dos Jerônimos. Ainda assim, há muito do estilo manuelista em Batalha. Atualmente, Batalha encerra dentro de si uma ala cheia de homenagens aos soldados portugueses que deram suas vidas em diferentes “batalhas” pelo mundo.

Portal da Igreja do Mosteiro de Batalha.

Portal da Igreja do Mosteiro de Batalha.

Foi então que chegou a vez de Fátima: chegamos por trás do Santuário, dei de cara com uma placa que informava os horários de missas e dos terços e para minha sorte o terço na Capela das Aparições começaria em 10 minutos. Eu tava um pouco insegura com relação a famiage, informei meio rapidinho que iria rezar o terço das doze e fugi até a Capela, meio que pensando que o povo deve achar que a Maria ficou louca… até que o Joel veio se sentar do meu lado. O sino repicou o hino de Fátima ao meio dia e rezamos o terço juntos, sentindo a paz de Deus. É lindo.

Na frente da Capela das Aparições, depois do terço.

Na frente da Capela das Aparições, depois do terço.

É difícil explicar porque uma coisa que não faria sentido nenhum – visitar uma velha capela onde três crianças dizem ter visto a Virgem Maria – faz tanto sentido. Se é a fé, se é porque a gente se deixa levar pelo ambiente, se é por causa da minha educação… não sei se importa: quando sentei lá e rezei o terço com os demais peregrinos foi uma das experiências mais bonitas da minha vida.

Infelizmente é só sair do Santuário para receber um choque: milhões de lojinhas de terços e imagens para todos os lados! Sério mesmo: parecem as tendinhas de Salto del Guayrá no Paraguai, todo o ambiente espiritual de paz e presença de Deus se quebra em mil pedaços com a balbúrdia dos negócios. Eu sei que tem muita gente que quer comprar lembranças de lugares santos, mas o negócio toma proporções ridículas, a ponto de um terço comum custar 5€! Pode uma coisa dessa? Pior do que isso é saber que essa cena se repete ao redor de cada Santuário – Mariano ou não – pelo mundo afora. Nessas horas dá vergonha de ser católica viu?

No meio dessa balbúrdia de lojas de artigos religiosos há, não muito longe do Santuário (cerca de 10 minutos caminhando), o museu de cera de Fátima que conta tintim por tintim a história das aparições: Lucia, Jacinta e Francisco são pastores que recebem a visita de um anjo em 1916, e no ano seguinte, a visita da Virgem Maria a 13 de maio, junho, julho, setembro e outubro. Foram 6 aparições ao todo, 5 na Cova da Iria e mais uma em Ajustrel, a 19 de agosto. Francisco e Jacinta morrem nos anos seguintes de febre espanhola (1919 e 20, respectivamente) e Lúcia torna-se irmã carmelita, morrendo aos 97 anos em 2005. Recente, não é? Ela assistiu a beatificação dos primos. A maioria dos bonecos são bons, alguns precisam visivelmente de manutenção mas com certeza, o melhor deles é o do Papa João Paulo II.

Eu e o papa! Essa era a imagem de cera mais bonita do museu!

Eu e o papa! Essa era a imagem de cera mais bonita do museu!

Voltamos ao Santuário e eu assisti ao final da missa das 15h; visitamos os túmulos dos pastorinhos – mais uns – no interior da Igreja do Rosário de Fátima. Por  fim visitamos as casas em que viviam os pastorinhos, assim como o lugar em que lhes aparecia o anjo em 1916 – há uma linda Via Sacra no local, que fica apenas 2km do Santuário.

Uma tradicional: vista da Igreja do Rosário de Fátima e do pátio do Santuário.

Uma tradicional: vista da Igreja do Rosário de Fátima e do pátio do Santuário.

Como era véspera de Ano Novo compramos umas coisinhas gostosas e fizemos uma ceia da virada improvisada na pousada mesmo, assistimos aos fogos de ano novo e eu tomei um susto quando todas as sirenes e alarmes da cidade começaram a tocar a meia noite. Gente parece coisa de guerra, dá uma sensação de pânico e como a eu nunca tinha ouvido isso fiquei em dúvida pensando se era para correr e se esconder mesmo ou era para comemorar…

A gruta é iluminada com mais de 3 mil lâmpadas.

A gruta é iluminada com mais de 3 mil lâmpadas.

