Uma caipira em Creta

Sinceramente não acho que sou muito boa contando o que fiz assim e assado quando fui viajar. Me falta essa capacidade descritiva de que dispõe minha colega blogueira Vânia, por exemplo, que sabe contar tintim por tintim a respeito dos lugares que ela visitou. Mas vamos lá!

Só pra registrar também: acho que existem pessoas que confundem muito essa tentativa de serviço com o famoso se gavar. Não, eu não estou me gavando de ter ido a Grécia, até mesmo porque aqui na Suécia ir a Grécia é o mesmo que ir a praia no fim do ano no Brasil: todo mundo, assim que tem uma oportunidade, faz. O causo é que antes de ir a Grécia procurei posts relacionados e encontrei pouca informação a respeito. Já falei que não me considero uma boa guide, mas alguma informação que seja partilhada é melhor do que nada, não é mesmo?

Viajamos para a cidade de Χανιά  (em português Chania ou Hania; e se pronuncia algo como rânia) localizada na ilha de Creta e nos hospedamos em um hotel de pequenos apartamentos a beira da praia de Kato Stalos (não da para escrever o nome grego… pena). Acho importante ressaltar que a gente se instalou numa das pontas da praia o que, nesse caso, nos deu a possibilidade de ficar num cantinho tranquilo e maravilhoso. Para quem quer agito, é só procurar algum hotel lá pelo meio da mesma praia porque a gente deu uma longa volta a pé e, eu garanto: não há sequer espaço para estender uma toalha.

stalos

Apesar de estarmos num dos cantos da praia havia boas opções de mercados (há muitas mercearias) por todos os lados, lojas de bugigangas e até restaurantes mistos. Por misto eu entendo restaurante que serve tanto comida local como pratos mais “internacionais”. Não que eu acho essencial ter essa opção internacional nos restaurantes, mas tem gente que não tem cara nem coragem de experimentar coisas novas, e eu não posso culpar porque eu não gostaria de ir a China e ter que comer comida local. Mas ao final isso torna o cardápio meio chato às vezes, e a gente percebe que aparece muito mais opções internacionais do que comida local. Num dos restaurantes que estivemos tinha até mesmo macarrão com almôndegas no cardápio, é mole?

A necessidade de “alugar” os visitantes escandinavos é tanta que fica a beira do ridículo: ao lado do nosso hotel havia um café chamado “kaffe stugan” que além de servir “café sueco” (não existem plantações de café na Suécia, apenas café preparado a moda sueca) exibia o noticiário sueco todas as noites. Além disso, na cidade havia muitos restaurantes em que as placas estavam em inglês e sueco ao invés de estar em inglês e grego. Esquisito é pouco…

Achei que a maioria dos gregos fala inglês muito bem. Bom, até sueco eles falam né...

Achei que a maioria dos gregos fala inglês muito bem. Bom, até sueco eles falam né…

Kato Stalos fica a aproximadamente 20 minutos de ônibus do centro histórico da cidade de Χανιά, sendo assim a gente pegou um busão (1,60€) e demos uma longa caminhada pela cidade. Χανιά é rodeada pelas ruínas de uma fortaleza construída pelos venezianos que durou até 1645, quando os turcos invadiram a região.  Apesar de ter sido bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade é muito charmosa e definitivamente vale a pena gastar uma boas horas dando pernadas, ou simplesmente sentado num café/restaurante/praia/mirante/ou nas próprias muralhas para admirar a vista, a arquitetura ou o mar.

To descabelada, eu sei. Mas a vista é linda né?

To descabelada, eu sei. Mas a vista é linda né?

Falando no mar… o Mediterrâneo é lindo mas na Grécia ele é exuberante! As águas são super claras e é ideal para praticar mergulho. Eu sou péssima na água, não sei nadar direito, mas com meu excelente professor particular eu pude aproveitar muito com meu snorkel. Até saímos de barco (de Χανιά) para um passeio onde pudemos ver os destroços de um avião no fundo do mar. Há uma porção de barcos que fazem esse passeio saindo do centro histórico da cidade, e eu posso dizer que vale muito a pena (15€ por pessoa): além de ver os destroços do avião o passeio oferece mais um ponto de parada para banho, e depois a bordo são servidas frutas (melancia e melão) e raki (cachaça grega) gratuitamente aos passageiros.

mediterrâneo

Eu esqueci de pedir para o Joel tirar uma foto de mim na água... e como ele é o peixinho...

