Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo…

No Brasil eu tive a assinatura da revista Seleções por quase dois anos. Sempre gostei muito daquelas matérias de histórias fantásticas da vida real e sobre felicidade. Em uma delas, uma pesquisa havia questionado um número X de pessoas sobre qual era a época mais feliz de sua vida em diferentes períodos dela. O resultado em todas as enquetes foi que maioria das pessoas disseram não estar tão felizes atualmente; que tinham sido muito felizes em certo tempo atrás; que cultivavam a esperança de ter mais felicidade no futuro.

Penso que a discussão sobre felicidade é lugar comum, mas você já percebeu que é exatamente isso? As pessoas sempre acham que estavam mais felizes há um ano atrás – por exemplo – do que hoje, e que vão estar melhores no futuro. Mas daqui a um ano dirão o mesmo!!

Essa semana eu estava puta da cara, um pouco triste. Afinal nem tudo são flores, eu passo bastante tempo sozinha, até chorei… eu choro quando tenho vontade. Não gosto: a cara da gente fica horrível, olhos inchados, o nariz escorrendo, que coisa nojenta! Mas eu aprendi com a Angela isso, botar para fora, chorar quando se tem vontade de chorar!! E eu me achei no direito: tem todo aquele blá blá blá de choque cultural, mudança de tempo e espaço, o clima muitas vezes não ajuda (estamos no verão, julho, o mês mais quente do ano: chove e faz entre 15 e 17 graus C), todo mundo está de férias viajando e eu to na casa, as partições públicas (leia-se Arbetsförmedlingen) não ajudam, to estudando sueco quase que todo o tempo sozinha… poxa, tadinha d’eu né?

Eu sou meio Pollyanna às vezes, quem lê o blog sabe, mas não porque eu brinque de contente e sim porque eu sou feliz. Posso estar frustrada, chateada e puta da cara com um monte de coisas, mas eu sou feliz! Simplesmente porque ser feliz é uma escolha. Hoje eu li um blog de uma brasileira que foi para os EUA e ela deixou umas palavras que eu vou copiar (com a maior cara de pau):

Às vezes temos a tendência de achar que a felicidade virá naturalmente.Não é não gente, ela precisa ser cultivada. Às vezes esperamos pelo momento perfeito com a visita perfeita para fazer aquela  sobremesa, para mudar o cabelo, para usar aquele vestido que não sai do guarda-roupa, pelo dia perfeito em que não estaremos cansados demais  para namorar o(a) esposo(a) na cama , pelo o corpo sarado para só então poder usar um biquíni ,pela conta bancária gorda para poder casar, etc…Em suma, passamos a vida esperando por um ideal que não virá até nós.
Na nossa realidade tudo trabalha contra nós:
o trânsito, o atraso, o estresse, a data de entrega de certo material, filas longas de banco, a doença,o almoço que tem que está pronto em cinco minutos, o problema do cliente chato, a criança que não pára de chorar,a burocracia de um país, etc… Essa é a verdade, gente.
O senhor tempo não vai esperar que as condições favoreçam para que sejamos felizes. O tempo de viver bem e feliz é agora. Dê fim as desculpas, dê fim a negação, dê fim a justificativas sem causa.Faça diferente.O amanhã não é garantido a seu ninguém.

 

Cada tempo traz a sua dificuldade, e agora é um período complicado para mim: não poder me expressar em sueco e não ter um trabalho são coisas difíceis e parecem tão grandes, mas eu sou feliz. Quando eu arrumar um trabalho vou ter dificuldades no trabalho – todo mundo tem, mas vou ser feliz. Eu nunca vou deixar de aprender sueco, e ainda quando conseguir me expressar não vou deixar de ser estrangeira. Mas vou estar feliz.

Eu sinto uma saudade enorme de meus amigos. Mas eu me sinto imensamente feliz por ter vivido tantos momentos fantásticos que me fazem pensar nessas pessoas de forma especial! Hoje por exemplo é aniversário da minha irmã (Gio parabéns!!)  e nós estamos milhares de quilômetros longe, mas assim é a vida! Eu posso escolher lamentar pelo resto do mês que foi aniversário da minha irmã e eu não estava lá para comer o bolo ou posso cantar parabéns para ela e mandar um vídeo!

Eu escolho o quanto perto ou longe vou estar, legal ou chata posso ser, o quanto posso amar. É verdade: amor é escolha, perdão é escolha, respeito é escolha, porque felicidade seria diferente?

A vida é aquilo que a gente trabalha para ser. É aquilo que a gente pinta!