No último dia na região visitamos a Gruta de Mira de Aire, uma caverna descoberta em 1947. A Serra dos Candeeiros é muito porosa e tem rios subterrâneos. Descemos 683 degraus e ficamos enterrados a 110 metros. Na gruta há um rio conhecido como Rio Negro e até mesmo o Poço da Sogra – um buraco que lembra um poço com 35 metros de profundidade. Ao todo a gruta tem mais de 11km de extensão, e ainda há vias e mais poços que não foram explorados. O passeio percorre cerca de 500m de extensão da gruta e ao fim, subimos com elevador.

Na tarde do dia primeiro voltei a Fátima com os tios do Joel enquanto ele e as irmãs foram conquistar a montanha de Santo Antônio. E não é que descobrimos o caminho de Santiago de Compostela português?

A vista é maravilhosa,  uma inspiração!

A vista é maravilhosa, uma inspiração!

O dia seguinte foi tomar a estrada de volta a Lisboa, voos até Göteborg, capotar na cama exausta. Com a viagem aprendi um monte de histórias interessantes desse país e voltei para casa com uma impressão maravilhosa de Portugal. Estou torcendo para que o país consiga emergir da crise.

Certeza que volto para lá. Já recebi até convite (de novo!) para conhecer Algarve!

Amanhã: Brasil!

Isso mesmo: amanhã estou chegando ao Brasil e estou tão ansiosa que sei lá o que eu faço comigo mesma (quem acompanha o blog sabe que essa coisa de não saber o que fazer comigo mesma é meio frequente, então… significa que eu vivo muitas emoções, todo o tempo – =P hahaahaha!). Decidi deixar registrado um status de como deixo a Suécia.

Fonte aqui

Essa semana a temperatura caiu de novo, ficamos na marca dos 5 graus em Göteborg e desde ontem parou de chover. Sim, pois há cerca de duas semanas atrás tivemos geada e muito frio (aqui quando a geada chega ela não some de um dia para o outro, como é o comum lá pras bandas donde vim), tanto que me obriguei a tirar meu super casaco vermelho de inverno do guarda roupa. Mas aposentei o bichim em seguida pois começou a chover diariamente (sim, choveu todos os dias nas últimas duas semanas até ontem) e as temperaturas subiram. Ontem, nevou em Stockholm mas eu não vi geada de novo.

Hoje fui a escola fazer uma prova (quase dormi em cima dela então nada de ganhar um A) e ontem foi meu último dia de trabalho antes da viagem. Saí de casa desprevenida e sentia meus dedos congelando enquanto eu empurrava a cadeiras de rodas do Zé e o Zé pela cidade, abaixo de chuva de pedra. Não, não somos masoquistas, é só que precisamos andar uns 50 metros até o ponto do bonde, e a chuva de pedra na Suécia parece mais chuva de feijão; são pedrinhas miudinhas caindo, nada comparado ao que acontece no Brasil.

Coisas que acontecem na vida de um assistente pessoal: o Zé queria fumar e saímos ao ar fresco para ele poder pitar o cigarrinho dele e daí uma senhora chega na minha frente, faz uma pose de espanto e choque e dispara o sermão do “como é que VOCÊ faz isso com ELE? Você não percebe que ele é doente? Meu Deus, meu  Deus…” Olha para mim com o olhar mais desaprovador da face da terra e vai embora. O Zé ri, eu suspiro. Já nem explico que a escolha é dele, que se fosse por mim ninguém no mundo fumaria… A ironia do destino é que uns minutos depois (quando ele já havia acabado o cigarrinho) chega um senhor e “Parabéns! Seu trabalho é lindo!”… é… Obrigado, tipo.

E eu preciso de sol. Não tenho nenhuma ambição de ficar morena não, preciso só e simplesmente de sol! Chove, chove e chove em Göteborg (parou ontem) e agora os dias começaram realmente a ficar escuros. Eu tenho uma lembrança forte com relação ao ano passado, e esse ano eu tenho a mesma impressão: não é que os dias comecem a ficar mais e mais escuros lentamente, é que em uma semana de repente o sol para de nascer as 7h da matina e só dá as caras as 8h. Esse fim de semana é Hallowen na Suécia e os relógios serão atrasados em uma hora para o horário de inverno… ainda assim,  continuará escuro.