Eu esqueci de pedir para o Joel tirar uma foto de mim na água… e como ele é o peixinho…

Fizemos dois passeios – um para a garganta de Samaria e outro para Knossos – e para tanto alugamos uma moto lá por perto das bandas de onde nos hospedamos. Não faltam “rent a bike” espalhados por todos os cantos da cidade e, apesar de a gente ter lido muito na internet que o pessoal era chato, que tem que tomar cuidado porque eles tentam afirmar que você riscou a moto aqui e ali (e cobrar mais por isso), não tivemos nenhum problema do gênero. Não sei se os gregos ficaram mais simpáticos por causa da crise, mas eu já ouvi muita gente dizer que achou os gregos de Creta extremamente simpáticos. Além disso, alugar uma moto/carro é muito mais legal e barato do que sair com os pacotes existentes: para alugar a moto pagamos 30€ por dia (mais cerca de 15€ em combustível) quando pagaríamos 40€ por pessoa para sair com a caravana.

A estrada pra Samaria é ruim, e o próprio pessoal da agência sugeriu que a gente pegasse uma cross. Já para Knossos foi só asfalto - a beira do mar.

A estrada pra Samaria é ruim, e o próprio pessoal da agência sugeriu que a gente pegasse uma cross. Já para Knossos foi só asfalto – a beira do mar.

Então primeiro, Samaria. Eu li algumas informações na internet antes de ir para lá mas infelizmente, parece que nem sempre o que você procura acha; e definitivamente eu não tinha encontrado esse post aqui. Fomos para Samaria e eu estava acreditando piamente que dava para ter ao menos uma panorâmica da vista sem precisar sair a pé. Me fu… como diz o outro. Não dá para ver nada além do início da garganta a partir do último ponto em que se chega de carro/moto/busão. O rio se encontra a cerca de 2km do ponto de partida e, como eu queria porque queria ver o danado do rio, decidi que desceria a montanha assim mesmo, só eu, minha câmera fotográfica e uma garrafa d’água. Tudo muito bem, mas eu precisava de um tênis melhor: só levei meu All Star (converse) para Creta e o caminho é para gente preparada mesmo. Tropecei, escorreguei, quase cai; desisti de ver o rio antes de quebrar alguma coisa. Mas eu vou voltar… se vou. E aí vou caminhar os 18km!

Pena que eu me atrapalhei toda... se apenas a vista da entrada é assim! No último quadro, a vista do restaurante que falei.

Pena que eu me atrapalhei toda… se apenas a vista da entrada é assim! No último quadro, a vista do restaurante que conto em seguida.

Apesar de todo o desencontro de informação, eu super recomendo o passeio. A estrada até Samaria é um zigue-zague em meio as montanhas que nos brindaram o caminho inteiro com vistas espetaculares. Inesquecível! A alguns metros da entrada do parque (para fazer o caminho paga-se a taxa de 5€) há um restaurante que fica no topo da montanha, e a vista de lá é simplesmente fantástica.

Essas foram pelo caminho... Creta tem montanhas de até 2.500m!

Essas foram pelo caminho… Creta tem montanhas de até 2.500m!

Eu gosto demais de mitologia grega. Já li tantas de suas histórias que chego a confundir algum seres mitológicos… Pois bem: na ilha de Creta estão as ruínas do Palácio de Knossos (descoberta no fim do séc XIX), aquele no qual, segundo a mitologia grega, se encontrava o labirinto do Minotauro. Para simplificar a história, o rei Minos pede a ajuda de Posseidon para derrotar seus inimigos e depois tentar passar a perna no deus. Como castigo, a mulher dele se apaixona por um touro e acaba dando a luz a uma criatura horrível, com cabeça de touro e corpo de homem que só se alimentava de carne humana. O rei construiu um labirinto para prender o monstro, uma vez que nenhum guerreiro conseguia matá-lo. Como o rei havia ganhado a guerra sobre Atenas, de lá todos os anos eram escolhidos alguns jovens que eram enviados como sacrifício para que o Minotauro não deixasse o labirinto até que Teseu, o filho do rei de Atenas, resolve que está na hora de salvar seus conterrâneos. A filha de Minos se apaixona pelo príncipe e decide ajudá-lo a matar o Minotauro. Com a ajuda da princesa e um novelo de lã, Teseu encontra o monstro e o mata, libertando os jovens atenienses do castigo. A história completa você pode ler aqui (link do wikipedia).

