Proibida a entrada de crianças (mas na Suécia não)

Em meados de outubro uma guria de um programa de culinária no Brasil fez uma postagem no facebook elogiando a atitude de um restaurante brasileiro que proíbe a entrada de menores de 14 anos. Uma longa discussão se deu início, e um dos principais argumentos utilizados pela galera que acha essa proposta cabível é de que isso funciona na França, além de pontuar que as crianças francesas são infinitamente mais educadas do que as brasileiras e tem modos a mesa.
Eu nunca estive na França por mais de três dias e não tenho a mínima ideia de se essa história de que restaurantes fecham as portas para uma parcela da população seja realista – o que me parece bem burro, diga-se de passagem. Infelizmente já vi muitos textos de gente que acha aquele livro (crianças francesas não jogam comida no chão) sobre adestramento de crianças a última bolacha do pacote – normalmente gente que não tem crianças – e que acredita que na França tudo é como a autora do livro aponta: crianças francesas são extremamente educadas e não gritam a mesa.
Bom, tenho uma má notícia para quem é fã da Suécia e que adora o modelo francês: crianças suecas são u ó, como se diz lá de onde eu vim. Elas não vão apenas gritar a mesa e jogar comida ao chão, elas vão subir na mesa se quiserem e cagar na cabeça dos pais. Eu não sei se todo mundo compartilha da mesma perspectiva que eu, mas desde que mudei para cá tenho visto como essas criaturinhas são indomáveis nessas terras, e penso que talvez o último traço da barbárie viking se expresse justa na infância desse povo (que a partir da idade adulta não dá um pio, a exemplo das crianças francesas). Aliás, ao contrário do que se pensa a respeito da modo francês de educar os pequenos, a forma sueca de tratar a infância comunente é tratada como um experimento que deu errado porque veja bem, aqui as crianças tem direitos. Mas isso é um assunto para outro post.
Mas é importante salientar: a Suécia está infestada de pequenas pestinhas que tem poder, muito poder diga-se de passagem, sobre os pais. E o pior de tudo: aqui os restaurantes não proíbem a entrada de crianças. É claro que existem ambientes mais sofisticados aonde sutilmente se dá sugestão de que esse é um espaço reservado para adultos. Mas não há placas proibindo a entrada de crianças e adolescentes – não a menos que se trate de um pub ou uma espécie de taverna em que bebidas alcoolicas sejam servidas e aonde a questão comida fique em segundo plano. Aí sim há um aviso relacionado ao fato de que menores não são permitidos sem a presença dos pais.
De modo geral os estabelecimentos comerciais suecos querem ter o reconhecimento de serem espaços amigos da criança e contam com estrutura para receber desde bebês até… bom, principalmente bebês. Mas o cardápio, por exemplo, sempre traz uma sugestão para que a galerinha que ainda não aguenta um verdadeiro prato de comida e que normalmente não gosta dessas combinações que um adulto procura quando sai para jantar possa ser servido. O menu infantil pode nem ter nada a ver com a cara do restaurante – tipo um restaurante de peixes e frutos do mar que tem no menu infantil hamburguer – mas a ideia é que a crianca no caso possa ter uma opção para que os pais não deixem de frequentar aquele espaço justo porque a criança não vai ter o que comer.
Os cafés então são espaços maternos – e todo mundo sabe como essa história de “fikar” é importante na Suécia. Desde que me tornei mãe sempre que saio para a cidade encontrar uma amiga que também tenha filhos nós escolhemos cafés que tem a fama de serem “amigos da criança”. Isso porque sabemos que teremos espaço para o carrinho de bebê (ou um estacionamento seguro para deixar do lado de fora), cadeirões, um banheiro com trocador (essencial nos primeiros meses de vida) e todas essas coisas que crianças de colo precisam. Além disso sabemos que aquele ambiente vai ser mais acolhedor, que com certeza encontraremos outras mães naquele mesmo espaço com suas criaturinhas indomáveis aos berros e portanto, estaremos livres dessa gente chata que acha que criança tem que estar trancada em casa.