Fico ainda mais feliz ao pensar que deixo a Suécia escura e fria para ir ao Brasil (tomara que não chova!) quente e ensolarado. Vai ter o aniversário do meu irmão mais lindo e Arrancadão de Tratores, sem falar que vou comer todas as gostosuras que minha mãe faz, e churrasco, e tirar os colos atrasados com meu pai, e andar a cavalo, e visitar o trabalho novo da minha irmã, e…

Acho que o blog vai estar meio abandonado viu… vou ter tanto o que fazer, e serão só três semanas!

Vi ses då och då!

As Aventuras de Rino

Podia até ser um conto infantil mas não é nada mais do que uma criancice minha. Nada de mal, afinal, “ainda que adulto eu não esqueci como é que se brinca” (desconheço a autoria). Nem tampouco o quanto isso é bom! E já que podia ser um conto infantil…

Era uma vez… um rinoceronte de tecido muito simpático nascido na Inglaterra. O rinoceronte precisava ganhar a vida e por isso acabou viajando para a Holanda onde conseguiu trabalho em um parque de diversões, o Efteling. O trabalho não era lá muito difícil, consistia apenas de esperar em uma prateleira até o dia em que alguma criança muito insistente conseguisse convencer os pais a gastarem três euros em um daqueles jogos duvidosos de derrubar latas. Com um pouco de sorte ele seria o bicho de tecido que sairia da prateleira para um lar holandês, de preferência um daqueles que não fosse habitado por gatos ou cães ou pelo menos, por nenhum gato ou cão que adora morder, arranhar e/ou estraçalhar bichinhos de tecido.

Eu vos apresento… Rino Rinoceronte.

Esse ainda não é o final da história, mas é que preciso de mais um era uma vez… uma moça do Paraná que viajou para a Suécia. Ela e o namorado resolveram dar uma voltinha de carro por aí, e a aventura acabou desembocando em Efteling, aquele parque de diversões holandês. A moçoila nunca tinha andado de montanha russa (com 27 anos na cara!) e apesar do medo de altura achou isso o maior barato! Então ela quis aproveitar todos os brinquedos de “média e alta intensidade do parque”, menos um: o Barco Viking. Todo mundo acha Barco Viking um brinquedinho de nada, mas a moça tem um medo esquisito de balançar, e sempre que olha o brinquedo pensa que alguém vai cair enquanto está no alto e morrer esmagado pelo barco na volta. Bobagem, disse o namorado, que começou a insistir que ela devia ir.

Pararam para resolver o impasse e foi aí que a moça viu uma barraca daquelas “acerte as latas e ganhe uma pelúcia” em que havia um leãozinho de tecido – talvez 30 cm – com as cores mais lindas do mundo. Ele parecia feito a mão e tinha cara de ser todo molinho. Ela queria o leãozinho. Então a conversa dos dois mudou para tipo… ela: eu não quero ir para o barco viking, eu quero brincar de derrubar as latas. Ele: Todo mundo sabe que as latas devem estar grudadas umas nas outras, você não vai ganhar nada. O barco viking é mais legal, vamos lá. Ela: Eu tenho medo de balançar, não quero brincar dessa brincadeira, eu quero derrubar as latas. Ele: O jogo das latas é dinheiro jogado fora, vamos no barco viking que é de graça. Ela: Mas eu quero aquele leão de tecido e sempre fui muito boa de pontaria… claro que eu vou ganhar alguma coisa! Ele: Sim, e também vai ganhar se ir para o barco viking… nada vai acontecer se você balançar, olha lá, é bem mais tranquilo do que a montanha russa. Ela: Eu vou no barco viking se formos para o jogo das latas. Ele: Hmmmm. Tá bom, mas primeiro o barco.

Então eles foram para o barco viking e apesar da moça fazer o maior escândalo e ter gritado desde os primeiros 30 segundos de balanço até a hora que o treco parou, mal conseguiu se sustentar nas pernas correu para a barraca dos bichinhos de tecido tentar a sorte. Derrubou 6 latas de 10 e ganhou… um rinoceronte de tecido de 15 cm. Ela ainda olhou uma última vez para o senhor leãozinho, mas quando olhou para o rinoceronte de novo percebeu que ele tinha como que um sorriso e achou ele bem mais simpático que o outro. Decidiu que ele se chamaria Rino.

Quando voltaram para o carro ela percebeu que o Rino era inglês e pensou que já que ele tinha viajado até a Holanda ele ia achar o maior barato sentar na frente e curtir a paisagem enquanto eles tocavam para a França. Tudo acabou virando um super brincadeira, o Rino emprestou os óculos de sol dos viajantes e até deu uma de “loro”, viajando no ombro da moçoila paranaense.