Eles até construíram uns chifres de touro em uma das partes mais elevadas das ruínas... será que?

Eles até construíram uns chifres de touro em uma das partes mais elevadas das ruínas… será que?

Não há nenhum registro no local que confirme a lenda (nem o cadáver do Minotauro – hahaha); mas o Palácio tinha de fato mais de 1300 câmaras, era enorme e por si só e um verdadeiro labirinto. Se além do próprio palácio havia um labirinto subterrâneo… não dá para perceber, infelizmente. Mesmo assim adorei entrar no sítio que mescla as ruínas do palácio com pequenos detalhes reconstruídos que remetem a arquitetura original, e achei o preço bem acessível (6€ e estudantes não pagam).

Li demais e comi muitas azeitonas e queijo de cabra. Vale a pena experimentar a culinária local, principalmente o crepes e os pratos a base de ovelha. A única coisa que não curti foi o vinho de lá, porque não tem gosto de vinho. Mas o tzatziki, o raki e o uzzo eu super recomendo! Além de azeitonas e queijo de cabra. Oh, eu esqueci dos crepes!

hmmmmmmmm

hmmmmmmmm

A ilha de Creta serviu de cenário para muitos clássicos, mas o mais famoso deles com certeza foi o filme “Zorba, o grego”, filme que consagrou o “Sirtaki” como a dança e música símbolo da cultura grega. Zorba também foi gravado em Chania!

Por fim… no caminho para a cidade de Ἡράκλειον (Heraklio, Heraclião ou Iraclio, a maior cidade da ilha) passamos pela praia de Stavros e é nela que foram gravadas as cenas do filme em que o “Zorba” ensino o turista inglês a dançar o sirtaki.

Meu All Star cheio de pó e a praia de Stavros

Meu All Star cheio de pó e a praia de Stavros

E o que tem o Converse a ver com a treta? Lá nas bandas de onde eu venho o povo sempre dizia que quem vinha da roça tinha como marca os pés sujos…

Foi culpa do Joel!

Anúncios

Uma Caipira em Mallorca

Eu tava pirando com essa coisa de procurar trabalho e ficar no vácuo. Sim, eu acho bem difícil receber um não, mas mais difícil ainda é ser ignorada e não receber resposta alguma. Nessas horas eu me pergunto porque eu não escolhi algo mais fácil para minha vida! Nasci teimosa, agora aguenta. Só sei que daqui alguns dias estarei fazendo companhia para a Vânia no Diário de uma Teimosa…

Enfim, estava ficando muito estressada com toda essa coisa de procurar emprego. Eu não tenho paciência para esperar, me deixa louca alguém dizer que vai entrar em contato e não fazer, aí eu ligo de volta e ninguém atende o telefone. Estou maximizando, eu sei, o problema é que quero tudo para ontem; precisava dar um tempo e como meus tios sempre insistiram para mim ir visitá-los aproveitei para conhecer um dos destinos mais amados pelos suecos no verão: Palma, na ilha de Mallorca, Espanha.

Viajei com a Air Berlin e descobri duas coisas: é impossível entender o que os alemães dizem quando falam inglês e, pessoalmente, foram as comissárias de bordo mais simpáticas que já encontrei nesse pouco tempo em que comecei a explorar o mundo de avião. Quando fomos a Portugal voamos de TAP e eu achei um barato o vídeo sobre segurança que eles rodam nos monitores (aquela coisa de apertar os cintos, o que fazer em caso de turbulência, é proibido fumar, desligue os aparelhos eletrônicos) mas em compensação a tripulação era meio fechada. Já as comissária alemãs (e os comissários também) estavam sempre rindo e sorrindo para nós. Talvez estivessem rindo de nós, mas o que importa? A atmosfera no voo foi muito descontraída e tranquila.