Numa folha qualquer
Eu desenho um navio
De partida
Com alguns bons amigos
Bebendo de bem com a vida…

De uma América a outra
Eu consigo passar num segundo
Giro um simples compasso
E num círculo eu faço o mundo…

[…]

Nessa estrada não nos cabe
Conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe
Bem ao certo onde vai dar
Vamos todos
Numa linda passarela
De uma aquarela
Que um dia enfim
Descolorirá…

Comer rezar amar

Talvez eu já tenho escrito isso por aqui, mas quando eu disse ao Joel que iria viajar para a Suécia, ele ficou – claro – imensamente feliz e me perguntou se eu estava preparada para fazer isso mesmo. Como boa tagarela que sou, respondi que eu iria fazer o passaporte dia tal, que eu tava olhando a coisa com bagagem, e com a alfandega, e com… Mas não era isso. Ele me perguntou se eu estava preparada para mudar, porque toda viagem que se faz também pode ser uma viagem dentro de nós mesmos.

E foi assim. Eu só podia pensar em chegar na Suécia e encontrar o Joel. Puxa eu lembro que a viagem parecia interminável. Teve tanta gente que perguntou depois: ô Maria e você teve medo de voar? Que medo o quê, eu nem pensei nisso. Talvez dois segundos, mas no instante seguinte eu estava como o burro do Shrek: a gente já chegou?

Eu pus meus pés na Suécia a primeira vez em 30 de junho de 2010, imaginando que ia curtir minhas férias com uma pessoa especial, e depois voltar para casa e ficar de boa. Encontrei o Joel. Foi maravilhoso. Encontrei também um velhinho que me disse que iria voltar dentro de um tempo, que ia me lascar estudando sueco… não, isso é brincadeira. Mas aquilo que a gente havia conversado antes era verdade, mudei meu lugar no mundo para um mês, e nunca mais voltei para o mesmo plano dentro de mim mesma.

Primeiro, obviamente porque eu estava (estou) tão apaixonada. Sempre fui passional, mas era tudo fugaz. Segundo porque eu percebi que meu mundo era imensamente bom, mas que estava na hora de eu sair da zona de conforto. Ou eu iria ficar ali sempre e sempre, esperando… a oportunidade de alguma coisa.

É maravilhoso perceber que eu tive coragem para mudar. Não porque eu ache errado alguém viver anos a fio ou todo uma vida em um lugar só, não é isso. A verdade é que precisei mudar muito mais dentro de mim mesma, do que a distância que me separa do Brasil agora. Deixar meus velhos preconceitos, mudar um tanto a filosofia de vida, pensar a minha forma de produzir e consumir nesse mundo…

Hoje eu estava respondendo um e-mail para a Dani e pensando nisso. O que teria sido de mim se eu não tivesse dado a cara a tapa? Eu gosto de pensar que estaria igualmente feliz, mas igualmente teria mudado de cidade. Porque quando cheguei aqui, ano passado, sem querer esqueci algumas coisas, perdi outras…

Elas não me fazem falta, porque é exatamente como diz o ditado: “Deus nunca nos tira nada, apenas deixa nossas mãos livres para receber coisas novas”.

Jardim Botânico de Göteborg... no dia dos namorados (brasileiro).

Salada de frutas

Estou realmente viciada no meu e-mail. Dai que estava checando ele todo o dia várias vezes ao dia. E sabe o que? Fico imensamente aborrecida com a quantidade que recebo daquelas correntes chatas. Não porque elas lotam a caixa de entrada, não é isso, é que me chateia o tamanho da preguiça das pessoas que reencaminham este tipo de e-mail. Se você está lendo isso e é esse tipo de pessoa, antes de se irritar por favor pense: quantas vezes você recebeu um e-mail pedindo ajuda para Raquel/Laura/Sofia/qualquer-nome-de-menina e era a mesma foto? Você não viu que era a mesma foto? Por favor, antes de encher os olhos de lágrimas com o sofrimento de alguma criancinha que vai morrer, repare na foto!  E os pais do João/Pedro/Matheus/qualquer-nome-de-menino já recebem há mais cinco anos dinheiro da AOL e não sei quem mais, porque desde que eu tenho e-mail é o mesmo menino que está com algum tipo de problema para a qual a cirurgia é imensamente cara.

Essa semana eu recebi um daqueles sobre ser cristão. Normalmente eles vem com uma oração – tipo o Salmo 22/23 – com aquele final dramático: se você não reencaminhar essa mensagem está negando a Jesus, e todos aqueles que negarem a Jesus, Ele também os negará… e vão arder nas chamas do inferno (isso eu acrescentei para parecer mais apocalíptico). Mas era sobre o deputado Jean Wilis que está perseguindo os cristãos no Brasil porque os cristãos são (?) contra os homossexualismo. Todos os cristãos brasileiros devem se unir contra esse movimento e testemunhar Jesus senão… fogo do inferno!