Porque é isso mesmo: sair com criança é uma loteria. Há dias em que eles estão tranquilos e felizes, vão sentar no cadeirão, deixar papai e mamãe conversar com os amigos enquanto comem o que estiver sendo servido ou simplesmente vão curtir a vista, olhando curiosos ao redor. Mas há dias… há dias em que um copo de água transforma sua criança em um verdadeiro gremlim, que vai gritar, jogar comida no chão, se contorcer no cadeirão, te bater se você segurar no colo e sair correndo a primeira oportunidade.
O que não é normal na Suécia é crianças serem bem vindas a casamentos, por exemplo, ou alguns tipos de festinhas mais íntimas. De todos os casamentos aos quais fui convidada acredito que apenas um deles não deixava claro no convite que apenas crianças de colo eram bem vindas. Eu reagi a isso de forma forte no começo, mas quando me casei fiz o mesmo. Um casamento a moda sueca tradicional é uma coisa um tanto chata e comprida até mesmo para adultos, um monte de gente fica fazendo discursos e homenagens aos noivos enquanto os demais convidados sentam e comem. Por horas. Tipo, meu próprio casamento teve um “jantar” de aproximadamente cinco horas. Nessas cinco horas foi servido o buffet, então nos prestaram homenagens, e mais homenagens, e mais homenagens, nesse ínterim os convidados poderiam repetir e beber; houveram mais homenagens, uma pequena pausa e então servimos o bolo, com café e mais bebida e mais homenagens e discursos. Todos esperam que enquanto os discursos e homenagens aos noivos acontecem os demais convidados estejam em silêncio. Aí se dão pequenos intervalos entre meio, quando você tem tempo de dar uma mijadinha ou dizer para a pessoa ao seu lado que a noiva está realmente bonita, para aí um novo discurso se iniciar e todo mundo fazer boca de siri. Chato. Bem chato. Extremamente chato quanto você não sabe a língua, se você não é íntimo dos noivos e não entende as piadinhas internas, ou se você tem menos de 20 anos. Dessa forma os noivos normalmente colocam no convite que crianças não são bem vindas porque as pessoas entendem que crianças precisam correr e brincar e que não vão ficar sentadas ouvindo o avô da noivo contar que ele gostava de pescar quando era pequeno. Sei lá se eu acho isso uma justificativa plausível, porque depois que virei mãe tive que escolher entre ir ou não a alguns casamentos. Escolhi ficar em casa quando senti que não queria arrumar alguém para ficar com o Benjamin para ficar sentada ouvindo homenagens para pessoas as quais eu não sou tão íntima, deixei Benjamin com alguém da família quando realmente quis participar de um momento especial na vida de amigos queridos.
Melhor seria ter deixado ele em casa sempre, e em qualquer circunstância?
Não, definitivamente. Acho que você não ensina nada a seu filho deixando ele à margem. Eu posso estar redondamente enganada, mas acredito que na Suécia a perspectiva de encontrar pequenos vikings demostrando toda a sua selvageria e barbarie em locais públicos seja encarada de forma natural porque as pessoas entendem que crianças são seres em desenvolvimento. Há espaços para crianças em restaurantes, em cafés, em museus, na biblioteca (a biblioteca da cidade de Gotemburgo tem uma área tão grande para crianças que é inacreditável) e assim as pessoas que não querem se “incomodar” com gritaria e birra de criança utilizam as outras áreas do mesmo serviço. Além disso eu tenho uma impressão que as pessoas são mais de boas com as escolhas alheias (dentro da perspectiva do lagom de ser) e que normalmente o pessoal anda em tribos. Tipo, a galera festeira vai se juntar para fazer festa até começarem a casar ou ajuntar, aí mais ou menos todo mundo casa, aí mais ou menos todo mundo tem filhos, e você vai seguindo a onda dominante dentro do seu próprio círculo de amizades. E isso é visto como natural, coisas da vida.
É claro que também existe a galera que quer uma placa em restaurantes proibindo a entrada de crianças – ou de forma mais radical ainda, dos pais que não são capazes de domar os filhos. Mas quem disse que a Suécia é um país perfeito?