Fiz escalas em Berlin e Barcelona e sinceramente, achei o aeroporto de Barcelona uma merda. Passei muito tempo lá, e na verdade, isso foi bobeira minha pois talvez eu poderia ter saído para espiar a cidade. A verdade é que sou imensamente cagona no que se refere a voar, sempre vou direto para o meu portão de embarque, ou para perto de um daqueles painéis que mostram as chamadas de voos, e fico com um olho no livro e outro no painel/porta de embarque. Passei 6 horas no aeroporto onde não há nada para comer além de sanduíches de pão duro com algumas fatias de salame tão finas que seria possível ver Jesus por meio delas. Além do mais, tanto para comprar o bendito sanduíche como para pedir informação e na hora do embarque fui mal tratada. Ainda bem que Barcelona tem fama, porque se dependesse da simpatia do povo de lá estariam perdidos!

Meus tios foram me buscar no aeroporto em Palma e apesar de estar frio por lá achei tudo muito bonito e muito verde. Já no caminho de casa a minha tia me apontou alguns dos pontos turísticos da ilha, como a Catedral e o castelo do rei da Espanha – que também gosta de gastar as férias na ilha. Nada de movimento na ruas, mas no aeroporto estava uma loucura! Imagino que no verão seja um verdadeiro caos.

Meu guia...

Meu guia… sorte que meu primo é gente boa e teve paciência de me levar passear um pouco.

Catedral... eu já disse que gosto muito de visitar igrejas...

Catedral… eu já disse que gosto muito de visitar igrejas…

DSC06141

Ao lado da Catedral uma fortaleza. Achei muito lindas as paredes parcialmente cobertas de hera…

Oliveira muitoooo velha...

Oliveira muitoooo velha…

Eu só vi um pedaço da ilha, mas tudo o que vi achei super bonito. O melhor de tudo é que sempre havia um restinho de sol, brincando entre as nuvens, quando não havia muito sol! Foi muito gostoso aproveitar um pouco do calor do sol no rosto e no corpo.

Entendo porque Mallorca é um dos destinos favoritos dos suecos no verão: o mar é muito bonito, há muitas praias e montanhas. Dá para sair para uma longa caminhada no meio da natureza e alcançar outras praias mais lindas ainda (que só vi por fotografia). Fiquei bastante em casa, admirando a vista, conversando com a família. É bom sair um pouco e desligar… Foi gostoso ficar com rostos conhecidos e recarregar a bateria.

Meus tios moram há cerca de 10 anos lá, e agora é hora de voltar para o Brasil. Infelizmente na Espanha a situação econômica é perturbadora… apesar de não ver tanta gente na rua pedindo como em Lisboa, vi uma manifestação no aeroporto: ex-funcionários e funcionários da Ibéria estão diariamente em frente aos guichês da companhia protestando. A situação no aeroporto estava meio tensa e havia um cordão policial de contenção.

Alguns manifestantes que protestavam contra a Ibéria.

Alguns manifestantes que protestavam contra a Ibéria.

Cada um com suas lutas. É hora de retomar as minhas.

Uma Caipira em Portugal – Lisboa

No post passado comentei algumas das minhas impressões gerais sobre a viagem a Portugal e como prometido, voltei para deixar maiores detalhes. Eu não sou muito boa com essa coisa de guia de viagens mas como foi a primeira vez que eu realmente viajei para algum canto e conheci/visitei lugares históricos, museus, igrejas e etc; deixo aos interessados a tentativa de descrever um pouco do que descobri em Lisboa e que me deixou maravilhada.

Fica a dica: quem gosta de fazer esse tipo de turismo pode adquirir (já dentro do aeroporto) o Lisboa Card, um cartão que te dá acesso gratuito a maioria dos locais históricos, além de funcionar como cartão de ônibus/bonde/metrô dentro da cidade. Só não vale para o aerobuss, o busão que vai direto ao aeroporto. Maiores informações aqui. Preço (adultos): para 24h, 18,50€; 48h, 31,50€ ; e 72h 39€.

Em Belém:

Belém é um bairro de Lisboa no qual se localizam o Mosteiro dos Jerônimos, o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém. Também em Belém estão as pastelarias mais famosas de Lisboa, assim como foi lá que encontramos o verdadeiro arroz de marisco. Foi em Belém que comemos em um café/pastelaria em que a garçonete é brasileira, super simpática; sem falar que o preço do prato do dia (incluindo bebida) foi o mais barato (4,50€) e um dos mais saborosos que comemos durante a viagem. Pra variar, não lembro o nome do lugar.

blog II

Ao clicar nas imagens é possível descobrir onde estão Filipa de Lancaster e Pedro Álvares Cabral.