Desde lá, a cada vez que ela viaja para um lugar novo a moça faz questão de levar o Rino junto afinal, com uma companhia tão sorridente e simpática, claro que a viagem fica bacana. Ninguém sabe se ele já tinha esse sorriso antes de encontrar a moça paranaense, mas é certeza que depois disso ele nunca deixou de sorrir (mesmo quando dividiu casa com a gata “Gatinha” da irmã da moça).

Fim.

Faz um tempo comentei com a Mari (do Mundo da Mari) sobre o Rino, que ele me acompanhava nas viagens e que eu tirava fotos dele e tals e ela disse que eu devia escrever um post sobre as “Aventuras de Rino”. Enrolei e enrolei, depois de Alguero decidi que devia escrever, mas vai ficar uma lacuna porque quando a gente foi para Dalarna em março levei ele na mala mas esqueci de tirar fotos. O mesmo aconteceu quando estive em Halmstad, mas fora esses foras, sempre registrei a presença do Rino quando ele foi viajar comigo: no carro para a França/Alemanha, em casa no Brasil, em São Paulo, em Curitiba (ao lado da onça pintada da minha prima), em Balneário Camboriú (e arredores), em Göteborg, em Alguero…

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Qual é que é que será o destino da próxima aventura do Rino??

=D

Uma Caipira na…

…terra das massas, pizzas, vinhos e do melhor sorvete do mundo… Quem chutou que é a Itália, acertou! Quem não sabia que o sorvete italiano é o melhor do mundo (sorvete italiano mesmo, não aqueles que a gente compra no  Brasil de máquinas de sorvete expresso) ainda tinha chance de acertar só por causa das dicas da massa e pizza.

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Foi uma viagem de família e eu não fui parar em uma vilinha com vinhedos – como havia sonhado – e sim em Algero, uma pequena cidade litorânea da Ilha de Sardenha. Um lugar simplesmente maravilhoso com areias brancas, florestas de pinheiro a beira-mar, mar verde e transparente (de águas super geladas), montanhas, italianos (claro), muitos suecos (de férias) e lindos montes. Apaixonei!

Ouvir e ver – e ter – tantos suecos ao meu redor (fora da Suécia) deixou minha cabeça bem bagunçada, tanto que falei em sueco com a vendedora de sorvete (havia uma chance muito maior dela entender meu português…) e com o garçom do restaurante. Ao final do terceiro dia eu consegui tentar falar algum italiano com os italianos; e para a primeira tentativa fiquei imensamente satisfeita, tanto que estou decidida a aprender italiano – só porque é bonito!

Não sou muito fã da culinária sueca e por esse e por outros motivos me acabei de comer em Algero: spagetti al pomodoro, bolognesa, ravioli, pizza, azeitonas frescas e maravilhosamente preparadas… queijo, salame – como o que a gente comia em casa (ohhhhh!!!) – vinho… e o sorvete! Céus comi tanto que quase passei mal e ainda assim tomei sorvete depois porque é simplesmente bom demais! Há quem diga que a pizza italiana é sem graça porque só tem massa de tomate e queijo com mais alguma coisa. Eu adoro massa de tomate e queijo, não sou fã de pizza doce e acho que simplesmente a massa italiana é espetacular.

Ou seja: engordei uns quilos e to morrendo de saudades da minha mãe!

Passei a maior parte do tempo na praia, me queimei um pouco, bronzeei um pouco; comi (muito… ah! Saudade do spagetti italiano!), alugamos bicicletas e exploramos a região (tem que queimar toda a massa consumida), exploramos a   parte velha da cidade (que é a parte mais linda – tinha até uma loja de Havaianas lá!); tomei porre de sol… Sair de férias é sempre bom, maravilhoso, mas a Sardenha se revelou de uma forma tão espetacular para mim que me senti a própria Elisabeth (de Comer, Rezar, Amar) ou um dos personagens dos filmes de Woddy Allen: a cidade é tão viva, com as pessoas gritando umas com as outras pelas janelas das casas, garotos jogando bola e aquele trânsito caótico com todo mundo buzinando e acenando para os amigos, parando em local proibido para gritar um oi para um conhecido – o que provocava a gritaria de todos os outros motoristas que esperavam…

 

Mas falando sério: com este cenário ao som de uma guitarra clássica, quem não se sentiria?