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Benjamin, b-day, bebê a caminho, barriguda, bandida, burocracia e mais um monte de bês

Benjamin completou dois anos e eu também – de maternidade. Parece uma vida inteira desde que ele nasceu e muitas vezes a sensação de que não havia vida antes do filho é tão forte que me faz esquecer que eu já fui criança. Só não esqueço de todo porque a gente pensa muito na própria infância, o que foi bom e o que não foi, e usa como parâmetros para a própria maternidade. O foda é que eu penso tanto que muitas vezes fico na dúvida se estou realmente lembrando de fatos vividos ou são apenas experiências resignificadas depois de ouvir tanta gente repetindo o “lembra quando isso e aquilo? daí aconteceu pau e corda…”
E é isso mesmo, como o título sugere, estou de barriga e o bebê chega em novembro. Tenho várias conhecidas suecas parindo agora ou em um futuro próximo, o que deveria me garantir um pouco de companhia para “empurrar o carrinho por aí”; o que infelizmente não será verdade. Não é pra me fazer de coitada, é só que o meu jeito de encarar a maternidade não bate com o jeito da galera daqui. Um exemplo simples: Benjamin não desmamou. Porque não precisa – minha gravidez é tranquila, ele quer mamar e vai continuar mamando enquanto quiser. Já ouvi gente sugerir o desmame delicademente e também na cara dura – assim ó: você terá enormes problemas se não desmamar pra ontem – além das pessoas que, apesar de não dizerem nada, estão gritando corporalmente o quanto isso é esquisito. Das gurias com quem eu convivo que tiveram uma criança ao mesmo tempo que eu a maioria está na segunda rodada e falando do desmame do filho número dois.
Já fiz o ultrassom de rotina daqui – que acontece entre a semana 18 e 20 – já sei que o bebê está se desenvolvendo como deveria, que viu ter mais um piá (yes!), e que nos preciso de mais ultrassons. Durante a primeira gestação essa falta de ultrasonografias me deixava desconfortável, agora eu vejo isso com mais naturalidade. Acredito que o fato de morar na Suécia e ter contato com um sistema de acompanhamento a gestante mais simples – veja bem, é humanizado mas nem sempre – em que a gravidez não é tratada como doença me ajudou muito a crescer como mulher. Eu quero muito ajudar outras mulheres a se fortalecer nesse sentido e para isso me formei doula. Não sei se terei possibilidade de utilizar o que aprendi aqui, ser doula na Suécia ainda é um trabalho pouco conhecido e a maioria das mulheres escolhe ter apoio exclusivo do parceiro durante o parto mas, apesar de sentir que esse é um projeto que talvez precise de alguns anos antes que eu possa aplica-lo, espero começar aos poucos a deixar o mundo burocrático da assistência social de escritório em que entrei e ficar mais perto das pessoas.
Uma das coisas que preciso dar jeito é na carteira de motorista. Aham, continuo bandida, mas uma bandida de meia tigela que vai ao mercado próximo de auto quando está com a massa do bolo pronta e percebeu que esqueceu o fermento. Agora que já perdi a autorização para tirar a carteira tenho que pagar por uma nova autorização, um novo exame de vista e esperar ter mais sorte nas minhas provas.
Enquanto isso, vou de bike. Tenho uma vida um tanto quanto intensa em duas rodas, o que tem preservado minha sanidade física e mental: vou e volto do trabalho de bicicleta, aproximadamente 16km por dia que me custam meia hora pedalando (são cerca de 50 minutos de transporte público por causa das conexões escrotas que tenho que fazer para chegar ao bairro vizinho). É ótimo, mas não vai funcionar no inverno de -10°C com duas crianças, sendo uma delas um bebê de poucos meses. Então bora mexer a bunda da cadeira e tirar a carteira – rimou.
Falando em coisas a tirar, vou tirar a cidadania sueca e da próxima vez que ir ao Brasil registrar minha saída definitiva. Estou com uma lista grande de coisas a fazer no Brasil, muito do que tem a ver com essa coisa de registrar que mudei – na qual nunca pensei por acreditar que voltaria logo e por pura ignorância mesmo – mas que teria facilitado a minha vida e me preservado de algumas cobranças desnecessárias. Então fica a dica para quem estiver saindo: conte para  receita federal que você está mudando, mesmo que não seja para sempre.
Eu ando com muita saudade de blogar. Mas tenho dormido em pé. E sinceramente… sinto que há muitas coisas das quais eu gostaria de falar que não cabem aqui. Então por enquanto fica como está.
Beijos pra quem fica!

Ciclos

Eu vivo escrevendo posts pela metade que nunca são publicados. Esse vai ficar meio pela metade, mas vai ser publicado.

Faz algum tempo que eu percebi que sou adulta. Entrei no mundo cinza e chato das responsabilidades e deveres. É um mundo de possibilidades também, mas essa segunda parte é mais complicada. Primeiro o dever, depois o prazer. E dentro da criação católica que recebi quanto menor a dose de prazer melhor, afinal, se você não sofrer o pão que o diabo amassou não vai ser digna do céu.

Hoje foi meu último dia de trabalho no abrigo. Em fevereiro vou virar assistente social de escritório e trabalhar com bolsa família sueco.