Blog 1 Padrão dos Descobrimentos: sabem aquela velha história de que Portugal começou a buscar uma rota alternativa de comércio com as Índias? Pois é, ela tem início muito antes do que nós, brasileiros, costumamos estudar: Henrique o Navegador, filho do Rei João I de Portugal, foi o primeiro português a organizar as viagens marítimas daquele tempo; e pelo que se sabe provavelmente as viagens promovidas por Henrique não tinham nada a ver com o sonho do descobrimento da rota das Índias. Uma das especulações é a de que a mãe do navegador, Filipa de Lancaster (a única mulher a ocupar um lugar no Padrão dos Descobrimentos) teria incitado os filhos a procurarem a um rei pastor legendário que moraria em algum recanto africano, e que segundo a lenda seria a chave para que os cristãos vencessem as cruzadas. O tal do Henrique o Navegador só fez duas viagens marítimas, mas foi o responsável, por exemplo, por fundar uma escola/instituição que ensinava os portugueses a navegarem a partir dos parcos instrumentos de orientação existentes na época. Foi ele também que obrigou Gil Eannes a contornar o Cabo Bojador – conhecido na época como o último ponto antes do precipício do fim do mundo – o que encorajou outros navegadores a irem ao infinito e além. Todos os principais navegadores portugueses da era dos descobrimentos são retratados no padrão (Henrique é o primeiro, olhando para o mar/rio Tejo; e Cabral também está lá!), assim como alguns padres Jesuítas, João I e Filipa de Lancaster.

Um dos portais do mosteiro.

Um dos portais do mosteiro.

Mosteiro dos Jerônimos: uma grande, linda e maravilhosa obra arquitetônica do séc XVI, quando o rei de Portugal era Dom Manuel I. O mosteiro tem um estilo tão marcante que foi batizado como “estilo manuelista”. A igreja do mosteiro é gigante, muito rica em detalhes e cheia de imagens. Dentro da Igreja do mosteiro encontram-se os túmulos de Vasco da Gama e do rei Manuel, assim como no pátio do mosteiro encontra-se o túmulo de Fernando Pessoa. O lugar é tão cheio de detalhes que passamos horas a apreciar – e vale a pena. Curiosidade: na calçada em frente ao mosteiro há uma cópia do Contrato de Lisboa de 2007, no qual há todas as assinaturas de todos os representantes dos países europeus (ou da União Européia – inclusive do primeiro ministro sueco, Reinfeldt). Quando voltamos para casa, viajamos no mesmo bonde elétrico que todos os participantes daquele encontro de 2007 utilizaram – quem quiser conferir, é o trem número 510.

Detalhe da Torre de Belém

Detalhe da Torre de Belém

Torre de Belém – daqui saíam todas as caravelas para mundo, e aqui desembocavam trazendo especiarias, pau brasil, marfim, ouro… O mais legal foi subir até o alto da torre (a escada em caracol é super estreita, prepare-se para encontrar turistas mal humorados, gente com criança no colo, mochilão…) e ver que a vista alcança realmente o infinito – ou ao menos, o Atlântico.

Palácio da Ajuda: não fica exatamente em Belém mas fica muito próximo e dá para ir a pé do mosteiro ao Palácio sem problemas. Bom, o Palácio da Ajuda foi uma empreitada portuguesa que nunca foi acabada. Com o terremoto de 1755 o palácio real virou uma bagaça e o rei português da época, Dom Jose I, viveu o

resto da vida em uma tenda (uma tenda real, muito chique) devido ao pavor de morar novamente em recintos fechados. Mas o rei morreu e todo mundo queria um palácio, que foi proposto ser construído na área próxima a Belém –

Costas do Palácio: aqui a construção havia alcançado apenas a metade do projeto.

Costas do Palácio: aqui a construção havia alcançado apenas a metade do projeto.

região em que o terremoto não deixou muitos estragos. Projeto pronto, chega Napoleão para estragar tudo e João VI foge com a família para o Brasil, deixando o palácio para depois. Apenas o rei D. Luís I com a esposa francesa Maria Pia viveram no Palácio (1861-1911) que ainda estava inacabado, e assim ficou pois a coroa portuguesa já não era tão rica e a república seria logo proclamada. Curiosidade: dentro do palácio há uma sala decorada com móveis que pertenceram a João VI e que viajaram com a família real portuguesa para o  Brasil.