Hummm duas coisas: se ser contra o homossexualismo significa não ficar de boa quando tem dois caras (ou duas gurias) se amassando loucamente na rua, eu também sou. Não porque são homossexuais, mas porque para isso existe quarto, casa, motel, hotel, banheiro, sei lá. Também não curto quando tem um casal heterossexual a meio caminho das vias de fato em público. Dois: se ser contra o homossexualismo significa não entender porque alguns homens tem que fazer papel de tolos… puxa, acho que lugar de palhaço é no circo e ser gay não precisa necessariamente ser igual a ser ridículo, tem um monte de gente que curte sua opção sexual de forma saudável, não precisa parecer uma gata no cio.

Enfim, eu não to a fim de discutir essa questão do homossexualismo, ou do que é ser cristão, eu só usei isso para poder perguntar: o que aconteceu com a liberdade? Ou o que aconteceu com o livre arbítrio? Você não pode expressar sua opinião – qualquer que seja, preconceituosa ou não – que já começa a rolar uma corrente (de novo elas!!) no twitter, facebook, por e-mail, na mídia e bla bla bla… de repúdio a declaração de fulano/ciclano/beltrano porque ele/ela não é a favor dos homossexuais, ou dos cristãos, ou da preservação da floresta Amazônica, ou da luta pelos direitos dos animais, ou em defesa das mulheres que quebraram o salto do sapato que mais gostavam justo no meio da festa – quando estava tão boa!

E no fim, balela. Um dia depois ninguém lembra que assinou eletronicamente em favor daquela causa ou outra. Sai na rua e começa a zoar com o colega de classe/trabalho ou qualquer coisa porque ele tem trejeito, parece bixinha. Vai no mercado e não compra nem um produto ecológico, nem um que seja para dizer que pensa um pouquinho no meio ambiente. Nunca lê a Bíblia ou reza uma ave-maria, mas enche a caixa de e-mail dos outros com um monte de orações – deve ser medo do fogo do inferno.

Eu fico puta da cara com hipocrisia. Puta da cara com discurso. E mais puta ainda da cara porque antes de ler qualquer coisa que preste eu tenho que deletar trocentas correntes do meu e-mail. Pra quê? Você já reparou que até no You Tube as pessoas ficam discutindo? Alguém vai lá e escreve adorei isso, o outro embaixo escreve isso é merda você tem que gostar disso… Porque de repente parece que todo mundo tem que ter a mesma opinião? Gostar das mesmas coisas?

Ninguém é igual a vida inteira. Tudo muda todo o tempo, a opinião das pessoas também. Porque crescemos, aprendemos, pensamos, sofremos, choramos, amamos, vivemos! E por causa disso, temos menos direito de expressar o que sentimos ou pensamos em relação ao mundo?

Eu por exemplo, hoje, odeio correntes.

Amigos e inimigos

Existem pessoas tão queridas na minha vida que eu desejei que elas tivessem nascido na minha família para ser uma irmã – ou um irmão. E também existem pessoas tão absurdamente irritantes que eu desejei (e às vezes ainda desejo) que eles houvessem nascido em uma família chinesa.

Infelizmente, assim como os amigos os inimigos tem um papel fundamental na nossa vida. Hummm e, bem… eu não to falando de inimigo no sentido literal da palavra apenas, e sim daquela pessoa que é filha da puta  difícil e muitas vezes parece ser sádico ou tem algum prazer mórbido em tornar o seu dia um pouco mais complicado – quando não muito, muito mais complicado.

Hummm... amigo ou inimigo?

Você já ouviu “quem não aprender pelo amor, aprende pela dor”? É a maior sacanagem, mas é a verdade. Atenção: isso não é uma regra, mas você já percebeu que muitas vezes é o dito cujo do cara filha da puta inimigo que te faz aprender coisas importantes?

Porque ele tá no seu pé o tempo inteiro. Fica te zuando, enchendo o saco e dizendo que você não é competente. Provoca, queima você quando tem oportunidade e sempre tenta colocar a culpa de qualquer coisa que der errado na sua conta. Eu não gosto disso, ninguém gosta – a  menos que seja masoquista, mas é esse infeliz que acaba te obrigando a ser mais atento, mais eficaz, mais estudioso, mais competente, mais cuidadoso com a aparência, mais organizado…

Seu pior professor, aquele colega de trabalho mala, aquele chefe tirano, aquela falsa amiga – todos eles contribuem ou contribuíram (aleluia!) para tornar você uma pessoa um pouco melhor.

Sem falar que fortalece a amizade – com seus amigos, claro. Afinal, quem nunca precisou de uma amigo porque tinha algum tirano no pé?