Sei lá, a empolgação não está fazendo parte dessa mudança. Não sei se é porque a gente fica mais sério mesmo quando amadurece e se vê adulto, ou se é por causa daquele lance católico (ultimamente eu tenho lido bastante sobre as misérias desse mundo e se existe um inferno que é pior do que a maioria da população mundial passa diariamente cara… eu definitivamente não quero ir parar lá) ou se é porque a minha vida tem mudado tanto ultimamente que nem sinto as mudanças… o negócio está sendo meio… ok. Vou ser assistente social. Vou trabalhar em Gotemburgo. Não vou mais passar três horas indo e voltando do trampo. Vou ter todos os finais de semana livres.

Eu poderia deixar uma frase bem bonitinha tipo “um ciclo se fechou e estou muito satisfeita com a experiência adquirida”… mas pra ser sincera meus ciclos ultimamente estão mais para ciclones, e ao que me parece estou muito ocupada com a bruxa do norte.

Será que existe uma estrada de tijolos dourados?

Retrospectiva 2015

Carteira de habilitação

Comecei e terminei o ano enrolada na carteita de habilitação sueca. Primeiro foram as provas, teórica e prática, as quais não passei. Eu nem lembro se foram 4 provas teóricas e 3 práticas ou apenas três e duas respectivamente… mas janeiro e fevereiro fiquei estudando e estudando o livro sobre as leis de trânsito suecas e fazendo provinhas na Internet. Tentei duas vezes em fevereiro e março e reprovei.

Perdi a fé, o tesão e voltei a trabalhar. Menos tempo, mais gente me cobrando que eu tirasse a carteira… me matriculei numa auto escola e fiz duas aulas em abril. Tinha prova marcada e fui parar no hospital… desmarquei as provas, viajamos para os EUA, voltamos, a polícia me pegou dirigindo sem carteira…

Aí começou a fase B: trabalhei extra no verão, não tive tempo de estudar, paguei a multa que recebi em julho, marquei novas provas que perdi por causa de um atraso nos trens, remarquei as provas; tirei mais aulas práticas e refiz as provas, reprovei, meus colegas de trabalho começaram a perder a paciência e eu perdi meu direito de tirar a carteira (na Suécia você precisa tirar uma licença para tirar a habilitação).

Recorri da decisão, perdi, cansei, pedi as contas.

Ou seja: comecei e terminei o ano sem carteira de habilitação, mas com alguma experiência.

Ou seja dois: aprendi que ser pega pela polícia dirigindo sem habilitação é muito mais sério do que eu pensava. Além de pagar multa, você fica fichada na polícia por um ano e não tem direito de pedir cidadania sueca. Se eu tivesse só o visto temporário teria o visto permanente negado.

Ou seja três: a Suécia também tem uns furos nas suas leis bem esquisitos. Com relação à carteira: como imigrante (de outro país que não pertença a União Européia) você tem direito de usar sua habilitação por um ano na Suécia. Não importa de que modo você dirige durante esse um ano, está ok não ter habilitação sueca. Dizem os bons que há um jeitinho  (sueco claro) para prolongar esse período. Mas depois disso repentinamente dirigir sem habilitação sueca significa algo gravíssimo.

Ou seja (o último): quanto mais tempo você passa na Suécia pior vai ser a forma como você dirige.

Feliz Ano Novo!

Um dia na Suécia

Eu recebo comentários em ondas, provavelmente devido ao fato de escrever bem menos. Mas volta e meia aparece gente que manda comentários em posts antigos do blog com perguntas que não tem nada a ver com o conteúdo do referido post (deixando bem na cara que não leu nada do que estava aí) e a maioria dessas pessoas repete a mesma pergunta (seria um eco?): como é a vida na Suécia?

Recebi o mesmo questionamento esses dias na página do face. Eu ia responder o de sempre: pessoa, esse é o link do meu blog, essas abobrinhas aqui descrevem mais ou menos a vida na Suécia. Mas aí tive a ideia genial de desvendar os segredos da vida na Suécia contando como é um dia comum da minha vida – já que eu não ando com tempo de fazer algo mais informativo e concreto.

Algumas singularidades para situar os desavisados e os futuros leitores desse post: estou trabalhando “meio período”; o que significa que passo bastante tempo em casa. Mas vamos lá!