Nós estivemos hospedados em um hotel perto da Restauradores, ou seja, bem no centro histórico de Lisboa. A impressão que tive é que isso facilitou muito o acesso a todos os pontos turísticos a que visitamos. Estar hospedado na Baixa ou Chiado, não sei ao certo o nome, nos garantiu assistir de camarote até mesmo a São Silvestre de Lisboa, no sábado 29 de dezembro. Primeiro me matei de rir com o pessoal correndo em todas as direções imagináveis (e estava sim pensando que era coisa de português), mas depois é que fui me tocar que a besta da história era eu que não tinha entendido a parada; aquele era o aquecimento dos atletas. Enfim, aí também há várias lojas e livrarias, assim como muitos bares e restaurantes. Me faltou assistir a um fado ao vivo, mas na verdade estava exausta depois de caminhar e caminhar os dias inteiros e só queria mesmo era deitar e esticar as pernas.

Terreiro do Paço/Praça do Comércio

Lisboa foi destruída por um terremoto no ano de 1755 e como citei, o Rei José I ficou meio que em pânico depois disso. Quem tomou as rédeas da situação foi o Sebastião José de Carvalho e Melo, ou Marquês de Pombal, que pôs em prática uma política de reestruturação social e de reconstrução do coração de Lisboa – ele liderou todas as ações pós terremoto na cidade, desde o enterro dos mortos e recaptura de presos até distribuição de comida aos sobreviventes e o novo projeto arquitetônico da cidade. O Marquês decidiu que os prédios do centro de Lisboa não teriam mais de três andares, que as ruas seriam largas e pavimentadas e que no local em que antes existia o Palácio Real existiria uma grande praça aberta, esta que ficou conhecida como Terreiro do Paço ou Praça do Comércio. Nessa praça há um centro histórico no qual é possível ouvir mais a respeito da história de Lisboa – pelo menos até o início do séc XX. Curiosidade: nessa praça foram assassinados o Rei Carlos e o filho Dom Luís Felipe, em 1908.

Portal principal do Terreiro do Paço.

Portal principal do Terreiro do Paço.

Igrejas

Visitei várias Igrejas em Lisboa, ao todo foram 7: a igreja do Mosteiro dos Jerônimos, de Santa Luzia, de Santo Antônio, a Sé, a Igreja dos Padres Jesuítas e as ruínas de Nossa Sra do Carmo. Tenho um interesse particular por igrejas seculares, nada histórico ou devocional, é apenas curiosidade. Todas as igrejas era lindas por dentro, a mais rica de todas elas (ao menos aparentemente) é a Igreja dos Padres Jesuítas e a Sé. Na Igreja dos Jesuítas também é possível ver a um par infindável de relíquias de santos (em sua maioria, ossos do braço), mas é difícil entender a que Santo a tal relíquia pertenceu. A Igreja que mais me comoveu visitar foi a Igreja de Santo Antônio pois meu avô materno era muito devoto do santo. Ao lado da Igreja é possível visitar o local em que Santo Antônio nasceu, assim como ver um pequeno museu. Curiosidade: as ruínas da Igreja do Carmo só podem ser apreciadas pelo lado de fora pois ainda é perigoso entrar no edifício. A Igreja ruiu devido ao terremoto e muitas pessoas morreram lá uma vez que se celebrava a missa de todos os santos.

Interior da Igreja do Mosteiro dos Jerônimos

Interior da Igreja do Mosteiro dos Jerônimos

Apesar de Santo Antônio ter nascido em Lisboa ele é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua e, o padroeiro de Lisboa é, na verdade, São Vicente. Também visitamos o Cristo Rei que fica em Almada, mas de lá não tenho nenhuma foto decente. Achei meio caro (5€ pra subir até os pés do monumento), mas a vista é maravilhosa: dá para ver toda a cidade de Lisboa, até mesmo as atrações de Belém. O Cristo Rei de Almada foi inspirado pelo Cristo Redentor do Rio.

Também visitamos alguns museus, mas acho que museu fica muito mais interessante quando tem alguém que entende de arte junto com a gente. Com os tios do Joel aprendi que, por exemplo, pinturas renascentistas que retratam a Anunciação tem sempre o anjo a esquerda de Maria, que está rezando e tem lírios próximos a si. No Museu de Arte de Lisboa estava a mostra um enorme ostensório feito de prata, ouro e pedras preciosas brasileiras trazidas para Portugal no tempo do Brasil colonial. A peça continha mais de 2600 pedras!

Por fim, os dias ficaram curtos e não vimos o Castelo de São Jorge e nem a fortaleza, tampouco o “mercado de pulgas” (que acredito não ter esse nome, mas eu não lembro qual é), esse último porque choveu. Como a nossa última atração lisboeta tomamos o elevador de Santa Justa para apreciar a cidade a noite (esse é uma facada: 5€ para subir e mais cinco para descer se não tiver o Lisboa Card). A foto não é das melhores mas, vamos lá:

Praça dos Restauradores - vista do alto do Elevador de Santa Justa.

Praça dos Restauradores – vista do alto do Elevador de Santa Justa.

Caraca, acho que foi o post mais comprido que já escrevi! No próximo conto o resto da viagem…

Uma Caipira em Portugal – I

É bom dar os ares da graça aqui no blog outra vez. Mas fim de ano é aquela coisa e depois de comemorar um Natal meia boca (aqui a ceia é no dia 24 – eu trabalhei; e além disso estava morrendo de saudades do meus – ainda estou), felizmente gastei a semana entre o Natal e o Ano Novo em Portugal. E foi lindo, muito emocionante, muito mais do que esperava.

Primeiro, porque também passamos por Fátima. Louco não? Uma católica vai a Fátima com a família luterana. Mas uma família luterana para lá de especial, que me deu esse presente e ainda por cima me acompanhou até o Santuário. Obrigada tia Gunnel e tio Jens!

Mas essa aventura tem uma série de detalhes, tantos que não cabe tudo de uma vez só. Primeiro, viajar com eles (Jens e Gunnel) significa aprender um pouco da história do lugar para entender o que há de especial aqui, ali e acolá. Sorte minha que estudamos ao menos alguns passos da história portuguesa, afinal, temos uma história em comum desde o descobrimento, e assim não precisei me atropelar na leitura dos pequenos guias (somando cento e poucas páginas) da história lusitana (em sueco) que recebemos antes da viagem.

Nada obrigatório, ao contrário, foi o máximo. Acho que seria bem sem graça visitar todos os monumentos, mosteiros, igrejas e etc se não lhes tivesse desvendado a história. Ademais, penso que o fato de ter conhecido de forma mais aprofundada os tempos da glória portuguesa me deixou ainda mais sensível aos traços da crise, traços estes que infelizmente saltam aos olhos assim que saímos do aeroporto na cidade de Lisboa.

Vou começar contando algumas impressões gerais sobre a viagem, adicionando pequenos detalhes que possam vir a ser interessantes. Passamos 4 dias em Lisboa e depois saímos um pouco mais ao norte, às bordas da Serra dos Candeeiros, onde passamos mais 3 dias pernoitando em Livramento, uma vila pertencente a Porto de Mós, numa região de montes ondulados lindos. Em Lisboa também pernoitamos no morro, em um hotel muito próximo a Restauradores, ao ladinho de um bonde elétrico que serve apenas para subir aquele morrinho da Rua da Glória, um aclive capaz de tirar a força das pernas de qualquer um!

Depois de deixar a bagagem no hotel, já na primeira noite demos uma esticada até um mercadinho próximo, Pingo Doce (eu tinha escrito Pão Doce, mas a Dani me corrigiu! Obrigada!!). E sabe o que foi o mais legal? Eu fui uma espécie de guia, afinal, eu falo português! Foi um pouco louco e espantoso sair de viagem e falar português, essa foi a primeira vez que saí e não fiquei (muito) perdida com relação a língua. No começo estava um pouco tímida para falar com os portugueses, afinal, algumas pessoas haviam me prevenido de que a maioria dos portugueses não gostam de brasileiros e que não falam português com turistas tupiniquins. Mito! O difícil mesmo era largar o povo! Nem precisa dar corda e eles contam a história da família, começando porque o nome do fulano é fulano e… Jesus, acho que Portugal é hospitaleiro por demais, as pessoas falam e falam e falam com você, querem te pegar na mão e te levar até o destino (principalmente no interior). Em Lisboa senti que algumas pessoas ficarem um pouco receosas quando as abordava na rua – mas é porque há muita gente pedindo esmolas (principalmente nos pontos turísticos) ou vendendo quinquilharias; então é altamente compreensível.