Um dia de trabalho na Suécia…

Acordo as 5h. Tomo um café, normalmente com pausa para amamentar a cria. Pego as minhas bolsas (passo 24h no trampo) e saio para o ponto às 5h55. Pego um bonde para a estação central. Se o café foi para o saco porque eu amamentei a cria compro um café. Pego um trem para Falköping. Caminho para o trabalho cerca de 20 minutos (não é longe, é só a preguiça mesmo). Começo a trabalhar às 9h. Saio as 9h30 do dia seguinte, normalmente ganho uma carona até a estação porque a galera tem dó de me deixar caminhar com as minhas bolsas  (uma delas cheia de leite). Pego o trem para Göteborg. Chego na estação e tomo o primeiro bonde que passar para casa. Chego a tempo do almoço.
Eventualmente passo pegar o Ben na casa dos padrinhos ou de algum amigo – caso o Joel tenha uma reunião de trabalho importante. Depois do almoço a rotina segue como num dia em que eu não fui trabalhar.

Um dia em casa na Suécia

Acordo assim que o Benjamin acordar (entre 6h e 7h30, depende da “sorte”). Tomamos café e aí vamos fazer as tarefas de casa ou um passeio. Pode ser uma caminhada, gosto muito de sair caminhar com o Ben… deixo ele escolher o caminho e parar o quanto quiser para juntar todo tipo se coisa e tentar por na boca, ou ir para um balanço, essas coisas. Nesse caso voltamos e comemos uma fruta. Depois brincamos ou fazemos limpeza e aí almoço. Almoço pede uma siesta e com sorte depois da comida tem a soneca do Benjamin, quando ele acordar o Joel vai estar chegando. A gente empacota um lanche e sai para trabalhar com a reforma da casa. Volta quando anoitece, faz uma janta, bota a cria para dormir e assiste as notícias/uma série/ou um filme dependendo da hora, do cansaço ou do tesão. Normalmente vou dormir às 22h30.

A rotina em um final de semana ou dia de semana para mim não varia muito. Como eu trabalho em forma de plantão então procuro aproveitar “as folgas” já que trabalho finais de semana também. A principal diferença é que se estou em casa em um sábado normalmente passamos o dia na reforma da casa. Domingos é dia de ver a família então normalmente rola um passeio para os sogros, ou alguma das cunhadas.

Como estamos vivendo um tempo especial com a reforma da casa temos encontrado os amigos apenas de vez em quando, numa rapidinha no anoitecer ou quando eu saio sozinha com o Ben e passo o dia fora. Normalmente fazemos isso quando o Joel tem reuniões depois do trabalho. Eventuais escapadinhas para um jantar ou cinema estão descartadas no momento por conta do cansaço mesmo.

Eu não sei como funciona no Brasil depois que você tem filhos, mas aqui ter uma criança te dá automaticamente um upgrade para o time dos pais. Dificilmente você vai se encontrar com os amigos que não tem crianças. Primeiro porque essa galera ainda sai para beber e fazer festa em uma sexta feira – o que sinceramente não está na minha lista de prioridades – ou se promove um jantar deixa claro que o evento é para adultos. Isso me dá muita preguiça. Fiquei antisocial com a maternidade e o Joel, se deixasse, passaria o dia e a noite na reforma.

É isso aí. Essa é a minha vida na Suécia.

Tá sentindo falta do glamour? Pois eu não.

Uma coisa nova, uma coisa velha…

Uma coisa que ganhei, algo que emprestei… algo roubado e algo azul!

Eu podia contar tim tim por tim tim como foi o dia do meu casamento mas acho que o vídeo por si mostra bastante. Além do mais, seria difícil encontrar as palavras certas… e se eu dissesse que foi tudo o que sonhei, estaria mentindo. Descaradamente.

As duas últimas semanas antes do casamento eu fui dominada por um sentimento de “oh my gosh, tomara que esse dia chegue logo e acabe!”. Não era pânico por conta de coisas a fazer para o casório – essa parte foi bem divertida – ou a preocupação em me apresentar assim ou assado; foi só o sentimento puro e genuíno do “eu não aguento mais esperar” somado a  uma pontinha de pessimismo (sim, eu já contei que sou pessimista) e saco cheio. Tem muita gente chegando para você às vésperas do casamento para dizer como é que tudo tem que acontecer. E tem aqueles que querem gentilmente te lembrar das coisas que você esqueceu. E do que é importante – normalmente aquelas coisas esquisitas que aparecem em revistas e nem de longe são importantes…

Apesar de todo o sentimento negativo das semanas anteriores, todo o stress (sim, apesar de ser um dia lindo é também uma data estressante), eu liguei o foda-se na manhã do casório e decidi que esse era o dia de viver meu casamento do jeito que ele fosse. A chuva torrencial que despencou em Göteborg logo cedo quase me desanimou mas, não é a toa que eu sou apaixonada pelo meu marido… ele soube levantar meu astral e a partir daí… foi só festa até a madrugada do domingo. Chorei a cerimônia toda (de felicidade, obviamente) e ri até ter dor nas bochechas durante a festa. Até rolou uma festa de verdade no final de tudo – coisa extremamente escassa na Suécia. Na verdade, o povo só foi embora mesmo e parou de chacoalhar o esqueleto porque fomos obrigados a mandá-los embora – literalmente. Triste, mas a locação do espaço tinha hora específica para acabar – e a pontualidade sueca não perdoa nem casamento.

Foi um dos dias mais maravilhosos da minha vida. Sempre vou lembrar com carinho de cada pessoa que me prestou homenagens, e acima de tudo, daqueles que ajudaram a fazer a festa possível… eu tive muita ajuda de pessoas maravilhosas que cuidaram de mim e me ajudaram com grandes e pequenas coisas.

O vestido, os brincos, os arranjos de cabelo eram novos.

Meu anel de noivado foi da avó do Joel, tem quase 60 anos.

Usei um sapato que ganhei das minhas amigas queridas, no Brasil, no ano em que visitei a Suécia pela primeira vez.

O véu foi emprestado por uma pessoa querida que conheci durante o primeiro verão que passei aqui.

Roubei as atenções no dia da festa. Sem falsa modéstia, eu já sou linda, mas no dia do casório estive deslumbrante. Meu marido também estava lindo, mas teve gente que duvidou que eu fosse aquela noiva. Haha! Também aproveitei para “roubar” todos os abraços que normalmente o povo acha estranho te dar – sueco fica muito satisfeito com um aperto de mão, mas eu não. Abracei com fé e vontade!

Por fim, ganhei o buquê da minha melhor amiga. E ele era feito de hortênsias azuis!

Desde 27 de julho sou oficialmente Fru Maria Helena Abrahamsson (fru=esposa. Nesse caso eu também traduzo literalmente como dona).

Chique né?

igreja

Ps.: Se você está pensando que será que fez essas fotos maravilhosas e esse vídeo lindo, preciso contar – para felicidade dos suecos e tristeza dos brasileiros – que ela mora em Stockholm. A Maíra não é danada de tão talentosa que é? Você encontra ela aqui.

Leia antes de perguntar!

downloadCriei uma página nova para o blog por causa dos e-mails que tenho recebido com pedidos de informação. Essa seção tem uma chamada meio mal educada, mas eu queria prender a atenção. Meu objetivo ao criar o blog foi de auxiliar pessoas que como eu estivessem passando pela experiência de mudar de país e por conta própria eu sei que, quando estamos mergulhados nessa hora H da vida queremos informação para ontem – ao menos eu era assim.

Naquela época escrevi para muitas pessoas e fiquei no vácuo, no super vácuo, daqueles de nunca obter resposta ou um “não sei”, “não tenho tempo”, “não posso ajudar”; mesmo quando me reportei a blogs nos quais o autor deixava o e-mail para contato. Isso é chato, porque eu tinha pressa.

Na seção eu explico que quando criei o blog decidi por deixar o meu e-mail para contato e tem muita gente que escreve, que eu gosto realmente disso mas apenas aviso: podem me escrever se tiverem paciência para esperar e persistência para enviar um segundo e-mail – caso eu não tenha dado nenhum feedback. Também é bom deixar um coments no últimos post (do tipo: Oi Maria Helena, queria conversar, mandei um e-mail) porque meu spam joga gente nova no lixo – e eu nem sempre lembro de olhar a seção do spam antes de deletar todas aquelas maravilhosas propagandas de cartão de crédito, alongador de pinto e cartas de princesas africanas precisando de ajuda que recebo diariamente. Não fico procurando por gente que tenha me mandado e-mail. Assim, provavelmente algumas pessoas que me escreveram também ficarão no vácuo eterno.

Juntei algumas das perguntas mais frequentes que os sortudos que alcançam minha caixa de entrada de e-mails me dirigem e com elas montei um guia de orientações gerais. Dê uma passadinha por lá antes de me enviar um e-mail, não porque eu não queria ajudar, mas porque suas ansiedade pode ser aliviada muito mais rapidamente por lá.

Se esse não for o caso, deixe um coments!

Ps.: Só depois de publicar é que lembrei de explicar que a página fica logo acima do logo/nome do blog, ao lado de Eu, eu mesma e Maria. É um pouquinho clara a letra do enunciado mas não é muito difícil de achar. Até!