Falando nos pedintes, falar português era como usar de palavras mágicas para que eles nos deixassem (sou cristã, mas contra a política de dar esmolas). Claro que um grupo falando uma língua desconhecida é facilmente percebido como “turistas!” (sem falar em todos os acessórios, como mochila e máquina fotográfica); mas bastava responder gentilmente com um não sonoro para eles irem embora. Um deles até falou “Ah, são portugueses…” – como se significasse um “estamos todos falidos e desse poço não sai água”. Triste, mas real.

Ainda com relação a língua, me embolei legal falando sueco com os portugueses e português com os suecos; o que nos garantiu muitas risadas. Em uma padaria perguntei para Gunnel e irmãs do Joel: querem café com leite? e na seguinte disparei ao atendente do balcão: Sex koppar kaffe med mjölk, tack! Foi um stress prazeroso chegar aos restaurantes ou cafés onde todo mundo me perguntando: o que significa isso? O que significa aquilo? Pede para mim? Hahaha… Seis pessoas, cinco suecos e uma brasileira, o Joel que pode falar português mas muitas vezes fica tímido… sobrava pra mim.  Muitas coisas eu também não sabia o que eram, por exemplo febrinhas (uma espécie de filés de porco ao molho de panela), pois esqueci de pedir para a Joana um dicionário porrtuguêis- português… Brincadeira! Falando nisso, muito obrigada pelas dicas Joana, elas nos serviram muito bem! Tentei desenterrar o tu e o vós das aulas de gramática e devo ter soado um tanto estranha, mas sem duvidar, quase me passo por portuguesa!

Bom, claro que comi pastel de bacalhau e experimentei o saborosíssimo arroz de marisco – que não sei porquê no centro de Lisboa tem o nome de Paella – o prato espanhol que é deveras parecido, mas não igual. Dica: procure pelo gostosura na região próxima a Belém. Uma coisa que me chamou muito a atenção é que os cardápios portugueses do interior tem muitas opções de pratos a base de porco e isso me espantou um pouco pois vi centenas de rebanhos de ovelhas, mas não reconheci nenhum chiqueiro. Não deveria ser óbvio então que os pratos principais fossem a base de ovelha? Outra coisa que me chamou a atenção é a oferta de omeletes em todos os restaurantes em que comemos. Além disso, durante o voo (com a TAP) a sobremesa servida durante a refeição foi nada menos do que gemada – coisa que não via desde…

E morcília. Ou morcilha, não sei ao certo qual é a palavra correta… compramos uma no super mercado que não pareceu nem um pouco apetitosa, mas eu comi uma feijoada a transmontana (com pedaços de morcilha ao invés de linguiça) que estava por demais. Não foi difícil encontrar comida boa, gostosa e barata.

Fique encantada com Portugal. Se não fosse a crise já teria começado a minha campanha em prol da mudança: morar no campo e ter rebanhos de ovelhas e plantações de oliveiras e parreirais… Ok. Mas o inverno deles é muito semelhante ao nosso (do sul brasileiro) e apesar do vento frio tivemos dias maravilhosos de sol, tanto em Lisboa como no interior. Nada de tempo mau humorado!

Aliás, achei o povo português deveras simpático e penso mesmo que já descobri de onde é que os brasileiros herdaram simpatia e bom humor. Mau humor só mesmo quando a questão é economia e a crise. Há palavras de ordem conclamando a greve geral pichadas por todos os cantos da cidade de Lisboa e mesmo em algumas placas de trânsito no interior. Também não faltam manisfestações de ódio contra Salazar e Sócrates (ex-primeiro ministro português). Mesmo nos jornais televisos portugueses as notícias não são animadoras e o pronunciamento da chanceler alemã Angela Merkel por ocasião do Ano Novo quando ela afirma que  2013 ainda não será o ano do fim da crise apareceu repetidas vezes nos noticiários.

Ai, ai… se fosse, eu não exitaria em dizer: tchau Suécia!